Jean Baudrillard, um reservado sociólogo, poeta e fotógrafo francês, sempre foi polêmico. Foi este renomado professor quem cunhou termos como “simulacro”, “hiper-realidade”, “ciberespaço”, entre muitos outros. A partir de uma obra dele (simulacros e simulações), os autores do filme Matrix, se inspiraram para fazer o roteiro. Apesar de parecer não ligar para a fama, ele não tinha muita paciência com a sociedade consumista e irracional. Odiava o idioma inglês, e o que ele representava. Não suportava atrasos e, sobretudo, desculpas esfarrapadas. Dudu, por outro lado, um excêntrico japonês do “caramba”, batizado por dois foliões bêbados num final de noite, em pleno carnaval de Olinda, era estudante de comunicação social e multimeios da PUC, São Paulo. Músico de ofício, produtor musical e artista muitimídia, tem um defeito: está sempre atrasado. Pois bem, Baudrillard estava vindo para o Brasil, proferir uma palestra sobre “imagem e violência”, e deveria ser recepcionado no aeroporto de Guarulhos por motorista e intérprete francês. A equipe que a Universidade havia contratado desapareceu, então, foi necessário procurar, às pressas, por alguém que pudesse fazer o serviço. Não me pergunte como, mas, no final das contas, um aluno que acabará de voltar de uma temporada morando na França foi convocado. Ele mesmo, Dudu, um japonês do “caramba”.
– Tá! Tá bom! Eu já aceitei o trabalho. Mas o que eu devo fazer?
– Eduardo, o trabalho é simples. Coloca o nome numa placa, vai para a frente do portão de desembarque do aeroporto buscar o professor e depois leva-o para o hotel. Mas pelo amor de Deus, chega na hora e não faz nenhum tipo de brincadeira porque ele não tem a menor paciência com isso.
Pela primeira vez na vida, Dudu chegou antes da hora marcada. Com uma enorme placa na mão, era o primeiro na saída do desembarque. Porém as pessoas foram saindo, as horas foram passando e nada! Dudu já estava preocupado. – Será que o homem não veio?
Duas horas depois, com o desembarque já fechado, Dudu percebeu a presença de um senhor de cabelos grisalhos, elegantemente vestido, mas muito nervoso. E resolveu perguntar:
– Boa noite, o senhor é Jean Baudrillard?
Como não recebeu resposta, Dudu insistiu:
– Are you Jean Baudrillard?
Os olhos do homem esbugalharam, ele começou a ficar vermelho. Estava com muita raiva e respondeu em francês formal:
– Eu não falo inglês!!! Esta foi uma troca impossível!!! Onde você estava? Porque o senhor me deixou esperando o dia todo aqui? Irresponsável!!!!
– Tenha calma, senhor, não tive culpa. Fiz tudo o que me mandaram. Cheguei cedo, era o primeiro na saída do desembarque e fiz uma placa enorme com o meu nome, olha aqui: DU-DU, tá vendo? Como o senhor não viu, heim?
Não precisa nem dizer, depois de ouvir tudo aquilo, o professor, praticamente, enfartou. Não fosse a presteza de Dudu que, antes de ir para o hotel, o levou para o Ibirapuera. Ao chegar à entrada do parque, Dudu ficou impressionado com a agilidade do Prof. Baudrillard, que foi correndo até a grama. Então, ensinou ao professor uma técnica japonesa, ninja, de relaxamento, com direito a “rolar na grama” e tudo mais. Dizem até, que após este relaxamento o professor escreveu: “Cada um é sem dúvida presente com sua vontade e seu desejo, mas, no íntimo, as decisões e pensamentos advêm de outra parte. E é nessa interferência muito estranha que está sua originalidade, seu destino – ao qual tentamos continuamente escapar”.
O pensamento, descrito acima, deu origem a um livro que, coincidentemente, foi intitulado “A troca impossível”.
O que tem a audição haver com tudo isso?
Somos exatamente um reflexo de como vivemos. A agilidade do Prof. Baudrillard não era por acaso. Mas um resultado da maneira saudável como ele viveu, da sua alimentação, dos exercícios que praticava e da calmaria, sobretudo do silêncio, da pacata cidade francesa, nos arredores de Paris, onde morava. Assim como a saúde geral, a audição também é fortemente influenciada pelo ambiente acústico onde vivemos. Não falo apenas das perdas ocupacionais categóricas. Vou muito mais além. Será que a presbiacusia (a perda da audição secundária ao envelhecimento do sistema auditivo) existiria em uma sociedade com paisagens sonoras de alta fidelidade (baixo ruído)? Como será esta presbiacusia daqui a 10 anos, com o ruído aumentando, de uma maneira geral, pelo menos, 1 dB por ano?
Estudos sugerem que presbiacusia é um problema do ruído da civilização
Alguns estudos, desde longa data, sugerem que a presbiacusia só existe porque vivemos em cidades muito ruidosas. Um otologista de Nova Iorque, Samuel Rosen, por exemplo, realizou um amplo estudo com africanos idosos (com 60 anos de idade), e percebeu que estes tinham uma audição tão boa, ou melhor, que a média dos americanos com idade de 25 anos. Atribuiu, então, esta capacidade superior dos africanos ao seu ambiente isento de ruídos. Os sons mais intensos aos quais estavam expostos na tribo eram os de suas próprias vozes, quando estavam cantando ou gritando. Alguns autores, no entanto, insistem que a presbiacusia está, possivelmente associada, a partir, aproximadamente, dos 65 anos, ao envelhecimento.
Visita recomendada:
1. Wikipédia: Jean Baudrillard
Bibliografia recomendada:
1. Schafer, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
2. ROSEN, S.; BERGMAN, M.; PLESTER, D.; EL MOFTY, A.; SATFI, M.H.: Presbiacusis study of a relatively noise-free population in the Sudan. Ann. Otol., 71: 727-729, 1962.
3. Baudrillard, J. A troca impossível. Editora Nova Fronteira: São Paulo, 1999.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010 às 20:02
Acho que não precisa mais dizer que o blog é sensacional! Parabéns !!
Silêncio não sei o que é isso a um bom tempo!!
=p
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 às 0:10
Obrigado Taciana!
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 às 19:13
Está cada vez melhor !!!!
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 às 23:14
Ana, suas palavras me deixam muito feliz e motivado. Muito obrigado.
sábado, 16 de janeiro de 2010 às 23:29
Pedro, como sempre, excelente intróito e ótima correlação com o texto. Seu blog se mostra cada vez mais atrativo. Parabéns
domingo, 17 de janeiro de 2010 às 12:22
Muito obrigado Alessandro,
Tenho maravilhado-me com o seu blog também.
domingo, 17 de janeiro de 2010 às 17:59
continui com presbiacusia ,tem informações mto importantes e curiosas.Abraço.
domingo, 17 de janeiro de 2010 às 23:19
Obrigado Leila. Tem mesmo muitas curiosidades.
sábado, 23 de janeiro de 2010 às 10:11
Dr. Pedro, achei o texto muito engraçado. Fiquei imaginando a reação do Professor francês ao aluno tão original.
Gostei muito da parte técnica. Infelizmente, além de na nossa sociedade as pessoas não se comunicarem como deveriam, ainda ficarão surdas precocemente.
Em Maceió, particularmente, os ruídos constantes de carros de som, de camelôs nas praças, de vendedores de CD pirata, do picolé caicó e tantos outros são agradáveis a uma parte da população. Mais um resultado de nosso déficit de educação, sobretudo doméstica.
Vamos remar contra a maré, tentando ensinar os prejuízos coletivos, sociais e individuais da poluição sonora.
Parabéns pelo Blog! Vou divulgá-lo.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 às 0:13
Prof. Pedro
Acho muito interessante a presbiacusia e todas as mudanças “naturais” que acontecem no corpo ao decorrer do envelhecimento …espero ler mais coisas sobre elas por aqui.
Continuo lendo, aprendendo e gostando muito do bolg!
=*