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A Biofísica da Vida

25/06/2010 - 0:52 -

Mauricy é a pessoa mais tranquila que já conheci. Pesquisador de sensibilidade e criatividade ímpar. Foi com ele que aprendi a transformar minha vontade e inquietação em trabalhos científicos. Poderia contar muitas histórias estreladas por esta figura maravilhosa, mas vou deter-me a duas delas, em especial, pois adorávamos relembrá-las em seu Laboratório de Instrumentação e Bioengenharia, na Universidade Federal de Pernambuco, que frequentei durante bons anos de minha vida.

A arte de delegar

Delegar atribuições é uma arte para poucos. Mauricy, entretanto, era sumidade no assunto. Certa vez contou-me:

– Pedro, você precisa aprender a delegar as tarefas, dividir as responsabilidades, eu, por exemplo, delego tudo da minha casa à minha mulher. Outro dia, num sábado pela manhã, estava sentado na frente do computador trabalhando, quando vi minha esposa com uma movimentação incomum. Pensei: – acho que vamos viajar! Lá para as tantas ela me chamou: – Mauricy, coloca as malas no carro. Neste momento tive a confirmação, iríamos mesmo viajar. Depois ela falou: – Mauricy, vai tomar banho. Por fim, fomos para o carro, eu sentei à direção e perguntei: – Ô nêga, que mal lhe pergunte, vamos para onde mesmo?

A arte de ensinar

Mauricy foi meu orientador de mestrado em Biofísica, e eu, como bolsista do CNPq, precisava cumprir algumas obrigações do programa. Uma delas era dar suporte nas aulas de biofísica, que o professor ministrava para o curso de medicina. Para mim não era obrigação, mas um prazer. Eu adoro o assunto. Além disso, as aulas eram maravilhosas, cheias de exemplos e atividades práticas. Mauricy sabia muito bem como deixar todos interessados.

Certa vez, ele iria ministrar uma aula sobre Biofísica da audição e, para falar de sistemas auditivos mais eficientes que os humanos, levou para a sala um “apito para cachorroâ€. Este tipo de apito é constituído por dois pequenos tubos de alumínio que podem ser encaixados, um dentro do outro, de forma que seu comprimento fica bastante reduzido, o que permite a produção de ultra-sons, inaudíveis pelos seres humanos. Tudo isso, contudo, só acontece se os dois tubos estiverem completamente encaixados. Qualquer outro encaixe parcial produz um som bastante agudo, porém audível, sobretudo para ouvintes mais jovens.

Resumindo a história, depois de dar a explicação física sobre o assunto, Mauricy falou: – Bem, então para exemplificar o que eu acabei de demonstrar para vocês, nós, seres humanos, não somos capazes de escutar ultra-sons, como estes produzidos pelo apito de cachorro. Vejam só: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!! Estão percebendo? Estamos falando de 30.000 Hz, frequência esta que se encontra fora da nossa faixa de audição: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!!  São os ultra-sons, por exemplo, que os morcegos utilizam para eco localização, mas, como falei, não podemos ouví-los: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!!

Tive que fazer um esforço supremo para me conter diante dos alunos que já cochichavam uns com os outros e divertiam-se com a cena. Algum tempo depois, Mauricy confessou-me ter consciência de que apenas ele não ouvia o apito, e que tudo aquilo era mais uma estratégia para descontrair a turma e motivar a reflexão sobre as razões pelas quais ele, que já tinha uma idade mais avançada, não conseguia ouvir o estímulo sonoro.

Biofísica

Biofísica é uma ciência de fronteira que utiliza a Física e suas teorias para explicar o desenvolvimento dos seres vivos. Um estudo apaixonante que permite o aprofundamento necessário para a compreensão ampla dos processos biológicos. Possui muitos estudiosos ilustres no Brasil, entre eles os professores Eduardo Antônio Conde Garcia, Ibrahim Felippe Heneine e Mauricy Alves da Motta.

Presbiacusia

Outro conceito importante que deve ser explicado, discutido em postagem anterior, é a presbiacusia, definida como o envelhecimento do sentido da audição e que causa uma perda bilateral. Envelhecimento este, entretanto, que pode ser motivado ou agravado pela exposição excessiva à ruídos, sobretudo aos que estamos expostos diariamente, e que aumentam de intensidade a cada ano.

Como pôde ser observado no texto acima, os jovens podem escutar frequências mais agudas que as pessoas com idades mais avançadas. Estes jovens, contudo, expostos cada vez mais a ruídos, como os de seus sistemas de som individuais, certamente possuirão uma audição pior do que as de seus avós, quando atingirem as idades que os mesmos têm hoje.

Uma grande definição de Mauricy

Por fim, vou encerrar esta homenagem relembrando um trecho sobre a importância da canção de ninar,  escrito por Mauricy, que representa o (re)inicio do nosso ciclo biológico,  nossa paisagem sonora primordial.

“A canção de ninar, com sua linha de melódica harmoniosa e doce, traz para a criança a segurança que ela gozava no calor do ventre materno, aliada ao relaxamento das defesas e do amplexo materno, induzindo uma calma e serenidade que não se encontra em qualquer outro ambiente. Isto leva a um progressivo embotamento da vigília que é seguido por um sono profundo e reparador. O regaço materno e a canção de ninar são, talvez, uma amostra do céu como o concebemos.â€

Visitas recomendadas:

Biofísica

Bibliografia recomendada:

MENEZES, Pedro de Lemos (Org.), CALDAS NETO, Silvio (Org.), MOTTA, Mauricy (Org.). Biofísica da Audição. São Paulo: Lovise, 2005. 192 p.

Autor: Pedro de Lemos Menezes

Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com

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(7) Comentários - Você está em Blogs

7 Comentários para “A Biofísica da Vida”

  1. Laís Záu

    Depois de ler o material dessa semana fiquei mais preocupada com essas “vuvuzelas” e a presbiacusia. Se isso virar moda aqui no Brasil, como ficarão as pessoas que frequentam os estádios de futebol? Muito bom ter você de volta!

  2. Pedro de Lemos Menezes

    Caríssima Professora,

    Você e suas sugestões maravilhosas. Desde ontem iniciei a pesquisa para minha próxima postagem e tratará justamente das vuvuzelas e das perdas induzidas por ruídos. Com toda a certeza iremos importar esta tecnologia para nossos estádios pois, como diria o ilustríssimo Falcão, nada é tão ruim que não possa ser piorado. Obrigado,

    Beijão.
    Pedro

  3. leila masony

    ótimo ter material novo.Ser grato é ser justo.Parabéns pela homenagem prestada.Avuvuzela esta presente e incorporada sem dúvida ,rua do centro de SP q o diga(cheguei a pouco de lá.Abraço cordial.

  4. Pedro de Lemos Menezes

    Muito obrigado Leila! Realmente teremos mais um problema para nos preocuparmos. Um abração.

  5. Fernando

    Interessante opinião do senhor Mauricy sobre a arte de delegar. Eis a habilidade de um líder. Creio que em prática, haveria um excelente aproveitamento de estudantes, por exemplo, num grupo de apresentação.

    Fernando

  6. Pedro de Lemos Menezes

    Realmente ele foi um lider e um guru, destes bem tranquilos….

  7. Ricardo Aguiar

    Também fui aluno de Mauricy na minha graduação de Biomedicina na UFPE. Tenho saudades desse grande mestre! E de tão grande e profundo, como ele era simples! Que Deus o tenha em um bom lugar como o “O regaço materno e a canção de ninar são”


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