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Sábado com Loquinha

terça-feira, junho 22nd, 2010

Loquinha foi morar em Pilar, trabalhar numa usina acolá.

Um dia, estando eu em Maceió, ele me liga:

 – Alô.

– Fala, bicho de ponta; é Loquinha!

– Fala, colega!

– E aí, vem com mãe aqui pra casa?

– Tô indo na sexta.

– Beleza. Vai trazer o quê?

– O bucho.

– Vai te lascar!

– Ôxe, e num foi você quem convidou?

– Sim, mas eu chamei pra gente beber; foi pra te adotar não, porra.

– Tô quebrado.

– Deixa de onda. Trás que aqui a gente racha.

– E em Pilar não vende rum não, é?

– Tenho tempo não. Traz duas garrafas de rum, gelo e refrigerante. Eu vou pagar, pô!

– Beleza.

 Comprei as bebidas, já condenado a pagar sozinho. Botei a negada no carro e toquei pra lá.

 Chegamos tarde e dormimos direto. Na manhã seguinte, acordamos e fomos tomar café. Nisso, a mulher de Loquinha, Shirley, chegou e sentou ao lado dele, toda ancha, sorrindo pras visitas.

 De repente, Loquinha inspirou fundo, atravessou a cara pra ela e mandou:

 – Que cheiro de pasta de dente é esse?

– É meu, meu filho. Posso mais escovar os dentes não?

– Poder pode, agora me diga: depois do café você vai escovar de novo, né?

– É lógico.

– Bonito! Daí vai gastar a pasta duas vezes!

 Minha mãe, impactada, embora conhecendo o filho a quem deu leite, exclamou:

 – Que é isso Loquinha! Aí já é demais!

– Mãe, a senhora não tá entendendo. O que vale é o princípio, aquele… Como é, Pablo?

– “No bis in idemâ€.

– Isso: “nobizinideâ€. Essa peste já gasta! Se acostumar a dobrar o custo, tô lascado! Tudo na vida é princípio, mãe; princípio!

– Afe-Maria.

 Comemos a bóia de Loquinha, que disse:

 – É, tá muito bom. Vocês já comeram às minhas custas; agora vamo ver as comadres de mãe, lá na beira do São Francisco, que, ómenos lá, paga outro.

 Chegamos. Lugar bacana, vista pro rio, comida na canela; tudo massa.

 Mas, como tinha muita velharia, logo os biriteiros da antiga-guarda pediram arrego, cada qual pra sua redinha e, subitamente, me vi bebendo de testa com Loquinha, numa roda formada por mãe e suas amigas, que tomavam café e falavam dessas coisas de comadre: família, doença, velhas histórias e uma das prediletas: as boas ações.

 E estavam nesse tema quando se deu o fato.

 Mãe disse:

 – Adotar é um ato de grandeza!

Com que as comadres concordavam, em gestos profundos e religiosos.

 Mãe seguia:

 – E bonito mesmo é quando se adotam crianças doentes, ou já crescidas!

 Loquinha ouvia, com aquela cara de enjôo, e entornava o copo. Eu, escritor que não me renego, olhava o rio, ausente, mas captando o papo, sem me dar tanto em conta.

 De repente, mãe disse:

 – Entre nossos amigos, tem um casal que admiro muito…

 Loquinha franziu a testa e olhou pra mãe desconfiadamente.

 – Eles têm quinze, QUINZE filhos! Deles, só três são de sangue; o resto, adotaram!

 Loquinha virou uma cara de carcará pra platéia; aquela cara que, sei bem, prenuncia desgraça. Suspirou, botou o copo num canto, levantou o dedo solenemente e, interrompendo a conversa na emenda, atacou:

 – Mas essa é boa! Adotar ele adotou, mãe, mas não me venha com essa de caridade; adotou porque é muito mais negócio adotar um borrego que ter de entrar no sacrifício de emprenhar aquela catrevage da mulher dele, que ele chama de “meu bemâ€!… Ora, mas tá!…

 De sério a solto, Loquinha abriu a gargalhada. O rio, pra mim, desapareceu. Quando virei a cara, estavam as velhinhas, chocadas, olhando pra Loquinha e pra mãe; pra mãe e pra Loquinha.

 Mãe cutucou meu bucho (que tremia, abafando o riso) e disse:

 – Vamos, meu filho?

– Vamo nessa, mãinha.

 No carro, Loquinha disse:

 – Tá cedo ainda, Cabeção. Vamo agora beber onde?…

 Ao que mãe atalhou:

 – Tanto faz, desde que não tenha ninguém que eu conheça…

 A velhinha tava emburrada, mas não me engana: tinha um sorriso no canto da boca.

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Se come buchada?!

segunda-feira, junho 14th, 2010

 http://tudoglobal.com/pablodecarvalho

pablo.de.carvalho@hotmail.com

 O escritor é quenem garimpeiro: quando acha um veio, tá na boa. E, a partir da crônica anterior, achei um veio bom: meu irmão, cabra sem-vergonha batizado; uma mistura de maloqueiro e capitalista.

Sabendo embora que não dá pra evitar acusações de plágio (quem sabe, amanhã, meu próprio irmão não me processa?), calúnia, difamação, injúria; fora deserdação, barramento em churrascos, batizados, natais, viradas de ano etc. (pô, o finalzinho das pragas até que tem um lado bom; churrasco à parte…), vou inventar nomes pruns personagens. A começar por ele, que chamarei de Loquinha.

Assim, se algum parente vier tacar pedra em mim (digo só em mim porque, conforme vocês verão, a primeira atitude de Loquinha seria dizer que tem nada com isso; que quem escreveu fui eu, contra conselho dele, e ficar se abrindo por trás), terá ao menos o trabalho de provar que foi ele (parente) quem fez a merda ou é vítima de má-fama; que eu (Pablo) escrevi nessa intenção e que ele (Fabrizzio) me usou como instrumento pra divulgar uma puia, uma fuleragem, uma gréia. Se isso acontecer, paciência.

De modo que, a partir desses dias, esse blogue passa a ter duas vertentes. Uma a que chamarei Liturgia Rasa, e outra, a que chamarei Fuleragem Funda. A diferença? Vocês verão com o tempo.

Explicação posta, e como já comi muita tela com essas considerações, vou tacar uma rapidinha de Loquinha:

Um dia, meu tio Cícero Péricles, sujeito brilhante em Economia e convivência, estava na varanda lá de casa, de um lado pro outro, angustiado, enquanto Loquinha se balançava na rede, olhando pro jardim com sua falsa indiferença. 

Tendo os braços cruzados por trás da nuca, virou o quengo, mediu tio Cícero dos pés à cabeça e perguntou:

– Que foi, tio Ciço?  Tá aperreado?

– Tô, rapaz. Vou fazer uma buchada…

– Que é que há, tá faltando carneiro?

– Não. É que não sei se seu tio Ademir come buchada!

– Tá falando do tio Ademir, o “molusco†de tia Jurema?

– Sim.

Fazendo uma cara de indignação paraguaia, Loquinha lascou:

– O cabra come a tia Jurema, avalie uma buchada…

E voltou os olhos pro jardim.

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