Honestidade. É incrível como essa palavra virou motivo de chacota em Alagoas e em nosso País, principalmente nos meios políticos! O político (raro) que, resistindo a assédios, recusa-se a roubar o sofrido dinheiro popular é alvo de gozação entre os malfadados colegas. É ridicularizado, chamado de “otário”. Tudo porque se nega a compactuar com falcatruas e a meter a mão no que é coletivo.
Na trilha da desonestidade vem, necessariamente, a mentira, o desrespeito, a insensibilidade e ficam ausentes a solidariedade, a sensibilidade e o respeito a si mesmo e a todos.
Em Alagoas, exemplos fartamente oferecidos por homens públicos são, salvo exceções, assimilados pela juventude, traçando um panorama nada recomendável para o futuro do Estado. Espelhando-se na usura e no oportunismo dessa casta que consegue se eleger intimidando, comprando votos ou fraudando urnas, jovens cultuam, sem remorsos, atos como agredir pais, professores e idosos, praticar pequenos (e grandes) furtos, morrer e matar no trânsito por dirigir em velocidade extremada, e “segue o féretro”…
Ao lado de práticas costumeiras como descompromisso, desvio de verbas e outras formas de corrupção, o homem público de Alagoas (salvo raras exceções) não vê nenhum problema em desprezar a educação, a cultura e outros indispensáveis caminhos que levam à dignidade e ao bem-estar da comunidade.
Em meio a tanta bandalheira emergem sugestões que merecem atenção especial, como a alternativa de deseleger quem desonra o mandato. Consistiria no seguinte: os eleitores convocariam eleições revocatórias, questionando a manutenção do mandato de alguém e solicitando voto destituinte, deseleição, destituição. Infelizmente, esse direito inalienável ainda é pouco debatido no Brasil.
Enquanto passa impune essa caravana da corrupção permanece atual a frase pronunciada por Rui Barbosa em 1914 no Senado Federal:
“ De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
Ainda mais atuais são as palavras da poeta Elisa Lucinda:
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro.
A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:
” – Não roubarás!”
” – Devolva o lápis do coleguinha!”
” – Esse apontador não é seu, minha filha!”
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão:
“ – Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.”
E eu vou dizer:
”- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão:
” – É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
E eu direi:
” – Não admito! Minha esperança é imortal!”
E eu repito, ouviram?
IMORTAL!!!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 às 14:07
Meu camarada, este artigo está muito bom. Gostaria que na próxima vez desse nomes alguns bois, que em nossa Alagoas são tantos a nos roubar.
Aqui em Brasília, nós do PSOL não esperamos que alguém saisse as ruas, nós chamamos o povo e resultado tai, ARRUDA NA CADEIA.
Pena é que os tarturanas não ficaram nem um dia no xilindró.
Continue firme, este espaço nós sempre merecemos.
Indio.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 às 15:01
Isso mesmo.
É como aquela história do beija-flor tentando apagar o incêndio na floresta. Cada um tem que fazer a sua parte. Na falta de Betinho, Henfil, Zilda Arns e tantos outros…vamos nós com nossos baldinhos, com nossas idéias e nosso inconformismo lutar sempre. E essa luta começa dentro de casa mesmo. Grande abraço Zé Luiz, que um dia passamos enorme sufôco naquela Moscou paulista.
Mauro Braga
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 às 15:19
Uma pessoa que conheci no clube que frequento se candidatou a vereador em sua pequena cidade (cerca de 25.000 habitantes). Durante a campanha ele trocou de carro. Na maior cara de pau disse que havia recebido uma verba pra campanha e a investiu num carro zerinho. Pensei com meus botões: “Nossa, esse cara tem talento de sobra pra ser politico. Já sabe como usar o dinheiro do contribuinte. Mas tomara que não seja eleito” Felizmente não o foi. O resto da historia deixo para a imaginação de cada um dos inteligentes leitores desse seu blog.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 às 16:34
Jornalista Luiz Pompe, em boa hora você traz à luz “sugestões que merecem atenção especial, como a alternativa de deseleger quem desonra o mandato”, tudo isto num texto primoroso e corajoso também, porque, mesmo sem citar nomes, os endereços são certos. Nem preciso dizer que é desta forma que se faz o excelente Jornalismo que você sabe fazer e faz agora, no blog do Tudoglobal
sábado, 20 de fevereiro de 2010 às 18:38
Penso que, apesar de tudo, ainda há pessoas honestas mas, que infelizmente não ocupam cargos políticos. Enquanto isso, vamos espalhando nossa pequena contribuição, procurando votar nos mais confiáveis, embora possamos nos decepcionar….
Acho também que temos bons exemplos familiares, como o de minha mãe, que ao perceber que pegou uma mercadoria indevida no supermercado,o qual não era tão perto assim, voltou caminhando até o mesmo só para devolver o referido produto.
Com ceteza foi considerada otária por muitos.
sábado, 20 de fevereiro de 2010 às 22:18
Querido amigo , parabéns! Suas palavras foram corajosas e virtuosas… Em todos nós mora um ser unido ao outro de uma forma intensa que poucos tem consciência. Pessoas que estão querendo um mundo melhor para seus filhos, pensam com esse espírito de responsabilidade mútua, de sociedade, não só como indivíduo! Sejamos todos como o beija-flor com sua gota no incêndio da floresta.
domingo, 21 de fevereiro de 2010 às 23:41
Para muitos alagoanos honestidade consiste de uma desonestidade bem feita.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010 às 10:59
Pompe, querido, parabéns pelo tema e pela formatação do texto. Honestidade e Honestidade; é disso que a nossa política tanto carece.
segunda-feira, 8 de março de 2010 às 23:43
… E LADRÃO É SINÔMINO DE BEM SUCEDIDO! È UM ABSURDO!
quarta-feira, 10 de março de 2010 às 15:38
Parabéns, Pompe!! Matérias como essa, deveriam circular pela mídia com freqüência, mas já que não acontece, você contribui de maneira brilhante para a melhor informação e enriquecimento de todos nós.
Abraço!