Hoje, logo de manhã, ao ligar a TV, fui atingido por uma rajada de palavras “encavaladas†umas sobre as outras. Isso me causou irritação. Era um comercial local para “divulgar†promoções a R$…,99 de uma loja com filial em Maceió. O “tiroteio†vocabular foi disparado para acomodar o maior número de ofertas dentro do tempo mÃnimo comprado pelo anunciante. Um tipo agressivo e jurássico de propaganda, de duvidosa eficiência, já abolido em quase todo o paÃs, mas plenamente adotado em Alagoas.
Quem é atingido por esse “bombardeio†começa o dia um tanto “alteradoâ€, nervoso, sintoma que, mesmo subconsciente, contribui para agravar o inevitável mau humor que decorre do caótico trânsito na ida de casa para o trabalho.
Profissionais da publicidade daqui de Alagoas já demonstraram seu talento e criatividade em muitas oportunidades, mas persiste há muitos anos a generalizada baixa qualidade dos comerciais, talvez por não haver nos anunciantes – em geral – preocupação em investir para anunciar seus produtos de maneira mais elaborada, mais “civilizadaâ€.
Ao lado de toda essa celeuma, a qualidade do produto raramente é alvo da propaganda. É mais fácil tentar atrair o consumidor por meio de preços ilusoriamente mais baixos, como é o caso do R$…,99 ( feliz daquele que recebe o troco de 1 centavo!).
No mundo da propaganda também acontece uma velada “ditaduraâ€: mesmo sem sair da poltrona, o telespectador aciona o controle remoto para mudar de canal e escolher outro programa, mas não escolhe o comercial, que é enxertado entre e até dentro da programação. São comuns as publicidades que usam artifÃcios de caráter duvidoso para deixar o telespectador vulnerável, influenciado até ser convencido por milhões de repetições, criando desejos desnecessários de consumo.
A falta de questionamento, de senso crÃtico, contribui para que sejamos infernizados, logo nas primeiras horas do dia, por essa saraivada de comerciais de baixÃssima ou nenhuma qualidade. Por outro lado, embora poucos, há bons comerciais, direcionados para a educação, contra preconceitos e injustiças. Mas são rarÃssimas exceções.
Muito mais do que novelas, programação infantil e filmes, somos levados a concluir que a propaganda é a principal responsável por aquela tão falada “influência negativa†na formação de crianças e até mesmo de adultos. Preocupada apenas em “influenciar†para vender, a propaganda não exita em alimentar preconceitos e sentimentalismos para estimular o consumismo. Forte e triste exemplo disso é o comercial que busca influenciar o pai a comprar um carro novo quando o filho tem “vergonha†de ser deixado com o carro velho na porta da balada, onde estão os amigos.
Não somente os publicitários, mas consumidores e anunciantes, somos todos responsáveis pela qualidade da publicidade, poderoso instrumento usado em todas as atividades humanas que influencia o comportamento, a educação e a cultura de todos, sem distinções. Criticar para melhorar: essa é a nossa arma para responder ao “tiroteio†vocabular que nos atinge logo de manhã, todos os dias, dentro de nossa própria casa.

