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Popó é o papagaio do Doro. Um psicitaciforme piounÃneo, mais apropriadamente um Amazona aestiva, com colorido predominantemente verde, encontros das asas vermelhas e a fronte tingida de azul, numa plumagem atraente, brilhante e colorida.
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Popó? Eita, tagarela! Fala pelos cotovelos. Só vive mexendo com tudo e com todos. Mora ali já desde anos, tendo, segundo dizem, percorrido toda árvore genealógica dos Doros.
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É um bicho peralta, gosta de dar bicada na cabeça dos desavisados que se insinuam por seu território.
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Gente, com aquele bico, adunco, curto e bojudo ele proporciona uma dor indesejável em quem quer que seja.
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Quando não é isso, todo folgadão, num deixa de participar do converseiro familiar. Maior tititi.
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Para se ter uma idéia, Popó acorda o povo solfejando o hino nacional: pãrã pãrã pãrã pãrã pãrã pãrãaaaaã pãrã… É, na vera. Maior barulhada! E em tempo de copa do mundo, danou-se, aà é que ele se mostra brasileiro da gema, a ponto de se vestir a rigor, com camisa, tênis, calção, boné, todo paramentado de verde-amarelo, e de sair narrando o jogo o dia inteiro, feito locutor endiabrado, principalmente os lances de gol.
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E os pitacos na hora do jogo? Nossa, parece mais peru que fica dizendo faz assim, faz assado, vai porra, num deixa a peteca cair, desgraçado, vai, vai, vai!… até quando o gol sai e ele ginga solto dando bundacanasca no ar. Brasil!!!!!!
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- Eita, esse tomou da água de chocalho! -, reclamam costumeiramente.
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Ninguém vê nada, ninguém ouve nada, só dá ele na cabeça! Maior amostramento. E bote adiantado nisso.
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- Qualquer dia desses, eu faço esse papagaio ficar mudo! -, ameaça Doro.
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Outra: não pode ver chuva, ocasião que não dá o menor pio possÃvel e quando alguém constata o seu silêncio, chega lá onde o mudo está e encontra o danado a postos, com máscara, pés-de-pato e respirador, pronto para manobras de sobrevivência. Pode?
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- Esse é o papagaio mais cheio de munganga, mais cheio de pantim que já vi na vida -, diz Doro mangando da ave.
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Ôxe, isso não é nada, ele gosta de soltar assobio para as mocinhas e mulheres que passam, dele ficar berrando:
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- Eita cacarejado bom! Sou bom nisso! Sou bom nisso!
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Isso sem contar uma paixão platônica por uma cracatua branca da vizinhança e das paqueras insolentes por uma arara doutro quarteirão, que, invariavelmente, levam-no a expressar sua dor-de-cotovelo por canções de roedeira braba. Tome lubrificação de gaia, larari, larará.
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- Esse Popó é corno, tenho certeza! Vai gostar de brega assim na casa de caixa-pregos, vai! -, mais uma reclamação vinda de alguém.
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Quando Doro mesmo chega em casa, ele logo diz:
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- Eita, macacada, chegou o corno-mor!
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Ôxe, Doro fita o folgado pelo canto do olho, prometendo providências para muito em breve. Ah, ele nem aÃ.
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E quando todos se sentam para o café da manhã, ou almoço ou jantar, ele começa o enredo, descobrindo podres de um ou de outro dos ocupantes da mesa.
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- Esse papagaio deve ser da turma da Candinha, vai gostar de fofoca assim na casa da puta da tua mãe, enredeiro!
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Nem, nem. Vôte!
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Mas de quem ele mais tem verdadeira ojeriza é do vizinho: o Jardenildo. Quando o cabra aparece, ele solta maior caboetagem das atitudes salafrárias do desafeto. Tudo isso, porque certo dia, Jardenildo entrou na casa e insinuou que o Popó era viado, porque tinha pra mais de 50 anos e jamais vira dizer que ele havia acasalado qualquer arara, cracatua, periquita ou tuin.
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- Esse papagaio deve acasalar uma brachola! -, insinua Jardenildo.
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- Rapaz, mas num é qui é mermo, parece que esse papagaio quebra na munheca! -, assevera na zombaria o Doro.
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- Nunca que ouvi dizer que um papagaio pudesse ser tão fresco. Ai, veja o jeitão dele! É ou num é pirobo?
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- Rapaz, mas num é qui é mermo que ele tem todas as ferramentas!?
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O quêeeeeee? Popó virou na porra! Ôxe, ingicou-se de ficar imóvel por horas e horas. E o pior: lá prás tantas, o Jardenildo cheio dos quequéos, achou de, ninquém sabe por que razão, pegar o bicho desprevenido e tascar uma dedada no furico dele. Menino, foi aà que ele se indignou e prometeu revide na maior desforra. Hum, ficou invocado de formas a não querer jamais dirigir a palavra pro apaideguado. E lá se vai tempo, remoendo, remoendo.
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Dia desse finalmente chegara o natal, Popó lá, solto: “Jingle bell, jingle bel, acabou papel, não faz mal, não faz mal, limpe com meu pau!”.
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O bicho era desbocado mesmo. Parodiava as músicas natalinas com insinuações sacanas de fudelança e cornagem na redondeza. Não escapava ninguém. Depois dele soltar meio mundo de insulto, Doro arretou-se, já alterado pela carraspana, pegou Popó pelo gogó, deu-lhe uns bregues e fez com ele bebesse aguardente. Destá, hã! Popó fez ar de maior repugnância, mas, no frigir dos ovos, gostou. Gostou tanto que até hoje cultiva o hábito de se aventurar numa cachaçada boa, enrolando a lÃngua e soltando lorota à toa.
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Pois bem, foi nesse natal que ele sentiu que podia se vingar de quem guardava maior rancor. E foi, vez que lá pras tantas chega Jardenildo mostrando algo.
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- Doro, vê só o presente que papai Noel me deu! -, era Jardenildo não se contendo de felicidade.
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- Rapaz, isso foi papai Noel que deu, foi?
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- Foi, rapaz.
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- Tu tem certeza?
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- Tenho. Minha mulher agarantiu que papai Noel deixou isso lá em casa para mim.
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- Rapaz….
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- Verdade. Eu confio na minha mulher. Ela é a mais honesta do mundo.
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- Rapaz….
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- Tá duvidando da honra da minha mulher, é? Se ela disse que foi papai Noel, disse por que foi! Pronto!
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Aà Popó se vingou:
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- A-há! Esse papai Noel é um sujeito pintudo que dá uns amasso na madame mulher dele, toda vez que ele não tá em casa. O cara é só socavando nela. Pronto. Não tá mais aqui quem falou, câmbio, desligo!
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Bum!!!!! Â
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Era uma vez…
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© Luiz Alberto Machado www.luizalbertomachado.com.br
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