O sÃtio histórico de Olinda é sempre muito tranquilo, sobretudo quando não é carnaval. As ruas ficam o ano inteiro, quase, desertas, a não ser pelos turistas que habitualmente as ocupam durante o dia. Sua arquitetura peculiar e a sua arborização fazem com que as noites sejam relativamente silenciosas, como em uma cidade de interior. Entretanto, nem sempre é assim. Aos domingos, a pacata região vive seus momentos de cidade grande. Isso porque seu Rosivaldo, um ex-taxista bem conhecido na localidade, começa seu ritual logo cedo. Ele enche os 1.000 litros de sua piscina de lona, que fica na varanda de sua casa, faz caipirinha para um batalhão e acende a churrasqueira. A gordura da carne provoca sempre muita fumaça e seu cheiro pode ser sentido até nas casas mais distantes da rua. Depois ele chama alguns amigos e a festa não tem hora para acabar.
           Até então nada demais, para um senhor barbudo, de meia-idade, que passa a semana toda trabalhando duro. O problema é que ele gosta de ouvir música muito alta e o faz ligando o som do seu carro que fica em frente a sua casa, do outro lado da rua. Não vou entrar aqui no mérito da qualidade musical, que neste caso, para mim, é de um mau gosto terrÃvel. O importante mesmo é ausência de consciência, mÃnima, para se conviver em sociedade. Por isso, não são raras as intercorrências provenientes deste hábito doentio. Para piorar a situação, seu Rosivaldo é casado com dona Neide, uma senhora barraqueira, que fala alto e não leva desaforos para casa.
           O barulho que seu Rosilvado produz é algo que impressiona e deixa todos os vizinhos insatisfeitos. A explicação talvez seja a necessidade de se mascarar um passado muito difÃcil, tÃpico de uma narrativa de Odair José (escute aqui), quando, num esforço supremo, o amante, para por fim ao seu sofrimento, retira a sua amada do antro do meretrÃcio e a leva para o regaço de sua famÃlia. Esta famÃlia, entretanto, depois de constituÃda irá, indefinidamente, conviver com o fantasma de seu passado sombrio. Por outro lado, pode não ser nada disso. Seu Ransivaldo, como é conhecido a boca miúda, pode ser mesmo um ranzinza grosseiro autêntico. Â
           Pois bem, numa tarde dessas de domingo, ninguém aguentava mais ele. O som fazia tremer os móveis das casas. O vizinho da frente, seu Francisco, coitado, com a filha pequena que estava doente, não tinha sossego. Já estava anoitecendo quando ele resolveu ligar para a polÃcia. O condenado tinha passado o dia inteiro pedindo para seu Rosivaldo baixar o som. Nada feito. A polÃcia chegou rápido, numa presteza que não lhe é comum, sobretudo nesses casos de pouca relevância (na avaliação da autoridade militar, é claro). O cabo da policia militar abordou o dono do carro:
– O senhor pode, por favor, baixar o som. Está na hora de se fazer silêncio.
– Baixar? Por que eu vou baixar? Estou na minha casa, com meus amigos. Não vou baixar coisa nenhuma.
Rapidamente o policial percebeu que aquela seria uma tarefa difÃcil. Então, delicado como papel de embrulhar pregos, falou:
– Soldado, algema o homem. Desacato a autoridade. Ele ta pensando que está falando com as raparigas dele. Este aà só vai conseguir entender o que estou dizendo na delegacia.
           Seu Rosivaldo começou a ficar vermelho, faltou ar. Estava suando frio. Colocou a mão na garganta, tentando falar algo, e caiu no chão. Dona Neide começou a chorar compulsivamente, beirando o esterismo. Primeiro partiu para cima policial e depois atacou o vizinho da frente:
– Foi você seu infeliz! Você matou o meu marido! Eu vou acabar com sua raça.
           Para encurtar a história, diante daquela baixaria toda, foram todos para a delegacia, menos seu Rosivaldo, que foi atendido primeiro pelo SAMU, depois passou o resto da noite explicando o que aconteceu ao delegado.
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O silêncio para a Acústica
           O silêncio absoluto não existe porque as partÃculas normalmente não ficam paradas. Elas estão em constante movimento e em relativo equilÃbrio, mesmo quando não existe uma fonte sonora.
           Uma vez que o som é uma vibração mecânica audÃvel (entre 20 e 20.000 Hz), composto por regiões de compressão (pressão maior que a atmosférica) e rarefação (pressão menor que a atmosférica), a ausência deste não implica no silêncio absoluto. Primeiro, porque fora da faixa audÃvel pelos humanos é possÃvel a existência, é claro, de outras frequências de vibração que poderiam ser detectadas por outros animais ou por instrumentos. Segundo, porque mesmo dentro da faixa que podemos ouvir, a intensidade poderia ser escutada por algumas pessoas (com melhor audição) e por outras não, ou mesmo, ser tão fraca que os seres humanos nunca seriam capazes de escutar, ou ainda, tão fracas que só seriam captadas por instrumentos. Então, como as partÃculas nunca estão paradas, o silêncio estará presente enquanto o sensor, que poderia ser nossos ouvidos ou um microfone, for incapaz de melhorar a sua sensibilidade.
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Medida do som
            O som é medido em decibéis (dB), em homenagem a Grahm Bell*. Sua concepção é simples. Foi inventado para diminuir a grandeza da unidade de medida, pois se observada a audição humana, em relação ao movimento das partÃculas, entre o som mais fraco e o mais forte que somos capazes de escutar (som que causa dor), terÃamos um número muito grande (10 elevado a 13). Então, para diminuir a sua grandeza, os valores são divididos por um valor de referência, e esta referência é o mÃnimo teórico capaz de ser ouvido por seres humanos**. Na prática, um som que possui 0 dB, na realidade tem a mesma intensidade que o valor considerado como referência, o que não significa silêncio ou ausência de som. Valores negativos são possÃveis e significam que o som medido tem intensidade menor que o valor referencial.
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* Ler postagem sobre a invenção do telefone
** Como esta operação não é suficiente para reduzir adequadamente os valores, os mesmos são colocados, ainda, em escala logarÃtmica.
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Silêncio negativo
           Para Schafer, o homem gosta de produzir som para lembrar que não está só. O silêncio total seria uma forma de rejeição à personalidade humana. Assim, de maneira semelhante, o homem teme a ausência de som, como teme a própria morte, já que é ela a responsável pelo silêncio final.  Então, o silêncio, para os ocidentais é algo negativo, um vazio, a interrupção da comunicação, o fim.
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Silêncio positivo
           Vivemos em uma sociedade cada vez mais ruidosa e o silêncio, em tese, é algo cada vez mais inatingÃvel. Sua reconquista, porém, representa o abandono da pressa, a respiração adequada, a quietude, a paz no coração e a qualidade de Vida.
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 Visita recomendada:
 O silêncio: frases e citações
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Bibliografia recomendada: Â
 1. SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com
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sábado, 17 de abril de 2010 às 1:23
Prof. Pedro, que bom que quebrou o silêncio com esse talento de mesclar estórias originais com conhecimento!
O silêncio, mesmo que “não absoluto”, acho até possÃvel – falo leigamente, se de repente fugirmos da nossa atual ‘urbanidade’, ou se decidÃssemos reinventá-la com base na qualidade de vida e uma série de outros quesitos desejáveis. Mas, me ocorreu, que pouco possÃvel é mesmo aguentar aquele barulho da antiga Rua do Apolo, atual Melo Morais (MCZ). Capaz até de desejarmos o ‘silêncio final’! E olha, não é que a música do Odair José até combina nesse caso, me refiro a alguns estabelecimentos nas imediações…:))
Um abraço!
sábado, 17 de abril de 2010 às 3:26
Ah professor Pedro, além de cientista é escritor!!!!! amei o pq moro em apto.e as vezes, tenho que ligar o ar condicionado para não escutar os “odair Jose” da vida, nada contra, mas em menores decibeis(será que escrevi certo) abraços professor.!
sábado, 17 de abril de 2010 às 10:19
Prof. Pedro, parabéns por quebrar o silêncio de forma tão silenciosa. Se as pessoas tivessem a noção do quanto é importante viver o silêncio positivo, com certeza o mundo seria melhor e os nossos ouvidos agradeceriam. Rsrsrs.
sábado, 17 de abril de 2010 às 12:07
Muito interessante a história de Seu Ransivaldo, porque nos remete a tantos ransivaldos que conhecemos pela vida: gente que pensa apenas no seu umbigo e nada nos outros e ainda se acha no direito de ser intransigente.
Apenas para ilustrar a questão que você defende, puxo a sardinha para a perspectiva com a qual trabalho e lembro que na Análise do discurso o silêncio não é a ausência de som, mas a própria linguagem. O silêncio SIGNIFICA, acima de tudo.
Como sempre, é um prazer enorme ler os seus textos.
Beijos,
Nadia
sábado, 17 de abril de 2010 às 15:08
Ana,
Infelizmente muitas pessoas não estão preocupadas com os outros. O gosto musical delas, quase nunca é o nosso. Mesmo que fosse, nem sempre gostarÃamos de ouvir aquela música naquele momento. Enfim, falta, acima de tudo, respeito.
Obrigado pela contribuição,
Pedro
sábado, 17 de abril de 2010 às 15:17
Nadia, sua contribuição foi precisa. O silêncio, as vezes, fala mais do que muitas palavras, com diz o ditado popular e vários filósofos de uma outra forma. Luciana e Érika, pois é, o silêncio positivo traria uma vida melhor para todos, com paz e qualidade de vida.
Obrigado pela contribuição de vocês.
um abração,
Pedro
sábado, 17 de abril de 2010 às 18:26
Os avisos de “proibido fumar” e “proibido aparelho de som” ainda se lêem dentro dos ônibus, porém podem ser ignorados sem qualquer problema. Os aparelhos de som, pelo menos, estão em atividade frequente nos coletivos, sem que seus donos sejam advertidos. Vou acender um cigarro pra ver o que acontece.
A tolerância ignorante ao ruÃdo deveria ser uma preocupação de qualquer governante, caso de saúde pública.
Aqui no Rio tem muito alarme de porta de garagem, toca ao abrir, toca ao fechar. E o motorista? Parar e olhar pra ver se vem pedestre? Nem pensar. RuÃdo neles.
Marcha ré de caminhão, todos agora têm um alarme histérico.
Buzinas, som de carro de propaganda etc.
Engraçado como quase tudo isso está intimamente ligado às máquinas de transporte.
Tem que ir mais devagar. Com mais atenção e cuidado. Com mais amor.
E que absurdo isso soar quase como uma heresia.
segunda-feira, 19 de abril de 2010 às 11:31
Dizem que o ser humano se acostuma a tudo.
Hoje é segunda-feira, são 9 horas da manhã, uma britadeira começa a funcionar bem na frente do prédio onde moro no primeiro andar.
No apartamento vizinho ao meu, uma obra de reforma, que se estende por mais de seis meses, começa pontualmente com seus martelos e serras elétricas.
Torcedores de um time de futebol, campeão na véspera, passaram a noite cruzando a cidade em seus carros buzinando e gritando.
No apartamento acima do meu, um outro vizinho arrasta suas cadeiras e móveis, primeiro no inÃcio da madrugada, depois a partir das primeiras horas da manhã.
A dois dias atrás, precisamente no último sábado, um grupo de jovens jogava uma partida de futebol na quadra do condomÃnio, ruidosamente.
Outro grupo de pessoas se junta na janela do prédio vizinho e por vários minutos canta, a plenos pulmões, canções em provocação aos que jogam futebol na quadra.
Naquela mesma manhã, as obras de reforma ao lado, começaram às 8 em ponto, percebidas pelo som da serra elétrica.
Quando os cantores da janela insistiram em não parar, coloquei um amplificador de guitarra em minha janela e através dele toquei um CD (Pat Metheny – Zero Tolerance for Silence) enquanto tomava meu banho. Ao término deste, desliguei o som e pude ouvir gritos de protesto de uma outra vizinha, que ameaçava chamar a polÃcia. Isso é caso de polÃcia mesmo? Que bom seria, se assim fosse.
Tudo isso que acabo de descrever pôde ser percebido com o sentido da audição. Além deste, o ser humano ainda possui os sentidos de olfato, tato, paladar e visão. Se houvesse uma transposição de sentidos, audição e olfato, por exemplo, imaginem o cheiro que se estaria sentindo numa sociedade onde imperam sons como esses que acabo de descrever.
Som e cheiro não são difÃceis de se imaginar trocando de lugar. Não se vêem nem se tocam o cheiro e o som. Estão no ar, invisÃveis e intocáveis. Mas podemos tentar imaginar também se o som tivesse cheiro. Cada martelada seria uma borrifada de um forte odor no ar.
Que cheiros teriam as músicas? Que cheiro teria o som das serras elétricas, das buzinas e dos alarmes de carros e garagens? Nosso som fede muito. Estou nauseado.
Qual é o limite da tolerância auditiva? Todos esses sons se sobrepõem ao som das nossas vozes. Dominam a paisagem sonora das cidades onde vivemos amontoados. Estes espaços deveriam ser adaptados à existência humana, mas são insalubres, do ponto de vista auditivo. São inapropriados para o desenvolvimento de algo básico à nossa espécie que é o pensamento. São empecilhos a algo fundamental à nossa saúde fÃsica e mental que é o sono.
Os caminhões de coleta de lixo urbano são grandes poluidores sonoros. Isso pode ser visto como, literalmente, varrer a sujeira para debaixo do tapete. Estamos falando de poluição sonora. Estamos falando de continuar vivendo num ambiente extremamente poluÃdo. Estamos falando de meio-ambiente. Estamos falando de ecologia acústica(estudo da relação entre os organismos vivos e seu ambiente sonoro).
Estamos, enquanto sociedade, realmente falando disso tudo? Estamos só surdos ou mudos também? O ser humano se acostuma a tudo?
segunda-feira, 19 de abril de 2010 às 12:41
Prezado Carlos,
Suas contribuições foram brilhantes. Sua idéia de transformar o ruÃdo em odor talvez esclareça o que você sente, e eu também, diante deste barulho crescente que parecemos nos acostumar. Entretanto recuso-me a aceitar tudo isso e ainda procuro uma maneira de resolver esta situação definitivamente. Acredito que o primeiro passo é a educação e o esclarescimento dos danos à Saúde, mas talvez apenas isso não seja suficiente.
quinta-feira, 22 de abril de 2010 às 21:56
Pedro,
Esse tema abre uma série de reflexões sobre a audição, a saúde, o direito, os deveres, a educação…!!! e fundamentalmente à condição de evolução do ser humano .. com qualidade de vida!
tema dos mais explorados na literatura mundial e que nos reporta à nossa PAZ INTERIOR, mérito exclusivo daquele indivÃduo Ãntegro, de bom caráter e acima de tudo que sabe respeitar o outro.
parabéns!
grande abraço!
Coeli
domingo, 25 de abril de 2010 às 1:12
Coeli, sua sÃntese foi ótima. Relamente passa por tudo isso, mas no final, o que buscamos mesmo é a Paz Interior. O problema, como diria Raul Seixas, é que “passamos a vida inteira travando uma luta eterna contra os galhos, sem saber que é lá no tronco que está o coringa do baralho”. Obrigado, beijão.