O uso de anabolizantes para aumentar a forma física é um artifício usado por pessoas de todas as idades, com riscos ainda maiores para quem está na adolescência. Nas meninas, a substância pode causar o aparecimento de características masculinas, como quedas de cabelos, o surgimento de mais pêlos no corpo e voz mais grossa.
A família de uma adolescente de 16 anos que morreu em Osasco, na Grande São Paulo, acredita que o uso da substância pode ser responsável pela morte da garota.
Além de impactos no crescimento, o uso do produto pode acarretar também alterações de comportamento e até arritmia cardíaca.
De acordo com o educador físico Daniel Paulino, pesquisador do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercícios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por estar em fase de crescimento, com grande quantidade natural de hormônios no corpo, os adolescentes estão mais suscetíveis aos efeitos das drogas usadas para o aumento de músculos.
“Eles já têm uma grande quantidade de hormônios no corpo e colocam ainda mais, geralmente uma dose dez vezes maior do que a recomendada para tratamento médico”, explicou Paulino. “Isso pode acelerar o fechamento dos ossos, entre as mãos e os braços, acabando com o crescimento. São mudanças que ficam para toda a vida”.
Morte
A mãe da adolescente Jenyfer Sthefane disse na manhã desta segunda-feira (30), após o sepultamento da filha em Praia Grande, Litoral Sul de São Paulo, que a morte da jovem foi causada por sua vaidade excessiva. Amigos e parentes da garota que estiveram no velório e no enterro relataram que a jovem era muito preocupada com seu corpo, e queria estar cada vez mais musculosa e bonita, diferente de todos.
“Ela era vaidosa até demais, foi a vaidade dela que a matou”, contou a a bartender Andrenes Augusta da Silva, que disse saber que a filha usava anabolizantes para ficar mais forte. “Eu acredito que foi isso que a matou, mas a gente tem que esperar o laudo. Talvez tenha até algo mais”, afirmou, sem especificar se desconfiava que a filha consumia outras substâncias.
Jenyfer abandonou a escola há três anos e passava o dia na academia em Praia Grande, onde morava com a avó. Ela adorava tatuagens, e foi para fazer mais uma que ela foi até o estúdio de um amigo em Osasco na terça-feira (24).
O boletim de ocorrência feito na polícia informa que a vítima teve parada cardiorrespiratória após tomar anestesia. O tatuador nega. De acordo com o Hospital Municipal Antônio Giglio, a adolescente chegou ao local em estado grave, chegou a ser reanimada pelos médicos, mas acabou sendo levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde foi constatada a morte cerebral.
Andrenes estava há cinco anos sem ver a filha. Ela morava nos Estados Unidos, para onde a adolescente iria se mudar no fim do ano – a viagem estava marcada para o dia 15 de dezembro. “Ela mudou muito, estava agressiva, sem paciência com a família”, contou ela, que admitiu que o afastamento pode ter colaborado para as mudanças na vida da filha.
“Ela já não tinha o pai [que mora em Minas Gerais], ficou sem a mãe também. Mas a mãe foi em busca de um futuro melhor”, afirmou Andrenes. A experiência serviu de alerta. “Mães que estão longe, não tentem fazer como eu fiz. Dar tudo para o seu filho não supre a distância.”
Culto ao corpo
Segundo amigos que frequentavam a mesma academia que ela, Jenyfer era assídua, ia todos os dias no período da noite e ficava cerca de duas horas no local. A maior parte de seus amigos sabia que ela usava os anabolizantes.
“Ela se preocupava com a coxa, o bumbum. Queria ficar mais bonita para ir para os Estados Unidos. Falava ‘tenho que malhar mais, estou mole’”, contou o tatuador Fernando Corrêa, que estava com a jovem quando ela passou mal. Foi ele que chamou a ambulância e acompanhou a jovem ao hospital.
Segundo Fernando, ela foi ao seu estúdio para retocar uma tatuagem antes da viagem, mas o procedimento ainda não havia começado quando ela passou mal.
Vizinha e amiga de Jenyfer, a professora Raquel Borelli, de 25 anos, confirma o culto ao corpo feito pela menina. “Ela cultuava muito a beleza dela, era muito vaidosa. Queria ser sempre a mais bonita, estar com o corpo mais bonito, usava os anabolizantes para acelerar isso”, contou. “Ela estava usando bastante nos últimos tempos, os amigos já tinham falado para ela parar.”
A barriga também era uma preocupação constante. “Ela achava que estava magra demais, reclamava da barriga, mas ela estava linda”, contou o atendente de vendas Rodrigo Felix, de 25 anos. “Você entra na academia, começa a malhar, e como o resultado é a longo prazo, com o anabolizante é mais rápido”, afirmou.
“Ela queria ser cada vez mais bonita, diferente de todo mundo. A vida dela foi embora assim, de uma forma tão rápida”, completou a mãe da adolescente.
O laudo da necropsia do Instituto Médico-Legal vai esclarecer o que levou a garota à parada cardíaca. o laudo sai em até 45 dias. A Polícia Civil abriu inquérito para investigar a morte.