Filhos adotivos e naturais são iguais no amor dos pais
Ontem encontrei um colega advogado que exibia no celular as fotos de seu filho nascido há 40 dias. É o segundo do casal e em uma das fotos aparece aconchegado nos braços do irmão, que tem aproximadamente 10 anos. Sabendo que o mais velho fora adotado, perguntei-lhe qual a diferença entre o biológico e o adotivo, ao que me respondeu: “absolutamente nenhuma! Aliás, eu nem me lembro desse fato!”
Sendo esse o sentimento comum a toda pessoa que adota, gostaria de chamar a atenção daqueles casais que estão tentando engravidar. Entendo que o desejo de ter um filho com as suas características genéticas é o sonho mais singular de todo casal, mas às vezes a ansiedade e a demora na concretização dessa gravidez acabam trazendo frustração e sofrimento. Paralelamente, há milhares de crianças inseridas em programas de acolhimento institucional que também esperam ansiosamente por uma família. A ansiedade e a espera são uma realidade tanto para esses casais quanto para essas crianças.
A nova Lei de Adoção, nº 12.010/2009, prevê “a preparação psicossocial e jurídica dos postulantes incluindo o contato com crianças e adolescentes em acolhimento familiar ou institucional em condições de serem adotados, a ser realizado sob a orientação, supervisão e avaliação da equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude, com apoio dos técnicos responsáveis pelo programa de acolhimento e pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar”.
Portanto, além de se inscreverem como pretendentes à adoção, os casais que estão tentando engravidar podem, sob a supervisão da equipe técnica do Juizado, visitar as instituições levando carinho e minimizando a angústia que a espera provoca nessas crianças. É comum vermos casais que intencionavam apenas conhecer as instituições e terminam por adotar uma criança ali abrigada, como também ocorre com enorme frequência de, logo após adotar, o casal engravidar.
Aproveito a proximidade do Natal e do espírito de solidariedade que ele nos traz para sugerir essa iniciativa tão necessária, que certamente causará imensa alegria não só às crianças visitadas, mas sobretudo a cada pessoa que se dispuser a passar algumas horas na companhia delas. Tenha certeza, vai valer a pena!
"Ditabranda" uma ova!
Aprendi com meu irmão mais velho a gostar de música. E foi a música que me deu indícios de que alguma coisa estava errada. Naqueles “anos de chumbo” eu, menino alienado, preocupado apenas em brincar, não entendia – mas estranhava – aquela balhureira dos festivais e percebia que havia “um grito parado no ar”.
Há quem, talvez por interesse próprio, por incompreensão ou até por maldosa frieza, ouse chamar aquele período de “ditabranda” (termo usado pela Folha de São Paulo). Mas, mesmo alheio às coisas da vida adulta, alguns episódios me mostraram que se tratava mesmo de uma “ditadura”. Me lembro com nitidez do clima de pânico que assolou o dia em que amigos seminaristas de meu irmão foram presos em Ibiuna (SP) somente porque participavam de um congresso da UNE. Na minha visão infantil, achei esquisito prenderem pessoas que eu conhecia e sabia que eram “do bem”.
O golpe de 64 foi um balde de água fria na efervescência política do ambiente universitário. Mas muitas coisas crueis aconteceram também em outras esferas desde 1º de abril, quando os militares depuseram o presidente João Goulart e ocuparam o poder. No dia 9 do mesmo mês veio o Ato Institucionai nº 1 (AI-1), que cassou 40 mandatos de parlamentares. Veio a censura, cuja primeira investida foi proibir a exibição de “Deus e o diabo na terra do sol”, filme de Glauber Rocha.
Em 1965 os militares baixaram o AI-2, que dissolveu os partidos políticos e estabeleceu o bipartidarismo. Os dois partidos eram a Arena, que apoiava a ditadura, e o MDB, que reunia esquálida oposição. A Rede Globo foi inaugurada nesse mesmo ano.
As eleições indiretas para governadores vieram em 1966 com a edição do AI-3. Os prefeitos das capitais eram indicados por esses “biônicos”. A intimidação dos militares, que cassou parlamentares do MDB, resultou na eleição de 17 governadores da Arena. A reação contra o arbítrio que mais chegava, pela TV, à opinião pública vinha das músicas de protesto compostas por Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo e alguns mais.
Já a missão do AI-4, baixado por Castelo Branco em 7 de dezembro de 1966, foi convocar o Congresso Nacional para a votação e promulgação do projeto de Constituição de 1967, que revogaria definitivamente a Constituição de 1946.
O AI-5 inaugurou, em 13 de dezembro de 1968, os “anos de chumbo” da ditadura militar. Como pretexto para sua edição, o fato de a Câmara não atender o “pedido” de abrir processo contra o deputado Márcio Moreira Alves por suposta agressão às Forças Armadas. O Congresso foi fechado e todas as garantias individuais foram suspensas. Entre as centenas de presos estavam Juscelino Kubitschek, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Os golpistas formalizaram a censura à imprensa e o país afundou nos anos mais negros de sua história.
Desaparecimentos, torturas e prisões passaram a fazer parte da rotina do país. Mas as reações também se multiplicaram. A chamada “passeata dos cem mil no Rio de Janeiro” mostrou que a indignação se estendia até para setores da elite. A truculência foi também desafiada pelos milhares de jovens que se reuniram, em Ibiuna, no Congresso da UNE, reprimido com violência.
Jovens estudantes, trabalhadores e até donas-de-casa sofreram as barbáries que a censura impedia chegar à opinião pública. Muitos não resistiram às torturas, aplicadas com diferentes requintes de crueldade: pau-de-arara, afogamentos, espancamentos, cadeira do dragão, choques elétricos, soro da verdade, geladeira… Criativos esses “brandos” algozes…
Centenas de mortos, muitos sob tortura. O número de desaparecidos foi ainda maior…Ninguém, até hoje, foi oficialmente acusado de torturar presos políticos.
Ao todo, foram decretados 17 atos institucionais entre 1964/1969. A “justificativa” era combater a “corrupção e a subversão”. Mas na verdade o propósito era “legalizar” o poderío dos militares diante da Constituição de 1946.
A chamada “distensão lenta, gradual e segura” anunciada por Ernesto Geisel em 1974 equivalia a uma no cravo e outra na ferradura: por um lado, retirava a censura do “Estadão” e por outro proibia a exibição da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes. A censura chegou ao cúmulo de proibir que um enlatado de TV exibisse o primoroso Balé Bolshoi só porque era da Rússia.
Depois de tudo isso ainda veio o chamado “Pacote de abril”, em 1977. Geisel endureceu a repressão e determinou que um terço dos senadores seriam indicados pelo presidente. Ampliou seu próprio mandato de 5 para 6 anos e reduziu o poder político no Congresso Nacional dos maiores estados.
A reação, mais uma vez, seria inevitável: em 78 eclodiu no ABC paulista a primeira greve desde 64. O atual presidente Lula era a maior liderança.
No rastro dessa mobilização, as greves se ampliaram para outros setores e a pressão popular forçou a revogação do AI-5. Em 79 o Congresso aprovou a Lei da Anistia (mais generosa com militares e torturadores do que com torturados e desaparecidos). A inflação “campeou” sob a administração dos militares: chegou a 110% em 1980.
Depois, o país inteiro brigou por “diretas já”. As diretas, porém, só chegariam depois de um Colégio Eleitoral indicar, em 1984, Tancredo Neves para substituir o militar João Figueiredo na presidência. Tancredo morreu e Sarney assumiu. Até que, em dezembro de 1989, o voto popular tornou presidente Fernando Collor, que contou com o apoio de Paulo Maluf e de Guilherme Afif. Lula, o derrotado, foi apoiado por Brizola, Covas e Roberto freire.
A grande imprensa – especialmente a Rede Globo – teve papel de muita influência nessas eleições. E que influência!
Baixa auto-estima presente em Alagoas
Praias belíssimas, paisagens afrodisíacas, céu de azul ofuscante confundindo-se com o mar degradê e com o verde dos coqueirais. Nem mesmo cenários como esses, de causar inveja, são suficientes para conter a veloz descida dos alagoanos nos degraus da baixa auto-estima.
Alvo de notícias negativas na mídia nacional, detentor dos piores índices em praticamente todos os setores sociais e decadente também nos campeonatos de futebol, o Estado de Alagoas não tem dado motivos para elevar a auto-estima do seu povo. Assaltos e assassinatos impunes, infância abandonada nas ruas, baixo poder aquisitivo de quase todos e falta de oportunidades de emprego para a juventude são problemas que parecem longe das soluções num Estado onde o que prospera mais e mais é a concentração de renda, a incompetência administrativa e a corrupção.
No campo da cultura, a falta de iniciativas oficiais mantém no anonimato a arte de músicos, atores e artesãos cuja beleza, caso não estivesse tão desprezada, contribuiria para que fossem dados largos passos no rumo contrário da baixa auto-estima.
Falando em futebol, é muito difícil ver alguém pelas ruas de Maceió e de cidades interioranas vestindo a camisa do CRB, do CSA, do ASA e de outros times do Estado. Mas é comum nos depararmos com homens, mulheres e crianças trajando camisas do Flamengo, do Corinthians, do Fluminense e de outras equipes de Estados que nem são do Nordeste. O maltratado futebol Alagoano, mergulhado na incompetência e no descaso, empurra torcidas cada vez mais numerosas para os clubes do eixo Rio-São Paulo, para uma paixão perniciosa para os clubes da terra. Lamentável!
A baixa auto-estima é também forte estimulante para a violência. A ausência de medidas voltadas para a melhoria na qualidade do ensino no Estado impede que conceitos de cidadania sejam incutidos nas crianças e adolescentes, inércia e descaso que repercutem na formação de uma juventude socialmente deformada. Caberia às instituições escolares priorizar reflexões e debates sobre temas que afligem a humanidade em seu cotidiano, entre elas a violência.
A tragédia das drogas em Alagoas alcançou status de destaque nacional. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Gilberto Irineu, revelou que 90% dos casos de violência no Estado estão ligados ao tráfico de drogas. “O Governo precisa assumir sua responsabilidade”, recomendou, observando que “tivemos acesso a um retrato triste do que sofrem muitas crianças, muitas vezes por ausência de políticas públicas”.
A ciência indica que a auto-estima de uma pessoa ou até de uma comunidade passa por questões, entre outras, como medo, insegurança, frustração, carência, humilhação, raiva, perdas e dependência (financeira e emocional). Portanto, a superação desse grave problema tão presente em Alagoas deve passar necessariamente por atitudes que conduzam à confiança, segurança, amor próprio, cidadania e valores que mereçam a cobrança de que sejam respeitados.
CEPAL disponibiliza aulas gratuitas de violão
A primeira aula do curso de VIOLĂOWEB, destinado a principiantes, já está à disposiçăo para o alunos assistirem no site ou via download, informou o diretor presidente da CEPAL, Marcos Kummer. “Com certeza fizemos um bom trabalho e esperamos que os mais de oitocentos inscritos façam tirem o máximo proveito das doze aulas”, acrescentou. O acesso para inscrições é www.cepalsocial.com.br. Informou também que no dia 14 de dezembro, no Auditório do Centro de Convenções, a partir das 14:30h, haverá a primeira aula presencial com participação do concertista Francisco Araújo, violonista clássico e popular respeitado em todo o mundo.
As aulas são conduzidas pelo músico Luiz Pompe, que ensina os primeiros passos na parte de acompanhamento. “O curso demonstra como acomodar o violão ao corpo, o posicionamento correto das mãos e como exercitar dedilhados, arpejos e acordes. Em algumas semanas, os alunos já serão capazes de fazer acompanhamentos simples com o instrumento”, afirma o professor.
Bon Jovi de graça!!!
Isso mesmo, o cantor Jon Bon Jovi, aquele bonitão que enlouquece a
mulherada, tocou de graça neste fim de semana. Foi durante a inauguração
de uma das maiores lojas de eletrônicos do país. Eu quase cai para trás
quando vi o anúncio na fachada. Ano passado ele tocou no Central Park para o fãs e foi a mesma loucura. Pessoas dormindo na fila para ver de perto o ídolo.
Aqui em Nova York é fácil ver shows de cantores famosos sem pagar nada.
Outro dia Paul Mccartney resolveu tocar na varanda de um programa de
auditório onde ele estava sendo entrevistado. Os turistas ficaram malucos na
porta. Era difícil de acreditar na cena.
No final do ano passado vi a banda Coldplay sem gastar um tostão. Era uma promoção para o fãs. Bastava se inscrever no site e eu fui contemplada! Foi maravilhoso, especialmente porque não tive que pagar nada para vê-los!
A brasileira Maria Rita também está no meio dos que gostam de fazer a
felicidade dos fãs. Ela cantou ano passado, também no Central Park, para milhares de fãs e curiosos em conhecer um pouco mais da música brasileira.
A humanidade deve muito à raça negra
Devemos aos negros as criações mais brilhantes na música, na culinária, no esporte e em tantas outras variantes que dignificam a nossa condição de humanos. Portanto, O Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, deve ser comemorado com entusiasmo indistintamente por brancos, amarelos e demais matizes raciais.
O sofrimento dos negros no período da escravidão fez emergir maravilhas como o samba, a feijoada, o acarajé, o maracatu, o jazz, o blues, o maxixe, palácios, igrejas, estradas, pontes, viadutos, cidades e países inteiros. Foi trabalhando sob açoites de chibatas e sol escaldante na construção das ferrovias que os escravos arrancados da África entoavam os cânticos que resultaram nos ritmos que desde então encantam nossos ouvidos.
A música popular brasileira, tão exaltada no mundo, não teria a mesma beleza e qualidade sem a presença da cultura negra. O lundu, ritmo que resultou no samba, tem origem africana. Parte expressiva dos artistas que mais nos orgulham são negros, a exemplo de Pixinguinha, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Djavan, Paulinho da Viola, Zé Kéti, Cartola, Zezé Mota, Jorge Benjor, Margareth Menezes, Wilson Simonal, Seu Jorge, Milton Nascimento, entre tantos e tantos e tantos…
Os negros nos trouxeram a capoeira, arte criada no período colonial que enfeitiça o mundo. Nos trouxeram também danças como o coco, o carimbó, o jongo e o frevo.
Outra marca muito forte da cultura negra no Brasil são as religiões africanas que se mesclaram com o catolicismo, o que culminou no fenômeno do sincretismo, mais comum na Bahia. Salvador é a cidade com a maior população negra do planeta depois das comunidades do continente africano. Oxoce, Ogum, Xangô, Omulu, Oxum, Iemanjá e Iansã são os sete Orixás que mantém com energia a tradição da religião negra no Brasil.
Os negros se fazem presentes com destaque também na literatura brasileira.
Temos João Ubaldo, os clássicos Machado de Assis e Lima Barreto e um enorme elenco de escritores afrodescendentes de inquestionável talento.
A bravura e a criatividade da raça negra evidenciam a bestialidade e a ignorância daqueles que ainda cultuam o racismo. O sentimento daqueles que raciocinam com inteligência só pode ser de gratidão diante da imensidão de maravilhas que a humanidade ganhou de presente dos negros ao longo de sua história de sofrimento e resistência.
Saber jurídico com sensibilidade
Inicio este post agradecendo a visita dos leitores e respondendo uma pergunta formulada que me deixou muito feliz, já que uma das melhores coisas deste veículo de informação é justamente a possibilidade de interação entre leitor e blogueiro. É a oportunidade da continuidade da informação disponibilizada, onde podemos ouvir a opinião do outro e interagir com ele.
Pois bem! O questionamento da leitora, muito pertinente por sinal, refere-se aos critérios utilizados na seleção do candidato a adotante, cuja idade exigida é de apenas 18 anos, período da vida em que ainda estamos construindo conceitos.
Conforme preceitua a legislação, o pedido de inscrição no cadastro de postulantes à adoção passa por um período de preparação psicossocial e jurídica. Na prática, essa exigência legal funciona da seguinte maneira: os candidatos devem comparecer ao Juizado da Infância e da Juventude da comarca onde residem e procurar a equipe técnica composta por assistentes sociais e psicólogos que lhes fornecerão a relação dos documentos essenciais ao cadastro inicial. Essa relação compreende, entre outras, cópias autenticadas de RG, CPF, certidão de casamento, comprovante de residência e antecedentes criminais. De posse de toda a documentação, o requerente deverá retornar e preencher um formulário onde especificará sexo, idade e demais peculiaridades referentes ao perfil do adotando desejado. Será realizado um estudo psicossocial composto de entrevista e visita domiciliar e emitidos pareceres da equipe técnica e do representante do Ministério Público (promotor), que serão finalmente avaliados pelo Juiz da Infância e da Juventude para o deferimento ou não da inscrição do candidato no cadastro de pretendentes à adoção.
Sendo deferido o pedido, a pessoa ou casal habilitado passa a figurar nos cadastros estadual e nacional, aos quais as autoridades estaduais e federais em matéria de adoção terão acesso integral, trocando informações. Paralelamente, serão inscritos crianças e adolescentes em situação legal para serem adotados e as informações desses dois cadastros serão cruzadas até que o pretendente encontre o adotando com o perfil especificado. São esses os critérios legalmente estabelecidos para tornar o pretendente apto a adotar e um caminho que deve ser percorrido não somente para avaliar as condições morais, psicossociais e econômicas do postulante, mas sobretudo para comprovar a sua persistência nesse propósito.
Muitos se queixam da demora na burocracia do cadastro e na inevitável espera da indicação, esquecendo-se que o filho biológico também é esperado durante longos nove meses, mas todos os que adotam são unânimes ao descrever a magia do momento em que são apresentados ao filho, que passam a amar incondicionalmente. Para traduzir esse sentimento, transcrevo (abaixo) o brilhante e comovente artigo de autoria do Dr. Sávio Bittencourt, promotor de justiça do RJ, cujos textos conseguem agregar conhecimento jurídico e sensibilidade, qualidades que deveriam ser comuns entre os operadores do Direito que trabalham com a infância e a adolescência abandonadas de nosso país. Esses textos, que recomendo por refletirem um exemplo a ser seguido, podem ser lidos no endereço eletrônico savio.blog.terra.com.br.
Por que eu te amo?
Sávio Bittencourt
Quando te vi, pequenina, enrolada em panos, não pensei em nada. Meu mundo ficou silente. Sem buzinas de automóveis, sem prazos de trabalhos a cumprir, sem aqueles pensamentos insistentes, invasores, que assolam a mente das pessoas. Nada. Minha vaidade, minhas economias, minha carreira, minha “qualquer outra coisa”, tudo se calou em silêncio arrebatador. Todas as pressões das coisas urgentes e importantes, as atitudes imperiosas, as conquistas sonhadas, nada me surgiu…foi como se tudo isso nunca tivesse existido.
Não havia nada ali naquele momento além de você, mulata, pequena, diante dos meus olhos, me provocando o maior silêncio que já ouvido por um mortal. Nosso primeiro abraço foi comprometedor: cerquei você com meus braços, erguendo-os com a intenção das muralhas protetoras de uma cidade medieval, te enlaçando por um instante de forma tão intensa que seria possível a qualquer laboratório identificar que nosso DNA era o mesmo. Se não o DNA do sangue, com certeza o DNA da alma. A qualquer um era possível ver que aquele homem com cara de português e aquela menina africana eram parte de um grande plano genial e generoso do Criador: eram pai e filha. É um afeto instantâneo e imenso, incomensurável, que faz e desfaz do nosso antigo ser.
Assim, calando minhas fraquezas e desfazendo a correria da vida, você me apareceu. Pronto. Como manter uma coerência com aqueles grandes objetivos profissionais? Como continuar obedecendo à lógica daquela ambição desmedida? Todos os compromissos e valores já construídos ruíram sob uma nova modalidade de sentimento, um sentimento renovador e carismático, que me arrebatou de forma acachapante. Eu não era mais a mesma pessoa de segundos atrás. Estava em paz e feliz.
Talvez as pessoas não entendam esse meu amor por você. Não se pode atribuir algo tão puro às práticas humanas, sempre matizadas pelos interesses mundanos. Nem mesmo às boas ações dos homens, bafejadas pelo altruísmo caridoso. Nada disso nos pertence. Aliás, nós dois sabemos que amor não se explica. Amor se sente. Não há caridade que justifique o amor, mas é o amor que a justifica. E aceito, por amor e caridade, tanto faz, as beijocas que você guarda para mim no fim do dia, como prêmio maior pelas lutas que empreendi.
Quisera eu, querida, que todas as pessoas pudessem saborear esse sentimento: amar alguém que não foi gerada por mim, que não me perpetua com traços físicos semelhantes, que não tem o “sangue do meu sangue”, e que permite que a jazida de afeto que trago em meu peito seja explorada e canalizada para um bem-querer. Sim, sentir amor por um filho adotivo me permite realizar algo maravilhoso: alguém que se torna fundamental em minha vida, com quem construo uma relação de amor no cotidiano, este ser especial que eu nunca teria tido a capacidade biológica de gerar!
Enfim é isto: eu jamais teria gerado você, meu anjo. Se dependesse da minha essência animal, limitada e finita, que vai virar pó, eu nunca teria me transformado eu seu pai. O que me habilitou para esta missão foi minha crença profunda e inabalável que o amor de Deus não tem limites e não se submete a tipologias, não se prende com amarras sociais ou raciais. É por isso que te amo, além, obviamente, destes olhos negros e amendoados, que me sorriem, um pouquinho antes de dormir.
Pobre rica MPB…
Aplaudida em outros países como uma as melhores do mundo, a música popular brasileira (aquela pautada no samba, no chorinho e no ritmo que só o brasileiro sabe cadenciar) vem sendo tratada com extremo desprezo pela grande mídia. Quem nasceu de 1980 para cá pouca oportunidade teve de interagir com a MPB porque as programações televisivas e radiofônicas há algumas décadas passaram a ser, em regra geral, dedicadas a divulgar verdadeiras aberrações que alguém ousa qualificar como música.
Poucos são os jovens de hoje que sabem quem foi Pixinguinha, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ari Barroso, Lamartine Babo, entre tantos que orgulham a nossa condição de brasileiros perante o mundo. Mesmo músicos ainda na ativa como Chico Buarque, Paulinho da Viola e os grupos MPB4 e Boca Livre são pouco cultivados em meio à juventude, embora muito respeitados em outros países.
No elenco dos artistas mais novos, a preferência da imensa maioria recai sobre nomes praticamente desvinculados da rica herança musical brasileira. Os jovens que prestigiam artistas igualmente jovens como Roberta Sá (foto), Luciana Mello e Yamandu Costa são qualificados como exceção, já que nadam contra a maré por optarem pela música identificada com as raizes da MPB.
Essa triste realidade justifica o protesto do roqueiro Rod Stewart quando veio ao Brasil na década de 90. Na ocasião, ele disse em entrevista que pegou um táxi no aeroporto e pediu ao taxista para ligar o rádio, pois estava ansioso para ouvir a nossa MPB. Em tom indignado, disse ao repórter que em todas as emissoras sintonizadas só tocava “lixo americano”. E, em português arrastado, perguntou ao taxista: “porque vocês não valorizam a música de vocês, que é tão bela e cheia de energia?”
Você sabe o que é tiete?
A tietagem é um fenômeno humano bastante curioso. Cantores, jogadores de futebol e artistas da televisão são alvo de histerias coletivas que certamente causariam estranheza a um alienígena. Que energia oculta é essa que move multidões, arranca gritos e lágrimas? Há pessoas que chegam a gastar seus parcos recursos para ver seu ídolo, mesmo que para isso tenha que viajar e até deixar de comer.
A ciência tenta explicar esse estranho fenômeno há muito tempo. Alguns cientistas acreditam que a tietagem tem mais a ver com a natureza humana do que com fenômenos culturais. O antropólogo evolucionista Francisco Gil-White chegou a afirmar que “a seleção natural nos deu cérebros que prestam atenção em quem é admirado”.
Diferente é a aceitação da ainda restrita psicologia evolutiva em meios acadêmicos, que defende a tese de que em muitos casos não dá para saber se um comportamento é cultural ou de natureza mais instintiva. Afirmam alguns psicólogos que a adoração a celebridades é um fenômeno moldado pela seleção natural.
O velho naturalista Charles Darwin, que elaborou sua Teoria da Evolução, certamente teve seus tietes se acotovelando para assistir suas palestras. Naquela época ainda não havia a comunicação de massa que mais tarde contribuiria para o gigantismo da tietagem, a exemplo dos eufóricos gritos ensurdecedores dos jovens nos shows dos Beatles.
Nesta era da informática, a internet criou os chamados “ídolos da web”. São pessoas que ficaram famosas por terem mostrado talentos especiais, campeãs de acesso que conquistaram uma legião de tietes. A chamada psicologia evolutiva reúne as mais recentes teorias sobre a tietagem, observando traços de comportamento humano no contexto da Teoria da Evolução. Essa linha de pensamento aponta para um instinto que nos aproxima de pessoas de prestígio que teriam algo a nos ensinar.
O estresse da rotina, o trabalho repetitivo, a chatice enfadonha do dia-a-dia conduzem muita gente para fugas fantasiosas que incluem a idolatria que deságua na tietagem. É o que nos leva a pensar Gilberto Gil, quando afirma que “tiete é uma espécie de admirador atrás de um bocadinho só do seu amor” (trecho de “Marcha da Tietagem”).
“Prato cheio” para adversários de Heloísa
Luiz Pompe
O temor diante de uma vitória esmagadora de Heloísa Helena na eleição de 2010 para o Senado está motivando articulações desesperadas no sentido de impedir sua candidatura através da tentativa de cassação de seu mandato de vereadora, conquistado com quase 30 mil votos que, proporcionalmente, a consagraram como a mais votada do Brasil. No sentido contrário, vozes se levantam para protestar contra essa trama, que tem como núcleo a Câmara Municipal de Maceió.
Os vereadores, em sua maioria, aprovaram a representação contra Heloísa apresentada à Mesa Diretora pela vereadora Tereza Nelma. Com isso, a candidata considerada imbatível até pelos concorrentes responde a processo por quebra de decoro parlamentar e pode ter seus direitos políticos cassados por oito anos. Prato cheio para os adversários.
Presidente nacional do PSOL, Heloísa causa incômodo aos colegas na Câmara por diferenciar-se deles no exercício do mandato. Ao contrário dos demais vereadores, ela recusa-se desde o início de seu mandato a sacar o pagamento de R$ 27 mil mensais a título de verba indenizatória e ainda requereu ao Ministério Público que apure a legalidade desse procedimento.
Lider absoluta em todas as pesquisas, Heloísa há muito tempo tem sido advertida por políticos e jornalistas de todo o país sobre armadilhas que certamente seriam armadas contra ela. A oportunidade de “ouro” surgida na Câmara Municipal não poderia ser desperdiçada pelos que desejam vê-la fora da disputa.







