Pô, assim não vale! Cuba com mais medalhas que Brasil!
José Roberto Torero*
Em Cuba, se você tiver aptidão para o esporte, vai poder se desenvolver com total apoio do estado. Pô, assim não vale! Do jeito que eles fazem, com escolas para todos, professores especializados e centros de excelência gratuitos, é moleza. Quero ver é fazer que nem a gente, no improviso. Aí, duvido que eles ganhem de nós. Duvido!
Acabaram os jogos Pan-Americanos e mais uma vez ficamos atrás de Cuba.
Mais uma vez!
Isso não está certo. Esse paiseco tem apenas 11 milhões de habitantes e o nosso tem 192 milhões. Só a Grande São Paulo já tem mais gente que aquela ilhota.
Quanto à renda per capita, também ganhamos fácil. A deles foi de reles 4,1 mil dólares em 2006. A nossa: 10,2 mil dólares.
Pô, se possuímos 17 vezes mais gente do que eles e nossa renda per capita é quase 2,5 vezes maior, temos que ganhar 40 vezes mais medalhas que aqueles comunas.
Mas nesse último Pan, no México, eles ganharam 58 ouros e nós, apenas 48.
Alguma coisa está errada. Como eles podem ganhar do Brasil, o gigante da América do Sul, a sétima maior economia do mundo?
Já sei! É tudo para fazer propaganda comunista.
A prova é que, em 1959, ano da revolução, Cuba ficou apenas em oitavo lugar no Pan de Chicago. Doze anos depois, no Pan de Cáli, já estava em segundo lugar. Daí em diante, nunca caiu para terceiro. Nos jogos de Havana, em 1991, conseguiu até ficar em primeiro lugar, ganhando dos EUA por 140 a 130 medalhas de ouro.
Sim, é para fazer propaganda do comunismo que os cubanos se esforçam tanto no esporte. E também na saúde (eles têm um médico para cada 169 habitantes, enquanto o Brasil tem um para cada 600) e na educação (a taxa de alfabetização deles é de 99,8%). Além disso, o Índice de Desenvolvimento Humano de Cuba é 0,863, enquanto o nosso(ainda) é 0,813.
Tudo para fazer propaganda comunista!
Aliás, eles têm nada menos do que trinta mil propagandistas vermelhos na cultura esportiva. Ou professores de educação física, se você preferir. Isso significa um professor para cada 348 habitantes. E logo haverá mais ainda, porque eles têm, há décadas, oito escolas de Educação Física de nível médio, uma faculdade de cultura física em cada província, um instituto de cultura física em nível nacional e uma Escola Internacional de Educação Física e Desportiva.
Há tantos e tão bons técnicos em Cuba que o país chega a exportar alguns. Nas Olimpíadas de Sydney(2000), por um exemplo, havia 36 treinadores cubanos em equipes estrangeiras. Coisa de comunista exportador…
E existem tantos professores porque a Educação Física é matéria obrigatória dentro do sistema nacional de educação.
Até aí, tudo bem. No Brasil a Educação Física também é obrigatória.
A questão é que, se um cubano mostrar certo gosto pelo esporte, pode, gratuitamente, ir para uma das 87 Academias Desportivas Estaduais, para uma das 17 Escolas de Iniciação Desportiva Escolar (EIDE), para uma das 14 Escolas Superiores de Aperfeiçoamento Atlético (ESPA), e, finalmente, para um dos três Centros de Alto Rendimento.
Ou seja, se você tiver aptidão para o esporte, vai poder se desenvolver com total apoio do estado.
Pô, assim não vale!
Do jeito que eles fazem, com escolas para todos, professores especializados e centros de excelência gratuitos, é moleza.
Quero ver é eles ganharem tantas medalhas sendo como nós, um país onde a Educação Física nas escolas é, muitas vezes, apenas o horário do futebol para os meninos e da queimada para as meninas. Quero ver é eles ganharem medalhas, sem massificar o esporte, sem um aperfeiçoamento crescente e planejado(desde 2003 é que começamos, timidamente, a resgatar o tempo perdido, cujos resultados – e mais pódios - só a médio e longo prazo).
Quero ver é(os cubanos) fazerem agora que nem a gente, ainda meio no improviso. Aí, duvido que eles ganhem de nós. Duvido!
José Roberto Torero é formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles O Chalaça (Prêmio Jabuti e Livro do ano em 1995), Pequenos Amores (Prêmio Jabuti 2004) e, mais recentemente, O Evangelho de Barrabás. É colunista de futebol na Folha de S.Paulo desde 1998. Escreveu também para o Jornal da Tarde e para a revista Placar. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa Como fazer um filme de amor. É roteirista de cinema e tevê, onde por oito anos escreveu o Retrato Falado.
Raízes da Violência Política em Alagoas
O autoritarismo em Alagoas manifesta-se de maneira muito mais perversa do que nas regiões mais desenvolvidas do país.
Isso é determinado pela forte presença da grande propriedade agrícola, pecuária e agroindustrial e pelos nossos baixíssimos índices de verdadeira industrialização e de divisão social do trabalho.
A expressão dessa base econômica no universo político é um órgão estatal profundamente oligárquico, autoritário e patrimonialista.
A burguesia alagoana se expressa na esfera política como uma oligarquia, como um conjunto de poucas famílias que domina os três poderes nos quais se divide o Estado contemporâneo.
Esse poder é exercido de maneira autoritária e patrimonialista, sem respeito às leis democráticas vigentes e à separação que deve existir entre o patrimônio público e o patrimônio privado dos governantes.
No universo cultural, essa economia e essa política atrasadas determinam a vigência de idéias e costumes racistas, antidemocráticos e paternalistas, além de uma grande dificuldade para que as correntes de pensamento progressistas possam se estabelecer com consistência e durabilidade.
Quase não há espaço público em Alagoas, os direitos políticos fundamentais não têm vigência plena, sobrevivem apenas de maneira residual; subsistem mais pela inserção do estado na Federação do que por razões internas.
Em Alagoas, o Estado de Direito tem uma existência mais formal do que real: as formalidades jurídicas são observadas juntamente com um quase completo desrespeito ao conteúdo das leis.
Esse caráter residual da democracia é mais agudo no interior do que em Maceió. Isso ocorre porque na Capital há uma maior complexidade econômica, social e ideológica.
A classe proprietária divide-se em um largo arco-íris de tipos e subtipos, formados por comerciantes, pequenos industriais e empresários do setor de serviços, e as grandes usinas não têm peso significativo na economia da cidade.
Na capital concentra-se uma grande massa de assalariados do setor público e do setor privado; massa que encontra um ambiente objetivo mais propício para a organização sindical e política e também para expressar-se ideologicamente com mais liberdade e consistência.
Para tornar ainda mais complexo o quadro de Maceió, há também uma grande massa de subempregados e desempregados que enlaça a cidade como um grande cinturão de necessidades humanas insatisfeitas e, devido à sua fragmentação objetiva, resiste a quase toda tentativa de organização política duradoura, seja de esquerda ou de direita.
Porém essa massa sofredora e estigmatizada pensa, sente, e é influenciada pelas vanguardas políticas da cidade e movimenta-se freqüentemente como um grande bloco nos períodos eleitorais e em outros momentos políticos, sendo capaz de determinar a vitória ou a der-rota de qualquer corrente política na cidade e, muitas vezes, no Estado.
Em Maceió, a complexidade e a magnitude dos interesses e, portanto, das possibilidades de conflito, impõem uma vigência um pouco mais significativa das instituições democráticas.
Nos municípios do interior, em suas áreas rurais e urbanas, os direitos políticos fundamentais são radicalmente negados para os assalariados, os camponeses, a pequena burguesia rural e a classe média das cidades.
Os grandes proprietários de terra e de outros bens de produção decisivos dispõem de um poder político discricionário; poder que é baseado na política de clãs familiares, no compadrio, na negação do espaço público para os adversários, na aplicação da violência física para solucionar desde os pequenos conflitos até as questões decisivas, e no desprezo pelo embate das idéias no universo da política.
Trata-se, portanto, de um espaço onde domina, quase inconteste, o arbítrio dos poderosos, os caprichos de um pequeno grupo de pessoas que possui o domínio político quase absoluto sobre a massa da população.
A diferença existente entre as estruturas de poder no interior e na capital constitui-se em um fenômeno básico no universo político do estado de Alagoas.
Os movimentos democráticos e progressistas desenvolvem-se geralmente em Maceió e, posteriormente, são obrigados a enfrentar a dura reação que se baseia nos municípios do interior, principalmente naqueles de menor população e complexidade social.
A reação oligárquica muitas vezes é tão forte que isola e derrota esses movimentos.
Essas circunstâncias têm servido, durante parte da nossa história, como uma grande muralha separando politicamente a classe trabalhadora, a pequena burguesia e a classe média de Maceió dos trabalhadores, pequenos burgueses e setores médios do resto do Estado.
Os assalariados do Sertão, do Agreste e da zona canavieira, parte essencial de qualquer movimento democrático e progressista em Alagoas, ficam separados uns dos outros e apartados das forças populares maceioenses pelas cercas de cada fazenda ou usina e pela vigilância ininterrupta e violenta das oligarquias interioranas.
Ser um sindicalista combativo na zona canavieira, no Agreste e no Sertão tem sido algo análogo a assinar para si mesmo uma sentença de morte ou, pelo menos, chamar para perto de si a desgraça.
A Assembléia Legislativa foi durante toda a história alagoana a expressão condensada do poder dos coronéis interioranos.
E essa característica essencial do poder legislativo não foi nem de longe negada pelo surgimento, em alguns momentos históricos, de deputados democratas, progressistas e comunistas, já que, apesar do seu esforço e do seu heroísmo, o número destes parlamentares sempre foi muito reduzido em relação ao número de representantes da oligarquia.
O Legislativo alagoano tem sido, historicamente, a Casa das oligarquias e não a Casa do povo; em Alagoas, este poder não é um instrumento para a democracia, é uma ampla vereda para o autoritarismo e a dilapidação do patrimônio público em benefício da classe dominante.
De maneira análoga, o Poder Judiciário funcionou na nossa história como um braço jurídico dos poderosos na sua luta contra o Estado de Direito democrático e contra a justiça.
Apesar da luta de alguns juízes, procuradores, defensores públicos e advogados para reverterem esta situação vexatória, seus esforços têm resultado em melhorias muito pontuais, o que é determinado tanto pelo ambiente oligárquico geral como pelas dificuldades inerentes à luta na esfera do Judiciário.
Em Alagoas, o crime organizado não é independente dessa realidade antidemocrática de longa duração.
Em um ambiente social marcado pelo poder dos coronéis, não surpreende que se desenvolvam grupos armados que misturam os crimes comuns com as suas intervenções, abertas ou veladas, no jogo político.
A própria forma adquirida pelo poder político em Alagoas torna esses grupos armados uma necessidade estrutural da classe dominante, bem como torna estrutural a conivência dessa classe com suas várias dimensões.
As quadrilhas formadas nesse ambiente somente são reprimidas pelo aparelho do Estado quando passam de determinados limites; isso ocorre quando criam escândalos nacionais ou quando se chocam com os interesses das próprias oligarquias.
A agudeza do autoritarismo alagoano também se revela no universo do pensamento cotidiano e das formas culturais mais complexas, sejam eruditas ou populares.
A vida em Alagoas é marcada por profundos preconceitos e discriminações sociais, raciais e de gênero. O pouco desenvolvimento da divisão social do trabalho e, portanto, das instituições sociais e políticas modernas, cria um ambiente altamente suscetível a que as pessoas sejam avaliadas tanto pela sua posição de classe quanto pelas suas dimensões biológicas e culturais.
Assim, os negros, os índios, os mestiços, as mulheres, os homossexuais e os deficientes físicos e mentais sofrem, na terra do Quilombo dos Palmares e de Nise da Silveira, uma opressão tão aguda que é de difícil descrição, principalmente quando esta opressão vem acompanhada pelo preconceito relativo à origem de classe.
Também nesse aspecto, a situação no interior é mais grave do que em Maceió.
O espaço social marcado pelo par latifúndio-minifúndio e pelo trabalho agrícola braçal, ou seja, a inexistência de um setor de serviços amplo e de uma indústria significativa determina a prevalência de uma cultura patriarcal, dificultando a libertação feminina e sua luta pela igualdade de direitos com os homens.
Os homossexuais são moralmente dizimados, sofrem vários tipos de violência simbólica infames, quando não são mortos.
Esse ambiente rigidamente hierarquizado e rancoroso é propício para o desenvolvimento dos mais baixos sentimentos de superioridade familiar e racial, o que concorre para que as sobrevivências do passado escravista sejam constantemente renovadas e estigmatizem profundamente os negros, os índios e os mestiços, os quais, não por acaso, estão geralmente entre as camadas mais pobres da população.
Mesmo apresentando esse fenômeno de maneira mais atenuada, Maceió não está livre desses preconceitos abjetos: a grande maioria da população maceioense é completamente estigmatizada pela cor da pele, pela sua situação social e pelo seu local de moradia.
Esses estigmas e a luta contra eles consistem na principal marca das culturas maceioense e alagoana.
Em Alagoas não prosperou nem a ideologia da “democracia racial”; ideologia que, apesar de encobrir de maneira capciosa a opressão contra os não- brancos, é uma espécie de tributo que o vício do preconceito paga à virtude da democracia.
Concluindo, podemos dizer que a radicalidade do atraso alagoano, a maneira particularmente perversa de o Estado reproduzir o capitalismo periférico e retardatário brasileiro constituiu, seja na economia, no universo político e na esfera da cultura, uma formação social muito peculiar, uma espécie de purgatório terreno no qual gerações foram colocadas para medir os limites da tragédia humana.
Possuímos quase todos os defeitos do capitalismo nas suas manifestações mais radicais e não temos a maior parte dos aspectos positivos desse modo de produção.
Temos o egoísmo individualista, mas não temos a democracia; temos tecnologias que desempregam, mas não temos alfabetização; temos miséria urbana, meninos e meninas vivendo na rua, idosos espalhados pelas calçadas, mas não temos empregos industriais e políticas de amparo social consistentes.
Enfim, sofremos as conseqüências dilacerantes de possuirmos de uma maneira congênita e radical os problemas do atraso e as mazelas da modernidade.
Golbery Lessa- historiador
Fonte: http://www.reporteralagoas.com.br/noticia_politica.php?cd_secao=1467
Nova “classe média” do Brasil fica na faixa da pobreza francesa
Estudo divulgado pelas agências de notícias informa que a crise econômica arrastou milhões de franceses para a faixa de pobreza. O número de pobres sobe a 8,2 milhões, ou 13% da população. Mas é bom notar que os critérios sociológicos daquele país divergem dos usados no Brasil. Aquilo que por aqui o pensamento dominante chama de classe média emergente ou nova classe média não seria mais do que um pobre na França.
Os franceses consideram pobre o cidadão que ganha menos de 954 euros por mês, o que equivale, ao câmbio atual, a cerca de R$ 2,2 mil. Já por aqui, uma família com renda mensal superior a R$ 1.126,00 ultrapassa a linha de pobreza e é classificada como classe média pelos critérios usados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), largamente difundidos.
Classe média favelada
Apesar das diferenças relacionadas ao custo de vida, o critério usado pelos franceses está muito mais próximo da verdade e a situação de um pobre naquele país europeu parece mais confortável com que a de um “classe média” emergente do Brasil. Até mesmo porque os franceses não têm de pagar por serviços de saúde de qualidade (é gratuito) e recebem subsídios para o aluguel.
Na capital de São Paulo, uma família da classe média emergente não teria renda para alugar um apartamento de dois quartos, que (estimando por baixo) não sai por menos de R$ 1 mil. Não é de estranhar, por isto, que muitos membros da nova “classe média” continuem morando em favelas e cortiços.
Conceito falso
O conceito de classe média que orienta os institutos de pesquisas e prevalece nos meios de comunicação é fundamentalmente falso e serve a propósitos ideológicos conservadores. Ele obscurece o fato de que a mobilidade social dos pobres verificada desde 2002 ocorreu principalmente pela incorporação, durante os governos Lula, de milhões de trabalhadores desempregados às atividades produtivas, bem como o aumento da massa salarial e dos salários, começando pelo mínimo.
Estima-se em cerca de 15 milhões o número de novos postos de trabalho formais gerados entre 2002 a 2010, derrubando a taxa de desemprego aberto nas seis maiores regiões metropolitanas do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife) dos 13% de 2003 para 6,5% em 2011, de acordo com o IBGE.
Mas a julgar pelo conceito dominante, que divide as classes por faixas de renda (A, B, C, D e E), não existe o que chamamos de classe trabalhadora ou proletariado; tampouco há lugar para a classe capitalista ou burguesia. A sociedade seria composta apenas por pobres e classes médias.
Classe trabalhadora
A mobilidade social significou, essencialmente, um movimento no interior da classe trabalhadora. Se julgarmos a realidade pelos critérios marxistas, que diverge radicalmente das concepções dominantes, o que vem sendo chamado de “nova classe média” na verdade é a classe trabalhadora, que vive da venda de sua força de trabalho, submete-se à exploração capitalista e ganha salários que cresceram nos últimos anos mas ainda permanecem em níveis miseráveis. Cerca de 70% dos trabalhadores e trabalhadoras recebem até três salários mínimos no Brasil.
O retrato que Ary Barroso fez da situação da força de trabalho brasileira no belo samba intitulado Falta um zero no meu ordenado, composto em parceria com o grande flautista e parceiro de Pixinguinha, Benedito Lacerda, data de 1947 mas ainda não perdeu atualidade. Confira a letra abaixo:
Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado
Fazendo faxina
Comendo no “China”
Tá faltando um zero no meu ordenado
Tá faltando um zero
No meu ordenado
Tá faltando sola no meu sapato
Somente o retrato
Da rainha do meu samba
É que me consola
Nesta corda bamba
Extraído do Portal Vermelho
Volume 3 da banda Mopho: um CD de arrepiar!
Não há nada de mofado no Volume 3 da banda Mopho. Lançado no Teatro Deodoro, num show de arrepiar, o CD reúne pérolas que se sobressaem em meio às melhores produções fonográficas nacionais recentes.
A personalidade que caracteriza o Mopho desde a estreia em 2000, pelo selo Baratos Afins, é mantida lá no alto neste Volume 3, que nos leva para uma deliciosa viagem ao mundo dos Beatles, do Pink Floyd, dos Mutantes, dos anos 80 e, principalmente, do próprio Mopho, que revela coerente amadurecimento ao longo da trajetória de dez anos.
A voz afinada e inconfundível de João Paulo é laureada – na medida certa – pelo instrumental e backing vocal da banda. Júnior Bocão (baixo e voz), Dinho Zampier (teclado), Hélio Pisca (bateria) e a participação especial de Marco Túlio (violão) garantem a perfeita harmonia das dez gravações.
As participações também especiais de Wado (Quanto vale um pensamento), Luiz Carlini (A malvada) e Billy Magno (Prelúdio) imprimem ainda mais qualidade a este álbum da banda Mopho, cujas músicas foram masterizadas pelo californiano Brendan Duffey.
O projeto gráfico concebido pelo artista visual Paulo Blob para capa e encarte do CD é um espetáculo à parte.
Constituem este Volume 3 as faixas Dani Rabiscou, Quanto vale um pensamento seu, As Marias, Pessoas são de vidro, Prelúdio, Você sabe muito bem, Caleidoscópio, A Malvada, Produto Ordinário Popular e O Infinito.
Para ouvir todas essas maravilhas basta comprar o CD ao preço de R$ 20 através do site da Pisces Records ou acessar MySpace oficial do Mopho.
Recomendo!
Parece mentira, mas as praças de Maceió já foram belas!
“Quer levar uma porrada?!”
O berro me fez olhar para o lado. Um rapaz maltrapilho ameaçava um garoto cambaleante que havia tentado arrancar de suas mãos um recipiente plástico que usava para cheirar cola. Sentado próximo a um engraxate, num dos bancos da Praça Deodoro, aguardava que Marta, minha mulher, concluísse sua atividade como advogada no Tribunal de Justiça.
A cena me angustiou e me fez refletir: na praça – agora ocupada por viciados, prostitutas e moradores de rua – havia em outros tempos paqueras, crianças brincando, exposições de pinturas e artesanato, shows, comícios, retretas.
Nos anos 90, quando a prefeitura gradeou as praças de Maceió, já ia longe o tempo em que, nesses pátios ajardinados, rapazes, num círculo maior, observavam as meninas rodando por dentro, em flertes que acabavam em namoros e até em casamentos.
Convivência, recreação, lazer e cultura cederam lugar para miséria, violência e malandragem. Por ser espaço público, livre de edificações, a praça acolhe a crua realidade que a cerca. Virou refúgio para excluídos, abandonados, desempregados, desamparados e drogados, todos diante de um horizonte sombrio, à mercê de administradores corruptos e indiferentes.
É com justificada apreensão que, mesmo durante o dia, transitamos por uma praça. À noite o perigo é gigantesco. Mulheres, jovens, trabalhadores e estudantes que precisam percorrer esses espaços são presas fáceis para assaltantes, homicidas, traficantes e estupradores, que agem favorecidos pela falta de policiamento e de iluminação.
Bancos quebrados, grama crescida, cocô de cachorro e lixo formam a paisagem do que um dia foi belo.
Nem parece verdade, mas fotos antigas comprovam que as praças Sinimbu, Deodoro, Martírios e Centenário já foram floridas, iluminadas e motivo de orgulho para os maceioenses!
O apelido cruel de outrora e o bullying criminoso de agora
“Palito equilibrado!”. Quando ouvi a voz infantil que veio em minha direção, olhei em volta e não vi mais ninguém. Era eu mesmo o alvo do apelido, lá pelos meus 7 anos, quando comecei a espichar na altura e a estreitar nas laterais. A garotada – cruelmente criativa – não perdoava e aquilo que então não passava de um germe de algo muito mais sério – o bullying – emplacou.
Não via maldade nisso. Não me importava muito, já que todo mundo tinha apelido. Eu mesmo “torturava” coleguinhas. Chamava o gordinho Dirson de “baleia”, o narigudo Gerson de “tucano” e o baixinho Carlinhos de “rodapé”. As sobrancelhas grossas do Tadeu lhe premiaram com o epíteto de “Frankstein”. Tinha também o “Morcego” e o “Mococa”. Apenas as meninas de então eram poupadas (ou quase).
Quem mais sofreu foi o Sidney, coleguinha que ocupava a carteira em frente à minha na sala-de-aula. Era divertido chamá-lo de “kid orêia” após sapecar com a ponta dos dedos golpes que avermelhavam as suas “orelhas de abano”, aproveitando o momento em que a professora se virava para escrever a lição na lousa.
Já maiorzinho, iniciando-me no segundo grau, eu continuava magérrimo e os apelidos se multiplicavam. Permaneceu o “palito equilibrado” e outros surgiram, entre eles, “pau de virar tripa”.
“Pernilongo” foi a referência que mais mexeu comigo. Lembro com nitidez quando o Edy, colega gozador que sentava-se ao meu lado, olhou para mim e, virando uma régua para a parte mais fina, bradou sem piedade, diante de toda a classe: “alô ‘pernil’, você já se viu de perfil?”. “Pernil” nada mais era do que a abreviatura de “Pernilongo”, apelido que ganhei por conta de minhas pernas magras e compridas.
Quanto mais a “vítima” reagisse, mais o apelido se consolidava. O melhor era se fazer de “surdo”, de indiferente, embora nada disso adiantasse. A “estratégia” mais comum da molecada era contra-atacar também com apelidos.
Era uma época em que a criançada passava o dia inteiro na rua, brincando, jogando bola e andando em bandos. Ninguém imaginava que apelidar alguém um dia se tornaria crime. Hoje, quando a meninada é enclausurada para escapar de mazelas como pedofilia, drogas e outras formas de violência, os pais correm o risco de até ir para a cadeia caso um filho ridicularize alguém com um apelido.
A palavra inglesa bullying, ainda sem tradução para o português, é o que se coloca nos conturbados dias de hoje. É uma designação que não se restringe a apelidos, mas estende-se a outras atitudes agressivas intencionais e repetitivas que visam ridicularizar a vítima.
Não só apelidos, mas comentários maldosos e “gracinhas” são classificados como bullying, gesto que passou a ser considerado crime inicialmente na Europa após pesquisas revelarem haver tendências suicidas entre crianças e jovens que se angustiam por serem alvos dessa agressão.
O bullyng é um fenômeno mundial encontrado em qualquer escola. No Reino Unido, políticas anti-bullying foram implantadas nas unidades de ensino desde que surgiu a interpretação de que essa atitude pode fabricar adultos delinquentes e criminosos.
Naqueles meus “anos dourados”, o espírito de apelidar alguém não incorporava a perversidade do bullying que hoje causa tormentos irreversíveis e até vitimas fatais. Eu, o “palito equilibrado”, o “pau de virar tripa”, o “pernilongo”, ria sarcasticamente ao dar “petelecos” no “kid orêia” sem que isso despertasse em mim qualquer inclinação para o mundo do crime. Creio que os amiguinhos de minha geração – nunca mais os vi – também não tenham se transformado em delinquentes ou criminosos. Assim espero…
Analfabyte, alguma dúvida? Chame uma criança que ela resolve!
Se pessoas geniais como Luiz Fernando Veríssimo, Chico Buarque e Antonio Fagundes confessam-se “analfabytes”, porque eu, um simples mortal, também não o confessaria! Admito que sou analfabyte e que até já pedi para um sobrinho de nove anos me socorrer na internet. O meu “drama” foi solucionado em poucos segundos e a criança ainda me humilhou: “você é burro mesmo, hem tio!”
Se você é da geração da máquina de datilografia nem pense duas vezes: qualquer dúvida, chame uma criança que ela lhe ensinará os caminhos virtuais! Quando o assunto é informática, a garotada é bem mais adulta do que os adultos em geral!
Certa vez comprei um celular cheio de recursos. “Analfabyte” que sou, só aprendi mesmo a usar o básico: ligar e atender ligações. Lael, meu sobrinho que já nasceu sabendo todos os (para mim) mistérios da informática, rapidamente me apresentou a infinidade de opções que eu sequer imaginava existir no aparelho. Com agilidade e precisão, o menino configurou tudo e me deixou perplexo com seu conhecimento “nato”.
O curioso é que crianças com 4 ou 5 anos “navegam” na internet com facilidade! Aprendem a mexer no computador antes de andar de bicicleta (pesquisa da Digital Diaries revela que 58% das crianças sabem jogar no PC, 20% sabem nadar, 25% andam de bicicleta e apenas 11% sabem amarrar o cadarço do tênis).
O mesmo estudo revela que 28% dos meninos e meninas sabem fazer ligações no celular, mas apenas 20% sabem como ligar para um telefone de emergência.
O lado negativo de tudo isso é que crianças com computador em casa têm pior desempenho escolar , com notas baixas principalmente em provas de matemática e leitura. Estudo da Universidade de Duke, Estados Unidos, indica que alunos pioraram nas provas à medida que o computador e a internet banda-larga chegaram às suas casas.
Estudos como esse devem servir de advertência aos pais que, em geral, tendem a acreditar que o acesso à internet é sempre positivo. Embora abra as portas para uma imensa variedade de informações, a internet é para a quase totalidade das crianças um instrumento para jogos e socialização virtual.
Há ainda outros perigosos inconvenientes: crianças expostas por muito tempo diante do computador ficam sujeitas aos efeitos da radiação; posições repetitivas e posturas erradas podem causar problemas de coluna vertebral; o volume exagerado dos auscultadores leva a problemas de audição; as longas horas diante da telinha conduzem a problemas de visão.
Não bastassem esses efeitos, há também os perigos dos sites de relacionamento. Bandidos, pedófilos, aliciadores, traficantes e outros mal intencionados aproveitam-se da inocência infantil para cometer assaltos, estupros e outras mazelas. Crianças não orientadas costumam divulgar para desconhecidos – sem hesitar – dados pessoais, fotos, horários, hábitos familiares…
Não são poucos os casos trágicos que teriam sido evitados caso houvesse a proteção paterna e materna. A questão não está em proibir que a criança use a internet. Pelo contrário: a internet é irreversível e até indispensável nos atuais moldes da vida humana. Porém, abandonar uma criança à mercê do computador é submetê-la aos danos e perigos citados e também a outros cada vez mais presentes no mundo virtual.
Bin Laden: euforia joga crise econômica para segundo plano
O atual episódio “Osama Bin Laden” me lembra a manobra dos Estados Unidos, há dez anos, de aproveitar-se da comoção coletiva para vincular Saddam Hussein ao atentado às torres gêmeas e ao Pentágono, na busca de esmorecer reações contra a invasão planejada ao Iraque, país detentor da maior reserva de petróleo do planeta. O objetivo era transferir o sentimento de tristeza e revolta dos americanos para o foco mais lucrativo.
Agora, dez anos após o atentado, o presidente Barack Obama busca colher frutos para sua reeleição com a popularidade obtida através da morte do líder da famigerada Al Qaeda. No entanto, ainda faltam dois anos para as eleições e a euforia de agora pode ser totalmente esquecida, caso não haja uma reação da economia norte-americana em crise.
Os sanguinários Bin Laden e Saddam Hussein foram estreitos aliados do governo estadunidense até quando essas alianças interessaram aos ianques. O então presidente Ronald Reagan esteve ao lado de Saddam na guerra contra o Irã, que se estendeu de 1980 até 1988. George Bush (pai) era sócio do bilionário pai de Bin Laden, de quem obteve recursos milionários para investir em suas megapropriedades.
Longe do que apregoam os mandatários norte-americanos, Osama Bin Laden nunca representou os povos árabes e nem tampouco lutou contra o imperialismo. A Al Qaeda em momento algum expressou a luta justa contra os graves problemas que afligem as regiões do Oriente Médio e da Ásia Central.
A Al Qaeda, na verdade, surgiu do financiamento norte-americano e países aliados para atuar como braço armado na região riquíssima em petróleo. Porém, a cria acabou voltando-se contra o criador e vice-versa, configurando-se na batalha sangrenta com milhares de mortos principalmente no lado asiático-oriental, onde as matanças não são computadas. Já no ataque às torres gêmeas o número oficial de mortos foi de 2.996.
Essa guerra expansionista está longe de expressar os interesses e os sentimentos das populações norte-americana, médio-oriental e centro-asiática. O objetivo é um só: subjugar para expandir lucros em benefício de uma casta privilegiada.
Nunca é demais falar sobre as sequelas dos “anos de chumbo”
Eu era criança e nada lembro do momento em que o golpe militar arrancou do poder um governo legítimo. Comecei a perceber que as coisas estavam estranhas só alguns anos depois, quando o Gonzaga, amigo de meu irmão Hélio, fora preso no congresso da UNE em Ibiuna (SP). “Porque prenderam o Gonzaga, um cara tão calmo e de boa índole?”, me perguntava, perplexo.
A partir de então eu e meu outro irmão Carlos começamos a perceber que tudo em volta estava certo como dois e dois são cinco. No Festival da Record, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Chico Buarque, Gil e Caetano contestavam a ditadura cantando Disparada, Ponteio, Roda Viva, Domingo no Parque e Alegria alegria. Eu curtia muito, mas não compreendia muito bem as letras, para mim ainda nebulosas.
As gerações pós-ditadura precisam ser esclarecidas sobre os tormentos causados aos brasileiros ao longo daqueles tirânicos 21 “anos de chumbo”. Só assim o Brasil poderá consolidar e ampliar a democracia. Nunca é demais falar sobre isso!
Há nesse sentido iniciativas que devem ser melhor divulgadas, como a exposição Sala Escura da Tortura, que acontecerá na USP nos dias 18 e 19 de maio, e como o memorial para as vítimas da ditadura, que será construído pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos em homenagem aos mortos e desaparecidos (afinal, ainda não foram encontrados os restos mortais de Virgílio Gomes da Silva – o Jonas, assassinado em 1969, e de Sérgio Corrêa, que morreu na explosão de um carro no mesmo ano, entre outros mais).
“Não se consolida uma democracia com cadáveres insepultos”. A frase dita na novela “Amor e Revolução”, do SBT, no depoimento de uma ex-estudante barbaramente torturada no início dos anos 70 traduz um estágio que carece de avanços para consolidar e aprimorar uma democracia que em seus 26 anos consecutivos percorre o mais longo período sem rupturas da história da República brasileira.
Familiares até hoje clamam por informações sobre parentes desaparecidos na guerra suja dos anos de chumbo. Sequestros, torturas e assassinatos não devidamente esclarecidos remam contra a democracia tão duramente conquistada. Feridas que jamais cicatrizam foram abertas pelos golpistas.
O projeto de criação da Comissão da Verdade – que a ministra Maria do Rosário quer ver aprovado pelo Congresso – causa desconforto nos meios militares mais retrógrados, que querem livrar a cara dos algozes apelando para o fácil argumento de “evitar o revanchismo”. Esse sentimento é materializado pela desastrada declaração do recém-empossado chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general José Elito Siqueira, de que a existência de desaparecidos políticos não deveria “envergonhar” o País.
Diferente desse postura retrógrada, surge o Programa Nacional de Direitos Humanos propondo a revisão da Lei de Anistia a fim de permitir a condenação na Justiça de agentes públicos autores de atrocidades contra trabalhadores, estudantes e brasileiros em geral.
É inquestionável o direito dos familiares saberem o destino de parentes que desapareceram quando estavam sob custódia do Estado. Assim como também é direito de presos e torturados durante a ditadura pleitear reparação à União, como fez a hoje presidente da República Dilma Rousseff por ter sido, em 1970, subjugada no DOI-Codi com choques elétricos, pau de arara e palmatória, sendo várias vezes levada ao Hospital Central do Exército e ao Hospital das Clínicas devido a hemorragias graves.
Quanto mais a juventude e os brasileiros em geral tomarem consciência da barbárie dos “anos de chumbo” e da preciosidade da democracia, menos herdeiros da ditadura, palhaços, fanáticos e outros inconsequentes serão eleitos para ocupar cadeiras em governos e no parlamento.
Professor não é empregado de aluno: é formador do futuro!
Nos anos 40, a mulher magrinha e vigorosa – que futuramente seria minha mãe – era professora primária no Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Tinha apenas o primário, mas educava com habilidade as crianças daquela pobre e esquecida zona rural de Juquiá, perto de Miracatu, Itariri e Peruíbe. Ensinava e cuidava: combatia os piolhos das cabeças infantis com inseticida, improvisava curativos rudimentares e corrigia os mal educados com castigos. Era severa, mas querida e respeitada, amada até pelos “rebeldes”.
Dona Anita (apelido carinhoso de Anna Christina Leite Pompe - foto), que em 1941 se casou com seu Oscar (então meu futuro pai), é a referência que escolhi para chegar ao tema “Educação” no Brasil. Era pouco mais que alfabetizada, mas muitos dos que com ela aprenderam são hoje professores, médicos, engenheiros, e por aí vai… Outros podem não ter tido a mesma sorte provavelmente por serem vítimas da pobreza extrema ou outras circunstâncias infelizes.
De lá para cá a oferta foi ampliada, mas a qualidade drasticamente reduzida na Educação. As crianças hoje não aprendem a somar, subtrair, multiplicar, dividir, ler e escrever como aprendiam há algumas décadas. Isso é triste porque o bom ensino básico é indispensável para que o País tenha boas pessoas, qualificadas, solidárias, gentis, humanizadas.
Os Estados e Municípios destinam 25% e a União 18% do Orçamento para a Educação. Pensar em aumentar esse percentual é sempre procedente, já que se trata de uma atividade extensiva, que precisa sempre de mais recursos para pagar melhor os professores, construir novas escolas, equipar e modernizar as salas-de-aula, e tal e coisa e coisa e tal…
O exemplo abnegado de minha mãe-professora me leva a pensar que a Educação é mais do que uma questão social: é uma questão nacional que está acima de tudo porque compromete o futuro da juventude e, por conseguinte, do País.
A aparência frágil daquela professorinha de Juquiá não era obstáculo para sua autoridade naqueles anos 40. Ela era respeitada, valorizada. Afinal, como educar se não houver disciplina e hierarquia? Se naquela época a criança tirasse uma nota vermelha era repreendida pelos pais. Hoje os pais repreendem a professora. Uma inversão de valores absurda, que reflete a progressiva tragédia que vem afligindo o ensino no Brasil.
Além do Orçamento, a Educação precisa que a autoridade seja restituída ao professor, atualmente tratado como um funcionário público qualquer, como um empregado do aluno. Isso é um nocivo e imperdoável equívoco: professor é um funcionário especial, um formador de pessoas, um formador do futuro.
*Dona Anita – Anna Christina Leite Pompe (17 de maio de 1922 — 11 de abril de 2005)





