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Livrai-me, meu Deus, do DETRAN

segunda-feira, outubro 11th, 2010

Maceió, minha terra, é uma cidade tão linda! (pausa lacônica)

Mas, quando eu estiver por lá, livrai-me, meu Deus, de precisar ir ao DETRAN…

1.

Livrai-me, em primeiro lugar, dos fura-filas, e seu jeito reptiliano de locomoção.

Livrai-me do cara-dura que, acenando falsamente ao atendente, faz que o conhece e se chega, antes de todos, antes  da vergonha, e é atendido – o atendente ainda esboça uma reação mas, honrando a lei de inércia, atende-o – além de que a ordem dos fatores não altera o produto.

Livrai-me, também, do segurança de Deputado, pobre despachante de Toyota, que, austero e ameaçador, antecipa-se à fila e, arrogantemente, paga seu boleto, saindo, triunfante e heróico, a olhar por cima das mulheres, dos aposentados, dos coxos, dos motoboys, dos analfabetos, dos sem-peixe, das recém-casadas e de toda a sorte de inofensivos e coitados que a vida pôs em si.

Livrai-me, por favor, do fura-filas autoridade pública, que tem a coluna reta e os olhos caídos; que tem vergonha também, mas tem mais pressa.

Livrai-me, ademais, da falsa-manca, da falsa-grávida, da freira oportunista, do primo do vizinho, do vendedor de vaga, do que entra pelos fundos, do despachante profissional; livrai-me, enfim, de todos os imunes à fila, imunes ao vexame, imunes à empatia.

2.

Livrai-me, Meu Deus, da atendente de cordinha nos óculos. E se ela estiver lendo um catálogo da Avon, afasta de mim esse cálice! Explica a ela que eu não criei o desamor. Ilude-a, Senhor; faz com que ela creia num namoro novo, que ela sorria, pois que, admito, quanto ela olha a papelada por cima daqueles óculos de trinta anos atrás, arrepia-me a coluna até quase arrebentar a nuca. E se ela leva tudo pros fundos, a consultar sei lá quem, faltam-me até as pernas. Livrai-me dela, Senhor, que ela me apavora.

Livrai-me, Santo Pai, do homem de peruca a quem a mulher de cordinha nos óculos leva os documentos. Ele é o atomista da burocracia, o dissecador do detalhe, o assassino da esperança. Ele é o sádico-burocrata-negador, cuja expressão orgástica ante a descoberta de um entrave burocrático seria de enrubescer até o mais despudorado dos antigos romanos. Livrai-me dele, desse lascivo, que nos bota para dar viagens sem-fim, que sonega a verdade aos poucos; esse incendiário de gasolina; esse arauto do Viagra; esse homem só língua e dedos…

Livrai-me, também, dos diretores, desse tribunal nazista de apelação, onde já entramos condenados… Livrai-me deles antes que eles se livrem de mim porque, Senhor, eles são tão peritos em se livrar das pessoas que é bem possível que, antes mesmo que o Senhor me conceda a graça, eu já esteja na fila de novo, vendo os fura-filas passarem rumo à mulher de cordinhas nos óculos que, indiferente à dor alheia, lê o catálogo da Avon…

3.

Senhor, por fim, livrai-me, se não forem possíveis os pedidos acima, do cara que passa o carro em revista… Livrai-me deste censor da mecânica, deste tarado da lataria, deste crítico da manutenção. Livrai-me de vê-lo esfregando as mãos com uma estopa e fazendo um não com a cabeça… Livrai-me Senhor, que a ele só faltam a foice e a capa negra…

http://tudoglobal.com/pablodecarvalho

pablo.de.carvalho@hotmail.com

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O olhar caindo

sexta-feira, julho 23rd, 2010

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Você lembra? Não?! Nem poderia. Foi um instante mais ligeiro! Mas deixa eu lhe contar:
Exatamente num momento da manhã, uma manhã azul e branca, em que você estava noturnamente vestida, ou melhor: vestida pro trabalho, que em minha noção de vagabundo a noite começa quando a gente começa a trabalhar.

Aí, atenta que você andava, concentrada no ofício, você declinou o rosto suavemente, apontando pelo olhar uma direção oblíqua que, de cara, parecia mirar o chão, mas, aguçando o coração, pude ver que dava pro infinito, pro tempo, pro país silente e profundo das mulheres.

Assim foi, bonita mulher, numa pausa suspensa num segundo (se muito), que eu gravei na alma, alicerçada em funda poesia despalavrada, aguda e marcante como um cravo, essa ponte que você abriu pra solidão de uma dimensão de estrelas, de lamento deslumbrante, feito objeto suspenso.
Sabe que… Seus cabelos, sei lá; eram umas coisas, uns portais pra beleza. Pendiam, doces, puríssimos, mas afetados por um sofrimento submerso, que rebrilhou no exato momento de os olhos (planetas azuis) adernarem, de os olhos apontarem pra contemplação. Ah, eu lhe amei tanto mais assim que lhe vi absorta; tanto mais me fiz humilde cientista da iluminação indireta que vazava do que você via por dentro!…

Quis beijar sua boca, quis ver se seria possível entender, no espelho de suas pupilas, que miragem triste e encantada lhe rajava de tanto mar em mistério.

Mas calei, fechado como fruto depois de flor. Sorri. Quis viver pra sempre. Quis trabalhar feito estivador. Quis cerrar os olhos e fixar no peito aquela visão feminina que, pra mim, foi a coisa mais assemelhada à palavra vida que jamais vi.

Vê? Lembra? Não, ainda? Deixa quieto. Mas você pode continuar sendo assim, pra sempre? Pode! Vai deixar eu lhe espionar? Não sorria que o negócio é sério! Vai ou não vai? Vai! Então serei feliz.

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