Os três astrônomos
Observo três astrônomos conversando sobre o fim da Terra, num documentário desses.
Três homens discorrendo sobre os perigos que nosso planetinha azul sofre sem sabermos (aliás, eles sabem): asteróides, expansão solar, raios gama vindos dos confins dos fins dos infinitos etc. e tal.
É curiosa a ciência: três homens que odeiam a vida e o universo dedicam suas vidas ardorosamente a dois estudos: da vida e do universo.
Por que afirmo que eles detestam a vida (ou algo nela)? Porque, quando falam das piores catástrofes, das mais horripilantes destruições em massa, dos mais escabrosos atentados à incolumidade da Terra (pobrezinha), só faltam ejacular na lente. Eles se lambem, deliciam-se com a antecipação da catástrofe; eles adoram, curtem, jogam os olhos para cima quando desfrutam da imaginação deste mundo e seus habitantes sendo devorados pelas forças que eles imaginam dominar por supor.
Tá na cara que, ao lado das verdades cientÃficas, há ali algo da catarse de uma frustração: eles querem lascar com a gente. Talvez nos desprezem por, de sua ótica, não atentarmos à ciência, que é sua vida – porque sejamos “ignorantes da grandezaâ€; talvez por não nos darmos conta da magnanimidade que eles sonham ostentar em si por entrever, de uma brecha, o Indecifrável da extensão; talvez porque eles tenham um complexo, um recalque de C.D.F.; ou talvez porque, simplesmente, eles queiram suicidar-se (levando-nos!), e lhes falte coragem, daà implorem ao infinito que “acabe com essa droga toda de uma vez†– isso, aliás, me lembra outra classe de homens que, como disse Schopenhauer, “têm óculos no lugar de olhosâ€, mas deixa para lá…
Sei não! Sei que tem algo maléfico ali, algo de Gargamel, e ninguém me tira essa impressão da cabeça. Aqueles três astrônomos não me enganam…
Fico com uma velhinha erudita, astrônoma também, que, com um puta sorriso na cara, tacou, noutro documentário sobre o universo, algo assim: “Tudo acabando ou não; nossa individualidade perseverando ou não; sendo a vida curta ou não, vale demais a pena viver para tentar compreender um milÃmetro que seja desse deslumbre que nos cerca e que, por ser tão grandioso e inexplicável, chamamos obra de Deus… Imagine quando, um dia, viermos a compreender o que é essa supremacia de inteligência a que chamamos Deus, que nos deixa estupefatos só de a conjeturarmos! Nesse dia, amiguinho, compreenderemos quem somos nós: o grandioso e o desprezÃvel em nós…â€
Livrai-me, meu Deus, do DETRAN
Maceió, minha terra, é uma cidade tão linda! (pausa lacônica)
Mas, quando eu estiver por lá, livrai-me, meu Deus, de precisar ir ao DETRAN…
1.
Livrai-me, em primeiro lugar, dos fura-filas, e seu jeito reptiliano de locomoção.
Livrai-me do cara-dura que, acenando falsamente ao atendente, faz que o conhece e se chega, antes de todos, antes da vergonha, e é atendido – o atendente ainda esboça uma reação mas, honrando a lei de inércia, atende-o – além de que a ordem dos fatores não altera o produto.
Livrai-me, também, do segurança de Deputado, pobre despachante de Toyota, que, austero e ameaçador, antecipa-se à fila e, arrogantemente, paga seu boleto, saindo, triunfante e heróico, a olhar por cima das mulheres, dos aposentados, dos coxos, dos motoboys, dos analfabetos, dos sem-peixe, das recém-casadas e de toda a sorte de inofensivos e coitados que a vida pôs em si.
Livrai-me, por favor, do fura-filas autoridade pública, que tem a coluna reta e os olhos caÃdos; que tem vergonha também, mas tem mais pressa.
Livrai-me, ademais, da falsa-manca, da falsa-grávida, da freira oportunista, do primo do vizinho, do vendedor de vaga, do que entra pelos fundos, do despachante profissional; livrai-me, enfim, de todos os imunes à fila, imunes ao vexame, imunes à empatia.
2.
Livrai-me, Meu Deus, da atendente de cordinha nos óculos. E se ela estiver lendo um catálogo da Avon, afasta de mim esse cálice! Explica a ela que eu não criei o desamor. Ilude-a, Senhor; faz com que ela creia num namoro novo, que ela sorria, pois que, admito, quanto ela olha a papelada por cima daqueles óculos de trinta anos atrás, arrepia-me a coluna até quase arrebentar a nuca. E se ela leva tudo pros fundos, a consultar sei lá quem, faltam-me até as pernas. Livrai-me dela, Senhor, que ela me apavora.
Livrai-me, Santo Pai, do homem de peruca a quem a mulher de cordinha nos óculos leva os documentos. Ele é o atomista da burocracia, o dissecador do detalhe, o assassino da esperança. Ele é o sádico-burocrata-negador, cuja expressão orgástica ante a descoberta de um entrave burocrático seria de enrubescer até o mais despudorado dos antigos romanos. Livrai-me dele, desse lascivo, que nos bota para dar viagens sem-fim, que sonega a verdade aos poucos; esse incendiário de gasolina; esse arauto do Viagra; esse homem só lÃngua e dedos…
Livrai-me, também, dos diretores, desse tribunal nazista de apelação, onde já entramos condenados… Livrai-me deles antes que eles se livrem de mim porque, Senhor, eles são tão peritos em se livrar das pessoas que é bem possÃvel que, antes mesmo que o Senhor me conceda a graça, eu já esteja na fila de novo, vendo os fura-filas passarem rumo à mulher de cordinhas nos óculos que, indiferente à dor alheia, lê o catálogo da Avon…
3.
Senhor, por fim, livrai-me, se não forem possÃveis os pedidos acima, do cara que passa o carro em revista… Livrai-me deste censor da mecânica, deste tarado da lataria, deste crÃtico da manutenção. Livrai-me de vê-lo esfregando as mãos com uma estopa e fazendo um não com a cabeça… Livrai-me Senhor, que a ele só faltam a foice e a capa negra…
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Como é duro trabalhar…
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 Trabalhar é muito duro. E não o é por conta da força mecânica que nosso pequenino corpo precise empregar, ou por causa da minieletricidade que o velho cérebro gere pra resolver as tarefas do cotidiano. Nada disso. Trabalhar é duro porque castiga a alma.
 Essa ausência (talvez pouco notada) de um cronista e sua arte, por exemplo, deve-se a um perÃodo de intenso trabalho policial. Mas também não é o crime que castiga alma (salvo a do criminoso e as das vÃtimas). Nem tampouco a dureza desta cidade gris – meu elemento como policial. Não. Nada disso. O que remói é o contado com os demais trabalhadores. O que cansa, o que faz a seiva da vida vazar, é essa mediocridade generalizada, esse acotovelar-se, essa concorrência insana e improdutiva; o que dá no saco é, por exemplo, ter de conviver com esse tipo (de cima pra baixo da escala hierárquica) de gente:
 a)     O Pseudo-Culto: está em nosso comando por antiguidade e por aglutinar conhecimentos que, num joguete de mudar a perspectiva, vende como profundos, mas que são rasteiros que nem grama. Esse é difÃcil porque rebate argumentos sensatos com abstrações técnicas ininteligÃveis, mandando você fazer exatamente o que propusera, mas tomando pra si os direitos autorais. Por exemplo: “veja bem, sua idéia é boa, mas, num curso de 340 horas-aula que fiz em São Paulo, aprendi que, em vez de colocar o cadarço no sapato, como você propôs, é melhor colocar o sapato no cadarço, como eu estou dizendo. Faça desse jeito e verá que dá certoâ€.
b)   O Amigo dos Amigos: fatiou o trabalho entre pessoas que, pelo fato de lhe serem amigas, acha que são competentes. Pensa: “quem é meu amigo, quem gosta de mim, não pode ser incompetente!â€. Então, quem quer que avance nesse terreno doado (ou invadido), é corpo estranho, e será repelido como o corpo repele um órgão implantado, ainda que, sem esse órgão, não sobreviva.
c)    O Sabe-Tudo: porque tem 30 anos de prática profissional, acha que uma idéia sua só pode ser contestada por quem tenha, pelo menos, 31! Como, em regra, quem já tem 31 tá aposentado, e tá nem aà pra contestações, sua opinião é onipotente. Mesmo ante a obviedade de uma proposição superior à quela que ele sedimentou ao longo desses desgraçados 30 anos, o infeliz não se dá por vencido, e taca: “ah, você diz isso porque ainda não tem experiência. Daqui a 30 anos, quero ver se você me diz o mesmo!†Daqui a 30 anos… Â
d)   O Fui-Eu: esse fica lá, no comando, olhando o trabalho dos outros. Não tem prática, nem talento, nem brilho, mas faz mais questão da imagem que da verdade. Quando alguém realiza um trabalho de valor, ele se aproxima, em feitio de ave, que pode se dar: 1. Como urubu: vai bicando o trabalho, degustando, e de repente toma-o para si, sutilmente, encoberto por sua capa preta – por nojo à podridão, o autor verdadeiro afasta-se e deixa-o levar o naco; 2. Como carcará: dá uma peneirada sobre o trabalho, depois mete as garras nele e ponto. Obrigado. Agora é meu; 3. Como colibri: vai beijando o trabalho, lambendo-o, e de repente, delicadamente, destaca-se mais que a “flor do trabalhoâ€; 4. Como “pelancoâ€: está sempre, no ninho (ou birô), de bico escancarado, aos desesperos, implorando engolir o trabalho dos outros – meio eficiente, mas irritante; 5. Como papagaio (de pirata): fica de longe, nada faz, não ajuda (e à s vezes atrapalha), mas, na hora do flash, pousa como que do nada pra compor a equipe de trabalho.
e)    O Democrata: enquanto você lhe obedece e concorda com suas idéias, é um perfeito democrata (“é isso que eu digo: trabalho se faz em equipe, ouvindo a opinião de todos!â€); uma vez contrariado, mete-lhe o dedo, à s ameaças, acusa-o de insubordinado e insinua transferi-lo (“deu agora de se rebelar! Pois saiba que, sem disciplina, nada anda!â€).
f)     O  Tabacudo, Tabaco-Leso ou Aluado: inapto à reflexão, defende com vigor as idéias das figuras acima elencadas. Anticriativo por natureza, equivale a um pitbull do trabalho: “isso sempre foi assim e vai continuar sendo. Quem disse que de outro jeito é melhor? Que números? Que estatÃsticas? Desde quando números valem mais que uma ordem?!â€.
g)    O Hippie: sabe nem onde está pisando, mas, porque ocupa um cargo estratégico, é adulado pelas demais classes que, na primeira chance, mandam-no de volta a Woodstock.h)   O Nota de R$ Vinte e Cinco: nutre profunda inveja do seu trabalho mas, com é um sujeito limpo e asseado, elogia-o, bate-lhe nas costas. Vaidoso ao extremo, a perder prefere que todos nivelem por baixo; se não consegue destacar-se (o que é quase regra, pois está muito ocupado da vida alheia) tenta fazer com que todos desçam pra fervura, como faz o caranguejo na panela de água quente, puxando pra baixo os camaradas que tentam safar-se do pirão. Às vezes é até talentoso, mas gasta tanta energia olhando pros lados que não vai pra frente.
i)  O Cronista-Fuleragem: revolta-se contra esse estado de coisas, cria uma crônica que, se muito, será pregada no armário roto de alguma repartição, e recebe elogios literários que vão da letra “a†à “hâ€. Todavia, talvez (repito: talvez) alguém compreenda que é alvo do texto, e então dificilmente promoverá o coitado.
 Pois é, bato na tecla: não é o trabalho em si, são as pessoas – uma minoria delas, mas que faz estrago.
 Daà (delirando, concluo) o sucesso imemorial do samba e outras tantas formas de fuga à beleza, à meditação e à vadiagem.
Crônica Curta (7) – Matutando no Tempo
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Fora do relógio, querida, o tempo não passa.
 Envolva a Terra numa espessa camada de chumbo e cerre a História: restará o universo, paralisado na eternidade, e a mudez dos acontecimentos. Haverá tempo?
 Por isso, porque o amor é uma devoção em ondas que se engolem a si para se chamarem, um dia, de quietude, sejamos do tempo da carne, do tempo dos beijos, do tempo do sexo recomposto num galope momentâneo a que, por falta de palavra, chamamos de Poesia.
Este dia, o dia de hoje, que não existe fora de nós, seja louvação da matéria, antecâmara do verso, e seja do verso, ante-sala da canção, e seja da canção, epÃgrafe do amor, e seja do amor, pasto do tempo.
Crônica Curta (6) – EspÃrito
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 Livre espÃrito, corpo cativo.
E na comunhão exata de carne e cristal pela retina dentro, rumo à tarde que se fecha, o homem, encruzilhado de só, sussurra guerra e troa paz.
Vê aà um copo; vê um cigarro e acende a música (samba, se der; ou melhor: samba-canção), porque é a única arte que comunga, em seu deslocamento invisÃvel pelo espaço-tempo (rumo a um sentido ainda sem nome), o que nos é dado ver da noite que obscurece uma estrela bem ali de perto, e que aponta (a noite), lá bem longe, uma composição de estrelas, que unificamos no sentido de Estrela.
Assim, olhos abertos, olhos fechando, vejamos o que não é uma coisa nem outra, o que se toca e se imagina, o que se expressa no vapor: a canção dos astros em gravitação, e a música que rasga do coração a alma, debatida a jongar, no verso, a antecipação do Verbo.
Há coisas que sabemos longe de compreender.
Macacos inteligentes
Reassistindo a Futurama, uma série de desenhos-animados que adoro, uma coisa me chamou a atenção.
Tem um episódio em que, dentre muitas fuleragens extremamente inteligentes, os roteiristas tiveram uma sacada incrÃvel: criaram um macaco (nada a ver com o macaquinho tarado da crônica de antes) que, uma vez usando um chapéu eletrônico, tornava-se extremamente inteligente.
Acontece que, de posse de uma virtuosa racionalidade humana, o pobre animalzinho entrava numa nóia tremenda; eram divagações, depressões, vergonha de seus pais (afora uma dolorosa abstinência de comer bananas) e, no fim, um dilema existencial entre arrancar o chapéu e voltar à selva, ou mantê-lo e ser um intelectual atormentado.
No fim, ele leva uma pancada no aparato tecnológico, que se danifica mas não desativa, tornando o macaquinho um mediano. Por conta disso, torna-se incansavelmente feliz e motivado, galgando a executivo de uma supercorporação.
Comicamente, é genial. Mas vem o tonto do cronista a divagar:
“Eu sei lá; de repente, em vez de encolher, a gente poderia espichar (feito ascetas) nossa compreensão pra subir a um degrau de menor incompreensão que, visto mais de cima, poderia significar um limitado mais respeitável, e racionalmente alegre.
Poderia haver um Deus que, mesmo oculto, desse mais certeza de sua presença – talvez com um milagre postado no youtube. Poderia haver amigos que, antes de apunhalar, cometessem o suicÃdio – fiando-se no link citado. Poderia haver uma igrejinha compartilhada, irreal fisicamente, suspensa na idéia como um poema. Poderia haver um planeta que não fosse mera ante-sala pro Mistério. Poderia haver um sentir-se a si, mas apartado do pronome EU.
Não é nada comunista; aliás, nada polÃtico; é apenas um entender o movimento das coisas (do tempo, principalmente) que não leve a uma perplexidade maior que o conhecimento juntado. É… É assim… Ah, vocês entenderam (estamos todos de chapéu).â€
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O olhar caindo
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Você lembra? Não?! Nem poderia. Foi um instante mais ligeiro! Mas deixa eu lhe contar:
Exatamente num momento da manhã, uma manhã azul e branca, em que você estava noturnamente vestida, ou melhor: vestida pro trabalho, que em minha noção de vagabundo a noite começa quando a gente começa a trabalhar.
AÃ, atenta que você andava, concentrada no ofÃcio, você declinou o rosto suavemente, apontando pelo olhar uma direção oblÃqua que, de cara, parecia mirar o chão, mas, aguçando o coração, pude ver que dava pro infinito, pro tempo, pro paÃs silente e profundo das mulheres.
Assim foi, bonita mulher, numa pausa suspensa num segundo (se muito), que eu gravei na alma, alicerçada em funda poesia despalavrada, aguda e marcante como um cravo, essa ponte que você abriu pra solidão de uma dimensão de estrelas, de lamento deslumbrante, feito objeto suspenso.
Sabe que… Seus cabelos, sei lá; eram umas coisas, uns portais pra beleza. Pendiam, doces, purÃssimos, mas afetados por um sofrimento submerso, que rebrilhou no exato momento de os olhos (planetas azuis) adernarem, de os olhos apontarem pra contemplação. Ah, eu lhe amei tanto mais assim que lhe vi absorta; tanto mais me fiz humilde cientista da iluminação indireta que vazava do que você via por dentro!…
Quis beijar sua boca, quis ver se seria possÃvel entender, no espelho de suas pupilas, que miragem triste e encantada lhe rajava de tanto mar em mistério.
Mas calei, fechado como fruto depois de flor. Sorri. Quis viver pra sempre. Quis trabalhar feito estivador. Quis cerrar os olhos e fixar no peito aquela visão feminina que, pra mim, foi a coisa mais assemelhada à palavra vida que jamais vi.
Vê? Lembra? Não, ainda? Deixa quieto. Mas você pode continuar sendo assim, pra sempre? Pode! Vai deixar eu lhe espionar? Não sorria que o negócio é sério! Vai ou não vai? Vai! Então serei feliz.
Ripirropi
Eita, que o certo era chorar, mas me deu uma tremenda vontade de rir; uma esperança! (ele: ei, gata/ vem cá na minha mão/ passear no meu carrão). É esse negócio que pertence à s profundezas da mente humana, que ninguém explica bem – a gente deve sentir uma coisa, mas sente outra (ela: ei, gato/ sei que você é quente/ mas meu preço não é barato). Talvez porque, aparentando agressivo, o lance é só ridÃculo – mas, abafa (ele: veja aqui meu cordão de ouro/ minha roupa é de marca/ você pra mim ainda é barata).
E o pior/ melhor é a legenda – ah, a legenda! – que faz do raso mais raso ou, sendo logicamente impossÃvel, transforma-o num caroço do inglês fermentado pelo português (ela: tô vendo que você pode/ que você tem atitude/ sou sua gata, me use).
E interessante é que, à s vezes, tudo desembesta em repetições sem fim; parece que eles pensam que a gente não entendeu a mensagem (ele: tenho carro sem capota/ tenho grana, tenho erva/ vou comer sua…). E a recÃproca vem, nas ventas, inacreditavelmente seguida de uma pose digna, austera, intimidatória (ela: arrã, hoje eu serei só sua/ você pode me bancar/ você é quente, é mal/ preciso de um general).
São duas vozes, saca?…que te envolvem, que te mastigam, e põem um trago azedo em sua boca, mas você ri (duo: hoje a noite é quente/ vou querer o melhor/ vou atrás, e vou na frente/ vou rasgar dinheiro, e o pó/ é porcaria, pois essa gata/ gosta mesmo de metal/ precisa de um general).
Pois é, machistas de estirpe (ela: ele é quente/ tem atitude e tem carrão/ tem montão de diamante/ vou virar a sua amante), bem-vindos ao eldorado! Pois é, feministas históricas (ele: essa gata já é minha/ pois sou dono do pedaço/ vou tirar sua calcinha/ pois eu posso, pois eu faço!), bem-vindas ao inferno.
Mas, cara, lembre-se do preço (ele: nem polÃcia vem aqui/ pois eu comprei meu bairro/ comprei ouro e mulher/ carrego tudo no meu carro) exato (ela: esse cara é demais/ vai me dar o que eu preciso/ vejo ele e vou atrás/ tem ouro no seu sorriso) da dominação (ele: sou, sou, sou demais/ traço todas na mansão/ veja a fila que “elas fazâ€/ uma a uma, tá na mão), que é, primeiramente, entender que os tempos mudaram, como uma roda gigante, e, ao menos para o conteúdo de uns ripirropes a que assisti – desculpem, não havia falado que a crônica era sobre música, né?; foi mal –, se não estou desatualizado, existe um lugar em que, com um carrão, um colar de diamantes, uma aparente ligação com o tráfico e uns bons dólares no bolso, você compra um passaporte para um planeta incrÃvel, em que as mulheres mais gostosas e reboladeiras se arrastam aos seus pés, sem se importar em ser uma de dez, nem amante oculta, nem também de dividir sua cama, simultaneamente, com outra beldade – desde que, claro, não se divida o cachê.
E o melhor, ah, que maravilha! – mas fica na sua –; o melhor é que, para conseguir tudo isso, você só precisa fingir que é músico, fingir que é poeta, e fingir que, sendo milionário, tá nem aà pra dinheiro! Ah, também é importante dizer que é inimigo do sistema! Que sistema? Não sei. Mas, pelos bens de consumo que há naquela terra abençoada, acho que não é o capitalista…
Olhe, vou dizer, cá pra nós: se esse movimento social demorar a chegar aqui em Recife, eu vou é pra lá, bem pro norte!
O Dia de Hoje
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 Escorre o dia de hoje. Escorre tão docemente (embora trague alguma solenidade) que eu gostaria que ele fosse a vida toda, finito no infinito.
 Caminha, passa em brisa e horas, entre os livros e os documentários, entre pálpebras e cafés, cigarros e sons.
 Abro cá a minha mão, e eis o dia nela: o dia de hoje. De manhã à tarde, desta à noite, da noite ao nada. Estou vivo, respiro e compreendo, mas não muito além do dia de hoje. Que satisfação me dá! Bendita vadiagem sem remorso!
 Entre as paredes do coração, pelas paredes do apartamento, uma mulher evolui, como em ponta dos pés; é sua presença inaudÃvel, mas fundamente sentida: a alma no etéreo, os peitos, os pêlos, a boca, o ventre; lá ela, ausente daqui porque presente em tudo, porque é continente de tudo o que comporto no dia de hoje: a brisa, os livros, o café, a filosofia da vadiagem; a mulher.
 Tolo escritor, pobre cronista, com o dia de hoje tão ao seu alcance, mas tão incontido por suas palavras curtas, inexcedÃveis de sua pouca visão. Cantar, contar, escrever, beber, tudo aquém do sentimento, da dimensão estrelar vista pela janela do dia de hoje, dia de um homem vivo e que sente o amor; o dia de hoje, de que sou objeto, e no entanto escrevo sobre ele, que deveria compor em torno de mim, que sou simples utensÃlio de sua eternidade galopante.Â
 Se fosse assim, diria (o dia de hoje, e certamente com mais verve):
 “Vê que pequenino homem triste instalou-se num cantinho do que sou, do que posso… Vê como ama, como escreve: tão a descontento, mas o faz com uma boa-vontade tal que me dá dó! Ah, criança, cena de mim, o dia de hoje; passe! Não posso lhe chamar de filho; você não pode me chamar de pai. Passe, simplesmente, e viva sua vida, seu encanto, sua dor e seu sorriso. Amanhã será outro, mas o dia, o dia será ainda o de hoje, o dia de hoje.â€
Loquinha, romântico
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 Loquinha grita:
– Ô Shirley, traz um tira-gosto pra esse cabra-safado não sair daqui dizendo que passou fome!
Shirley, da cozinha, grita:
– Lembre que eu sou sua mulher, e não sua escrava!
Loquinha me encara e diz:
– Essa peste gosta de dizer isso pra eu pensar em como a vida poderia ser melhor…
Shirley, ouvido de tuberculosa, dana:
– Que foi que você disse?!
– Nada, meu amor; disse que te amo!
Loquinha me olha e sussurra:
– Melhor mentir que amo ela, que é de graça, que pagar esse tira-gosto no bar de Zé Pezão…
– Tô escutando, cabra-safado!
Quase só mexendo a boca, ele estrebucha:
– Eita mulher desgraçada…
– Desgraçada é sua avó!
– Desisto…
Shirley vem com o tira-gosto, um tatuzinho guisado, e se senta, contrariada. Loquinha dá-lhe um grande abraço, chama-a de meu bem, mas ela, indignada, diz:
– Você tá muito cavalinho! Daqui uns dias vai estar fazendo o mesmo que Cabeça de Pantanha fez!
Daà eu perguntei:
– E o que foi que ele fez?
Ela, quase triste, mandou:
– Ah, Pablo, Cabeça de Pantanha não é mais aquele que você conheceu; tá todo mudado! Vê: ele tava na usina, doido, estressado, olhando as planilhas da produção…
Loquinha antecipou uma risada.
– Ria não, Loquinha, que é sério! AÃ, Pablo, a mulher dele estava pra ter nenê. Mas ele tava lá, vermelho, dando esporro em todo mundo, preocupado com os números, quando a secretária entrou…
Loquinha desatou a rir de novo.
– Tá vendo, Pablo?, ele não liga pra nada! Mas, vê só que absurdo: ela entrou, emocionada, quase sem conseguir falar, alisando a própria barriga. Cabeça de Pantanha olhou pra ela e disse, na maior grosseria: “Que é que há, Claudinete?! Ora-porra, você não tá vendo que eu tô ocupado?!â€
Loquinha sorria frouxo.
– Deixa esse doido, Pablo, e me escuta: aà ela, toda emocionada, disse: “Doutor, sua mulher acabou de ligar; disse que não conseguiu falar com o Sr. pelo celular!†E ele: “Que é que essa infeliz quer?†Depois de uma pausa, de um soluço, a bichinha da secretária disse: “…Ela disse que a bolsa estourou; a bolsa es-tou-rou!†Sabe o que Cabeça de Pantanha disse pra secretária?
– O quê?
– “Diga à quela jumenta que cuidado com os documentos e o talão de cheque!â€
Loquinha abriu a gargalhada, cuspinho farinha por cima da mesa. Shirley, revoltada, exclamou:
– Agora desisto eu! Vou lá pra dentro! Casei com um doido!
Olhei pra Loquinha, que tava quase se engasgando, e perguntei:
– Isso é verdade mesmo? Cabeça de Pantanha fez isso?
– Fez não (tosse), mas fica na tua (tosse) que ela pensa que é verdade (tosse)…
– Ah, tá.
Tosse. Deglutição. Soluço. Pausa. Fala:
– Tatuzinho tá bom, tá não, Cabeção?
– De primeira.





