A VIOLÊNCIA
“(…) Pela primeira vez na história do homem, graças à ciência e à técnica, pode-se aniquilar irremediavelmente toda humanidade, a biosfera também está ameaçada de degradação: os perigos são o fruto do nosso progressoâ€. (Edgar Morin).
Já tratei por diversas vezes sobre a temática da violência. Isso no “O lamentável expediente da guerraâ€, no também “A hediondez banal nossa de cada diaâ€, na minha música “Sanhaâ€, no texto das duas violências do Padre Bidião e, sempre que pude, protestei veementemente contra esta barbárie da raça humana.
A minha postura sempre foi contra a injustiça. E em nome dessa causa estudei de forma aprofundada por meio de muitas pesquisas que a violência está no cotidiano do ser humano desde as eras mais remotas e invadindo a vida de todo mundo a todo instante. No entanto, eu queria saber a razão disso.
Buscando a causa tive a certidão de que a violência é recorrente e sistemática. E isso fica evidenciado e constatável na história da civilização, quando se visualiza todo sacrifÃcio humano num sisifismo perene, provando, inclusive, a completa falta de compreensão, tolerância e solidariedade do próprio homem que se posiciona pela dominação e pela acumulação.
Há que se considerar, então, que as bases da violência estão mesmo na insatisfação, na incompreensão e na falta de solidariedade. Inclusive, a incompreensão, segundo Edgar Morin, é um fenômeno terrÃvel entre os povos e eles se exasperam logo assim que surge um conflito: “(…) os indivÃduos adquiriram esse mÃnimo de aptidão para compreender o outro (…) a incompreensão reina primeiramente em nossa casaâ€.
Nessa linha de pensamento, encontramos que Freud caracteriza a cultura e a civilização como todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu controlando as forças da natureza, extraindo riqueza, explorando a vida e incluindo todos os regulamentos necessários para ajustamento das relações dos homens entre si.
Tal condução traz por resultado, então, a promoção da acumulação que vem da propriedade de ordem material ou psicológica e que leva ao domÃnio como satisfação das necessidades pela obtenção de poder e bens.
Traduz isso que no desenvolvimento da humanidade a insatisfação e a ganância, a incompreensão e a intolerância, o sectarismo e a imposição, a dominação e a servidão, e toda essa cultura fez eclodir a violência, a partir da demonstração da necessidade de dominação do homem. E é ele quem manifesta a violência na cultura. E se a cultura está assentada na ordem e na dominação, segundo Theodor Adorno, a sociedade enfrentará dificuldades pela deformação de negar a diferenciação.
A partir disso observa-se que a violência não é um fenômeno recente nem isolado, na verdade como visto, vem desde a mais antiga data. E, no Brasil, vem desde o primitivo enfrentamento tribal indÃgena e, principalmente em maiores proporções, desde o primeiro dia da invasão portuguesa para o processo de colonização em 1500, quando se deu o genocÃdio indÃgena e a escravidão que se prolongam disfarçados até o momento presente.
Não raro é encontrar na trajetória do inventário humano os gritos opostos a essa violência, proferidos por poetas, artistas, cientistas e filósofos. Muitos se manifestaram contra toda a gama de arbitrariedades, propondo mudanças que ocorreram ao longo dos séculos e milênios, acreditando-se que o homem se aperfeiçoaria estabilizando a relação entre si na conquista da paz mundial.
Passaram-se os anos, séculos e milênios e a busca pela paz social foi perseguida insistentemente e continua sendo até hoje, na crença da erradicação da pobreza pela via democracia, pela liberdade, igualdade e fraternidade do ser humano.
Acreditou-se na democracia, na república e que se alcançando a riqueza esta poderia ser repartida com todos. Ainda uma promessa não cumprida, conforme Norberto Bobbio.
Mais promessas surgiram e foram deixadas de ser cumpridas. Entre elas, a de que a indústria acabaria com a pobreza criando meio de inserir a população no trabalho e no mercado consumidor.
Muitas outras crenças vieram e se foram, chegando ao ponto do predomÃnio sempre do mais forte e do mais rico que formaram grandes grupos econômicos, num processo de acumulação de riquezas por uma minoria na economia da mão-de-obra barata e da exclusão cada vez maior.
Foi isso que levou Geraldo Muller a mencionar que a concentração de capital, combinado com a miserabilidade, é responsável pelo surgimento de um novo bloco econômico, onde estão o Brasil, México, Coréia do Sul e Ãfrica do Sul, os que são os chamados “paÃses subdesenvolvidos industrializadosâ€, onde ocorre uma boa industrialização e um quadro de enormes problemas sociais.
As desigualdades sociais aumentaram a pobreza e a miséria, tornando-se enormes por causa da concentração de renda que favorece apenas alguns setores. Com isso, nasce a crise social e econômica que aumenta a carência de oportunidades de trabalho, de saúde, de habitação, de ensino e de vida.
Essa desigualdade é constatada por estudiosos como produtora da violência que é determinada por valores sociais, culturais, econômicos, polÃticos e morais de uma sociedade. E nisso, fica claro que não é exclusivamente a pobreza nem só o desemprego que causam a violência.
Entre os fatores de promoção da violência, defendidas por pessoas de gabarito verdadeiro, estão a impessoalidade das relações nas grandes metrópoles e a desestruturação familiar em razão das condições mÃnimas de afeto e convivência, sendo esta última causa e efeito.
Também o subemprego é um fato relevante porque afeta a auto-estima e provoca a busca por reconhecimento e sucesso a qualquer custo ou oportunidade.
Daà outros fatos, a partir das constatações de Michel Foucault, que se articulam e complexificam as causas e fatores da violência como o tráfico de drogas, disseminação das armas de fogo, falta de estrutura familiar, desigualdade social, discriminação, exclusão social, entre outros, resultando na criminalidade que se expressa desde aos ataques morais, lesões corporais e éticas, abuso, seqüestros, roubos, impunidade, processualÃstica ultrapassada, conivência e outros crimes em geral, havendo, necessariamente, de se considerar, também, as brechas propositais do aparato legal, flagradas entre a legislação destinada a proteger os direitos humanos e a sua implementação, flagrada entre os setores das forças de segurança e o povo que juraram proteger, e flagradas entre a procura da justiça e a capacidade do Estado para proporcioná-la.
Além disso, é importante frisar também para o acréscimo do volume dessa avalanche de problemas, as discussões canhestras, sectárias e conservadoras nos debates públicos de combate à violência, excluindo-se descaradamente a prevenção e a educação, afora o cinismo dos militantes da área em arrotar casuÃsmos negligenciando a inter/transdisciplinaridade que o tema requer.
Evidentemente que a grande ineficiência e omissão do Estado no desenvolvimento de polÃticas públicas e na constatação de problemas graves de distribuição de renda promovendo a injustiça social, traz por resultado a falta de acesso à justiça, precárias condições de vida, discriminação na oferta dos serviços públicos, ausência de equipamentos culturais e artÃsticos, educação inócua e de péssima qualidade, serviço de saúde e previdência precárias, insegurança, alta taxa de desemprego por desqualificação profissional, colapso do saneamento básico, falta de moradia, escassez de água tratada, falta de tratamentos de esgoto, enfim infra-estrutura para a exclusão de modo geral. Isso porque entendemos que a violência possui muitas faces como na marginalização das pessoas, nos preconceitos, nas ações de abandono, na explosão de crianças nascendo na rua, na inexistência do apoio de formação familiar, na ausência de formação educacional e moral, no despreparo profissional, esses tantos entre outros tantos verdadeiros fornecedores da matéria-prima para a criminalidade.
Desta forma, a falta de efetividade, eficiência e legitimidade dos serviços públicos de segurança e justiça, deixa claro que a todas as esferas governamentais brasileiras falta envergadura moral para atuar em nome do cidadão brasileiro, justamente porque atua na defesa patrimonial dos verdadeiros promotores da violência em detrimento da dignidade humana e exercÃcio da cidadania. Isto porque se leva em conta a conivência ou omissão no Estado de governos, funcionários, dirigentes das instituições de controle da violência, Judiciário, Ministério Público e polÃcias, provocando verdadeiro prejuÃzo moral, material e fÃsico, fruto da intolerância e frieza da coação anormal, ilegÃtima e imoral que esse monopólio hipertrofiado de violência viola.
Esta violação dá margem à s transgressões ao convÃvio humano e na infração dos códigos elementares de conduta civilizada que são reproduzidas de forma banal pelos veÃculos de comunicação. Isso, disfarçando um distanciamento inexistente entre o fato real e a percepção do individuo, promovendo o descompromisso desse indivÃduo com as regras de convÃvio e o desrespeito sistemático à s normas de conduta social estabelecidas pelos códigos legais ou pelo costume, oriundas da aceitação social da ruptura constante das normas jurÃdicas e o desrespeito à noção de cidadania.
O mau funcionamento dos mecanismos de controle social, polÃtico e jurÃdico do Estado, que detém o monopólio do exercÃcio legÃtimo da coerção, fruto de instituições frágeis, profundas desigualdades econômicas e de classe, e uma tradição cultural de violência onde ficam impunes o uso da tortura pela polÃcia como método de investigação; a ocupação de espaços públicos por camelôs e donos de carros; as infrações de trânsito; a incompetência administrativa; a imperÃcia profissional; a negligência causadora de acidentes e o desrespeito ao consumidor.
Vale aqui mencionar os estudos da Fundação Getulio Vargas – FGV, e do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID, estimando que os custos da violência atinjem 10% do PIB, algo em torno de R$ 130 bilhões. São recursos que deixam de gerar empregos na cadeia produtiva, de investimentos e consumo, favorecendo a expansão apenas dos serviços especializados de segurança. O estudo da FGV calcula que o número de vigilantes hoje no Brasil é 3,5 vezes o contingente das forças armadas nacionais, com o agravante de que esses primeiros possuem qualificação discutÃvel e andam armados. E se aprofundarmos mais os estudos na área, tranquilamente iremos detectar uma gama enorme de disparate, insensatez e incoerência demasiada na polÃtica de segurança brasileira.
Tudo isso leva ao pânico que corroborou a proposta do Direito Penal do Inimigo, tese defendida por Jakobs que é estruturada sobre o conceito de pessoa e de não-pessoa, distinguindo um direito penal pro cidadão e outro voltado para o inimigo.
Sobre esta vertente jurÃdica, Jakobs baseia suas idéias na utilização da periculosidade do agente para caracterizar o inimigo, contrapondo-o ao cidadão que, apesar de seu ato, oferece garantia de que se conduzirá como cidadão, atuando com fidelidade ao ordenamento jurÃdico, de forma que sua personalidade tende para tanto. Já o inimigo, segundo o autor em estudo, não oferece esta garantia, devendo ser combatido pela sua periculosidade, e não punido segundo a sua culpabilidade. Defende então o Direito Penal do Inimigo a punibilidade que avança para o âmbito interno do agente e da preparação, e a pena se dirige á segurança frente atos futuros, caracterizando o Direito Penal do Inimigo como um direito do autor e não do fato.
Porém, uma outra discussão surge neste campo: quem o inimigo? Num pais de delinqüentes, onde todos unanimemente arrepiam a lei desde a disposição da espórtula e do jeitinho brasileiro para se obter privilégios e vantagens, questiona-se, então, quem está no lado do cidadão e quem está do lado do inimigo? Precisamos discutir isso porque ainda há que se observar que ao longo dos últimos anos, apesar dos planos de Segurança sem tolerância ou Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH, entre outros, que pouca contribuição proporcionaram na garantia mÃnima dos direitos humanos, finda mesmo na situação de que o cidadão, que é o único penalizado, é também quem perde a sua liberdade com os riscos presentes no cotidiano, com a menor oferta de empregos e com a deterioração dos serviços públicos.
Conclui-se, portanto, que a violência é um ciclo que começa e termina nele mesmo, sem benefÃcio para ninguém, a não ser para a “mão invisÃvelâ€, para os lÃderes do crime organizado, e na exploração daqueles que, direta ou indiretamente, foram ou serão suas vÃtimas. Porém, combatê-la significa um posicionamento de encarar de frente o problema identificando quem algoz e quem a vÃtima, quem promove e quem evita, e de uma ação de todos contra o esquecimento, pela identidade, compaixão e responsabilidade.
Exige-se, portanto, que a ação do Estado seja exercida indibutavelmente dentro de circunstâncias legais, atuando repressora e indiscriminadamente contra a rede de privilégios que gera a impunidade e ao terror da banalização da tragédia humana no cotidiano, destacadamente nas vidas ceifadas nos homicÃdios, no trânsito, nas carnificinas e nos seqüestros, a exemplo dos massacres de Eldorado de Carajás, Carandiru, Favela Naval, entre outras tantas. E isso é responsabilidade de todos, vamos juntos.
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© Luiz Alberto Machado. www.luizalbertomachado.com.br
O Fecamepa: afrodescendentes somos todos nós!!!

O Fecamepa é um festival muito do arretado que começou a pipocar festeiro em terras de Pindorama lá pela virada do século XVI.
Na verdade, tudo começa mesmo quando da chegada dos cristãos perós armados de seus trabucos, embarcações, fedorências e duma bula papal que legitimava a sua propriedade sobre tudo desta continental paragem, fomentando as sandices que testemunhamos desde então até hoje na rede dos equÃvocos desta terra Brasil.
Pra quem não sabe, é a partir disso que começa toda uma trajetória de tapiações, cagadas, engodos, maracutaias e outras práticas advindas da sabedoria impune dos sabidos sobre os mais ingênuos e crédulos povinho nativo.
É daà que começa a reinação dos arrumadinhos, engalobamentos e afanagens. O jeitinho é brasileiro, mas a lição é portuguesa, bote fé!
A-há! Só pra você ver, sabe da maior? Isso deu o créu o tempo todo, sabia?! Foi mesmo!
No meio de uma saraivada de desacertos logo nos primeiros anos da chegada, teve um trupé indigesto que deu num desmantelo nauseante durando uns 400 anos de remoeta! Foi o maior parque de diversão pros colonizadores que davam de urubu só por cima da carne seca!
Espia só.
Tudo começa quando a maldizente monocultura escravocrata da cana-de-açúcar chega por aqui por volta de 1535, usando abusivamente do braço escravo para se sustentar economicamente. Lembra?
Pois é, primeiro foram para as bandas dos Ãndios. O que deu? O invasor botou as manguinhas de fora e invadiu terra, derrubou matas, tomou as mulheres, bufou, peidou e mandou ver. Não deu outra, né?
Depois de muita sacanagem, caiu a ficha da indiada que se viu na maior roubada pagando um mico da peste.
Ôxe, foi aà que o aborÃgene deu um freio de arrumação com um ré-pra-trás de quase virar a cambota, começando um arranca-rabo que só finda com sua quase extinção.
Aà a coisa começa mudando de figura, porque como o papel de servo era para o autóctone, quando este sacou a maruagem, logo se rebelou e tudo virou para o tráfico do negro africano que era tratado talqualmente bicho, ou seja, um antropóide de cor que nem era gente na regulação das Ordenações Filipinas, que o tinha no mesmo capÃtulo destinado aos animais.
Pois bem, derramados mais mortos-vivos na praia depois duma travessia das mais sacrificantes, os escravos negros iam se amontoando numa infecta senzala com a mais diversa etnia de boçais e ladinos minas, nagôs, guinéus, minas-nagôs, cafres, calabares, minas-popos, hauçás, malês, jejes, grumcis, tapas, iabus, benins, mundubis, bornus, baribas, grumas, camarões, congos e cabindas, tudo para adoçar o mundo com o sangue da desgraça deles.
A estratégia dos traficantes era trazê-los à s rumas e misturados para que eles não se entendessem de jeito nenhum, senão era prejuÃzo certo. Sabidos.
A exemplo das carnificinas que vitimaram os amerÃndios, os escravos também não escaparam de castrações, amputações, extrações e torturas as mais terrÃveis. Isso sem falar que eram, entre outras malvadezas, punidos severamente quando transidos de fome lambendo o querosene dos lampiões.
Por isso, tinha até escravas que preferiam abortar a ver seus filhos nessa desgraceira de vida.
E era justamente essa desgraça que os fraternizava para sublevar, causando a criação de quilombos que, segundo quase todos os historiadores, só deram o ar da graça mesmo na vera no final do séc. XVI.
Pelo visto, como registram unanimemente os estudiosos, os escravos não tinham saÃda: ou era a floresta Ãnvia, impenetrável, desconhecida e hostil, ou a re-escravização. E aÃ, hem? Sinuca de bico. Deu no que deu, né?
O quilombo era para o rei de Portugal, “(…) toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões nelesâ€.
E a fuga era a única forma de libertação e, ao mesmo tempo, representava um perigo: a tentativa de aqui repetir a façanha da ilha de São Tomé quando os negros tomaram pé da coisa e expulsaram os portugueses. A-há! Bem feito, hem? Destá.
O caldo engrossa e a rebelião começa mesmo pra valer quando os fugitivos se deram munidos de armas de fogo, chuços, de facões e de lanças.
Nasce, então, Palmares, o mais importante acontecimento do século XVII.
Localizada numa imensa selva entre o rio São Francisco e o Cabo de Santo Agostinho, abrigo para os negros fugitivos, Ãndios, mamelucos, mulatos e brancos, bem como fugitivos do serviço militar, criminosos e todos os perseguidos e deserdados da sociedade colonial.
Este reduto resistiu a todas as expedições punitivas de 1630 até 1695.
Como tudo tem duas faces, a guerra contra os palmarinos tinha lá seus interessados, o que, segundo Décio Freitas, por causa disso – a exemplo das inúmeras campanhas e investimentos públicos de hoje -, a roubalheira comia no centro: “(…) em grande parte motivada pela desbragada corrupção que lavrava nos altos escalões administrativos da colônia. Governadores, magistrados, oficiais das câmaras e outros funcionários se apropriavam regular e impunemente das rendas da coroaâ€.
Além do mais, uma coisa era certa: as ordens da coroa eram sempre acatadas, mas raramente cumpridas. Eita! Esse filme eu vejo hoje, né não? Igualzinho, né? Vamos lá.
Os quilombos se multiplicavam chegando ao registro de 11 no Amazonas, 04 no Maranhão, 09 em Minas Gerais, 11 em São Paulo, 12 na Bahia, 08 em Sergipe e 11 em Pernambuco.
Neste último, Palmares que foi primeiro comandado por Gangga-Zumba, que caiu na besteira de celebrar um tratado de paz com Portugal, findando sitiado em Cucaú e, depois, assassinado.
Aparece então Zumbi, o Espártaco Negro dos Palmares, nascido no começo do ano de 1655, numa das inúmeras povoações palmarinas.
Esse guerreiro chegou ao ponto de ter a patente de capitão reconhecida pelo rei D. Pedro II, de Portugal, que perdoou “seus crimes†na tentativa de selar a paz.
Mas tá, hem? Nem aÃ, já conhecia a cor da chita. E mais ainda: a turma dos senhores de engenho logo se mobilizaram para acabar com essa festinha pacÃfica e botando fogo no monturo com todas as influencias em Lisboa.
Pois é, cada guerra com seus interesses, ora.
Aà entra na história a tropa de choque dos sanguinários e violentos bandeirantes paulistas, capitaneados por Domingos Jorge Velho, promotores de briga, ruÃna e terror.
Os bandeirantes deram logo um treino – tipo café pequeno – e lascaram a vida duns coitados dos Ãndios janduins. Já eram, coitados. Num foi bem assim, o bafafá deu trabalho, mas findou, a exemplo dos caetés, com a varredura geral dos nativos.
O foco passa a ser Palmares, maior teitei estrepitoso.
Investidas atrás da outra e nada. Vai e volta, passam os anos. Até o dia que juntaram todo ódio e partiram com tudo para acabar com o que tivesse em pé.
No fim, Zumbi não morreu como conta a lenda: um suicÃdio se jogando no despenhadeiro. Na verdade, ele morreu atraiçoado no dia 20 de novembro de 1695, pelo negro Antonio Soares, numa cilada armada pelos paulistas que transportaram seu corpo para Porto Calvo, lavrando-se o Auto de decapitação do negro Zumbi.
Quando todos pensam que a coisa se aquieta, ledo engano, meu. Eis que surge o quilombo de Ambrósio que, segundo Clóvis Moura “Tudo era de todos e não havia nem meu nem teuâ€, em Minas Gerais, e que durou até 1746 quando foi destruÃdo.
E ainda prosseguem em Minas Gerais, tanto em 1756 como em 1864, as revoltas negras objetivando a liberdade dos cativos.
No séc. XVIII grupos esparsos de escravos fugidos continuavam homiziados na região palmarina dando trabalho às autoridades coloniais.
Foi quando a massa escrava brasileira – as de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro -, se rebelou de vez. Tome bronca. E lá vai logo em 1821 os escravos da fazenda Santana, Ilhéus, na Bahia, se revoltando e permanecendo na propriedade até 1824, prosseguindo em 1828 quando os cativos tentam tomar conta de tudo.
É quando ocorre, então, a grande insurreição negra de 1835, em Salvador, findando só no dia 14 de maio, condenados à forca mas por não dispor de carrasco para a execução, restou o fuzilamento de todos os seus membros.
Segura a onda que lá vem mais.
Depois, entre os anos de 1838/41 foi a vez do Preto Cosme, no Maranhão, aderir à Balaiada. Quando finda a rebelião, o de sempre: os liberais são salvos por anistia, e os escravos sacrificados por obra e comando de 8 mil homens do coronel LuÃs Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias.
Pois é, Preto Cosme foi preso, julgado, condenado e enforcado em São Luis.
Também Manuel do Congo, no Estado do Rio de Janeiro, em 1838, liderou uma rebelião na Fazenda Freguesia e Maravilha, quando foi aclamado Rei por todos os revoltosos. Mas, em 1839, Caxias invadiu o quilombo em pavorosa carnificina e tudo já era então, pronto, findada toda festa.
Já o quilombo de Jabaquara, em São Paulo, foi formado pela ideologia abolicionista e não pelos escravos. Isso ocorre por volta de 1882, por iniciativa dos abolicionistas Américo Martins e Xavier Pinheiro, sendo escolhido Quintino de Lacerda como lÃder.
Este quilombo finda quatro anos depois de sua criação, junto com a abolição da escravatura em Santos.
Mas a coisa vai mudando e a partir de 1870, a região Sul do Brasil passa a empregar assalariados brasileiros e imigrantes estrangeiros.
No Norte, as usinas substituem os engenhos de cana.
Parece mais que o Brasil vai mudar de vez, acredita? Eu, hem! Ah, vamos lá.
Tudo vem na esteira dos acontecimentos internacionais com a extinção do tráfico negreiro em 1850 – e o Brasil, como sempre, atrasado como porra.
Depois, veio a Lei do Ventre-livre, de 1871, tornando livres os filhos dos escravos.
Logo após, a lei dos Sexagenários de 1885 que contemplava os negros de mais de 65 anos.
E por fim, a Lei Ãurea de 1888, declarando livre todos os escravos, sendo, pois, o Brasil o último paÃs do mundo a abolir a escravidão negra depois de quase 400 anos de regime escravista. Ô atraso, hem?
Pensa que terminou por aÃ, foi? Então vamos aprumar a conversa.
Sabe qual a remissão dos pretos então libertados? Claro e evidente que toda cultura escravista brasileira não desaparece por força de uma simples lei, nada disso. E passando a limpo: tudo aconteceu – como sempre acontece no mundo – por força do desenvolvimento econômico, custe o que custar, né?
Pois bem, a revolta que criou o Estado Negro de Palmares resistiu até o fim do séc. XVIII. Foram ao todo 35 expedições. Dá pra ver os custos desses gastos e a contraproducência, tudo em nome da ambição, ganância e avareza. Seria cômico se não fosse trágico!
A lição que fica dessas revoltas todas é que se adoçava o mundo com o sangue da desgraça humana. Quer a prova dos nove? Ainda há que considerar que o regime escravocrata se mantém disfarçado ainda hoje e de forma tal que nenhum órgão fiscalizador – que também é ao mesmo tempo conivente – é capaz de flagrar, punir e erradicar. Vê-se, apenas, que uma vez ou outra é feita uma incursão séria entre os Andorinhas da cana, ou nas fazendas de todos os Estados, ou qualquer esporádica intervenção combatendo o escravismo, logo é flagrada e registrada pela mÃdia atual, muito embora resulte no afastamento de funcionários que vão tomar na tarraqueta ou casa de caixa pregos, engavetamento de processos que viram dorminhocos dos compadrios, retaliações violentas que sapecam o pé do maluvido delator e impunidade geral reinando para felicidade dos promotores do desenvolvimento econômico do paÃs.
Inegavelmente tal escravismo disfarçado que já vinha desde sempre solapando a massacrada vida dos trabalhadores da economia privada brasileira, mascarou-se mais com a flexibilização e desregulamentação das leis trabalhistas em relações informais, subempregos, baixas remunerações, desqualificações e outras práticas abusivas arrepiando a lei e fomentando uma exploração que é protestada desde que o sujeito entra para trabalhar e não tem hora para sair e sem hora-extra nem qualquer verba indenizatória, ao bel prazer da bondade do patrão.
Vê-se com isso que a escravidão só fez virar com uma cara mais eufemista, persistindo ainda hoje com outra nomenclatura.
Com esta constatação, precisamos, pois nos libertar de verdade.
Ih, lascou, né? E quem sabe o que é liberdade? Se a gente não sabe nem o que é cidadania e dignidade humana, como saber o que é liberdade? Inda vem mais o consumismo para embananar tudo.
Vixe! E agora? Se o passado não nos ensina, o que será da gente, hem? Pois é, gente, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!!
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