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O poético no poema Estação Sentimento, de Eduardo Proffa

sábado, dezembro 12th, 2009

06 - Mania de escrever

O poético no poema Estação Sentimento, de Eduardo Proffa

 

Marlon Pereira da Silva

Zilma Gonçalves Timóteo

 

 

A poesia

Tem tudo a ver

Com tua dor e alegrias,

Com as cores, as formas, os cheiros,

Os sabores e a música

Do mundo.

 

(…)

Com o sorriso da criança,

O diálogo dos namorados,

As lágrimas diante da morte,

Os olhos pedindo pão.

 

(…)

 

A poesia

- é só abrir os olhos e ver –

Tem tudo a ver

Com tudo.

 

José Paulo Paes, Tem tudo a ver

 

 

O presente trabalho analisa no poema Estação sentimento, de Eduardo Proffa, poeta radicado em Alagoas, se ele é poético, condição que o faz ser arte. Para tanto busca fundamentação em algumas teorias literárias. Primeiramente discorre-se sobre o que difere os termos poema e poesia, pois não se equivalem, uma vez que o primeiro é forma, concretude e o segundo é matéria para o poético, o artístico. Segue-se um breve perfil do autor, sua obra e seu tempo, logo após analisa-se sobre os fatores indispensáveis que garantem ao texto a poeticidade: lirismo, literariedade, ritmo e metáfora, e como que eles se efetivam no poema em questão.

                                                                                                

Palavras-chave: poema – poesia – poético – lirismo – literariedade – ritmo – metáfora

  

            O poema está em corpo, todo impresso em letras pretas sobre a superfície alcalina do papel – é matéria. Palpável, agora o poema é forma. É “o que se faz”, segundo Massaud Moisés. Sua disposição gráfica na página tende à verticalidade, mas não se exclui a horizontalidade, haja vista o conceito de modernidade na arte, com versos rimados e metrificados ou brancos e livres, divididos em estrofes ou não. A questão é, saber lidar com esses recursos formais da técnica é o relevante para imprimir ao poema o status de arte? Não. Para os teóricos o elemento preponderante que confere ao poema o status de arte é a poesia. De acordo com Octávio Paz, citado por Moraes (2001, p.72), reportando-se a Aristóteles, diz que “nem toda obra construída sob as leis da métrica [...] contem poesia”. Este teórico torna o seu ponto de vista mais enfático com a afirmação: “Um soneto não é um poema, mas uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico – estrofes, metros e rimas – foi tocado pela poesia. Há maquinas de rimar, mas não de poetizar”. Moraes, baseada nesse teórico, menciona que “o poema, para ser arte literária, precisa ultrapassar a objetividade da forma, isto é, a disposição espacial em versos, estrofes, e unir a essa concretude – o seu lado visível e facilmente identificável – a subjetividade da poesia” (2001, p. 72).  

É importante ressaltar que a poesia não é suscetível apenas ao literário, mas a toda a forma de representação artística, imprimindo a estas, igualmente, o caráter de arte.

Sendo a poesia (não confundir com o gênero literário) o elemento de valor no fazer arte literária em versos, como ela se traduz? E como se efetiva? Para Hegel, é um conceito abstrato. Visto dessa forma, a poesia existiria como um estado de coisa latente, que se poderia apreender a qualquer instante, que se traduz, conforme  Moraes, (2001, P. 70) em emotividade, percepção sensorial, prazer estético; o que mostra a última estrofe do poema de José Paulo Paes na epígrafe desse texto. Para Massaud Moisés, a poesia é “essência artística”. Seria o que existe em estado primário e indispensável à obra e que faz com que esta atinja a configuração de arte. Esse teórico ainda a qualifica como “ação de fazer, criar alguma coisa”. Para fazer e criar alguma coisa exige o ser fazedor, construtor – o poeta. Este, para dar cabo da poesia, precisa ser criativo, respaldar-se na linguagem, apropriando-se de todas as possibilidades possíveis de construção de sentido: fonológico, morfológico, sintático, semântico, rítmico, pragmático, fugindo do meramente denotativo, extrapolando para o especial, o novo, conferindo dessa forma o estranhamento, o desvio, condição para a efetivação da poesia – o poético.

O poema passa a ser um texto poético, ultrapassando a simples questão da forma, quando a poesia se consubstancia nele através dos desvios da linguagem, do estranhamento que emerge do jogo com os sons, os sentidos, o ritmo das palavras, que caracterizam a poeticidade ou literariedade (MORAES, P. 79).   

 

 

            Em matéria da revista Língua Portuguesa, Bráulio Tavares discorre sobre o fazer literário em verso, ele salienta: “Antigamente, bastava um texto ser rimado e metrificado para ser chamado de poesia. Agora, não. O texto tem que ser poético” (2009, p. 54).

 

            Com base na proposição de poético, explicado acima é que analisaremos o poema Estação Sentimento, do poeta Eduardo Proffa, no que concerne a lírico, literariedade, ritmo e metáfora

 

Tão triste.

Tão triste.

Tão triste.

Tão triste.

 

Foi alegre…

Foi triste…

Foi alegre…

Foi triste…

Foi alegre…

Foi triste…

 

Úuuuuu!

Chora o trem

Na infinita partida

 

Dor

Como

Dói

 

Chora não

Vai não

Vem

Foi embora o trem

 

O trem já foi

Adeus amor

Adeus…

 

            Por ser um poeta buscando projeção, nada mais natural para um artista, “o artista tem de ir aonde o povo estar”,pois não há autor sem leitor, Eduardo Proffa ainda não é referencial, por esse motivo faz-se necessário traçarmos aqui um breve perfil seu.

            Paulistano de origem, vem para Maceió em 1970, então com cinco anos. Cursou Educação Física na UFAL. Hoje, é professor da rede estadual de ensino. Inquieto, de veia notadamente artística, derivando da música para a poesia. No espaço da música é compositor e cantor. Participou do Grupo de MPB Novo Tempo, foi tenor do coral da então Escola Técnica Federal de Alagoas, e com a banda Diário de Bordo – 1994-1998, recebeu o Prêmio Terra, de 1997 (Melhor banda de rock do estado de Alagoas). Desde 2003 participa do grupo vocal Nó na garganta, com o qual tem quatro músicas gravadas nos CDs do Festival de Música do SESC – FEMUSESC: Cantiga Miúda – 2003, Mariah – 2004, Mininum Unzurentu – 2005, Linda Sereia – 2006; FEMUSIC de 2005. Na literatura publicou seu único livro autoral de poemas em 2007 – Ecos da Cidade –, do qual faz parte o poema que é objeto de análise nesse artigo, participa da coletânea A poesia das Alagoas, organizada por Carlito Lima e Edilma Bonfim, 2007. Agita a cultura alagoana com projetos como De cara com a cultura, 1995; Para todos os cantos, 1996; Livro errante, 2008, com o qual recebeu o Prêmio Espia, de Alagoanos Notáveis na Cultura & Artes de Programa para Comunidade; lançou o Manifesto antropofágico alagoano (A construção da Villa Caeté), 2008; criou e edita a revista eletrônica semanal: A Villa Caeté em Revista; participou da III bienal Nacional do Livro de Alagoas, 2007. Em 2008 tornou-se membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste – ALANE/AL, em 2009 entrou para a Academia Maceioense de Letras. Tem os livros: Pois é, poesia, Estalagem do corpo, Bela nave, O olho do menino e Antes da melodia, veio a poesia, todos engavetados.

  

Lirismo em Estação sentimento

              Não há um conteúdo específico, estanque, a que somente se pode poetizar, conforme salienta Hegel “o conteúdo (lírico) pode oferecer uma grande variedade e ligar-se a todos os assuntos da vida” (1980, p. 221), portanto, toda e qualquer matéria: as coisas, os instantes, os comportamentos, as pessoas, o mundo estão repletos de lirismo. A expressão desse lirismo se dá de forma particular, restrita. Cada ser é um indivíduo único cujas sensações, impressões, reflexos dos elementos externos são captados conforme o seu modo subjetivo de senti-los: “A lírica deve mostrar o reflexo das coisas e dos acontecimentos na consciência individual” (STAIGER, 1997, p. 57).

            Partindo desses pressupostos, analisemos de que maneira o poema em questão é lírico. Para isso é interessante observar uma fala do poeta sobre o seu texto: “Está guardada em meu subconsciente a imagem do menino dando adeus na estação do trem”. A partir da observação desse instante, de um momento fortuito, prosaico, surgiu o elemento motivador, íntimo, que desencadeou no poeta a expressão da sua subjetividade, criando uma poesia a maneira do que Hegel chamou de poesias de circunstâncias:

 

“O elemento subjetivo da poesia lírica revela-se mais explicitamente, quando um acontecimento ou uma situação real se oferecem ao poeta de mero pretexto para exprimir o íntimo pensamento; mera ficção, como se esta ou aquela circunstância, este ou aquele acontecimento desencadeasse no poeta certos sentimentos até então latentes!” (1980, p. 227)  

 

 

            Como um flash o flagrante da imagem do menino e do seu gesto em direção ao trem que partia projeta no poeta um dizer, que extrapola a objetividade desse breve instante, provocando no ser lírico a associação e a produção com e de outras imagens cuja representação é a da vida. Estação sentimento é o lugar da vida com todo o seu ritmo, seu dinamismo, suas fases, cujo trem, que parte, leva consigo um pedaço marcante – alegre ou triste – dela, deixando impresso na memória as recordações de um tempo reverberando como um eco.

 

Literariedade

             Desde Aristóteles, chegando aos formalistas russos o discurso poético é visto como um discurso que prima pelo estranhamento, pela capacidade de dessignificar para ressignificar – desfamiliarização – mediante o uso especial, diferente, inovador, criativo da linguagem. A literatura é um espaço de transgressão, onde a linguagem paira totalmente livre para ser manipulada e explorada de modo a se fazer outra coisa, que fuja daquilo que é para todos, desconstruindo-se para se construir     diferente e estranha, mas chamativa porque capaz de surpreender.

            Segundo os formalistas russos, citado por Terry Eagleton, a linguagem literária se apropria do que eles chamam de “artifícios”: fonéticos, morfossintáticos, semânticos, rítmicos, métricos e imagéticos (EAGLETON, 1983, p. 04). Estes artifícios são responsáveis pela construção da literariedade.

            Reportando-se ao poema em estudo e fundamentando-se em CHKLOVSKI, percebe-se que há uma intenção de estranhamento no mesmo. De início, já no título nota-se um desvio ao ser associado os léxicos estação e sentimento. No contexto o primeiro é um substantivo que expressa um lugar, um ponto onde as pessoas esperam o trem para embarcar ou pode denotar períodos, quatro coisas diferentes – as estações do ano – ou as fases da vida humana, abrindo um leque de significações que vão desde algo concreto e percebido pela visão e o tato, a algo concreto, mas apenas conceitual, temporal e a algo múltiplo, vivido, mas não localizado, pois fugidio, fluído. O segundo funciona como um adjetivo que não descreve, podendo ser entendido apenas pelo viés da memória, das recordações das sensações e emoções que a estação – a vida – imprimiu ao longo dos seus ciclos. Também é marcante a disposição das estrofes em versos curtos, métrica essa que expressa sentido de velocidade, de repetição, do barulho do trem, daí o uso do artifício da aliteração que produz a sinestesia, fazendo criar a imagem do trem movimentando-se, ganhando velocidade, gritando. Outra transgressão é a personificação da máquina, essa grita e chora como se fosse um lamento, um sentimento humano, e ainda o uso de fonemas que expressam tristeza: n e m.

           

O ritmo do trem: vida

         A vestimenta do poema não estaria completa, de bom gosto e atraente se faltasse uma peça essencial: o ritmo. “Sem ritmo, mesmo o verso mais rimado é tão prosaico quanto um prospecto amorfo” (SPIRE, 2002 p. 135). O ritmo é exclusivamente poético. Sua feitura exige o inventivo, o lúdico, pois joga com possibilidades de significações que traduzem imagens: “O ritmo é sentido e diz algo” (PAZ, 1982. P. 70) A sua realização e efetivação se dá por meio de recursos os mais diversos: sonoros, fonológicos, paralelismo, pontuação, acentuação das sílabas poéticas, rima, metrificação.

            O ritmo é a estrela no poema Estação sentimento. A sua presença é a maior responsável por vestir esse poema com o tecido da arte.

            Nas duas primeiras estrofes a aliteração reproduz o barulho produzido pelo trem, que se intensifica à medida que a máquina ganha velocidade; é o ritmo da vida, cíclico, rotineiro. Na primeira estrofe o uso do paralelismo e do ponto final em cada verso denotam etapas encerradas, passadas, que podem ter sido curtas, daí a brevidade dos dísticos, mas vividas de forma intensa, o que está configurada na disposição das sílabas poéticas: duas fortes e uma fraca. A segunda estrofe reitera a primeira no que diz respeito aos eventos da vida, que se caracterizam pela alternância cíclica. As reticências instauram a fluidez do tempo. Tempo este que evoca a lembrança desses eventos que se sucedem de forma antagônica. O passado é memória onde estão guardados os eventos alegres e tristes. Afinal, o que foi mais experimentado? Penso que a resposta esteja no tamanho e na métrica dos versos: os da passagem da alegria são trissílabos, os da tristeza são dissílabos.

            A primeira e a segunda estrofes são a representação do genérico, do totalizante da vida. As demais estrofes são a imagem de um momento de passagem, um flash, que pode ter sido captado pela visão ou uma circunstância de um ciclo vital que ficou na memória: o trem partindo, indicando a despedida, a certeza do distanciamento, do acabar, o seu grito confundindo-se com o estado emocional de quem sente a faca cortante da perda, expressa na quarta estrofe. Na quinta estrofe vê-se alternância na medida dos versos bem como a presença dos fonemas nasais n e m demonstrado uma desaceleração do ritmo, significando um estado de melancolia, provocado pela certeza cabal da perda, como se fôssemos impotentes diante dos ditames da vida e do tempo, que fluem de modo irrefreável e que passam por cima da gente como um trem.

 

Metáforas

 

O poema Estação Sentimento expressa a metáfora da vida. A vida como um lugar próprio, ponto de partida e a vida com o que tem de mais característico nela, seus ciclos.  

A palavra trem simboliza jornada, destino. A coisa, o trem é um lugar que se quer em marcha, pra frente, passante, indo de um destino a outro: nascimento – infância – juventude – maioridade – velhice – morte; ou um momento marcante em qualquer um dos períodos que antecedem ao período final – morte: escola, o time de futebol da rua, mudança de um amigo, perda de um ente querido, de um amor…

O trem é dividido em vagões, cada um representa os dilemas diários, as idas e vindas, os ciclos da vida, que são caracterizados pelo jogo dicotômico ganhar x perder, construir x destruir, lembrar x esquecer, alegrar-se x entristecer-se. Dessa forma, encontra-se configurado o processo pelo qual se estabelece a metáfora, a relação de similaridade: “Essa abstração em busca da similaridade configura o processo metafórico, no qual as palavras perdem o seu sentido próprio para adquirirem outro, compatível com o contexto onde estão inseridas” (MORAES, 2001, p. 115)

A mesma metáfora encontra-se também presente no léxico estação: Lugar, ponto de partida e de chegada. A vida nada mais é do que essa estação, um lugar que é, mas que precisa está sendo, (des)sendo, um lugar de encontro, mas também de desencontro, de despedida, a vida como possibilidade de reinvenção dela mesma, em que cada estágio, cada período – a mudança que lhe é inerente – faz somar, diminuir, somar e diminuir, diminuir e somar, como as estações do ano, que trazem consigo mudanças substanciais, acarretando em perdas para uns e ganhos para outros.      

 

Considerações finais

 

 

Analisar criticamente uma obra literária não é coisa das mais simples, no entanto é perfeitamente possível quando se tem em mãos os referenciais teóricos. O poema “Estação sentimento”, de Eduardo Proffa, submetido a esse rigor metodológico convence, pois passou no crivo da ciência, no que diz respeito ao tratamento poético dado a obra, que concerne ao lirismo, à literariedade, ao ritmo e à metáfora. Ao fim da análise pode-se dizer que o poeta criou algo artístico, que surpreende pelo modo como a linguagem foi usada para se atingir tal fim. É notável também a capacidade do poeta de extrair de um evento fortuito, circunstancial, a poesia, que latejante, fere o seu dizer, que se espraia sensível, perpassando o particular – individual – para o universal – social.

O tratamento dado ao tema é original, mas o tema não. O poeta sabendo ou não criou um intertexto, que dialoga com Trem de ferro, de Manuel Bandeira, O trem de Alagoas, de Ascenso Ferreira e O trem das sete, de Raul Seixas.

Referências

 

EAGLETON, Terry. O que é literatura. In: _____. Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1983, p. 4.

 

HEGEL. Caráter geral da poesia lírica. In: _____.Estética: poesia. Vol. VII. Trad. Álvaro Ribeiro. Lisboa: Guimarães editores, 1980, p. 221 e 227.

 

MELLO, Ana Maria Lisboa de. O ritmo no discurso poético. In: _____. Poesia e imaginário. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002. Col. Memória das Letras, v. 11, p. 135.

 

MORAES, Maria Heloisa M. de. O conceito de poesia. _____. Cor, som e sentido: a metáfora na poesia de Djavan. Curitiba: HD Livros/ Maceió: FAL, 2001, p. 70, 72 e 79.

 

_____. A metáfora na poesia de Djavan. In: _____. Cor, som e sentido: a metáfora na poesia de Djavan. Curitiba: HD Livros/ Maceió: FAL, 2001, p. 115.

 

PAZ, Octavio. O ritmo. In: _____. O arco e a lira. Trad. Olga Savary. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 70.

 

PROFFA, Eduardo. Ecos da cidade. Maceió: E.S.O., 2007. p. 23.

 

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais de poética. Trad. Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro: tempo brasileiro, 1997, p. 57.

 

TAVARES, Bráulio. A arte de andar na linha. Língua portuguesa, Vícios de linguagem, São Paulo, n. 43, p. 54-55, maio 2009.

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