Posts para a tag ‘condição de vida’

Reflexões de uma eleitora arrependida e indecisa

terça-feira, julho 27th, 2010

 A caminhada é longa, mas Fátima Dolores dispensou o ônibus. Decidiu enfrentar a pé os quilômetros que separam sua casa, no Tabuleiro, da seção eleitoral, no Feitosa. Quer pensar melhor. Indecisa, ainda não sabe quem merece de seu voto, arma tão preciosa e poderosa. Arrependeu-se do candidato que escolheu na eleição passada: ele traiu sua boa fé e enveredou-se para o caminho da corrupção.

 Agora Fátima não pretende cometer o mesmo erro: vai pensar em propostas, em condutas, e não mais na “cara de bonzinho”, como a do candidato corrupto que ajudou a eleger. Não quer mais ser enganada pelos tapinhas nas costas, sorrisos, abraços, apertos de mão e beijinhos nas crianças.

 Trocando os passos em direção ao local de votação, Fátima pensa na sua vida difícil e reflete que os tão prometidos projetos sociais nunca foram convertidos em realidade. O posto de saúde, a escola e o saneamento básico permanecem nas palavras tão enfaticamente proferidas pelo candidato durante a campanha. Ela pensa nas crianças que brincam entre esgotos e contraem doenças e, contrariada, pensa nas promessas de que as soluções viriam em pouco tempo. Tudo farsa daquele “cara de bonzinho”!

 Em suas reflexões, Fátima revolta-se com o candidato que lhe virou as costas após as eleições e que ficou mais rico. Ela leu nos jornais que o sujeito em quem votou deixou de lado os compromissos assumidos na campanha para, em troca de favores, aprovar projetos encomendados por grandes empresários do setor financeiro, estimulando assim a especulação em prejuízo do bem-estar social.

 O sofrimento – e não o estudo – ensinou Fátima que o voto é o bem mais precioso para um cidadão que deseja uma sociedade justa. A pouca escolaridade a salvou do analfabetismo, mas limitou sua condição de vida. Ela sente na pele, mas não distingue a diferença entre um projeto que prioriza o social e um projeto que prioriza o financeiro.

 Ela e seus vizinhos do Tabuleiro sofrem as consequências dessa diferença quando deixa-se de gerar empregos para cortar “gastos essenciais” a pretexto de conter a inflação. Sofrem quando deixa-se de recuperar o salário-mínimo a pretexto de reduzir a vulnerabilidade externa em nível de administração cambial. São penalizados quando deixa-se de investir na distribuição de renda a pretexto de preservar nas mãos de poucos extensões de terra maiores que países inteiros.

 Fátima e seus vizinhos amargam no dia-a-dia o sofrimento de não ter acesso à educação e à saúde porque os defensores dos projetos financeiros durante anos deixaram de lado o desenvolvimento social para buscar estabilidade monetária, tendo o “controle” da inflação como único objetivo macroeconômico, a exemplo do que foi feito no período 1995-2002, quando a palavra de ordem era privatizar tudo, inclusive escolas e hospitais, afastando ainda mais a população pobre da educação, da saúde e das oportunidades de emprego.

 Sem emprego, sem educação e excluído das oportunidades de trabalho, o vizinho de Fátima busca refúgio nas drogas e envereda-se para o crime, aumentando a violência dos assassinatos e assaltos.

 A longa caminhada de Fátima rumo à seção eleitoral a fez refletir que quem determina a sua qualidade de vida não é apenas o candidato, mas principalmente o projeto que se implanta no país: o econômico-social ou o econômico-financeiro. Fátima, em sua cansativa caminhada, começa a entender que a mídia televisiva, informatizada, radiofônica e impressa, quando alinha-se ao lado do financeiro, por exemplo, manipula a opinião pública para esse lado, omitindo informações, denegrindo uns e exaltando outros.

 Omite, por exemplo, que um administrador semi-analfabeto criou mais escolas de primeiro e segundo graus, escolas profissionalizantes e universidades do que o administrador poliglota e intelectual que o antecedeu.

 Embora angustiada com vizinhos que – não poucos – optaram por trocar seus inestimáveis votos por tijolos, algum dinheiro e promessas, Fátima está convencida de que desta vez pelo menos ela vai acertar: votará de acordo com sua consciência!

PDF Printer    Enviar artigo em PDF