Precisava conversar, urgente, com o Secretário de Saúde. Entre as diversas atribuições do cargo de Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação, que ocupava, havia o desenvolvimento de projetos em parceria com outras esferas do Governo.
Parei o carro no estacionamento que fica a beira-mar, em frente à Secretaria. Nem bem abri a porta e um barulho perturbador invadiu os meus ouvidos. O trânsito, um prédio em construção, um compressor de ar-condicionado, enfim, o ruído cada vez mais intenso do nosso cotidiano. Aquilo tudo, no entanto, era apenas uma pequena amostra do que ainda estava por vir. Digo isso porque, justamente naquele momento, estava havendo uma comemoração do Dias dos Pais. Para tal, foi contratado o humorista Marlon Rossi, que além de fazer imitações, brincava com o público no estilo “stand-up show”.
Cheguei apressado, sentei na frente do palco e fui conversar diretamente com o Secretário. Nem dei muita importância às gracinhas que o animador falou com a minha entrada. Talvez este tenha sido meu erro. Ele cantava todo tipo de música, sobretudo as que refletem a nossa sociedade machista, de Guerreiros, Conans e Legionários, que exploram a sensualidade e a beleza feminina, à exemplo da “boquinha da garrafa”, “da bicicletinha” e outras fuleragens. Fui rápido, mas não o bastante. Assim que consegui a assinatura do convênio, que já havia sido apropriadamente discutido em outras reuniões, ouvi o humorista falar: – Agora faremos uma homenagem aos Pais, e para isso preciso de cinco representantes. Este senhor aqui da frente, aquele careca lá do fundo, este outro “quatro olho” aqui do meio, VOCÊ engravatado, e o gordinho à minha esquerda.
O problema é que o “você” foi para mim! Tive pouco tempo para decidir, mas ponderei que, diante daquela enorme platéia, nenhum tipo de brincadeira seria pior do que as que ele faria, caso me negasse a participar. Pouco tempo depois percebi que estava redondamente enganado.
Quando subi no palco ele falou: – Agora, os cinco voluntários vão dançar, na ordem de chamada, o CRÉU!!! Cada um na sua velocidade!!! Então eu pensei: – Não sabia nem o que era o CRÉU, quanto mais dançá-lo na VELOCIDADE 4!!! Não teve jeito. Respirei fundo, copiei o colega da velocidade 3, um pouco mais rápido e, durante aproximadamente um mês, fui reconhecido várias vezes na Secretaria como o “Velocidade 4”.
O que é um Esgoto Sonoro?
“O esgoto sonoro é o resultado de uma sociedade que trocou os ouvidos pelos olhos” (SCHAFER)
O esgoto sonoro é este lixo acústico crescente e cada vez mais intenso no qual estamos inseridos. Toda sorte de barulho, som indesejável, seja ele um ruído de um ar-condicionado, ou de um prédio em construção, como relatados anteriormente, e até mesmo os produzidos por um rádio do vizinho, tudo isso é Esgoto Sonoro. O seu conceito intimamente ligado à poluição pode, talvez, causar menos impacto e rejeição, pelo simples fato de ser invisível, em uma sociedade que valoriza tanto as imagens como a nossa, a exemplo do que está por trás das danças machistas. Mas o fato é: seu poder de destruição e dano à saúde das pessoas é equivalente ao de qualquer outro esgoto da Cidade, com o agravante de nunca existir planejamento adequado para esta modalidade insalubre.
O que tem sido feito para evitar o avanço do esgoto sonoro
Na realidade, sobretudo no Brasil, pouco tem sido feito para o combate à poluição sonora. As cidades possuem suas Leis específicas, mas raramente estas são cumpridas, principalmente porque não se sabe, ao certo, quem as deve fazer cumprir. De um lado, as Prefeituras, que, algumas vezes, até possuem equipamentos de medida sonora, mas que funcionam em horário comercial. Por outro lado, a Polícia, que, na grande maioria das vezes não possui tal equipamento, e, além disso, prioriza o controle da criminalidade em detrimento do controle do ruído. Então, ficamos reféns da consciência das pessoas e estas, como se sabe, via de regra, não estão muito preocupadas com as políticas de boa vizinhança e com o convívio em sociedade.
Resta-nos, por fim, deixar que as pessoas descumpram a Lei do silêncio, ou ligar para o 190 e dizer que está a havendo uma festa na casa do vizinho e que foram ouvidos tiros, para, só assim, a Policia chegar e mandar baixar o som. Em outras palavras, ou deixamos os crimes acontecerem passivamente, e nos tornamos cúmplices, ou mentimos, e nos transformamos em criminosos também.
Visita recomendada:
Bibliografia recomendada:
1. SCHAFER, Murray. O ouvido pensante. São Paulo, Unesp,1991.
2. SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
3. CATUNDA, Marta. Na teia invisível do som: por uma geofonia da comunicação.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com
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domingo, 14 de fevereiro de 2010 às 19:17
Professor Pedro, essa parte da Educação Doméstica é o “x” da questão, sobretudo em Alagoas.
Há coisas que têm que ser aprendidas até os seis anos de idade. Depois fica muito difícil.
domingo, 14 de fevereiro de 2010 às 21:45
Parabéns pela abordagem, especialmente pela coragem de assumir ser o cara da velocidade 4 do créu. Bom que você tenha voltado a postar seus sempre muito bons artigos. Espero que agora você possa dar às suas postagens velocidade ao menos 5.
Abraços
domingo, 14 de fevereiro de 2010 às 21:46
Pois é Dr. Henrique. Estou preparando uma nova postagem para evidenciar o papel fundamental da eduação! Muito obrigado pelos preciosos comentários.
domingo, 14 de fevereiro de 2010 às 21:50
Caríssimo JO,
Estava escrevendo dois capítulos para o novo tratado de otorrinolaringologia e, infelizmente, tive que me afastar do blog. Vou viajar depois do carnaval mas, assim que estiver em Maceió, voltarei, de fato, na velocidade 5. Muito obrigado!
domingo, 14 de fevereiro de 2010 às 22:20
O efeito do esgoto começou com o financiamento da cultura “pop” pela CIA para bloquear possívies artistas panflatários. Pois é a arte “conceitual” foi financiada. Nada acontece por acaso na esfera cultural. Na física e na natureza existem sim fenômenos do acaso. Na cultura, o esgoto a que Pedro se refere é produto excretado do tudo que consumimos boca, ouvido e espírito a dentro. È um encademaento sim. E não somos totalmente inocentes….
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010 às 2:02
Caro amigo André, seus comentários são sempre muito profundos e pertinentes. Concordo plenamente com as suas afirmações. Muito obrigado por enriquecer a discussão.
sábado, 20 de fevereiro de 2010 às 1:47
Que bom que o sr. voltou a postar … como sempre muito bom o artigo , mas devo confessar que a parte do Créu foi “MARA” … Parabéns mais uma vez Dr. Pedro.
domingo, 28 de fevereiro de 2010 às 17:23
Tem uma frase que já ouvi várias vezes: “meu ouvido não é penico”. Depois de ler o Prof. Pedro acho que a frase fica melhor assim: “meu ouvido não é vaso sanitário” (para usar a expressão nordestina, em São Paulo chamamos de privada). Só muito amor pela Universidade faz um professor passar pelo vexame que nosso querido Prof. Pedro passou dançando o créu na velocidade 4.
quarta-feira, 10 de março de 2010 às 17:27
Pedro, parabéns mais uma vez pela escolha dos temas! Todos foram bem interessantes e deixam leitores, assim como eu, cada vez mais ansiosos pelo próximo “capítulo”, rsrs. Abraços!
terça-feira, 13 de abril de 2010 às 21:26
Professor, não deixe de escrever.
Seu blog é muito bom!