– Doutor – vou falar bem baixinho –, o infeliz escuta tudo. Olhe: o homem escuta os passos do carteiro, antes dele bater na porta. Descobre qual vai ser o almoço pelos barulhos das panelas. A vizinha, só fala agora aos cochichos, senão o condenado ouve e faz questão de espalhar a fofoca para rua inteirinha. Ele já implica com a minha vizinha!
– Implico não, Maria! Ela é que é uma chata – retrucou o tuberculoso do quarto de hóspedes, nos fundos da casa.
– Pois é. Ta vendo? O miserável deu para escutar até os meus pensamentos. Outro dia, eu tava na cozinha pensando como seria a minha vida sem ele e, de repente, ele gritou: – sem mim você não vive nêga! Então, doutor, o senhor pode examiná-lo?
“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse.
– Diga trinta e três – pediu o médico da famÃlia.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire. O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possÃvel tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.â€
 Poesia: Pneumotórax – Manuel Bandeira
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Qual a origem do termo?
O verbete “ouvido de tuberculosoâ€, também conhecido como “ouvido de tÃsicoâ€, foi descrito, pelo Novo dicionário da gÃria brasileira (1956), como “grande acuidade auditivaâ€. O termo empregado atualmente refere-se a uma audição acima do normal. A tuberculose, porém, efetivamente, não melhora a audição dos doentes.
A expressão recorrente que ocupa o imaginário popular tem duas origens históricas prováveis. Na primeira delas, o tuberculoso, numa tentativa desesperada de evitar a solidão, fruto do isolamento absoluto o qual os mesmos eram submetidos para evitar o contágio, procura ouvir qualquer tipo de ruÃdo, por menos intenso que seja, para, assim, sentir-se, mais uma vez, vivendo em sociedade. Na outra versão, a discriminação social imposta aos pacientes com tuberculose promove conversas veladas a respeito da doença. O enfermo, desconfiado, fazia um esforço sobre-humano para ouvir os comentários a seu respeito, numa tentativa heróica de buscar mecanismos para se proteger.
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A tuberculose e a audição
A tuberculose, conhecida como “peste cinzenta†ou tÃsica pulmonar, é uma doença infecciosa causada pelo bacilo de Koch (Mycobacterium tuberculosis). Sua disseminação ocorre por gotÃculas no ar que são expelidas quando pessoas com tuberculose tossem, espirram etc. O tratamento é conduzido com diversos antibióticos combinados, a critério médico. Muitos destes antibióticos, a exemplo da estreptomicina, entretanto, são prejudiciais à audição (ototóxicos) e causam perda auditiva, sobretudo com a sua utilização prolongada. Assim, pode ser encontrada uma infinidade de estudos referindo os prejuÃzos auditivos dos pacientes com tuberculose. Timóteo (2003), por exemplo, observou que 75,1% destes pacientes apresentaram algum tipo de alteração auditiva. Estes estudos, dessa forma, desmistificam a imagem de um tuberculoso super-ouvinte.
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Pode haver uma explicação cientÃfica
A manifestação da tuberculose acontece, predominantemente, na laringe. Contudo, em alguns casos, pode manifestar-se no ouvido (orelha média e externa). Além disso, em torno de 5% dos casos de infecções repetitivas no ouvido com pus (otite média crônica supurativa) são causadas pela referida doença. Soma-se ao quadro de tuberculose, um paciente muitas vezes debilitado, deitado numa cama, se alimentado de lÃquidos, o que aumenta em muito as chances de ocorrerem problemas no ouvido. Infecção muitas vezes vem associada a um sintoma conhecido como “plenitude auricular†(sensação de ouvido cheio), mais comum com o agravamento do caso. Pois bem, o ouvido “tapado†produz um tipo de efeito conhecido como “efeito oclusãoâ€, que diminui a entrada no sistema auditivo de sons externos, aliado ao isolamento do enfermo, e resulta em um melhoramento da condução (óssea) dos ruÃdos internos. Assim, o sujeito escuta melhor os ruÃdos que produz, como sua respiração e seus batimentos cardÃacos, e sua voz parece mais forte do que o habitual.
O Efeito oclusão pode ser testado tapando-se os dois ouvidos com os dedos, de maneira a vedar completamente a passagem do conduto auditivo. Teste, e constate você mesmo, como sua audição “melhora”. Assim, pode ser esta a explicação mais plausÃvel para a origem da expressão “ouvido de tuberculosoâ€.
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Bibliografia recomendada:
Lima, Maria Luiza Timóteo. Tratamento para tuberculose com estreptomicina: perfil audiológico e vestibular. 2003. 115f. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) Universidade Federal de Pernambuco, Recife. (Dissertação aqui).
Veja um exemplo de um “ouvido de tuberculoso seletivo†aqui.
veja uma exemplo do “efeito oclusão” aqui.
Visite os sites:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tuberculose
http://www.estacaocapixaba.com.br/folclore/coletanea/coletanea_92_tuberculose_folclore.htm
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Bibliografia complementar:
1. Fajardo CMH, Ostos SIM. Tuberculosis de oido a proposito de un caso. Acta Otorrinolaringol 1997;9(1):23-8.
2. Vaamonde P, Castro C, Garcia Soto N, Labella T, Lozano A. Tuberculosis otitis media: A significant diagnostic challenge. Head Neck Surg 2004;130(6):759-66.
3. Greenfield BJ et al. Aural tuberculosis. Am J Otol 1995;16(2):175-82.
4. Giner AR, Fortuny JC, Iranzo C,Sarroca E, Palomar V. Otitis media tuberculosa. Anales ORL Iber-Amer 1990;5:553-60.
5. Vital V, Printza A, Zaraboukas T. Tuberculous otitis media: a difficult diagnosis and report of four cases. Pathol Res Pract 2002;198:31-5.
6. Midholm A, Pedersen B. Primary tuberculosis otitis media. J Laryngol Otol 1971;85(1):1195-2000.
7. Sens P, Clemente R, Valle O, C Costa, Angeli M. Relato de caso: tuberculose de orelha, doença profissional? Rev. Bras. Otorrinolaringol. 2008:74(4): 621-7.
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Autor: Pedro de Lemos Menezes
Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com
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