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Crônica Curta (6) – Espírito

segunda-feira, agosto 16th, 2010

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 Livre espírito, corpo cativo.

E na comunhão exata de carne e cristal pela retina dentro, rumo à tarde que se fecha, o homem, encruzilhado de só, sussurra guerra e troa paz.

Vê aí um copo; vê um cigarro e acende a música (samba, se der; ou melhor: samba-canção), porque é a única arte que comunga, em seu deslocamento invisível pelo espaço-tempo (rumo a um sentido ainda sem nome), o que nos é dado ver da noite que obscurece uma estrela bem ali de perto, e que aponta (a noite), lá bem longe, uma composição de estrelas, que unificamos no sentido de Estrela.

Assim, olhos abertos, olhos fechando, vejamos o que não é uma coisa nem outra, o que se toca e se imagina, o que se expressa no vapor: a canção dos astros em gravitação, e a música que rasga do coração a alma, debatida a jongar, no verso, a antecipação do Verbo.

Há coisas que sabemos longe de compreender.

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Crônica curta (5) – Agonia dando no mocotó

segunda-feira, junho 7th, 2010

http://tudoglobal.com/pablodecarvalho

pablo.de.carvalho@hotmail.com

 São quatro e pouco da manhã – os dados da postagem não me deixam mentir.

 Tenho uns quinze minutos pra escrever esta crônica antes de ganhar a rua.

 Um amigo (cachaceiro) já respondeu à crônica anterior; disse que havia sido escrita justo pra ele.

 Porra, que alívio: tem, pelo menos, outro doido igual a mim…

 Outro (comerciante) disse que o texto era confuso, sem começo, meio e fim – adoro esse cara, que me puxa à razão.

 A cidade ainda boceja, ainda remói sua imensa energia contida.

 Sinto-me mais disposto, embora saiba que escrever essa miudeza da minha vida particular não interesse a ninguém, e a mim também não me interessaria se o dado viesse de terceiros.

 É preciso deixar o reme-reme à esquerda e voltar à convicção – que cada homem se vire com sua cruz.

 Essa é a lei do mundo.

 Corramos atrás de nossas presas: um bandido, um relógio de  ponto, o café por coar.

 O resto… O resto é pantinho de escritores que, à falta do que fazer, inventam de parolar em órbita de si mesmos.

 Um bom dia a todos.

 (Não acredito em quase nada do que escrevi acima)

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Problemas de interpretação

segunda-feira, maio 31st, 2010

http://tudoglobal.com/pablodecarvalho

pablo.de.carvalho@hotmail.com

 Final de semana passado levei minha filha ao zoológico, pra ver os animais cativos.

 E o cativeiro (talvez salvo pros homens – exceções à parte, que tem doido pra tudo) é um conceito muito pouco linear quanto ao conforto.

 Uns animais estão, verdadeiramente, acabados, tristes; são, em regra, as aves, os grandes predadores e aqueles animais latifundiários, que se sustentam em vastos territórios e migrações fantásticas. Uns parecem esquizofrênicos, alucinados; outros, excitados em excesso a bater nas barras; outros estão simplesmente vencidos – feito o leão que, pra engravidar uma fêmea, copula algumas dezenas de vezes; o do zoológico enviuvara, e não lhe restava consolo na vida, nem manual, haja vista a agudez das garras: era um grande espartano deprimido.

 Outros, no entanto, estão visivelmente alegres. São as caças, o proletariado da selva: pequenos roedores, répteis (acho que por causa do sangue frio), ruminantes e outros que tais. Esses, fora do alcance dos algozes, parecem zombar dos visitantes, estufando seus vulneráveis peitos com desmedido orgulho e indisfarçada sensação de invencibilidade.

 Mas, puxando pelo título desta crônica, vim falar de problemas de comunicação. E, primata que sou, desentendi-me com outro primata.

 Explico:

 Passávamos pelas jaulas dos macacos (babuínos, macacos-prego, macacos-aranha – este, o bicho mais sem-vergonha que existe, brasileiro nato e honorário – e outros mais). Numa jaula do canto, havia dois macaquinhos amarelos, cabeçudos (cearenses, desculpem) e brincalhões (cearenses, é isso mesmo). Não sei da raça, nem da idade, mas achei (acho, sei lá), que eram apenas filhotes. Bem, o fato é que assobiei pra um deles, que aguçou os olhos pra mim. Fiquei todo orgulhoso porque, quase sempre, eles não dão bola pra visitante qualquer. Pensei: pô, eu devo ter um dom de comunicação único! Continuei assobiando, fazendo gruídos, barulhos finos, e ele me encarava, balançava o pequeno tórax, atento, quase bípede. De repente, saltou prum galho, balançou-se numa corda e se agarrou à tela num salto cinematográfico, me olhando com vivacidade. As pessoas ficaram admiradas; minha filha encantou-se. Mas, pobre de mim, que me iludi! Quando fui ver, o macaquinho, me fitando, arregalado, boquinha aberta, fazendo mil caretas, exibia uma puta ereção… Puxa vida, só aí notei a cara de tarado dele! O pintinho latejava, subia e descia, apontando em minha direção! Risada geral e eu, humilhado, mal interpretado, passei à jaula do hipopótamo, que estava submerso, indiferente, e não oferecia risco ao meu pudor.

 É nisso que dá inventar de falar um idioma que não se conhece…

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A mão da vida

quinta-feira, janeiro 14th, 2010

Mao_da_Vida_by_ElverooteÀs vezes, quase que do nada, a mão da vida nos pousa nos ombros para sussurrar coisas doces. É uma espécie de trégua, um acalanto ao homem-trabalhador, ao exausto-dos-dias.
E isso me acontece hoje, nesta sexta-feira à tarde em que, à moda Antônio Maria, sento-me num banco de praça e acendo um cigarro.

Já os ombros encurvavam; já o bocejo da semana acumulada saía de meus dentes escancarados, quando houve uma enorme pausa. Quando tudo adocicou. Quando uma brisa entrou-me pela gola da camisa e me disse ao peito: acalma, pega leve, dá paz a esse pingente de São Jorge…

Lembrou-me que ainda há música pela vida, que ainda a língua portuguesa esta aí, para ser o que pensamos, com sofrimento e maestria. Lembrou-me que ainda há uma mulher em casa, esperando; uma bela mulher de cabelos presos que bebe café, num gesto que pertence ao inexprimível deste pobre cronista.

Sorrio, e desenho na fumaça uma silhueta feminina, em torno a notas musicais. Penso nos amigos a quem quero bem, e a lembrança de abraçá-los vale um abraço maior, em que o coração se estreita, as sobrancelhas retesam, os olhos marejam para além.

Vivemos nesse mundo destruído e, ainda assim, aqui e acolá uma aurora brota de nossa humanidade como uma oferenda à ofensa que nos impõem; e essa sexta-feira à tarde é isso, isso a dizer: santo Pai, vê que nem tudo em nós é ruim; vê que ainda há amor; fazei-o crescer e multiplicar-se.

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