Preciosidades da rica cultura popular brasileira, como as marchinhas de Carnaval que marcaram época, não podem cair no esquecimento! Afinal, um paÃs que se ama valoriza o que é seu.
O improviso, o lirismo, o humor, a malÃcia, a crÃtica polÃtica, a inteligência e a ironia são caracterÃsticas que os brasileiros imprimiram, através dos tempos, nos frevos, nos sambas e nos incontáveis ritmos que animam a mais expressiva festa popular do planeta.
Remando no sentido contrário, grupos econômicos massacram nossos tÃmpanos com “pocotós†e “paconejos†e “loteiam†blocos carnavalescos com abadas vendidos a prestação para os mais carentes. Desvirtuaram, assim, o senso crÃtico de adolescentes e jovens com suas micaretas embaladas com palavras de ordem como “todo mundo balançando a bundinha!â€.
É triste ver a multidão de meninas erguendo os braços quando o “pacozeiro†do trio-elétrico brada “quem for rapariga coloca as mãozinhas pra cima!â€. É também triste – e perigoso – ver bocas que nunca se encontraram obedecendo ao comando de “agora todo mundo beijando todo mundo!â€
Esse comercialismo irresponsável que estimula a promiscuidade, o uso de drogas e a banalização da vida não combina com a história do Carnaval brasileiro, pontuada pelas folias de rua gratuitas e sadias e pelas canções de Chiquinha Gonzaga, Zé Keti, Lamartine Babo, Braguinha, Jararaca, Capiba, Nelson Ferreira, Caetano Veloso e tantos outros talentos.
Para preservar nossa memória, segue uma série de marchinhas que fizeram sucesso em antigos carnavais:
MAMÃE EU QUERO (1936) é a música brasileira mais conhecida no mundo. O autor é o alagoano Jararaca (José LuÃs Rodrigues Calazans) (1896 – 1977), composta em parceria com o paulista Vicente Paiva (1908 – 1964).
“Mamãe, eu quero / Mamãe, eu quero / Mamãe, eu quero mamar! / Dá a chupeta /Dá a chupeta / Dá a chupeta pro bebê não chorar! / Dorme filhinho do meu coração / Pega a mamadeira e vem entrar pro meu cordão / Eu tenho uma irmã que se chama Ana/ De piscar o olho já ficou sem a pestana / Olho as pequenas, mas daquele jeito / Tenho muita pena não ser criança de peito / Eu tenho uma irmã que é fenomenal / Ela é da bossa e o marido é um boçalâ€.
http://www.youtube.com/watch?v=-1aUmyfpSq8
A mais antiga é ABRE ALAS (1899), da carioca Chiquinha Gonzaga (Francisca Edwiges Neves Gonzaga) (1847 – 1935).
“Ó abre alas que eu quero passar / Ó abre alas que eu quero passar / Eu sou da lira não posso negar / Eu sou da lira não posso negar / Ó abre alas que eu quero passar / Ó abre alas que eu quero passar / Rosa de ouro é que vai ganhar / Rosa de ouro é que vai ganharâ€
PÉ DE ANJO (1920) de Sinhô
“Eu tenho uma tesourinha / Que corta ouro e marfim /Serve também pra cortar / LÃnguas que falam de mim / O pé de anjo, o pé de anjo / És rezador, és rezador / Tens o pé tão grande / Que és capaz de pisar nosso senhor / A mulher e a galinha / São dois bichos interesseiros / A galinha pelo milho / E a mulher pelo dinheiroâ€
TA-HÃ! (1930) de Joubert de Carvalho
“Taà eu fiz tudo pra você gostar de mim / Ai meu bem não faz assim comigo não / Você tem você tem que me dar seu coração / Meu amor não posso esquecer / Se dá alegria faz também sofrer / A minha vida foi sempre assim / Só chorando as mágoas que não têm fim  / Essa história de gostar de alguém /Já é mania que as pessoas têm / Se me ajudasse Nosso Senhor / Eu não pensaria mais no amorâ€
O TEU CABELO NÃO NEGA (1931) de Lamartine Babo e Irmãos Valença
“O teu cabelo não nega mulata / Porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega mulata / Mulata eu quero o teu amor / Tens um sabor bem do Brasil / Tens a alma cor de anil / Mulata mulatinha meu amor / Fui nomeado teu tenente interventor / Quem te inventou meu pancadão / Teve uma consagração / A lua te invejando faz careta / Porque mulata tu não és deste planeta / Quando meu bem vieste à terra / Portugal declarou guerra / A concorrência então foi colossal / Vasco da gama contra o batalhão navalâ€
LINDA MORENA (1932) de Lamartine Babo
“Linda morena, morena / Morena que me faz penar / A lua cheia que tanto brilha / Não brilha tanto quanto o teu olhar / Tu és morena uma ótima pequena / Não há branco que não perca até o juÃzo / Onde tu passas / Sai à s vezes bofetão / Toda gente faz questão / Do teu sorriso / Teu coração é uma espécie de pensão / De pensão familiar à beira-mar / Oh! Moreninha, não alugues tudo não / Deixe ao menos o porão pra eu morar / Por tua causa já se faz revolução / Vai haver transformação na cor da lua / Antigamente a mulata era a rainha / Desta vez, ó moreninha, a taça é tuaâ€
CIDADE MARAVILHOSA (1934) de André Filho
“Cidade maravilhosa / Cheia de encantos mil / Cidade maravilhosa / Coração do meu Brasil / Cidade maravilhosa / Cheia de encantos mil / Cidade maravilhosa / Coração do meu Brasil / Berço do samba e das lindas canções / Que vivem n’alma da gente / És o altar dos nossos corações / Que cantam alegremente / Jardim florido de amor e saudade / Terra que a todos seduz / Que Deus te cubra de felicidade / Ninho de sonho e de luzâ€
PIERRÔ APAIXONADO (1935) de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres
“Um pierrô apaixonado / Que vivia só cantando / Por causa de uma colombina / Acabou chorando, acabou chorando / A colombina entrou num butiquim / Bebeu, bebeu, saiu assim, assim / Dizendo: pierrô cacete / Vai tomar sorvete com o arlequim / Um grande amor tem sempre um triste fim / Com o pierrô aconteceu assim / Levando esse grande chute / Foi tomar vermute com amendoimâ€
BALANCÊ (1936) de Braguinha e Alberto Ribeiro
“Ô balancê balancê / Quero dançar com você / Entra na roda morena pra ver / Ô balancê balance / Quando por mim você passa / Fingindo que não me vê / Meu coração quase se despedaça / No balancê balance / Você foi minha cartilha / Você foi meu ABC / E por isso eu sou a maior maravilha / No balancê balance / Eu levo a vida pensando / Pensando só em você / E o tempo passa e eu vou me acabando / No balancê balanceâ€
TOURADAS EM MADRI (1937) de Braguinha e Alberto Ribeiro
“Eu fui à s touradas em Madri / E quase não volto mais aqui / Pra ver Peri beijar Ceci / Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha / Queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha / Caramba caracoles sou do samba não me amoles / Por Brasil eu vou fugir / Isto é conversa mole para boi dormirâ€
YES, NÓS TEMOS BANANAS (1937) de Braguinha e Alberto Ribeiro
“Yes, nós temos bananas / Bananas pra dar e vender / Banana menina tem vitamina /Banana engorda e faz crescer / Vai para a França o café, pois é / Para o Japão o algodão, pois não / Pro mundo inteiro, homem ou mulher /Bananas para quem quiser / Mate para o Paraguai / Ouro do bolso da gente não sai / Somos da crise, se ela vier / Bananas para quem quiserâ€
A JARDINEIRA (1938), de Benedito Lacerda  e Humberto Porto
“Ó jardineira porque estás tão triste / Mas o que foi que te aconteceu / Foi a camélia que caiu do galho / Deu dois suspiros e depois morreu / Vem jardineira vem meu amor / Não fiques triste que este mundo é todo seu / Tu és muito mais bonita / Que a camélia que morreuâ€
ALLAH-LÃ-Ô (1940) de Haroldo Lobo e Nássara
“Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô / Mas que calor, ô ô ô ô ô ô / Atravessamos o deserto do Saara / O sol estava quente / Queimou a nossa cara / Viemos do Egito / E muitas vezes / Nós tivemos que rezar / Allah! allah! allah, meu bom allah! / Mande água pra ioiô / Mande água pra Iaiá / Allah! meu bom allahâ€
AURORA (1940) de Mário Lago e Roberto Roberti
“Se você fosse sincera / Ô ô ô ô Aurora / Veja só que bom que era /
Ô ô ô ô Aurora / Um lindo apartamento / Com porteiro e elevador / E ar refrigerado / Para os dias de calor / Madame antes do nome / Você teria agora / Ô ô ô ô Auroraâ€
PIRATA DA PERNA DE PAU (1946) de Braguinha
“Eu sou o pirata da perna de pau / Do olho de vidro da cara de mau / Minha galera / Dos verdes mares não teme o tufão / Minha galera / Só tem garotas na guarnição / Por isso se outro pirata / Tenta a abordagem eu pego o facão / E grito do alto da popa: Opa! homem não!â€
CHIQUITA BACANA (1949) de Braguinha e Alberto Ribeiro
“Chiquita bacana lá da Martinica / Se veste com uma casa de banana nanica / Não usa vestido, oi! não usa calção / Inverno pra ela é pleno verão / Existencialista com toda razão / Só faz o que manda o seu coração, ôi!â€
SACA-ROLHA (1953) de Zé da Zilda, Zilda do Zé e Waldir Machado
“As águas vão rolar / Garrafa cheia eu não quero ver sobrar / Eu passo mão na saca saca saca rolha / E bebo até me afogar  / Deixa as águas rolar / Se a polÃcia por isso me prender / Mas na última hora me soltar / Eu pego o saca saca saca rolha / Ninguém me agarra ninguém me agarraâ€
CACHAÇA (1953) de Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Heber Lobato
“Você pensa que cachaça é água / Cachaça não é água não / Cachaça vem do alambique / E água vem do ribeirão / Pode me faltar tudo na vida / Arroz feijão e pão / Pode me faltar manteiga / E tudo mais não faz falta não / Pode me faltar o amor / Há, há, há, há! / Isto até acho graça / Só não quero que me falte / A danada da cachaçaâ€
EVOCAÇÃO Nº 1 (1956) de Nelson Ferreira,
“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon / Cadê teus blocos famosos / Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum / Dos carnavais saudosos / Na alta madrugada / O coro entoava / Do bloco a marcha-regresso / E era o sucesso dos tempos ideais / Do velho Raul Moraes / Adeus adeus minha gente / Que já cantamos bastante / E Recife adormecia / Ficava a sonhar / Ao som da triste melodiaâ€
ME DÃ UM DINHEIRO AÃ (1959) de Ivan Ferreira, Homero Ferreira e Glauco Ferreira
“Ei, você aÃ! / Me dá um dinheiro aÃ! / Me dá um dinheiro aÃ! / Não vai dar? / Não vai dar não? / Você vai ver a grande confusão / Que eu vou fazer bebendo até cair / Me dá me dá me dá, ô! / Me dá um dinheiro aÃ!â€
ÃNDIO QUER APITO (1960) de Haroldo Loboe Milton de Oliveira
“Ê ê ê ê ê Ãndio quer apito / Se não der pau vai comer / Lá no bananal mulher de branco / Levou pra pra Ãndio colar esquisito / Ãndio viu presente mais bonito / Eu não quer colar / Ãndio quer apitoâ€
MARCHA DO CORDÃO DO BOLA PRETA (1962) de Nelson Barbosa e Vicente Paiva
“Quem não chora não mama / Segura meu bem a chupeta / Lugar quente é na cama / Ou então no Bola Preta / Vem pro Bola meu bem / Com alegria inferna / Todos são de coração / Todos são de coração / Foliões do carnaval / (Sensacional!)â€
MADEIRA QUE CUPIM NÃO RÓI (1963) de Capiba
“Madeira do Rosarinho / Vem à cidade sua fama mostrar / E traz com seu pessoal / Seu estandarte tão original / Não vem pra fazer barulho / É só dizer e com satisfação / Queiram ou não queiram os juÃzes / O nosso bloco é de fato campeão / E se aqui estamos cantando essa canção / Viemos defender a nossa tradição / E dizer bem alto que a injustiça dói / Nós somos madeira de lei que cupim não róiâ€
CABELEIRA DO ZEZÉ (1963) de João Roberto Kelly eRoberto Faissal
“Olha a cabeleira do Zezé / Será que ele é / Será que ele é / Será que ele é bossa nova / Será que ele é Maomé / Parece que é transviado / Mas isso eu não sei se ele é / Corta o cabelo dele! / Corta o cabelo dele!â€
MULATA IÊ IÊ IÊ (1964) de João Roberto Kelly
“Mulata bossa nova / Caiu no hully gully / E só dá ela / Ê ê ê ê ê ê ê ê / Na passarela / A boneca está / Cheia de fiufiu / Esnobando as louras / E as morenas do Brasilâ€
MÃSCARA NEGRA (1966) de Zé Keti e Pereira Mattos
“Quanto riso / Oh quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando / Pelo amor da Colombina / No meio da multidão / Foi bom te ver outra vez / Está fazendo um ano / Foi no carnaval que passou / Eu sou aquele pierrô /Que te abraçou e te beijou meu amor / Na mesma máscara negra / Que esconde o teu rosto / Eu quero matar a saudade / Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnavalâ€
BANDEIRA BRANCA (1969) de Max Nunes e Laércio Alves
“Bandeira branca amor / Não posso mais / Pela saudade que me invade / Eu peço paz / Saudade mal de amor de amor / saudade dor que dói demais / Vem meu amor / Bandeira branca eu peço pazâ€
CHUVA, SUOR E CERVEJA (1971) de Caetano Veloso
“Não se perca de mim / Não se esqueça de mim / Não desapareça / A chuva tá caindo / E quando a chuva começa / Eu acabo de perder a cabeça / Não saia do meu lado / Segure o meu pierrô molhado / E vamos embolar ladeira abaixo / Acho que a chuva / Ajuda a gente a se ver / Venha veja deixa beija seja / O que Deus quiser / A gente se embala, se embola / Se enrola, só pára na porta da igreja / A gente se olha se beija, se molha / De chuva suor e cervejaâ€



























