Â
Outro dia eu estava no elevador do prédio onde moro. No quarto andar, o elevador parou. Subiram duas adolescentes com a farda da escola e com fones nos ouvidos. A intensidade era muito forte. Dava para ouvir o som de onde eu estava, e o pior é que cada uma ouvia uma música diferente. Tive a sensação de estar no carnaval “amplificado†de Salvador. Não bastasse o ruÃdo, as músicas eram terrÃveis. Aquilo não era nem “mau gostoâ€, mas uma “agonia musicalâ€. Gosto, contudo, não se discute. Não via a hora de chegar logo no térreo e descer. Para o meu desespero, no segundo andar, completou o grupo um terceiro adolescente com o mesmo adereço sonoro e na intensidade máxima. Pronto. Para quem tinha alguma dúvida, o elevador era mesmo, literalmente, um “trio elétricoâ€. Prestei atenção, no meio daquele caos, no diálogo entre eles:
− E ai?
− Falou!
− Tá curtindo o que?
− Esse som é rox!!!
Rox!!! O que danado é rox? − Pensei.
Térreo. Finalmente acabou meu sofrimento, suspirei aliviado. Que nada. Antes de saÃrem, um deles ainda soltou uma gracinha, praticamente gritando: − Tem medo de elevador é, tio? Foi então que tive um “insightâ€: quantos jovens utilizam fones de ouvidos, por quanto tempo e em que intensidade?
Â
Música também causa perda auditiva
A música, por mais erudita que seja também pode causar perda da audição. Não é o tipo do ruÃdo que determina a perda auditiva, mas sua intensidade e tempo de exposição. Os tocadores de MP3 ou MP4, utilizados por mais 64% dos estudantes de classe média de São Paulo, e por aproximadamente 100 milhões de pessoas em todo o mundo, chegam, facilmente, aos 120 dB. Intensidade esta suficiente para provocar perda auditiva com utilização diária de menos de 5 minutos. Uma pesquisa realizada pela Deafness Research UK estima que os jovens de hoje ficarão surdos 30 anos mais cedo do que os seus pais. O principal motivo desta previsão desastrosa é o desconhecimento dos efeitos nocivos dos ruÃdos intensos, e a música pode ser um deles, para a audição humana.
Â
Existem diferenças entre os tipos de fones de ouvido
O problema principal dos fones de ouvido é que eles estão muito próximos à s nossas orelhas, alguns modelos, inclusive, ficam dentro delas. Esta pequena distância permite uma grande amplificação. Segundo um estudo recente, desenvolvido pelo pesquisador Brian Fligor, de uma maneira geral estes fones podem atingir intensidades prejudiciais para a audição. Entre os modelos testados, os fones que ficam “dentro da orelha†possuem, em média, 5,5 dB de intensidade a mais que os fones que ficam “sobre a orelhaâ€. Estes últimos, então, podem ser utilizados por um pouco mais de tempo. Novos modelos de fones, feitos sob medida, entretanto, são desenhados para bloquear a entrada do conduto, evitam a audição de ruÃdos externos e permitem ao ouvinte escutar músicas com um volume menor.
Â
Quais os limites diários seguros para se ouvir música?
Segundo um Estudo da Universidade do Colorado, estes limites baseiam-se na média de ruÃdo que os tocadores de MP3 são capazes de gerar. Deve-se ainda dar um desconto, diminuindo o tempo de uso, para os aparelhos e/ou fones falsificados, que normalmente atingem uma intensidade maior, porém com menor qualidade.
| % do controle do volume | Tempo limite antes de ocorrer dano |
| Até 50% | Sem limite |
| 60% | 18 horas |
| 70% | 4,6 horas |
| 80% | 1,2 horas |
| 90% | 18 minutos |
| 100% | 5 minutos* |
Fonte: Universidade do Colorado
* O artigo original fala em 5 minutos, porém como os aparelhos no Brasil atingem 120 dB, não é prudente utilizar mais de 3 minutos.
Â
Quando procurar um médico?
A avaliação auditiva deve ser realizada, inicialmente, por um médico especializado, um otorrinolaringologista. Caso você possua um, ou mais, sintomas entre os relacionado abaixo, procure um médico. Não esqueça que ruÃdos intensos podem causar perdas auditivas irreversÃveis.
Sintomas:
- Costuma pedir aos outros para repetirem o que falaram;
- Seus amigos reclamam que você não escuta bem;
- Utiliza aparelhos eletrônicos em volume mais elevado que as outras pessoas;
- Tem dificuldades para entender diálogos em ambiente com ruÃdo;
- Fica com dificuldades em acompanhar conversas em grupo;
- Tem dificuldade para localizar a origem do som;
- Tem zumbido no ouvido.
Visitas recomendadas:
1. Sociedade Brasileira de Otologia
3. Matéria do Jornal O Globo online
4. Artigo sobre perda auditiva dos fanáticos por música
Bibliografia recomendada:
1. MP3 Players and Hearing Loss: Adolescents’ Perceptions of Loud Music and Hearing
2. Hearing loss and iPods: What happens when you turn them to 11?
Autor: Pedro de Lemos Menezes
Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com
Postagens: Todas as quartas-feiras
Ver todas as postagens: Página 1 e Página 2
-


