Mauricy é a pessoa mais tranquila que já conheci. Pesquisador de sensibilidade e criatividade Ãmpar. Foi com ele que aprendi a transformar minha vontade e inquietação em trabalhos cientÃficos. Poderia contar muitas histórias estreladas por esta figura maravilhosa, mas vou deter-me a duas delas, em especial, pois adorávamos relembrá-las em seu Laboratório de Instrumentação e Bioengenharia, na Universidade Federal de Pernambuco, que frequentei durante bons anos de minha vida.
A arte de delegar
Delegar atribuições é uma arte para poucos. Mauricy, entretanto, era sumidade no assunto. Certa vez contou-me:
– Pedro, você precisa aprender a delegar as tarefas, dividir as responsabilidades, eu, por exemplo, delego tudo da minha casa à minha mulher. Outro dia, num sábado pela manhã, estava sentado na frente do computador trabalhando, quando vi minha esposa com uma movimentação incomum. Pensei: – acho que vamos viajar! Lá para as tantas ela me chamou: – Mauricy, coloca as malas no carro. Neste momento tive a confirmação, irÃamos mesmo viajar. Depois ela falou: – Mauricy, vai tomar banho. Por fim, fomos para o carro, eu sentei à direção e perguntei: – Ô nêga, que mal lhe pergunte, vamos para onde mesmo?
A arte de ensinar
Mauricy foi meu orientador de mestrado em BiofÃsica, e eu, como bolsista do CNPq, precisava cumprir algumas obrigações do programa. Uma delas era dar suporte nas aulas de biofÃsica, que o professor ministrava para o curso de medicina. Para mim não era obrigação, mas um prazer. Eu adoro o assunto. Além disso, as aulas eram maravilhosas, cheias de exemplos e atividades práticas. Mauricy sabia muito bem como deixar todos interessados.
Certa vez, ele iria ministrar uma aula sobre BiofÃsica da audição e, para falar de sistemas auditivos mais eficientes que os humanos, levou para a sala um “apito para cachorroâ€. Este tipo de apito é constituÃdo por dois pequenos tubos de alumÃnio que podem ser encaixados, um dentro do outro, de forma que seu comprimento fica bastante reduzido, o que permite a produção de ultra-sons, inaudÃveis pelos seres humanos. Tudo isso, contudo, só acontece se os dois tubos estiverem completamente encaixados. Qualquer outro encaixe parcial produz um som bastante agudo, porém audÃvel, sobretudo para ouvintes mais jovens.
Resumindo a história, depois de dar a explicação fÃsica sobre o assunto, Mauricy falou: – Bem, então para exemplificar o que eu acabei de demonstrar para vocês, nós, seres humanos, não somos capazes de escutar ultra-sons, como estes produzidos pelo apito de cachorro. Vejam só: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!! Estão percebendo? Estamos falando de 30.000 Hz, frequência esta que se encontra fora da nossa faixa de audição: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!! São os ultra-sons, por exemplo, que os morcegos utilizam para eco localização, mas, como falei, não podemos ouvÃ-los: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!!
Tive que fazer um esforço supremo para me conter diante dos alunos que já cochichavam uns com os outros e divertiam-se com a cena. Algum tempo depois, Mauricy confessou-me ter consciência de que apenas ele não ouvia o apito, e que tudo aquilo era mais uma estratégia para descontrair a turma e motivar a reflexão sobre as razões pelas quais ele, que já tinha uma idade mais avançada, não conseguia ouvir o estÃmulo sonoro.
BiofÃsica
BiofÃsica é uma ciência de fronteira que utiliza a FÃsica e suas teorias para explicar o desenvolvimento dos seres vivos. Um estudo apaixonante que permite o aprofundamento necessário para a compreensão ampla dos processos biológicos. Possui muitos estudiosos ilustres no Brasil, entre eles os professores Eduardo Antônio Conde Garcia, Ibrahim Felippe Heneine e Mauricy Alves da Motta.
Presbiacusia
Outro conceito importante que deve ser explicado, discutido em postagem anterior, é a presbiacusia, definida como o envelhecimento do sentido da audição e que causa uma perda bilateral. Envelhecimento este, entretanto, que pode ser motivado ou agravado pela exposição excessiva à ruÃdos, sobretudo aos que estamos expostos diariamente, e que aumentam de intensidade a cada ano.
Como pôde ser observado no texto acima, os jovens podem escutar frequências mais agudas que as pessoas com idades mais avançadas. Estes jovens, contudo, expostos cada vez mais a ruÃdos, como os de seus sistemas de som individuais, certamente possuirão uma audição pior do que as de seus avós, quando atingirem as idades que os mesmos têm hoje.
Uma grande definição de Mauricy
Por fim, vou encerrar esta homenagem relembrando um trecho sobre a importância da canção de ninar,  escrito por Mauricy, que representa o (re)inicio do nosso ciclo biológico,  nossa paisagem sonora primordial.
“A canção de ninar, com sua linha de melódica harmoniosa e doce, traz para a criança a segurança que ela gozava no calor do ventre materno, aliada ao relaxamento das defesas e do amplexo materno, induzindo uma calma e serenidade que não se encontra em qualquer outro ambiente. Isto leva a um progressivo embotamento da vigÃlia que é seguido por um sono profundo e reparador. O regaço materno e a canção de ninar são, talvez, uma amostra do céu como o concebemos.â€
Visitas recomendadas:
Bibliografia recomendada:
MENEZES, Pedro de Lemos (Org.), CALDAS NETO, Silvio (Org.), MOTTA, Mauricy (Org.). BiofÃsica da Audição. São Paulo: Lovise, 2005. 192 p.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com
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terça-feira, 29 de junho de 2010 às 20:03
Depois de ler o material dessa semana fiquei mais preocupada com essas “vuvuzelas” e a presbiacusia. Se isso virar moda aqui no Brasil, como ficarão as pessoas que frequentam os estádios de futebol? Muito bom ter você de volta!
terça-feira, 29 de junho de 2010 às 22:18
CarÃssima Professora,
Você e suas sugestões maravilhosas. Desde ontem iniciei a pesquisa para minha próxima postagem e tratará justamente das vuvuzelas e das perdas induzidas por ruÃdos. Com toda a certeza iremos importar esta tecnologia para nossos estádios pois, como diria o ilustrÃssimo Falcão, nada é tão ruim que não possa ser piorado. Obrigado,
Beijão.
Pedro
quarta-feira, 30 de junho de 2010 às 17:41
ótimo ter material novo.Ser grato é ser justo.Parabéns pela homenagem prestada.Avuvuzela esta presente e incorporada sem dúvida ,rua do centro de SP q o diga(cheguei a pouco de lá.Abraço cordial.
quinta-feira, 1 de julho de 2010 às 0:11
Muito obrigado Leila! Realmente teremos mais um problema para nos preocuparmos. Um abração.
quarta-feira, 7 de julho de 2010 às 18:20
Interessante opinião do senhor Mauricy sobre a arte de delegar. Eis a habilidade de um lÃder. Creio que em prática, haveria um excelente aproveitamento de estudantes, por exemplo, num grupo de apresentação.
Fernando
sexta-feira, 9 de julho de 2010 às 15:51
Realmente ele foi um lider e um guru, destes bem tranquilos….
segunda-feira, 19 de julho de 2010 às 16:16
Também fui aluno de Mauricy na minha graduação de Biomedicina na UFPE. Tenho saudades desse grande mestre! E de tão grande e profundo, como ele era simples! Que Deus o tenha em um bom lugar como o “O regaço materno e a canção de ninar são”