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Crônica Curta (6) – Espírito

segunda-feira, agosto 16th, 2010

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 Livre espírito, corpo cativo.

E na comunhão exata de carne e cristal pela retina dentro, rumo à tarde que se fecha, o homem, encruzilhado de só, sussurra guerra e troa paz.

Vê aí um copo; vê um cigarro e acende a música (samba, se der; ou melhor: samba-canção), porque é a única arte que comunga, em seu deslocamento invisível pelo espaço-tempo (rumo a um sentido ainda sem nome), o que nos é dado ver da noite que obscurece uma estrela bem ali de perto, e que aponta (a noite), lá bem longe, uma composição de estrelas, que unificamos no sentido de Estrela.

Assim, olhos abertos, olhos fechando, vejamos o que não é uma coisa nem outra, o que se toca e se imagina, o que se expressa no vapor: a canção dos astros em gravitação, e a música que rasga do coração a alma, debatida a jongar, no verso, a antecipação do Verbo.

Há coisas que sabemos longe de compreender.

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Crônica do Cana (3) – Chacina em alto-relevo

segunda-feira, maio 24th, 2010

http://tudoglobal.com/pablodecarvalho/

pablo.de.carvalho@hotmail.com

Advertência:

“Se você busca em crônica só o ameno e brasileiro comentário do cotidiano leve, salte este texto (por amor de Deus); publico-o cheio de interrogações pessoais, sob o peso de toneladas. Não sou fã da melancolia, mas sou um ser humano.â€
O Autor.

Vê esta casa, toda caiada, que o vento da serra refresca? Ontem uma menininha de quatro anos brincava com um carneirinho, no terreiro, enquanto um homem, com seu alforje de caçador, sentado na varanda, esperava o pai dela chagar.

[Dos escritores que foram à guerra, Pablo de Carvalho talvez seja o mais antiprivilegiado: vê uma guerra que se acaba nunca, e imagina a criancinha brincando com um carneirinho, em vez do avanço da infantaria]

Vê este quarto, de mobília humilde? Vê esta cama, agora sem colchão? Ontem três adolescentes estavam aqui, juntinhos, mas esquecidos da paquera: estavam amarrados entre si, por trás, nos pulsos e calcanhares, e havia um bedel na supervisão: o amigo do homem que, da varanda, via a garotinha de quatro anos brincar, à plena doçura, com o carneirinho.

[Dos cronistas que foram à praça, Pablo de Carvalho seja talvez o mais ordinário, porque o céu que vê é quase sempre em ponta-cabeça, o povo que abraça é de militar muito pouco, e estátua que o inspira vale só um epitáfio]

Vê esta porteira, que abre a fazenda pro rio duro de asfalto? Ontem, por ela, passaram o homem que o homem da varanda (vendo a criancinha brincar com o carneiro) aguardava, acompanhado sua mulher, que, de sua vez, esperava um filho do homem que se dirigia à varanda em que outro homem o esperava vendo sua filhinha correr atrás do carneirinho, saltitantes, tenros, encantados.

[Dos lazarentos e amaldiçoados que há a compor pelo mundo, Pablo de Carvalho certamente é dos mais desgraçados porque, vestido a desconforto em sua pose de Delegado de Polícia, chafurda, ereto e solene, sobre vísceras decompondo: mosca de óculos e caneta na mão]

Vê o que não se vê nesse silêncio da planície até a serra? Vê não – que bom! Mas eu tive de ver, imaginar, cheirar, sentir: o homem da varanda recolher a mulher grávida ao quarto; o outro homem, no terreiro, executar o marido que a trazia com um tiro na nuca; juntarem-se depois os dois assassinos casa adentro e, um por vez, atirar nas cabeças dos adolescentes amarrados (o último morreu de olhos arregalados, estupefato de espera, paralisado no pavor). Depois, de modo muito simples e direto, disparam no rosto da mulher grávida, cujo feto de seis meses (imagino; tenho muita desgraça que imaginar) morreu afogado numa piscina sangrenta, descobrindo desde já e pra sempre que a vida é curta.

Por fim (meu Deus, é preciso escrever?!…), levam a garotinha de quatro anos de idade, com suas pernas doces carregando seu tronco rígido sob o choro perdido e desesperado (dentro da fragilidade, da pequenez do corpo, da incapacidade de discernir; da inocência), a um quarto separado (de regra, há censura contra crianças participarem de coisas adultas), deitam-na sobre a cama, dão um tiro em sua nuca, cujo projétil lhe sai pela boca e faz sua língua pender; em seguida, disparam acima de seu olho, na cabeça que se debate, e dão mais um tiro no crânio, abaixo dos cabelos imaculados (salvo a orla de sangue e massa encefálica), e botam-na pra dormir – o carneirinho chega ao quarto, e não sai de junto da amiguinha. Na parede, espirros de sangue, borrifos de sangue e tecido infantil – se eu achasse, neste momento, que a poesia serve pra alguma coisa, usaria uma composição de flor.

[Dos ficcionistas que há na Terra, Pablo de Carvalho é talvez o mais injustiçado, pois lhe é dado escrever, por ofício mais que arte, tanta coisa apartada da mentira]

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A mão da vida

quinta-feira, janeiro 14th, 2010

Mao_da_Vida_by_ElverooteÀs vezes, quase que do nada, a mão da vida nos pousa nos ombros para sussurrar coisas doces. É uma espécie de trégua, um acalanto ao homem-trabalhador, ao exausto-dos-dias.
E isso me acontece hoje, nesta sexta-feira à tarde em que, à moda Antônio Maria, sento-me num banco de praça e acendo um cigarro.

Já os ombros encurvavam; já o bocejo da semana acumulada saía de meus dentes escancarados, quando houve uma enorme pausa. Quando tudo adocicou. Quando uma brisa entrou-me pela gola da camisa e me disse ao peito: acalma, pega leve, dá paz a esse pingente de São Jorge…

Lembrou-me que ainda há música pela vida, que ainda a língua portuguesa esta aí, para ser o que pensamos, com sofrimento e maestria. Lembrou-me que ainda há uma mulher em casa, esperando; uma bela mulher de cabelos presos que bebe café, num gesto que pertence ao inexprimível deste pobre cronista.

Sorrio, e desenho na fumaça uma silhueta feminina, em torno a notas musicais. Penso nos amigos a quem quero bem, e a lembrança de abraçá-los vale um abraço maior, em que o coração se estreita, as sobrancelhas retesam, os olhos marejam para além.

Vivemos nesse mundo destruído e, ainda assim, aqui e acolá uma aurora brota de nossa humanidade como uma oferenda à ofensa que nos impõem; e essa sexta-feira à tarde é isso, isso a dizer: santo Pai, vê que nem tudo em nós é ruim; vê que ainda há amor; fazei-o crescer e multiplicar-se.

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Crônica de estréia

quinta-feira, dezembro 17th, 2009

cartoon_friendsAmizade boa se costura com cordas de violão, e se decide em mesa de bar (se ainda há, na sua cidade, um bar que o permita; caso contrário, recomenda-se o quintal de casa, ou a varanda do apartamento – mas nunca a sala, que o ambiente claustrofóbico dessas moradas de joão-de-barro pode fazer a amizade abafar; tem que ser a varanda, pois basta uma nesga de céu pra levar os olhos longe e libertar o coração).

 

Amizade boa, de amigo-irmão, é um contrato silencioso, cujos termos se vão escrevendo no papel invisível do tempo à medida que a música flui, que as garrafas secam (politicamente incorreto!), que o cinzeiro enche (politicamente incorreto!), que os olhos fraternais se encontram entre acordes do afeto e sorrisos da certeza.

 

E digo mais: quanto ao pacto dos amigos, dispense as testemunhas (ao casamento, indispensáveis) se a amizade foi firmada em porre pesado, desses de dançar no meio-fio. Porque se, no contexto da bebedeira (politica… ah, vá se lascar!), o comportamento do amigo foi impecável; se, fundamente encharcado, ele apenas sorriu docemente, apenas cantou e abraçou os amigos e disse só coisas boas à namorada, você terá o maior atestado de bom coração do homem: o do cara que teve a alma aberta pela cachaça (em posição ginecológica!), e constatou-se que no mais distante abismo de seu coração havia só a ternura.

 

José Luiz Pompe, vulgo Pompe, o melhor especialista em Chico Buarque que me foi dado conhecer, o único “comensal de água†que vi tocar e cantar (dentre outros diamantes) a canção Cecília (do Chico, claro, em parceria, salvo engano, com Luiz Cláudio Ramos), cujo nome tomei para batizar minha filha (Cecília; Cecília… isso não é um nome, é uma canção em estado de expectativa), está, no meu conceito e na minha estima, no rol dessas amizades, e é ele, generoso amigo, quem me convida a escrever aqui.

 

Convite aceito, venha o futuro!

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