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"Ditabranda" uma ova!

30/11/2009 - 12:18 -
Blog Maria Frô
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Estudante é perseguido por policiais durante a ditadura militar

Aprendi com meu irmão mais velho a gostar de música. E foi a música que me deu indícios de que alguma coisa estava errada. Naqueles “anos de chumbo†eu, menino alienado, preocupado apenas em brincar, não entendia – mas estranhava – aquela balhureira dos festivais e percebia que havia “um grito parado no arâ€.

Há quem, talvez por interesse próprio, por incompreensão ou até por maldosa frieza, ouse chamar aquele período de “ditabranda†(termo usado pela Folha de São Paulo). Mas, mesmo alheio às coisas da vida adulta, alguns episódios me mostraram que se tratava mesmo de uma “ditaduraâ€. Me lembro com nitidez do clima de pânico que assolou o dia em que amigos seminaristas de meu irmão foram presos em Ibiuna (SP) somente porque participavam de um congresso da UNE. Na minha visão infantil, achei esquisito prenderem pessoas que eu conhecia e sabia que eram “do bemâ€.

O golpe de 64 foi um balde de água fria na efervescência política do ambiente universitário. Mas muitas coisas crueis aconteceram também em outras esferas desde 1º de abril, quando os militares depuseram o presidente João Goulart e ocuparam o poder. No dia 9 do mesmo mês veio o Ato Institucionai nº 1 (AI-1), que cassou 40 mandatos de parlamentares. Veio a censura, cuja primeira investida foi proibir a exibição de “Deus e o diabo na terra do solâ€, filme de Glauber Rocha.

Em 1965 os militares baixaram o AI-2, que dissolveu os partidos políticos e estabeleceu o bipartidarismo. Os dois partidos eram a Arena, que apoiava a ditadura, e o MDB, que reunia esquálida oposição. A Rede Globo foi inaugurada nesse mesmo ano.

As eleições indiretas para governadores vieram em 1966 com a edição do AI-3. Os prefeitos das capitais eram indicados por esses “biônicosâ€. A intimidação dos militares, que cassou parlamentares do MDB, resultou na eleição de 17 governadores da Arena. A reação contra o arbítrio que mais chegava, pela TV, à opinião pública vinha das músicas de protesto compostas por Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo e alguns mais.

Já a missão do AI-4, baixado por Castelo Branco em 7 de dezembro de 1966, foi convocar o Congresso Nacional para a votação e promulgação do projeto de Constituição de 1967, que revogaria definitivamente a Constituição de 1946.

O AI-5 inaugurou, em 13 de dezembro de 1968, os “anos de chumbo†da ditadura militar. Como pretexto para sua edição, o fato de a Câmara não atender o “pedido†de abrir processo contra o deputado Márcio Moreira Alves por suposta agressão às Forças Armadas. O Congresso foi fechado e todas as garantias individuais foram suspensas. Entre as centenas de presos estavam Juscelino Kubitschek, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Os golpistas formalizaram a censura à imprensa e o país afundou nos anos mais negros de sua história.

Desaparecimentos, torturas e prisões passaram a fazer parte da rotina do país. Mas as reações também se multiplicaram. A chamada “passeata dos cem mil no Rio de Janeiro†mostrou que a indignação se estendia até para setores da elite. A truculência foi também desafiada pelos milhares de jovens que se reuniram, em Ibiuna, no Congresso da UNE, reprimido com violência.

Jovens estudantes, trabalhadores e até donas-de-casa sofreram as barbáries que a censura impedia chegar à opinião pública. Muitos não resistiram às torturas, aplicadas com diferentes requintes de crueldade: pau-de-arara, afogamentos, espancamentos, cadeira do dragão, choques elétricos, soro da verdade, geladeira… Criativos esses “brandos” algozes…

Centenas de mortos, muitos sob tortura. O número de desaparecidos foi ainda maior…Ninguém, até hoje, foi oficialmente acusado de torturar presos políticos.

Ao todo, foram decretados 17 atos institucionais entre 1964/1969. A “justificativa†era combater a “corrupção e a subversão”. Mas na verdade o propósito era “legalizar†o poderío dos militares diante da Constituição de 1946.

A chamada “distensão lenta, gradual e segura†anunciada por Ernesto Geisel em 1974 equivalia a uma no cravo e outra na ferradura: por um lado, retirava a censura do “Estadão†e por outro proibia a exibição da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes. A censura chegou ao cúmulo de proibir que um enlatado de TV exibisse o primoroso Balé Bolshoi só porque era da Rússia.

Depois de tudo isso ainda veio o chamado “Pacote de abrilâ€, em 1977. Geisel endureceu a repressão e determinou que um terço dos senadores seriam indicados pelo presidente. Ampliou seu próprio mandato de 5 para 6 anos e reduziu o poder político no Congresso Nacional dos maiores estados.

A reação, mais uma vez, seria inevitável: em 78 eclodiu no ABC paulista a primeira greve desde 64. O atual presidente Lula era a maior liderança.

No rastro dessa mobilização, as greves se ampliaram para outros setores e a pressão popular forçou a revogação do AI-5. Em 79 o Congresso aprovou a Lei da Anistia (mais generosa com militares e torturadores do que com torturados e desaparecidos). A inflação “campeou†sob a administração dos militares: chegou a 110% em 1980.

Depois, o país inteiro brigou por “diretas jáâ€. As diretas, porém, só chegariam depois de um Colégio Eleitoral indicar, em 1984, Tancredo Neves para substituir o militar João Figueiredo na presidência. Tancredo morreu e Sarney assumiu. Até que, em dezembro de 1989, o voto popular tornou presidente Fernando Collor, que contou com o apoio de Paulo Maluf e de Guilherme Afif. Lula, o derrotado, foi apoiado por Brizola, Covas e Roberto freire.

A grande imprensa – especialmente a Rede Globo – teve papel de muita influência nessas eleições. E que influência!

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(6) Comentários - Você está em Blogs

6 Comentários para “"Ditabranda" uma ova!”

  1. Pablo

    Belo texto. É sempre bom reavivar a memória coletiva, mestra em converter lobos em cordeiros…

  2. IMBECIL

    Tambem acho que não foi uma ditabranda, muito menos uma revolução a la Chile, porem é preciso tambem destacar as atrocidades cometidas pelos q tentavam implantar uma ditadura (esta seria feroz) de esquerda.
    Louvem-se os verdadeiros democratas da época, como exemplo Lula e Fernando Henrique.

    Agora não entendo porque esses mesmos “democratas” defendem a ditadura do amigo Fidel Castro, sanguinário mais que conhecido, são dois pesos e duas medidas.

    Sem falar que teem horror a Imprensa e a todos que tenham opinião contrário ao São LULLA, para mim um grande enganador dos pobres.

    Sem falar no carinho a Renan,Collor,Sarney,Romero Jucá e outras trepeças da política brasileira.

    Escapa, pelo menos, D. Marisa – a inútil, pois como é MUDA não diz besteira.

    Ainda bem que temos o fenomenal LULINHA e o filme o FILHO DO BNDES !

    tMO FÚ !

  3. Mel

    É triste pensar que depois de tantas dores, ainda existe canal de comunicação que chama ditabranda tanta violência.
    Caro “Imbecil”, D. Marise não fala besteiras é bem verdade(?), mas não há vergonha maior do que vê-la fazendo através de sua nulidade.

    Pompe parabéns!

  4. Elcio Verçosa

    Querido José Luiz, como é bom ver o pessoal de sua geração sintonizado com o combate à política dos “anos de chumbo”. Você, com sua alma de artista, não precisou de muito para sentir o que era viver amordaçado pelo próprio medo… Um comentarista de seu blog falou da ameaça da ditadura de esquerda… Esta tal ameaça foi usada para o Estado Novo, para o Golpe de 1964, para o endurecimento do AI5… Se houvesse realmente essa ameaça, não teríamos sofrido a imposição da lei do silêncio, que mutilou nossa cultura, matou pessoas pelo crime de discordarem dos madantes de plantão.. Obrigado, amigo, por continuar lembrando aos imbecis de plantão que temos memória… Tortura nunca mais, muito menos assasinatos covardes de inocentes.

  5. Helio Pompe

    Pois é, mano. Aquela época foi dificil. Agora, o que dói, é constatar que muitos daqueles que acreditavamos serem os nosso ídolos pela luta destemida que demosntravam ter contra a dita DITABRANDA, hoje estão envolvidos em grandes escandalos de corrupção e abuso do poder. Ainda bem que ainda continuo acreditando e gostando da boa música. Saudoso abraço grande violonista Luiz Pompe.

  6. Elton Machado

    Grande Luiz,

    É sempre importante lembrar daqueles tempos sombrios e, sobretudo, alertar essa moçada meio desligada para o fato de que a reconquista de democracia se deu a duríssimas penas.

    Como exemplo, trago um link que trata do triste aniversário da morte de Bacuri e o tratamento que a Folha de São Paulo, então Folha da Tarde (mas sempre sob a batuta da família Frias) dispensou ao episódio.

    Simplesmente chocante.

    http://www.vermelho.org.br/hoje/1208.asp

    Ditabranda? Nunca mais!

    Um grande abraço e parabéns pelo conteúdo do blog.


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