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O Dia de Hoje

sábado, julho 3rd, 2010

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 Escorre o dia de hoje. Escorre tão docemente (embora trague alguma solenidade) que eu gostaria que ele fosse a vida toda, finito no infinito.

 Caminha, passa em brisa e horas, entre os livros e os documentários, entre pálpebras e cafés, cigarros e sons.

 Abro cá a minha mão, e eis o dia nela: o dia de hoje. De manhã à tarde, desta à noite, da noite ao nada. Estou vivo, respiro e compreendo, mas não muito além do dia de hoje. Que satisfação me dá! Bendita vadiagem sem remorso!

 Entre as paredes do coração, pelas paredes do apartamento, uma mulher evolui, como em ponta dos pés; é sua presença inaudível, mas fundamente sentida: a alma no etéreo, os peitos, os pêlos, a boca, o ventre; lá ela, ausente daqui porque presente em tudo, porque é continente de tudo o que comporto no dia de hoje: a brisa, os livros, o café, a filosofia da vadiagem; a mulher.

 Tolo escritor, pobre cronista, com o dia de hoje tão ao seu alcance, mas tão incontido por suas palavras curtas, inexcedíveis de sua pouca visão. Cantar, contar, escrever, beber, tudo aquém do sentimento, da dimensão estrelar vista pela janela do dia de hoje, dia de um homem vivo e que sente o amor; o dia de hoje, de que sou objeto, e no entanto escrevo sobre ele, que deveria compor em torno de mim, que sou simples utensílio de sua eternidade galopante. 

 Se fosse assim, diria (o dia de hoje, e certamente com mais verve):

 “Vê que pequenino homem triste instalou-se num cantinho do que sou, do que posso… Vê como ama, como escreve: tão a descontento, mas o faz com uma boa-vontade tal que me dá dó! Ah, criança, cena de mim, o dia de hoje; passe! Não posso lhe chamar de filho; você não pode me chamar de pai. Passe, simplesmente, e viva sua vida, seu encanto, sua dor e seu sorriso. Amanhã será outro, mas o dia, o dia será ainda o de hoje, o dia de hoje.â€

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A mão da vida

quinta-feira, janeiro 14th, 2010

Mao_da_Vida_by_ElverooteÀs vezes, quase que do nada, a mão da vida nos pousa nos ombros para sussurrar coisas doces. É uma espécie de trégua, um acalanto ao homem-trabalhador, ao exausto-dos-dias.
E isso me acontece hoje, nesta sexta-feira à tarde em que, à moda Antônio Maria, sento-me num banco de praça e acendo um cigarro.

Já os ombros encurvavam; já o bocejo da semana acumulada saía de meus dentes escancarados, quando houve uma enorme pausa. Quando tudo adocicou. Quando uma brisa entrou-me pela gola da camisa e me disse ao peito: acalma, pega leve, dá paz a esse pingente de São Jorge…

Lembrou-me que ainda há música pela vida, que ainda a língua portuguesa esta aí, para ser o que pensamos, com sofrimento e maestria. Lembrou-me que ainda há uma mulher em casa, esperando; uma bela mulher de cabelos presos que bebe café, num gesto que pertence ao inexprimível deste pobre cronista.

Sorrio, e desenho na fumaça uma silhueta feminina, em torno a notas musicais. Penso nos amigos a quem quero bem, e a lembrança de abraçá-los vale um abraço maior, em que o coração se estreita, as sobrancelhas retesam, os olhos marejam para além.

Vivemos nesse mundo destruído e, ainda assim, aqui e acolá uma aurora brota de nossa humanidade como uma oferenda à ofensa que nos impõem; e essa sexta-feira à tarde é isso, isso a dizer: santo Pai, vê que nem tudo em nós é ruim; vê que ainda há amor; fazei-o crescer e multiplicar-se.

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