Em seu maior esforço de reconstrução desde o Plano Marshall, o governo dos EUA gastou US$ 53 bilhões (R$ 91,8 bilhões) no Iraque desde a invasão em 2003, construindo hospitais, estações de tratamento de água, subestações de energia elétrica, escolas e pontes.
Mas há uma preocupação cada vez maior por parte de funcionários norte-americanos de que o Iraque não seja capaz de manter adequadamente essas instalações depois que os EUA saÃrem, desperdiçando potencialmente milhões de dólares e prejudicando a capacidade de o paÃs fornecer serviços básicos para sua população.
Os projetos são de todos os tipos – desde uma inovadora estação de tratamento de água de US$ 270 milhões (R$ 467 milhões) em Nasiriya, que funciona a uma fração de sua capacidade total porque é muito sofisticada para os trabalhadores iraquianos operarem, passando por um mercado para produtores agrÃcolas em que os mesmos não foram capazes de decidir como dividir o espaço, até um grande hospital fechado logo depois de ter sido entregue porque o governo não foi capaz de fornecer equipamentos, equipe médica ou eletricidade.
A preocupação quanto à sustentabilidade dos projetos surge à medida que o Iraque se prepara para eleições nacionais cruciais em janeiro e à medida que a reconstrução emerge como um imperativo polÃtico no paÃs, sobrepujando a segurança em algumas partes como principal preocupação de um eleitorado frustrado com a falta de progresso social, econômico e polÃtico. As forças dos EUA devem começar a se retirar em grande número no ano que vem.
Em centenas de casos durante os últimos dois anos, o governo iraquiano recusou ou postergou a transferência dos projetos realizados pelos EUA porque não foi capaz de fornecer pessoal capacitado para geri-los, dizem funcionários do governo iraquiano e norte-americano.
Outros projetos, incluindo hospitais, escolas e prisões construÃdas com fundos dos EUA, continuaram vazios muito tempo depois de sua conclusão porque não havia iraquianos suficientemente treinados para tocá-los.
“À medida que projetos de construção de grande escala foram concluÃdos – estações de energia, sistemas de tratamento de água e indústrias de petróleo -, cresceu a preocupação quanto à habilidade dos iraquianos para mantê-los e como será financiado seu funcionamento quando eles forem entregues à s autoridades iraquianas”, informou uma análise recente preparada pelo Serviço de Pesquisa do Congresso.
O escritório de Responsabilidade do governo e o inspetor-geral para a reconstrução do Iraque também divulgaram relatórios nos últimos meses sobre o potencial fracasso dos projetos financiados pelos EUA uma vez que estes forem transferidos para o Iraque.
Stuart W. Bowen Jr., inspetor-geral para a reconstrução do Iraque, disse que sua agência havia “regularmente levantado questões sobre o potencial desperdÃcio de dinheiro dos contribuintes norte-americanos resultante dos projetos de reconstrução que foram mal planejados, mal transferidos, ou insuficientemente sustentados pelo governo iraquiano”.
A culpa é de ambos os paÃses, dizem os oficiais. Enquanto o Iraque tem sido frequentemente culpado pelo mau gerenciamento, as autoridades norte-americanas falharam repetidamente em perguntar aos iraquianos que tipo de projetos eles precisavam e não deram seguimento ao treinamento adequado. E quer os centros de saúde e estações de energia construÃdas pelos EUA sejam ou não utilizados como o previsto, as companhias dos EUA que ficaram com a maior parte dos contratos de reconstrução do governo federal foram pagas.
O governo iraquiano, pressionado por autoridades norte-americanas, prometeu começar a gastar mais de seu próprio dinheiro na reconstrução, mas o paÃs está enfrentando um déficit orçamentário substancial por causa da queda nos preços internacionais do petróleo.
O primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki insistiu que a reconstrução é a próxima tarefa. O que não está claro é de onde virão os US$ 400 bilhões (R$ 693 bilhões) que o governo diz que precisa.
“Usaremos os rendimentos que temos com o petróleo, mas o governo sente que precisa fazer mais do que isso para reconstruir o paÃs”, disse Ali al-Alak, conselheiro de al-Maliki.
No meio tempo, os norte-americanos – especialistas civis e militares em reconstrução – continuam a deixar o paÃs em grandes números, levando com eles seu dinheiro, equipamento e conhecimento.
Apesar dos US$ 53 bilhões (R$ 91,8 bilhões) gastos pelos Estados Unidos, muitos iraquianos consideram o esforço de reconstrução um desperdÃcio. Ali Ghalib Baban, ministro iraquiano do planejamento, disse que ele não teve um impacto discernÃvel. “Talvez eles tenham investido”, disse, “mas o Iraque não percebe”.
Os iraquianos, para quem os edifÃcios bombardeados são parte corriqueira da vida urbana, também dizem que viram poucas provas da reconstrução.
“Onde está a reconstrução?”, perguntou Sahar Kadhum, morador de Kut, a cerca de 160 quilômetros a sudeste de Bagdá. “A cidade está descansando sobre montanhas de lixo.”