Um cenário ordinário para os cidadãos em geral. Imagine-se numa data feriada prolongada, a exemplo da que ora se inicia. Programa familiar dos mais corriqueiros e aprazíveis: deleite de uma das belas praias do litoral sul alagoano na companhia de sua família.
Dentre as mais procuradas, com certeza, Barra de São Miguel, Praias do Gunga ou do Francês. Para os que se dispõem a um programa um pouco mais distante, talvez Duas Barras, Jequiá da Praia, quiçá Miai (“de Baixo” ou “de Cima”) ou mesmo Pontal de Coruripe ou do Peba, rumo à inigualável foz do “Velho Chico”.
Após um dia agradável, de quebra de rotina e recarga de suas energias e fluidos, por certo chega a hora de voltar!
O retorno, como regra, dá-se ao final do dia, seja naquele mesmo em que se deu a investida, seja no desfecho da data feriada.
Como todo gozo e deleite têm seu preço, um pequeno inconveniente inerente a tais dias e programas: acúmulo de veículos, filas extensas, demora no regresso!
A mim, confesso, o cenário não se mostra tão mais desgastante do que uma lamentável constatação que, em momentos de maior fraqueza espiritual, pode me fazer até descrer nos homens, qual seja, a opção de motoristas que, conduzindo veículos originariamente atrás do meu, resolvem passar a trafegar pelo acostamento, mesmo lhe sendo induvidosa a incorreção do ato.
Ainda que invocando todos os princípios budistas, orientais, técnicas de relaxamento ou similares, não consigo obter nível de inteligência e equilíbrio emocional que me faça ler a cena de forma diversa! A mensagem que o “amigo” me transmite é: “você pode esperar, eu, não, até porque sou mais esperto e, você, menos sagaz. Fique aí, que vou ganhar alguns minutos sobre você, trafegando por onde não poderia e obtendo uma vaga mais adiante nesta fila, em detrimento de você e dos que estão a sua frente, espremendo-me por entre os carros e pondo em risco a nós todos!”
Para mim, não socorrem dúvidas de que tal conduta, quando adotada por vários condutores, se não for a causa isolada, ao menos é claramente a maior agravante da instalação do caos daquele engarrafamento. Traduz-se numa sistemática em que ninguém respeita a vez do outro, em que a fila não é observada e na qual ficam todos, a todo instante, tentando disputar um mesmo espaço por vários caminhos e brechas.
Calhou de este ano enveredar em três viagens aos Estados Unidos da América. Quanto mais vezes vou àquele país, mais amo o nosso e mais patriota me torno! Nada paga o calor do brasileiro. E, apenas ratificando, o americano, por certo, é coberto de defeitos, como todos os povos o são!
Mas há algo que é preciso ser louvado na cultura, educação e formação daquele país: as pessoas nascem, crescem e morrem se aliando na fiscalização e cumprimento de normas gerais, notadamente no cumprimento de filas (“lines”) e no respeito ao outro no trânsito.
Precisei destas três viagens para perceber e confirmar que o americano segue uma regra consuetudinária no trânsito, segundo a qual filas de carros em sentidos opostos, na qual uma delas precisa cruzar a frente de outra, são naturalmente objeto de revezamento, 01(um) carro por 01(um). Ou seja, segue caminho o de uma fila, o segundo dá a vez para o primeiro da outra e, assim, sucessivamente.
Trata-se de cultura lógica e por demais adequada por eles invariavelmente seguida, sendo que, com sua adoção, ninguém tem mais vantagem ou prejuízo que ninguém, todos têm igualdade de condições, tempo e tratativa.
Aqui, especialmente no exemplo da data feriada, precisamos criar regras punitivas, valendo lembrar que o Código de Trânsito Brasileiro, em seu Art. 193, considera a conduta de trafegar pelo acostamento como infração de natureza gravíssima, o que não basta porque, à falta de fiscalização e de efetivação da penalização (multa), vários condutores incidem em conduta que ignora a conhecida regra proibitiva, mas também a maior delas: a regra do bom convívio e do respeito ao outro.
Mais lamentável, portanto, é a ausência de fiscalização de trânsito e a inexistência de aplicação das merecidas punições, neste caso específico, o que, certamente, deve decorrer, ao menos em parte, da condição político-social-econômica da maioria dos infratores, os quais de algum modo devem influenciar na estratégia – ou ausência dela – da fiscalização do trânsito naquelas oportunidades. Isso interessa “a eles”, não a mim, não a você!
Mas não! Não deixemos de acreditar no homem, porém, mais do que isso, não deixemos de crer em nós mesmos, não abandonemos jamais nossos princípios, não sigamos jamais a legião dos infratores! Nunca pensemos: se eles podem, por que eu também não posso? Se ninguém segue as regras, por que eu hei de segui-las?
Não! Apesar de não haver “verdade absoluta”, neste caso em particular, eu ouso relativizar esta assertiva e afirmar: o errado é ele, são eles, não eu, não nós que aqui nos encontramos – retilínea e honrosamente – na fila!
Caro leitor, é o que eu recomendo, neste caso e nas diversas “datas feriadas” e nas “filas da vida”: faça o que eu digo, faça o que eu faço!
sábado, 5 de dezembro de 2009 às 9:10
Muito oportuna a sua abordagem, meu caro Alessandro.
Suas postagens estão excelentes. É um prazer tê-lo conosco.
Um grande abraço.
Pedro Oliveira
sábado, 5 de dezembro de 2009 às 10:52
Caro Pedro, fico feliz e grato por suas palavras. Forte abraço!
sábado, 5 de dezembro de 2009 às 13:38
Dr. Alessandro, o tema é importantíssimo e vejo como uma falta de civilidade, infelizmente, coisas de brasileiros que não cumprem as regras e acham que está tudo ótimo e, ainda, se acham espertos e inteligentes. Para mim, de fato, são ignorantes. Para se viver em harmonia, há necessidade de se obedecer as normas, respeitar limites. Lembrando o grande Emile Durkheim, a liberdade só existe se existirem regras.
sábado, 5 de dezembro de 2009 às 17:52
Caríssimo Alessandro, seu texto é muito bom. Os comentários dizem tudo. O primeiro, de um renomado jornalista e colega de ofício. O segundo, de uma professora culta e intelectual. Parabéns!!!
domingo, 6 de dezembro de 2009 às 0:45
Dra. Laís, excelente a lembrança de Durkheim! Espero que possamos contribuir de alguma forma para que as pessoas possam refletir sobre estes desvios de conduta.
Amigo Pedro Menezes, de fato me sinto extremamente gratificado com as palavras de Pedro Oliveira e de Laís Zau, considerando a competëncia e nível de intelectualidade de ambos.
Abraços a todos e muito obrigado!
domingo, 6 de dezembro de 2009 às 16:30
Alessandro, achei muito interessante o texto! Já me deparei em diversas situações deste tipo e a experiência vivida não me traz boas recordações… Concordo também que não devemos abandonar nossos princípios, mesmo sabendo que a impunidade nos leva ao descrédito e à desconfiança. Parabéns!!!
domingo, 3 de janeiro de 2010 às 15:10
Amigo Alessandro, confesso-lhe que o tema em pauta mexe por demais com a minha pessoa. A irritação provocada com tais fatos faz me desistir por vezes de exercer meu sagrado direito ao lazer. Por respeitar ao extremo o direito alheio sou feroz defensor dos meus. Não posso aceitar e não tenho como entender tal comportamento humano. O que faz os praticantes de tais atos pensar que são mais importantes que o resto da humanidade? Por que eu posso esperar e eles não? O pior disso tudo é que essa abusiva prática é reflexo de algo muito mais profundo. É derivado de uma total falta de consciência, de civilidade, de convívio em sociedade. E a consequência não poderia ser outra. Nosso Estado hoje é o pior de toda a federação em todos os índices sociais e permanecerá assim por muito tempo enquanto essa mentalidade não for radicalmente alterada.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010 às 7:56
Marcelo, concordo veementemente com todas as suas palavras. Como disse, a mim estes fatos chegam a me deixar descrédulo com o ser humano. Mas não percamos a esperança. Muito bom tê-lo como leitor e poder desfrutar de suas contribuições e comentários valiosos. Abs