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PLANSAB – Plano Nacional de Saneamento Básico

quarta-feira, maio 18th, 2011

COMENTÃRIOS SOBRE O PLANSAB VERSÃO ABRIL 2011, é uma forma de expor publicamente pensamentos e experiências sobre o que o Governo Federal pretende para o setor nos próximos 30 anos. O Plano é um vasto documento, que muitas vezes se perde na fantasia ideológica dos que ainda acreditam que o PT existe tal como foi concebido, esquecendo que o Lulismo sepultou de vez o “oculto” jeito PT de governar.

Abaixo segue o primeiro de uma série de comentários semanais sobre o PLANSAB.

Introdução.

Ter uma versão pronta do PLANSAB – Plano Nacional de Saneamento Básico é motivo de satisfação e de congratulações para com todos aqueles que se envolveram com a elaboração deste relevante trabalho. Talvez pela falta de prática de se trabalhar nas esferas de Governo com planejamentos de longo prazo, situação que se torna significante para o setor de saneamento, há anos sem qualquer referência de plano nacional e sujeito a idas e vindas de programas de obras, o PLANSAB ainda tem cara de documento acadêmico em muitas de suas partes e parece, algumas vezes, colocar as injustiças sociais acima da necessidade de ser um Plano de Investimentos e Metas para o saneamento ambiental no Brasil.

Em termos de conteúdo e considerando a conjuntura que se vive no Brasil, tanto política quanto social e econômica, o PLANSAB atinge seu objetivo inicial que é colocar nas mãos da sociedade um texto para avaliação, discussão e proposições. Esta é uma hora importante para muitos mais participarem da consolidação de um Plano que norteará as ações de saneamento ambiental até 2030. Assim, os comentários a seguir colocados não visam discordar dos conceitos e definições apresentadas, muito antes, buscam a promoção de alguns momentos a mais de debate e revisão para melhor esclarecimento e montagem do que é essencial para este plano que é seu programa de investimentos e metas.

Comentário 1.

Texto da página 7, linhas 30 a 37.

“No Plansab foram definidos três cenários de planejamento, designados para efeito de identificação como Cenários 1, 2 e 3, tendo sido adotado o primeiro deles como o cenário de referência para o planejamento. Para este, foram estabelecidas metas e, visando atingi-las ao longo dos 20 anos de execução do Plansab, propostas macro diretrizes e estratégias. Operacionalmente, foram ainda propostos programas para a política pública de saneamento básico, em um nível de discriminação ainda preliminar, já que, em uma próxima etapa, estes serão detalhados em maior profundidade. Os dois outros cenários são mantidos como balizadores para o monitoramento de tendências, alimentando ajustes dinâmicos do Plansab ao longo do seu período de execução.â€

Comentário:

Nesta introdução os comentários podem parecer insignificantes, porém chama atenção o fato de se ter um plano de 20 anos, quando na verdade este modo de tempo já deveria ser atualizado para o saneamento na própria 11.445/07. Há anos sem qualquer planejamento e com um cenário preocupante em termos de gestão e operacionalização dos investimentos, para o setor de saneamento, se a consideração for para abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem urbana e resíduos sólidos, o mais adequado seria um plano para 50 (cinqüenta) anos com revisões a cada 10 (dez), já que pela Lei, a cada 4 (quatro) haverá atualizações, o que é um perigo pois estará associada às mudanças governamentais.

 

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Dias de chuva.

domingo, maio 8th, 2011

Nos últimos anos os dias de chuva tem sido cruéis com as cidades brasileiras provocando enchentes, inundações, desabamentos, desmoronamentos de barreiras, danos materiais graves, prejuízos financeiros irreparáveis, mortes e doenças. Não se tratou de ver apenas a reprise do clássico das enchentes urbanas acontecendo anualmente no maior exemplo da desorganização urbana brasileira que é São Paulo agora, as chuvas trazem danos físicos e materiais para cidades de todos os tamanhos, e localizadas em várias regiões do Brasil. Sobram justificativas, elevam-se as acusações e abundam soluções voltadas para a liberação de muitos milhões de reais, cuja destinação, na maior parte das vezes, é combater os efeitos. Chuvas e enchentes são fenômenos naturais que se repetem periodicamente com intensidade e concentração variadas, previsíveis e administráveis desde que haja sistemas de monitoramento, controle, contenção de cheias e gerenciamento de dados. Nas áreas urbanas, uma das mais graves conseqüências das chuvas tem sido o desabamento de barreiras que arrastam casas e matam pessoas, chamando atenção para um erro que se iniciou com a romântica favelização dos morros no Rio de Janeiro na década de cinqüenta, e se consolida a cada dia com o inchaço descontrolado e consentido de muitas cidades. As construções irregulares nas encostas anunciam um desastre que não tem hora marcada, mas que acontecerá com certeza um dia, simplesmente por que nessas localidades está em processo um princípio elementar da física que envolve um peso decorrente dos alicerces ou imóveis construídos sobre um terreno que possui capacidade limitada de suportar cargas. Como as construções, por razões óbvias, são feitas sem técnica de engenharia e como os arruamentos nessas localidades não possuem drenagem de águas pluviais, com o tempo, a infiltração provoca o colapso na relação entre a resistência do solo e o peso que ele está suportando e ai vem o desastre. As causas para tantos danos e tantas cheias são as mesmas e infelizmente estão diretamente associadas a deficiências na gestão pública. As cidades brasileiras continuam sem planejamento urbano e dependentes de modelos predatórios de administração pública, no qual se verifica uma desafiadora luta entre os interesses eleitorais que legitimamente garantem mandatos de prefeitos e vereadores, em contraposição à crescente e justa demanda dos moradores das cidades por mais casas, mais ruas asfaltadas, mais água e mais esgotamento sanitário. Tais necessidades fazem com que os sistemas de drenagem de águas pluviais fiquem relegados ao esquecimento. Implantam-se ruas e avenidas sem drenagem profunda e muitas vezes apenas com sarjetas de meio-fio. A manutenção das galerias existentes muitas vezes não é feita e nem há equipes para tal serviço. Não há saída para administrar racionalmente as cheias nas cidades que não seja a adoção de políticas de governo ao invés de plataformas eleitorais, associando planejamento, planos de investimento e gestão pública profissionalizada.

 

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O Fim do Mundo

domingo, março 27th, 2011

No dia 22 de março, dia mundial da água, foram divulgados dados do Atlas Brasil da ANA – Agência Nacional de Ãguas apresentando uma grave avaliação: em 2015, depois da festiva Copa do Mundo, muitas cidades brasileiras podem estar sem água para atender as necessidades de suas populações. Logo os próprios membros do governo federal e gestores de sua propaganda começaram a tentar explicar que a ANA não estava tratando os dados coletados devidamente e, que o que nunca foi feito na história do Brasil e aconteceu fabulosamente entre 2003 e 2010, mostra uma realidade diferente. A ANA chamou atenção para que se priorize a gestão dos recursos hídricos como uma ação de Governo e apontou os investimentos estimados por região geográfica brasileira, para que não se chegue a 2015 com o caos instalado em algumas localidades. Este problema, caso ocorra, o que não é tão improvável infelizmente, para ser administrado racionalmente exige uma mudança que não é muito popular entre os gestores públicos e políticos que ainda seguem o Lulismo, envolvendo a aplicação de princípios de governança e profissionalismo na gestão não apenas das fontes de água mais também, dos serviços de saneamento, notadamente os de abastecimento de água e de esgotamento sanitário. Assim, surge a preocupação com a forma como se pretende fazer com que se viabilize a solução dos problemas estimados pela ANA, se só se ouve falar em PAC I e PAC II como programas de obra e não como um plano de investimentos para o efetivo ataque aos pontos já levantados pela ANA, pela ABES, pela ABRH, pelo IBGE, pela AESBE, por vários Ministérios, por Bancos Federais, pelo BID, pelo BIRD e por tantos outros órgãos e profissionais do setor. Sem dúvidas ter disponibilidade de recursos financeiros é fundamental e ter órgãos financiadores mais ainda. Porém, não ter um plano nacional para liberar os recursos de acordo com uma lógica técnica e sócio-econômica, é trabalhar para que o triste cenário da ANA seja uma realidade mais grave que a que acontecerá, porque com as estruturas institucionais e legais disponíveis e a interferência de ações políticos partidárias ainda existentes, não será possível fazer com que o PAC seja bem sucedido ou que, outras formas de agilização da solução do problema da falta de água e de esgotamento sanitário consigam ser implantadas. Revisar e modificar as formas de contratação de projetos e obras, acelerar processos de PPP no setor de saneamento e estabelecer normas rígidas de avaliação dos prestadores de serviços estaduais, municipais ou privados, para que tenham metas gerenciais que levem os serviços à universalização é uma da formas de enfrentar com segurança a crise apontada pela ANA. Não há como comparar com certeza a importância dos serviços de saneamento com os de telefonia celular, no entanto, quando se tratar de universalizar e ter ganhos de escala no mercado de serviços públicos, talvez seja bom avaliar porquê hoje há 190 milhões de brasileiros e 205 milhões de aparelhos celulares se há 15 anos atrás para conseguir uma linha de celular era preciso pedir a um político e ainda pagar caro. Será que foi apenas a privatização? Certamente não.

 

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Fatalidades?

quinta-feira, janeiro 27th, 2011

Há quase seis meses Pernambuco e Alagoas sofreram as agruras de uma violenta cheia, que só não ceifou muitas vidas porque as águas chegaram durante o dia em muitas das cidades atingidas. Os prejuízos materiais foram muitos. Há quase um ano cheias em Niterói, tempos atrás, em Blumenau e em São Paulo, todo janeiro há mais de dez anos. Chuvas esperadas, previstas e conhecidas, são tratadas como uma fatalidade em razão dos escorregamentos de terra, dos desmoronamentos decorrentes, dos alagamentos e inundações. Muitas explicações técnicas existem para tudo que se repete nas grandes cidades e capitais mais importantes do Brasil há quase dez anos, desde a própria avaliação do tempo geológico que provoca alterações físicas naturais em paisagens mundo afora, até a conhecida falta de planejamento urbano com todas as suas mazelas. Os desmoronamentos ocorridos nos morros do Rio de Janeiro agora poderiam até acontecer naturalmente, o problema é que sobre, abaixo, ao lado e acima das encostas, existem ou existiam milhares de casas e até prédios de mais de uma andar. As imagens terríveis mostradas na TV atestam a construção de casas praticamente dentro do leito de rios urbanos. Tudo isso existe há anos e, o que é pior só aumentou, graças ao descontrole na gestão do espaço urbano pelas Prefeituras. Assim, é facílimo detectar as causas das graves cheias urbanas e dos desmoronamentos de encostas vistos hoje em quase todas as capitais brasileiras. A favelização vista romanticamente nos morros cariocas na década de cinqüenta, hoje cobra o seu preço depois de se espalhar pelo país. A falta de políticas públicas, de profissionalismo na gestão técnica das Prefeituras, a necessidade crescente e urgente de solucionar os problemas de moradia dos mais pobres, Prefeitos que doam terrenos em áreas sem nenhuma estrutura, gestores públicos que não priorizam a elaboração de estudos e projetos, além da ingerência negativa dos políticos locais na administração das Prefeituras, também complementam a fácil identificação de causas. Apontar todas estas falhas e indicar os culpados, principalmente depois dos desastres é uma tarefa simples para jornalistas, técnicos, políticos oportunistas, líderes comunitários e promotores públicos, afinal as causas são absurdamente conhecidas há algum tempo. Tudo hoje se resume a uma expressão que mais parece um clichê de propaganda: falta de planejamento urbano. Ora, como falar em planejamento se não há gestão? Uma coisa não existe sem outra. Apontar os culpados vai resolver os problemas? Identificar as causas e mensurá-las, apontando as ações corretivas também será a solução? Objetivamente pode se dizer que não, é a resposta para as duas perguntas, porque tudo será sempre precedido por profundas e radicais mudanças na forma como os serviços públicos são gerenciados e, principalmente, como os políticos do legislativo e do executivo se entendem para o preenchimento de cargos que exigem pré-requisitos que estão bem distantes da militância partidária ou, quando é pior, da fidelidade canina a candidatos que às vezes nem se elegem. O problema não está somente na mudança de visão dos políticos, pois depois de tantos anos de falta de planos e gestão pública, as demandas da sociedade aumentaram e exigem respostas rápidas o que força uma alteração substancial na forma como os instrumentos de gestão pública possam ser utilizados para atender ao interesse comum.

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ATRASO NO SANEAMENTO (editorial do Estadão de segunda-feira, 10 janeiro 2011)

sexta-feira, janeiro 21st, 2011

Ignorado durante anos pelas autoridades, o que impediu a melhora mais rápida dos índices de mortalidade infantil nas regiões pobres, o setor de saneamento básico não conseguiu avançar no ritmo desejável nem mesmo quando dispôs, no governo anterior, de recursos para investimentos. Burocracia, falta de projetos, desinteresse de governantes e de empresas privadas, dificuldade para a obtenção do licenciamento ambiental e ineficiência de gestão impediram que boa parte das verbas disponíveis fosse convertida em obras. O dinheiro ficou parado.

Desde o início da década passada, mudanças na legislação – que culminaram com a aprovação da Lei Geral do Saneamento Básico em janeiro de 2007 e sua regulamentação em junho do ano passado – propiciaram o aumento gradual dos investimentos no setor. A verba destinada pelo governo federal para obras e serviços de saneamento básico, por exemplo, cresceu de R$ 2,3 bilhões em 2003 para R$ 10,3 bilhões em 2009. Mas o resultado prático foi frustrante. Do total de R$ 45,3 bilhões que foi reservado para o setor no período, apenas R$ 21,4 bilhões, ou 47%, foram investidos, mostrou reportagem do jornal Valor na quarta-feira, dia 5.

A falta de saneamento básico e a existência de esgotos a céu aberto estão entre as principais causas de grande parte das moléstias que afetam as populações de baixa renda, como diarreias e doenças infecciosas – as quais, por sua vez, estão entre os principais fatores da mortalidade infantil -, o que torna socialmente mais nocivo o atraso dos programas de expansão das redes de água e dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos.

Calcula-se que, para alcançar a universalização dos serviços de saneamento básico, o Brasil precisa investir anualmente R$ 10 bilhões durante 20 anos. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) previu investimentos de R$ 40 bilhões entre 2007 e 2010, o que, em tese, atenderia às necessidades do País no período. Mas não basta anunciar grandes verbas para obras de saneamento. É preciso que essas verbas sejam destinadas a projetos e que os projetos saiam do papel, o que nem sempre aconteceu na gestão Lula, como mostra o baixo índice de utilização dos recursos disponíveis.

Houve problemas nos três níveis de governo e também na contratação de obras. O governo federal, por meio da Caixa Econômica Federal, atrasou a liberação das verbas; muitas prefeituras não dispunham de equipes para elaborar projetos nem buscaram apoio de órgãos federais que poderiam auxiliá-las na tarefa, o que as impediu de receber investimentos; órgãos ambientais demoraram para autorizar obras; e muitas empresas privadas, favorecidas pelo aquecimento do mercado imobiliário, não se interessaram pela área de saneamento.

Foi muito lenta, por isso, a melhora dos índices sociais vinculados às condições de saneamento. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do IBGE, por exemplo, constatou que, entre 2004 e 2009, as casas atendidas por rede de água passaram de 82% para 84% do total, enquanto aquelas atendidas por coleta de esgoto ou fossa sanitária passaram de 56% para 59%. Ou seja, mais de 40% dos domicílios ainda não dispõem de sistema de esgotamento sanitário.

Apesar da lentidão com que avançaram os serviços de saneamento básico, o secretário de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Leodegar Tiscoski, disse ao jornal citado que o Brasil cumprirá as Metas do Milênio para a área (cada país que se comprometeu com essas metas deve, até 2015, reduzir pela metade o déficit de saneamento constatado em 1990).

O economista da Fundação Getúlio Vargas, pesquisador da área de saneamento básico e especialista em indicadores sociais Marcelo Cortes Neri, no entanto, calcula que, para alcançar as Metas do Milênio, o Brasil precisa duplicar a velocidade de melhora dos índices relativos à coleta e tratamento de esgotos.

Para os milhões de brasileiros que carecem de serviços de saneamento básico, pouco importa que o País cumpra ou não as Metas do Milênio. O que eles precisam é da ação eficaz das autoridades para melhorar suas condições de vida e reduzir os riscos a que sua saúde está exposta.

Texto extraído do jornal “O Estado de S. Paulo”, edição de 10 janeiro 2011

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Um lugar para começar.

domingo, janeiro 2nd, 2011

Nada melhor que um ano novo para falar sobre planos, metas e resultados. Melhor ainda quando estão se iniciando períodos de governo Federal e Estadual. Há, nesses momentos, uma tendência a se buscar um recomeço como se houvesse sempre uma busca por algo que deveria ter sido feito e não foi ou, por algo que foi mal feito e, portanto merecesse ser refeito. O recomeçar pode ser importante e precisa caracterizar a persistência e a determinação na busca de uma meta e de resultados, principalmente quando se tem um planejamento e se sabe aonde se pretende chegar, cabendo na aplicação do prefixo – re – a execução do que já foi feito de forma radicalmente diferente para que se evite o alcance de um mesmo resultado ou de um de baixa performance. Ter um planejamento é essencial, é fundamental, é indispensável, é tudo que é necessário para que possam ser alcançados resultados. Fazer a gestão do planejamento é o que leva ao alcance de bons resultados. Assim, sem planejamento e sem gestão, se trabalha no caos de um dia a dia que pode resolver muitos problemas sem impedir que os mesmos se repitam periodicamente. Esta, infelizmente, ainda é uma característica muito forte da gestão pública. Com novos governantes ou não, o ano novo é um grande momento para começar a se fazer planejamentos estratégicos para o país, para os estados e para os municípios onde ainda não existem estes instrumentos de gestão e governança corporativa, mesmo que no poder público haja certa aversão a planejamento, principalmente os de longo prazo. O Brasil vive um extraordinário milagre brasileiro do século XXI que tem tudo para não repetir os resultados do que ocorreu na década de setenta, no entanto, as cidades com mais de 500 mil habitantes, com raras exceções, caminham para se tornar inabitáveis de acordo com os conceitos básicos de sustentabilidade ambiental e de saúde pública. Como cresceram e continuam crescendo de forma absolutamente descontrolada e sem qualquer integração com planos ou políticas de desenvolvimento urbano sustentável que conectem a gestão municipal com os programas de desenvolvimento estaduais e federais, a infra-estrutura existente não suporta a demanda crescente e os novos projetos de infra-estrutura são transformados em obras emergenciais, as quais, normalmente operam de forma deficiente, onerosa e sem alcance de seus objetivos plenos. Ter um planejamento como os tradicionalmente feitos mudará este cenário? Não. Ter projetos e obras de infra-estrutura contratados e executados como se faz até hoje via Lei 8.666/93 viabilizará no prazo necessário a moradia dos cidadãos com a qualidade de vida merecida para todos? Não. Ter os serviços públicos de saneamento, transporte urbano e de vias públicas gerenciados com o modelo atual, satisfará a população e garantirá a viabilidade empresarial dos serviços? Não. As cidades brasileiras, notadamente as do Norte e Nordeste brasileiro, são o lugar ideal para se por em prática o planejamento integrado que vise o alcance de metas de qualidade de vida a curto e médio prazo, estabelecendo um começo diferente e rápido onde a infra-estrutura delas, tanto a existente quanto a das áreas de expansão urbana, possam ser executadas e gerenciadas com a visão de sustentabilidade social, econômica e ambiental. O grande desafio é encontrar aliados no poder legislativo local, estadual e pior ainda, no federal, que entendam a linguagem da gestão eficiente dos serviços públicos, como a saída para a sobrevivência das cidades onde eles conseguem seus votos e aplicam suas emendas parlamentares.

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Gestão de serviços de saneamento

domingo, dezembro 19th, 2010

ARTIGO EXTRAÃDO DO SITE aguaonline.com.br

Mudanças em Paris na gestão dos serviços de saneamento.

A cidade de Paris conta atualmente com 2,2 milhões de habitantes, além de mais de um milhão de pessoas que vão à cidade trabalhar todos os dias. Para cobrir as necessidades de todas estas pessoas, é distribuída uma média de 550.000 metros cúbicos de água diários.Dispõe também de uma segunda rede de água não potável – um caso único no mundo – que é utilizada para limpar as ruas e regar as plantas da via pública, cujo consumo médio é de 170.000 metros cúbicos por dia. Em 1985, Jacques Chirac, então prefeito de Paris, decidiu confiar a distribuição da água ao setor privado com um contrato de concessão de 25 anos. Até então, a produção e distribuição da água, com a única exceção do faturamento, dependiam da gestão direta da cidade. Ao delegar a distribuição a empresas privadas, Chirac deu o primeiro passo para o desmantelamento deste serviço público que funcionava assim há décadas. Dois anos depois, em 1987, se estabeleceu uma sociedade de economia mista (SEM) para se encarregar da produção, a Prefeitura também outorgou à SEM o controle dos distribuidores privados, mesmo esses distribuidores fazendo parte da junta de administração da SEM. Deste modo, foi criado claro conflito de interesses.
Logo três empresas concessionárias privadas contavam com o controle absoluto de toda a produção e distribuição de água de Paris, uma situação que se prolongou durante quase 25 anos. Em relação à distribuição foram concedidos dois contratos de arrendamento de 25 anos – sem licitação pública – para cada uma das margens do Rio Sena. A Compagnie des Eaux de Paris, filial da companhia Générale des Eaux (grupo Veolia), obteve a responsabilidade de gerir a margem direita, ao norte do Sena; Eau et Force Parisienne des Eaux, filial de Lyonnaise des Eaux (grupo Suez), ficou com encargo da margem esquerda.

Houve mudanças quando a esquerda obteve maioria na Prefeitura de Paris, em 2001. Depois de décadas de controle da direita na Câmara Consistorial, as eleições municipais deram a vitória a uma coalizão de esquerdas que reunia socialistas, comunistas, verdes e outros setores. Uma nova equipe municipal, encabeçada pelo prefeito Bertrand Delanoé, decidiu rever por completo o serviço de água de Paris. Esta equipe não tardou em se dar conta de que havia uma total falta de controle sobre a delegação dos serviços do setor público, assim como sobre o suprimento de ditos serviços. Havia nebulosidade financeira e nenhum controle sobre as obras que estavam se realizando.
Foi decidido, antes de mais nada, restaurar as competências dos organismos de fiscalização da cidade para garantir um mínimo poder de mando e começar assim a retomar o controle dos serviços. Quando chegou o momento de renegociar os contratos com as concessionárias privadas, em 2003, o município exigiu que fosse feita uma série de obras importantes, para as quais as empresas em questão haviam reservado fundos consideráveis, mas que nunca havia saído do papel.

Com isto ficou claro que, ainda que o governo municipal se esforçasse por ser exigente nas negociações com as concessionárias, suas margens de manobra eram relativamente pequenas devido ao regramento em vigor da gestão delegada. Para definir qual poderia ser o melhor serviço de água para Paris, foram realizados estudos jurídicos, econômicos e técnicos e uma consulta entre todos os trabalhadores da água de Paris sobre a organização do serviço (tanto sobre questões técnicas como de gestão de pessoal e de patrimônio).
As eleições municipais de 2008 ofereceram a Bertrand Delanoé, candidato à reeleição, a oportunidade de comprometer-se diante dos cidadãos a recuperar a gestão pública integral da água em caso de que voltasse a ser eleito para a Prefeitura. E foi o que aconteceu. Já que o fim dos contratos de concessão estava previsto para 2009, era necessário reestruturar todo o sistema em apenas um ano e meio.

Muitos pensaram que o compromisso do prefeito de Paris era só uma pro mesa eleitoral. Até o final, inclusive as próprias empresas privadas estavam convencidas de que a prefeitura parisiense nunca levaria adiante seu compromisso. As negociações entre estas empresas e a Prefeitura – que abrangiam um grande número de temas, como o de pessoal, os sistemas de informação, os bens imóveis, os bens reversíveis e os hidrômetros, entre outros – foram mais ou menos difíceis segundo o caso. Embora as empresas privadas não tenham obstaculizado a remunicipalização, tampouco a facilitaram e, em algumas ocasiões, retiveram a informação.

Será a gestão pública mais eficiente do que a privada?

Ainda é cedo para fazer um balanço geral, já que a empresa pública só está funcionando desde o 1º de janeiro de 2010. Entretanto, já se podem observar as primeiras vantagens oferecidas pela gestão pública. Em primeiro lugar, os ganhos financeiros gerados pela reforma, que serão totalmente reinvestidos no serviço de água. Calcula-se que os benefícios iniciais se situam atualmente em torno de ¢35 milhões por ano; podendo ser mais.

A reforma permitirá estabilizar o preço do serviço de água de Paris a um nível inferior ao da média nacional. A conta de água dos parisienses inclui vários componentes: o abastecimento de água, o esgotamento sanitário e os impostos. O componente da água havia aumentado 260% desde a privatização do serviço, em 1985. Agora custa ¢1,00 por metro cúbico.

A volta da empresa pública de Paris deixa à vista uma importante fissura na vitrine comercial das multinacionais francesas da água. Os representantes da Suez e Veolia admitem: a perda do mercado parisiense os prejudica, do ponto de vista financeiro, mas também de imagem. Estas empresas apresentavam em todo o mundo a gestão da água de Paris como um modelo a seguir. Agora, já não podem fazê-lo. As empresas se queixam de que a decisão teria um impacto negativo em suas atividades no mercado internacional.
Rede de operadores públicos

Em 2009, foi criada em Paris a Aqua Pública Europeia, uma rede de operadores públicos de água europeus, por iniciativa de vários grupos, entre os quais está Ãgua de Paris. A rede aglutina atualmente operadores italianos, belgas, franceses e suíços; operadores espanhóis e alemães estão em processo de adesão. A luta pela gestão pública da água pode ser ganha -em Cochabamba, Paris ou Jacarta – se for obtida participação dos usuários e os cidadãos. Como autoridades locais e públicas, devemos dar exemplo e estabelecer uma gestão eficaz deste recurso tão frágil e imprescindível.
Autora

aguaonline.com.br

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Combate às perdas de água no Brasil

sábado, outubro 16th, 2010

As perdas de águas, como são tratadas no jargão dos serviços de saneamento, são na verdade o retrato ou o resultado das perdas gerenciais, pois refletem a ação gerencial mal feita ou a falta de ações gerenciais. Como técnico do setor há 25 anos e trabalhando com redução e controle de perdas há quase o mesmo tempo, os encontros que a Agenda Regula Brasil vem promovendo são muito importantes para consolidar a importância do fortalecimento do combate às perdas como uma ação gerencial. No Brasil temos grandes exemplos de empresas públicas como a SABESP – SP, a COPASA – MG, a CAESB – DF e a SANEPAR, como empresas estaduais que possuem perdas abaixo da média e sob controle. Entre os serviços municipais há destaques como o SANASA – Campinas ou DMAE – Novo Hamburgo e entre as concessionárias privadas, há destaques no trabalho da CAB – Cia. de Ãgua do Brasil e na Foz do Brasil.

As perdas de água estão entre os grandes males do setor, pois representam prejuízos diretos para as entidades prestadoras de serviços, tanto financeiros como operacionais e para a população, que em resumo tem que pagar tarifas maiores para superar a ineficiência da prestadora de serviço. Assim, os governos municipais e estaduais devem investir antes de tudo na profissionalização da gestão das entidades contratadas ou criadas para prestar os serviços de saneamento, de modo que possam ter índices de eficiência que representem maior qualidade de vida pela oferta de serviços de abastecimento de água permanentes e regulares. Em Maceió, ao profissionalizar a administração da CASAL – Cia. de Saneamento de Alagoas, o Governador Téo Vilela tirou o apadrinhamento político e ideológico que levava a empresa para um processo evidente de extinção.

Ãlvaro Menezes.

Perdas de água caem, mas ainda geram prejuízo de quase R$ 4 bilhões/ano ao País.Desperdício de água e controle de perdas nos sistemas de abastecimento serão tema de painel durante a segunda versão da Agenda Regula Brasil que acontece no Rio de Janeiro.

Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2008) indicam que o valor médio das perdas de faturamento para todo o conjunto de prestadores de serviços do setor foi de 37,4%, menor valor de toda a série histórica de 14 anos do SNIS, iniciada em 1995. Mesmo assim, ainda é muito alta, se comparadas a países como o Japão, onde as perdas no sistema de abastecimento beiram os 4,5%.

O segundo menor valor da série do SNIS ocorreu há dez anos atrás, em 1999, e foi de 38,0%. Em relação ao ano anterior, de 2007, verifica-se que houve uma redução de 1,7 ponto percentual. Mas segundo os indicadores oficiais, as perdas de água no Brasil continuam sendo um dos maiores desafios do setor, gerando um prejuízo anual de cerca de R$ 4 bilhões. Conforme as regiões geográficas, o valor médio foi de 52,4% no Norte, 44,8% no Nordeste, 36,2% no Sudeste, 26,7% no Sul e 33,7% no Centro-Oeste.

O assunto vai ser tema de um painel que será realizado durante a Agenda Regula Brasil, no Centro de Convenções RB1, no Rio de Janeiro, nos dias 18 e 19 de outubro de 2010, com apoio da Associação Brasileira das Agências Reguladoras (ABAR) e diversas entidades de saneamento. O Seminário vai reunir todo o setor para discutir experiências de estados e municípios que já implantaram suas agências, além dos modelos de agências consorciadas.

O objetivo é sensibilizar e conscientizar a sociedade civil e os poderes executivos e legislativos sobre a importância das agências reguladoras para melhorar a gestão e a eficiência dos serviços de saneamento, além de garantir o equilíbrio nas relações entre o usuário, o poder concedente e o prestador de serviços de saneamento.

Durante dois dias, representantes de prefeituras de todo o País e das concessionárias de serviços públicos de saneamento (estaduais, municipais e privadas) vão se reunir para debater as questões que envolvem a regulação e a gestão dos serviços de saneamento. A Agenda Regula Brasil prevê a participação de executivos, gerentes e técnicos das prefeituras e serviços autônomos de água e esgotos dos Municípios, além de secretarias ligadas aos serviços públicos e meio ambiente, órgãos públicos federais (Ministério das Cidades, Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental – SNSA, FUNASA), órgãos de financiamento do setor de saneamento (BNDES e CAIXA), Comitês e Agências de Bacia, agências reguladoras e entidades do setor.

O evento já conta com apoio da ABAR, ABAS, ABCE, ABCON, Sistema ABIMAQ, ABTC, AESBE, ANNAMA, ANPV, ARSESP, CEIVAP, CONPE, Consórcio PCJ, FEBRAE, FNE. A Agenda Regula Brasil será também uma oportunidade única para fabricantes de materiais, equipamentos e prestadores de serviços de saneamento mostrarem seus produtos e tecnologias às empresas públicas e privadas de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, resíduos sólidos e drenagem.

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Qualidade na gestão é o maior desafio do setor de saneamento

segunda-feira, outubro 11th, 2010

Regulação é o caminho para melhorar a eficiência e otimizar os investimentos

A implantação de mecanismos de regulação dos sistemas de saneamento, especialmente abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos, através de agências reguladoras, é hoje pré-requisito para melhorar a qualidade da gestão dos serviços no Brasil e, conseqüentemente, dar mais eficiência ao setor. Somente dessa maneira, será possível viabilizar os investimentos necessários para a universalização dos serviços, estimados pelo Ministério das Cidades em cerca de R$ 240 bilhões (valores corrigidos).

Com base na nova legislação, que determina a implantação de agências reguladoras para fiscalizar os serviços de saneamento em todo o país, além da elaboração de Planos Municipais de Saneamento, a segunda edição da Agenda Regula Brasil, que acontece nos dias 18 e 19 de outubro, no Rio de Janeiro, vai colocar em debate experiências e modelos para a disseminação desses mecanismos pelo País afora.

Atualmente, dos 5.565 municípios brasileiros, apenas 161 (2,8% do total) cumpriram até agora a nova Lei do Saneamento e estão com seus planos de saneamento concluídos, de acordo com dados da Associação Brasileira das Agências Reguladoras (ABAR). A demora na implantação dos planos e na criação de Agências Reguladoras vem sendo um dos principais entraves à melhoria da qualidade da gestão dos serviços e à execução de projetos no setor, considerado um dos maiores desafios para o novo presidente e governadores eleitos.

No Estado do Rio, que vai sediar a 2ª versão da Agenda Regula Brasil, por exemplo, a meta do governador Sergio Cabral, reeleito no primeiro turno, era elevar de 30% para 80% em 10 anos a cobertura de esgoto tratado, com investimentos de R$ 8 bilhões. Refazendo as contas, o governo do Estado já anunciou que essa necessidade dobrou: agora será preciso investir R$ 15 bilhões – R$ 1,5 bilhão por ano, no mesmo período.

A Agenda Regula Brasil, versão Rio de Janeiro, acontecerá no Centro de Convenções RB1, no Rio de Janeiro. Entre outros objetivos, a Agenda pretende dar prosseguimento a uma ampla discussão sobre o assunto, iniciada no ano passado, em Guaratinguetá, São Paulo, com o objetivo de estimular todos os municípios do País a criarem formas de regulação, fortalecendo a ação reguladora dos serviços concedidos e a segurança do setor privado para investir no setor. Para isso, é fundamental, sensibilizar e conscientizar a sociedade civil e os poderes executivos e legislativos municipais, sobre a importância das agências para o equilíbrio nas relações entre usuário, poder concedente e prestador de serviços de saneamento.

Entre outras entidades, a Agenda Regula Brasil já conta com apoio da ABAR (Associação Brasileira das Agências Reguladoras), ABAS (Associação Brasileira de Ãguas Subterrâneas), ABCE (Associação Brasileira de Consultores de Engenharia), ABCON (Associação Brasileira das Concessionárias Privadas),Sistema ABIMAQ, ASFAMAS (Associação dos Fabricantes de Materiais e Equipamentos de Saneamento),ABTC (Associação dos Fabricantes de Tubos de Concreto), AESBE (Associação Brasileira das Empresas Estaduais, ANAMMA (Associação Nacional dos Órgãos Municipais de Meio Ambiente), ANPV(Associação Nacional dos Prefeitos e Vice Prefeitos do Brasil), ARSESP (Agência Reguladora do Estado de São Paulo), CEIVAP (Comitê da Bacia do Paraíba do Sul), COMPÉ (Comitê de Bacia dos Rios Muriaé, Paraibuna e Pombas), Consórcio PCJ, FEBRAE, FNE (Federação Nacional dos Engenheiros) e SARJ(Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas do Estado do Rio de Janeiro).

NOMES JÃ CONFIRMADOS NA AGENDA REGULA BRASIL:

Rogério de Paula Tavares, Superintendente Nacional de Saneamento e Infraestrutura da CAIXA

Hugo Sérgio de Oliveira, Presidente da Agência Reguladora de São Paulo – ARSESP

Flávio Naccache, Superintendente de Assuntos Regulatórios da SABESP

Elias Nunes – Presidente da Agência Reguladora de Serviços de Saneamento Básico de Natal

Yves Besse – Presidente da ABCON

Dalto Fávero Brochi – Secretário Executivo do Consórcio PCJ

Alexandre Vilella – Gerente de Projetos Técnicos do Consórcio PCJ

COMO SE INSCREVER?

Para mais informação ligue para o Atendimento ao Participante: (21) 2262-9401 / 2215-2245

ou pelo e-mail: cristiana.iop@planejabrasil.com.br

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ÃGUAS PASSADAS. FUTURO NO PRETÉRITO.

quinta-feira, julho 8th, 2010

Passada a enxurrada em Alagoas, 268.186 pessoas foram afetadas por uma das maiores cheias já registradas. Há ainda a contabilização de 26 mortos. Entre desabrigados e desalojados, quase sem referencial e sem documentos, 72.757 pessoas. Bem, águas passadas não movem moinhos diz o velho ditado. Apesar de muitas histórias que buscassem justificar a causa de tanta tragédia e surpreendente fúria de rios que passam anos e anos quase secos, restou a sensação de que algo faltou. Na verdade houve, e há uma louvável mobilização para amparar uma imensa massa de pobres e para recuperar os estragos causados. Agiu com competência o Governo Estadual e atuaram de forma responsável, solidária e transparente as autoridades, os militares, os técnicos, enfim, os membros de órgãos estaduais e municipais. O desastre já é passado perfeito e no indicativo do presente, muitas ações como a relocação de cidades ou parte delas, e até a inacreditável proposta de realização de estudos técnicos para contenção das cheias e proteção contra as mesmas vem sendo discutidas. Uma pergunta que fica é: por que isso aconteceu? Uma resposta bem direta é: porque faltam o planejamento urbano e o de bacias hidrográficas. Simples, parece ser. Sem dúvidas muito seria evitado se as cidades pudessem crescer de forma planejada e mais que isto, geridas de acordo com suas necessidades, condições ambientais e tendências de negócios. Muito mais seria evitado se as bacias hidrográficas tivessem planos diretores e se os sistemas integrados de gestão fossem reais. Seria, seria, poderia… Há uma enorme importância na interpretação do uso do futuro do pretérito nessas situações, porque ele é um cômodo meio de se encontrar respostas e um grande inimigo da busca persistente por soluções sustentáveis, tanto do ponto de vista ecológico quanto social e econômico. Haveria então condições de se imaginar que daqui para frente o verbo irá para o futuro perfeito e será possível ter implantados projetos de gestão de bacias hidrográficas com sistemas de contenção de cheias, monitoramento de tempo, clima e vazão devidamente acompanhados, proteção das margens dos rios, desassoreamento de leitos de rios e, até nas cidades, a construção de obras para proteção das áreas onde não é possível remanejar mais as populações instaladas há anos? Poderia se supor que as Prefeituras iriam adotar medidas para não só elaborar, mas também para aplicar os planos municipais de saneamento, ou de urbanização? Um futuro é certo e não é do pretérito. Se as cidades, os Estados e o Governo Federal não se envolverem ativamente na implementação das medidas que são velhas conhecidas de todos como a gestão das bacias hidrográficas e das cidades, haverá novas enxurradas, novas cheias, novos desastres, com o agravante de que poderão ser piores que o último, de acordo com os reais resultados de estudos hidrológicos, normalmente esquecidos. É um grande desafio no meio de tantas necessidades que essas cidades pobres do nordeste e do norte possuem, impor a realização de obras que não serão inauguradas com festas e banhos de bica.

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