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Os três astrônomos

segunda-feira, outubro 25th, 2010

Observo três astrônomos conversando sobre o fim da Terra, num documentário desses.

Três homens discorrendo sobre os perigos que nosso planetinha azul sofre sem sabermos (aliás, eles sabem): asteróides, expansão solar, raios gama vindos dos confins dos fins dos infinitos etc. e tal.

É curiosa a ciência: três homens que odeiam a vida e o universo dedicam suas vidas ardorosamente a dois estudos: da vida e do universo.

Por que afirmo que eles detestam a vida (ou algo nela)? Porque, quando falam das piores catástrofes, das mais horripilantes destruições em massa, dos mais escabrosos atentados à incolumidade da Terra (pobrezinha), só faltam ejacular na lente. Eles se lambem, deliciam-se com a antecipação da catástrofe; eles adoram, curtem, jogam os olhos para cima quando desfrutam da imaginação deste mundo e seus habitantes sendo devorados pelas forças que eles imaginam dominar por supor.

Tá na cara que, ao lado das verdades científicas, há ali algo da catarse de uma frustração: eles querem lascar com a gente. Talvez nos desprezem por, de sua ótica, não atentarmos à ciência, que é sua vida – porque sejamos “ignorantes da grandezaâ€; talvez por não nos darmos conta da magnanimidade que eles sonham ostentar em si por entrever, de uma brecha, o Indecifrável da extensão; talvez porque eles tenham um complexo, um recalque de C.D.F.; ou talvez porque, simplesmente, eles queiram suicidar-se (levando-nos!), e lhes falte coragem, daí implorem ao infinito que “acabe com essa droga toda de uma vez†– isso, aliás, me lembra outra classe de homens que, como disse Schopenhauer, “têm óculos no lugar de olhosâ€, mas deixa para lá…

Sei não! Sei que tem algo maléfico ali, algo de Gargamel, e ninguém me tira essa impressão da cabeça. Aqueles três astrônomos não me enganam…

Fico com uma velhinha erudita, astrônoma também, que, com um puta sorriso na cara, tacou, noutro documentário sobre o universo, algo assim: “Tudo acabando ou não; nossa individualidade perseverando ou não; sendo a vida curta ou não, vale demais a pena viver para tentar compreender um milímetro que seja desse deslumbre que nos cerca e que, por ser tão grandioso e inexplicável, chamamos obra de Deus… Imagine quando, um dia, viermos a compreender o que é essa supremacia de inteligência a que chamamos Deus, que nos deixa estupefatos só de a conjeturarmos! Nesse dia, amiguinho, compreenderemos quem somos nós: o grandioso e o desprezível em nós…â€

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Crônica Curta (7) – Matutando no Tempo

sexta-feira, agosto 20th, 2010

http://tudoglobal.com/pablodecarvalho/

Fora do relógio, querida, o tempo não passa.

 Envolva a Terra numa espessa camada de chumbo e cerre a História: restará o universo, paralisado na eternidade, e a mudez dos acontecimentos. Haverá tempo?

 Por isso, porque o amor é uma devoção em ondas que se engolem a si para se chamarem, um dia, de quietude, sejamos do tempo da carne, do tempo dos beijos, do tempo do sexo recomposto num galope momentâneo a que, por falta de palavra, chamamos de Poesia.

Este dia, o dia de hoje, que não existe fora de nós, seja louvação da matéria, antecâmara do verso, e seja do verso, ante-sala da canção, e seja da canção, epígrafe do amor, e seja do amor, pasto do tempo.

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