SÃO PAULO – A largada frustrou a expectativa. O Brasil está na moda, Lula é aclamado como uma das pessoas mais poderosas do mundo pela imprensa internacional e o cinema brasileiro teve um ano de gala nas bilheterias. Mesmo assim, apesar de todo estardalhaço e com tudo conspirando a favor, “Lula, o filho do Brasil†estreou abaixo do esperado.
Em seu primeiro final de semana, o filme de Fabio Barreto (que continua internado em estado grave) foi exibido em 354 salas do PaÃs – ao contrário das 500 especuladas inicialmente – e, em três dias de exibição, levou 193 mil pessoas aos cinemas. O paralelo com “Se Eu Fosse Você 2″ é inevitável. Lançada no mesmo perÃodo do ano passado, a comédia de Daniel Filho se tornou a maior abertura da Retomada – 570 mil espectadores – e, nas semanas seguintes, chegou a um público recorde de 6 milhões. Outros sucessos do cinema nacional também tiveram melhor sorte no primeiro final de semana: “Carandiru” fez 470 mil e “Dois Filhos de Francisco”, 315 mil.
A história real de como Lula saiu do sertão pernambucano e se tornou um influente lÃder sindical, temperada por dois casamentos e uma tocante relação com dona Lindu, sua mãe, custou R$ 16 milhões, recorde para a indústria nacional, dos quais R$ 4 milhões exclusivos para marketing. Nem a concorrência com os camelôs é uma ameaça. A reportagem do iG não encontrou o filme para venda nas principais avenidas de São Paulo e o Conselho Nacional de Combate à Pirataria do Ministério da Justiça está alerta para cópias nos cinemas. O que aconteceu, então, para uma das maiores promessas do ano decepcionar na estreia?
Na opinião de Pedro Butcher, editor da Filme B, empresa especializada em números do mercado cinematográfico, a estratégia de lançamento do filme foi arriscada demais. “Lula” teve sua pré-estreia muito antes, na abertura do Festival de BrasÃlia, em novembro, e ganhou sessões especiais nas semanas seguintes. A enxurrada de crÃticas negativas e reportagens que surgiram a partir daÃ, boa parte questionando um possÃvel interesse eleitoreiro do longa-metragem, chamaram muita atenção antes da estreia. “Claro que essas exibições iam gerar reações das mais variadas”, aponta Butcher, “não sei se foi uma ideia muito boa”.
A recepção negativa surpreendeu até a Downtown Filmes, distribuidora da cinebiografia. A expectativa inicial, de um potencial enorme, se tornou o temor de um fracasso retumbante. “Diante do massacre a que o filme foi submetido pelos meios de comunicação em torno de questões polÃticas, temÃamos pelo pior”, reconhece Bruno Wainer, diretor da empresa. “Nunca vi isso, acho extremamente injusto com o projeto.”
Segundo ele, a projeção é de que “Lula, o filho do Brasil” tenha acumulado 400 mil ingressos até ontem – mais que o dobro da bilheteria do final de semana. “Em relação à expectativa à s vésperas do lançamento, já respirei aliviado. Depois de um mês e meio de gente acusando o filme de tudo que é jeito, isso é um milagre, uma prova de resistência. Não foi um número tão ruim para jogar a toalha, nem tão sólido para abrir champagne”, argumenta.
Para o crÃtico Ricardo Calil, colunista do iG, é fato que a cinebiografia não foi o “estouro” que previa Luiz Carlos Barreto, cujo otimismo sugeria até a quebra do recorde de 12 milhões de espectadores de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigido por seu outro filho, Bruno. “Dá para cravar com relativa certeza que isso não vai acontecer. O primeiro final de semana indica que nem com um milagre o filme vai chegar nesse resultado.”
Como se não bastasse, neste inÃcio de 2010 a concorrência no circuito exibidor está sendo maior do que o normal. Pedro Butcher explica que janeiro em geral é um perÃodo bom para o cinema brasileiro, livre de grandes lançamentos – concentrados em junho e julho, verão no hemisfério norte –, uma entressafra entre blockbusters e os concorrentes ao Oscar. A zebra ficou por conta de “Avatar”, que estreou atipicamente em dezembro e caminha a passos largos para se tornar o segundo filme mais visto de todos os tempos. “É uma produção lançada fora de época que está funcionando muito bem, fica difÃcil ceder”, diz Butcher.