A Biofísica da Vida
Mauricy é a pessoa mais tranquila que já conheci. Pesquisador de sensibilidade e criatividade ímpar. Foi com ele que aprendi a transformar minha vontade e inquietação em trabalhos científicos. Poderia contar muitas histórias estreladas por esta figura maravilhosa, mas vou deter-me a duas delas, em especial, pois adorávamos relembrá-las em seu Laboratório de Instrumentação e Bioengenharia, na Universidade Federal de Pernambuco, que frequentei durante bons anos de minha vida.
A arte de delegar
Delegar atribuições é uma arte para poucos. Mauricy, entretanto, era sumidade no assunto. Certa vez contou-me:
– Pedro, você precisa aprender a delegar as tarefas, dividir as responsabilidades, eu, por exemplo, delego tudo da minha casa à minha mulher. Outro dia, num sábado pela manhã, estava sentado na frente do computador trabalhando, quando vi minha esposa com uma movimentação incomum. Pensei: – acho que vamos viajar! Lá para as tantas ela me chamou: – Mauricy, coloca as malas no carro. Neste momento tive a confirmação, iríamos mesmo viajar. Depois ela falou: – Mauricy, vai tomar banho. Por fim, fomos para o carro, eu sentei à direção e perguntei: – Ô nêga, que mal lhe pergunte, vamos para onde mesmo?
A arte de ensinar
Mauricy foi meu orientador de mestrado em Biofísica, e eu, como bolsista do CNPq, precisava cumprir algumas obrigações do programa. Uma delas era dar suporte nas aulas de biofísica, que o professor ministrava para o curso de medicina. Para mim não era obrigação, mas um prazer. Eu adoro o assunto. Além disso, as aulas eram maravilhosas, cheias de exemplos e atividades práticas. Mauricy sabia muito bem como deixar todos interessados.
Certa vez, ele iria ministrar uma aula sobre Biofísica da audição e, para falar de sistemas auditivos mais eficientes que os humanos, levou para a sala um “apito para cachorro”. Este tipo de apito é constituído por dois pequenos tubos de alumínio que podem ser encaixados, um dentro do outro, de forma que seu comprimento fica bastante reduzido, o que permite a produção de ultra-sons, inaudíveis pelos seres humanos. Tudo isso, contudo, só acontece se os dois tubos estiverem completamente encaixados. Qualquer outro encaixe parcial produz um som bastante agudo, porém audível, sobretudo para ouvintes mais jovens.
Resumindo a história, depois de dar a explicação física sobre o assunto, Mauricy falou: – Bem, então para exemplificar o que eu acabei de demonstrar para vocês, nós, seres humanos, não somos capazes de escutar ultra-sons, como estes produzidos pelo apito de cachorro. Vejam só: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!! Estão percebendo? Estamos falando de 30.000 Hz, frequência esta que se encontra fora da nossa faixa de audição: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!! São os ultra-sons, por exemplo, que os morcegos utilizam para eco localização, mas, como falei, não podemos ouví-los: Prrrrrriiiiiiiiuuuuuuuu!!!!!
Tive que fazer um esforço supremo para me conter diante dos alunos que já cochichavam uns com os outros e divertiam-se com a cena. Algum tempo depois, Mauricy confessou-me ter consciência de que apenas ele não ouvia o apito, e que tudo aquilo era mais uma estratégia para descontrair a turma e motivar a reflexão sobre as razões pelas quais ele, que já tinha uma idade mais avançada, não conseguia ouvir o estímulo sonoro.
Biofísica
Biofísica é uma ciência de fronteira que utiliza a Física e suas teorias para explicar o desenvolvimento dos seres vivos. Um estudo apaixonante que permite o aprofundamento necessário para a compreensão ampla dos processos biológicos. Possui muitos estudiosos ilustres no Brasil, entre eles os professores Eduardo Antônio Conde Garcia, Ibrahim Felippe Heneine e Mauricy Alves da Motta.
Presbiacusia
Outro conceito importante que deve ser explicado, discutido em postagem anterior, é a presbiacusia, definida como o envelhecimento do sentido da audição e que causa uma perda bilateral. Envelhecimento este, entretanto, que pode ser motivado ou agravado pela exposição excessiva à ruídos, sobretudo aos que estamos expostos diariamente, e que aumentam de intensidade a cada ano.
Como pôde ser observado no texto acima, os jovens podem escutar frequências mais agudas que as pessoas com idades mais avançadas. Estes jovens, contudo, expostos cada vez mais a ruídos, como os de seus sistemas de som individuais, certamente possuirão uma audição pior do que as de seus avós, quando atingirem as idades que os mesmos têm hoje.
Uma grande definição de Mauricy
Por fim, vou encerrar esta homenagem relembrando um trecho sobre a importância da canção de ninar, escrito por Mauricy, que representa o (re)inicio do nosso ciclo biológico, nossa paisagem sonora primordial.
“A canção de ninar, com sua linha de melódica harmoniosa e doce, traz para a criança a segurança que ela gozava no calor do ventre materno, aliada ao relaxamento das defesas e do amplexo materno, induzindo uma calma e serenidade que não se encontra em qualquer outro ambiente. Isto leva a um progressivo embotamento da vigília que é seguido por um sono profundo e reparador. O regaço materno e a canção de ninar são, talvez, uma amostra do céu como o concebemos.”
Visitas recomendadas:
Bibliografia recomendada:
MENEZES, Pedro de Lemos (Org.), CALDAS NETO, Silvio (Org.), MOTTA, Mauricy (Org.). Biofísica da Audição. São Paulo: Lovise, 2005. 192 p.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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Silêncio: isso é possível?
O sítio histórico de Olinda é sempre muito tranquilo, sobretudo quando não é carnaval. As ruas ficam o ano inteiro, quase, desertas, a não ser pelos turistas que habitualmente as ocupam durante o dia. Sua arquitetura peculiar e a sua arborização fazem com que as noites sejam relativamente silenciosas, como em uma cidade de interior. Entretanto, nem sempre é assim. Aos domingos, a pacata região vive seus momentos de cidade grande. Isso porque seu Rosivaldo, um ex-taxista bem conhecido na localidade, começa seu ritual logo cedo. Ele enche os 1.000 litros de sua piscina de lona, que fica na varanda de sua casa, faz caipirinha para um batalhão e acende a churrasqueira. A gordura da carne provoca sempre muita fumaça e seu cheiro pode ser sentido até nas casas mais distantes da rua. Depois ele chama alguns amigos e a festa não tem hora para acabar.
Até então nada demais, para um senhor barbudo, de meia-idade, que passa a semana toda trabalhando duro. O problema é que ele gosta de ouvir música muito alta e o faz ligando o som do seu carro que fica em frente a sua casa, do outro lado da rua. Não vou entrar aqui no mérito da qualidade musical, que neste caso, para mim, é de um mau gosto terrível. O importante mesmo é ausência de consciência, mínima, para se conviver em sociedade. Por isso, não são raras as intercorrências provenientes deste hábito doentio. Para piorar a situação, seu Rosivaldo é casado com dona Neide, uma senhora barraqueira, que fala alto e não leva desaforos para casa.
O barulho que seu Rosilvado produz é algo que impressiona e deixa todos os vizinhos insatisfeitos. A explicação talvez seja a necessidade de se mascarar um passado muito difícil, típico de uma narrativa de Odair José (escute aqui), quando, num esforço supremo, o amante, para por fim ao seu sofrimento, retira a sua amada do antro do meretrício e a leva para o regaço de sua família. Esta família, entretanto, depois de constituída irá, indefinidamente, conviver com o fantasma de seu passado sombrio. Por outro lado, pode não ser nada disso. Seu Ransivaldo, como é conhecido a boca miúda, pode ser mesmo um ranzinza grosseiro autêntico.
Pois bem, numa tarde dessas de domingo, ninguém aguentava mais ele. O som fazia tremer os móveis das casas. O vizinho da frente, seu Francisco, coitado, com a filha pequena que estava doente, não tinha sossego. Já estava anoitecendo quando ele resolveu ligar para a polícia. O condenado tinha passado o dia inteiro pedindo para seu Rosivaldo baixar o som. Nada feito. A polícia chegou rápido, numa presteza que não lhe é comum, sobretudo nesses casos de pouca relevância (na avaliação da autoridade militar, é claro). O cabo da policia militar abordou o dono do carro:
– O senhor pode, por favor, baixar o som. Está na hora de se fazer silêncio.
– Baixar? Por que eu vou baixar? Estou na minha casa, com meus amigos. Não vou baixar coisa nenhuma.
Rapidamente o policial percebeu que aquela seria uma tarefa difícil. Então, delicado como papel de embrulhar pregos, falou:
– Soldado, algema o homem. Desacato a autoridade. Ele ta pensando que está falando com as raparigas dele. Este aí só vai conseguir entender o que estou dizendo na delegacia.
Seu Rosivaldo começou a ficar vermelho, faltou ar. Estava suando frio. Colocou a mão na garganta, tentando falar algo, e caiu no chão. Dona Neide começou a chorar compulsivamente, beirando o esterismo. Primeiro partiu para cima policial e depois atacou o vizinho da frente:
– Foi você seu infeliz! Você matou o meu marido! Eu vou acabar com sua raça.
Para encurtar a história, diante daquela baixaria toda, foram todos para a delegacia, menos seu Rosivaldo, que foi atendido primeiro pelo SAMU, depois passou o resto da noite explicando o que aconteceu ao delegado.
O silêncio para a Acústica
O silêncio absoluto não existe porque as partículas normalmente não ficam paradas. Elas estão em constante movimento e em relativo equilíbrio, mesmo quando não existe uma fonte sonora.
Uma vez que o som é uma vibração mecânica audível (entre 20 e 20.000 Hz), composto por regiões de compressão (pressão maior que a atmosférica) e rarefação (pressão menor que a atmosférica), a ausência deste não implica no silêncio absoluto. Primeiro, porque fora da faixa audível pelos humanos é possível a existência, é claro, de outras frequências de vibração que poderiam ser detectadas por outros animais ou por instrumentos. Segundo, porque mesmo dentro da faixa que podemos ouvir, a intensidade poderia ser escutada por algumas pessoas (com melhor audição) e por outras não, ou mesmo, ser tão fraca que os seres humanos nunca seriam capazes de escutar, ou ainda, tão fracas que só seriam captadas por instrumentos. Então, como as partículas nunca estão paradas, o silêncio estará presente enquanto o sensor, que poderia ser nossos ouvidos ou um microfone, for incapaz de melhorar a sua sensibilidade.
Medida do som
O som é medido em decibéis (dB), em homenagem a Grahm Bell*. Sua concepção é simples. Foi inventado para diminuir a grandeza da unidade de medida, pois se observada a audição humana, em relação ao movimento das partículas, entre o som mais fraco e o mais forte que somos capazes de escutar (som que causa dor), teríamos um número muito grande (10 elevado a 13). Então, para diminuir a sua grandeza, os valores são divididos por um valor de referência, e esta referência é o mínimo teórico capaz de ser ouvido por seres humanos**. Na prática, um som que possui 0 dB, na realidade tem a mesma intensidade que o valor considerado como referência, o que não significa silêncio ou ausência de som. Valores negativos são possíveis e significam que o som medido tem intensidade menor que o valor referencial.
* Ler postagem sobre a invenção do telefone
** Como esta operação não é suficiente para reduzir adequadamente os valores, os mesmos são colocados, ainda, em escala logarítmica.
Silêncio negativo
Para Schafer, o homem gosta de produzir som para lembrar que não está só. O silêncio total seria uma forma de rejeição à personalidade humana. Assim, de maneira semelhante, o homem teme a ausência de som, como teme a própria morte, já que é ela a responsável pelo silêncio final. Então, o silêncio, para os ocidentais é algo negativo, um vazio, a interrupção da comunicação, o fim.
Silêncio positivo
Vivemos em uma sociedade cada vez mais ruidosa e o silêncio, em tese, é algo cada vez mais inatingível. Sua reconquista, porém, representa o abandono da pressa, a respiração adequada, a quietude, a paz no coração e a qualidade de Vida.
Visita recomendada:
Bibliografia recomendada:
1. SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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Estamos vivendo num Esgoto Sonoro
Precisava conversar, urgente, com o Secretário de Saúde. Entre as diversas atribuições do cargo de Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação, que ocupava, havia o desenvolvimento de projetos em parceria com outras esferas do Governo.
Parei o carro no estacionamento que fica a beira-mar, em frente à Secretaria. Nem bem abri a porta e um barulho perturbador invadiu os meus ouvidos. O trânsito, um prédio em construção, um compressor de ar-condicionado, enfim, o ruído cada vez mais intenso do nosso cotidiano. Aquilo tudo, no entanto, era apenas uma pequena amostra do que ainda estava por vir. Digo isso porque, justamente naquele momento, estava havendo uma comemoração do Dias dos Pais. Para tal, foi contratado o humorista Marlon Rossi, que além de fazer imitações, brincava com o público no estilo “stand-up show”.
Cheguei apressado, sentei na frente do palco e fui conversar diretamente com o Secretário. Nem dei muita importância às gracinhas que o animador falou com a minha entrada. Talvez este tenha sido meu erro. Ele cantava todo tipo de música, sobretudo as que refletem a nossa sociedade machista, de Guerreiros, Conans e Legionários, que exploram a sensualidade e a beleza feminina, à exemplo da “boquinha da garrafa”, “da bicicletinha” e outras fuleragens. Fui rápido, mas não o bastante. Assim que consegui a assinatura do convênio, que já havia sido apropriadamente discutido em outras reuniões, ouvi o humorista falar: – Agora faremos uma homenagem aos Pais, e para isso preciso de cinco representantes. Este senhor aqui da frente, aquele careca lá do fundo, este outro “quatro olho” aqui do meio, VOCÊ engravatado, e o gordinho à minha esquerda.
O problema é que o “você” foi para mim! Tive pouco tempo para decidir, mas ponderei que, diante daquela enorme platéia, nenhum tipo de brincadeira seria pior do que as que ele faria, caso me negasse a participar. Pouco tempo depois percebi que estava redondamente enganado.
Quando subi no palco ele falou: – Agora, os cinco voluntários vão dançar, na ordem de chamada, o CRÉU!!! Cada um na sua velocidade!!! Então eu pensei: – Não sabia nem o que era o CRÉU, quanto mais dançá-lo na VELOCIDADE 4!!! Não teve jeito. Respirei fundo, copiei o colega da velocidade 3, um pouco mais rápido e, durante aproximadamente um mês, fui reconhecido várias vezes na Secretaria como o “Velocidade 4”.
O que é um Esgoto Sonoro?
“O esgoto sonoro é o resultado de uma sociedade que trocou os ouvidos pelos olhos” (SCHAFER)
O esgoto sonoro é este lixo acústico crescente e cada vez mais intenso no qual estamos inseridos. Toda sorte de barulho, som indesejável, seja ele um ruído de um ar-condicionado, ou de um prédio em construção, como relatados anteriormente, e até mesmo os produzidos por um rádio do vizinho, tudo isso é Esgoto Sonoro. O seu conceito intimamente ligado à poluição pode, talvez, causar menos impacto e rejeição, pelo simples fato de ser invisível, em uma sociedade que valoriza tanto as imagens como a nossa, a exemplo do que está por trás das danças machistas. Mas o fato é: seu poder de destruição e dano à saúde das pessoas é equivalente ao de qualquer outro esgoto da Cidade, com o agravante de nunca existir planejamento adequado para esta modalidade insalubre.
O que tem sido feito para evitar o avanço do esgoto sonoro
Na realidade, sobretudo no Brasil, pouco tem sido feito para o combate à poluição sonora. As cidades possuem suas Leis específicas, mas raramente estas são cumpridas, principalmente porque não se sabe, ao certo, quem as deve fazer cumprir. De um lado, as Prefeituras, que, algumas vezes, até possuem equipamentos de medida sonora, mas que funcionam em horário comercial. Por outro lado, a Polícia, que, na grande maioria das vezes não possui tal equipamento, e, além disso, prioriza o controle da criminalidade em detrimento do controle do ruído. Então, ficamos reféns da consciência das pessoas e estas, como se sabe, via de regra, não estão muito preocupadas com as políticas de boa vizinhança e com o convívio em sociedade.
Resta-nos, por fim, deixar que as pessoas descumpram a Lei do silêncio, ou ligar para o 190 e dizer que está a havendo uma festa na casa do vizinho e que foram ouvidos tiros, para, só assim, a Policia chegar e mandar baixar o som. Em outras palavras, ou deixamos os crimes acontecerem passivamente, e nos tornamos cúmplices, ou mentimos, e nos transformamos em criminosos também.
Visita recomendada:
Bibliografia recomendada:
1. SCHAFER, Murray. O ouvido pensante. São Paulo, Unesp,1991.
2. SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
3. CATUNDA, Marta. Na teia invisível do som: por uma geofonia da comunicação.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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É o ruído quem envelhece a audição
Jean Baudrillard, um reservado sociólogo, poeta e fotógrafo francês, sempre foi polêmico. Foi este renomado professor quem cunhou termos como “simulacro”, “hiper-realidade”, “ciberespaço”, entre muitos outros. A partir de uma obra dele (simulacros e simulações), os autores do filme Matrix, se inspiraram para fazer o roteiro. Apesar de parecer não ligar para a fama, ele não tinha muita paciência com a sociedade consumista e irracional. Odiava o idioma inglês, e o que ele representava. Não suportava atrasos e, sobretudo, desculpas esfarrapadas. Dudu, por outro lado, um excêntrico japonês do “caramba”, batizado por dois foliões bêbados num final de noite, em pleno carnaval de Olinda, era estudante de comunicação social e multimeios da PUC, São Paulo. Músico de ofício, produtor musical e artista muitimídia, tem um defeito: está sempre atrasado. Pois bem, Baudrillard estava vindo para o Brasil, proferir uma palestra sobre “imagem e violência”, e deveria ser recepcionado no aeroporto de Guarulhos por motorista e intérprete francês. A equipe que a Universidade havia contratado desapareceu, então, foi necessário procurar, às pressas, por alguém que pudesse fazer o serviço. Não me pergunte como, mas, no final das contas, um aluno que acabará de voltar de uma temporada morando na França foi convocado. Ele mesmo, Dudu, um japonês do “caramba”.
– Tá! Tá bom! Eu já aceitei o trabalho. Mas o que eu devo fazer?
– Eduardo, o trabalho é simples. Coloca o nome numa placa, vai para a frente do portão de desembarque do aeroporto buscar o professor e depois leva-o para o hotel. Mas pelo amor de Deus, chega na hora e não faz nenhum tipo de brincadeira porque ele não tem a menor paciência com isso.
Pela primeira vez na vida, Dudu chegou antes da hora marcada. Com uma enorme placa na mão, era o primeiro na saída do desembarque. Porém as pessoas foram saindo, as horas foram passando e nada! Dudu já estava preocupado. – Será que o homem não veio?
Duas horas depois, com o desembarque já fechado, Dudu percebeu a presença de um senhor de cabelos grisalhos, elegantemente vestido, mas muito nervoso. E resolveu perguntar:
– Boa noite, o senhor é Jean Baudrillard?
Como não recebeu resposta, Dudu insistiu:
– Are you Jean Baudrillard?
Os olhos do homem esbugalharam, ele começou a ficar vermelho. Estava com muita raiva e respondeu em francês formal:
– Eu não falo inglês!!! Esta foi uma troca impossível!!! Onde você estava? Porque o senhor me deixou esperando o dia todo aqui? Irresponsável!!!!
– Tenha calma, senhor, não tive culpa. Fiz tudo o que me mandaram. Cheguei cedo, era o primeiro na saída do desembarque e fiz uma placa enorme com o meu nome, olha aqui: DU-DU, tá vendo? Como o senhor não viu, heim?
Não precisa nem dizer, depois de ouvir tudo aquilo, o professor, praticamente, enfartou. Não fosse a presteza de Dudu que, antes de ir para o hotel, o levou para o Ibirapuera. Ao chegar à entrada do parque, Dudu ficou impressionado com a agilidade do Prof. Baudrillard, que foi correndo até a grama. Então, ensinou ao professor uma técnica japonesa, ninja, de relaxamento, com direito a “rolar na grama” e tudo mais. Dizem até, que após este relaxamento o professor escreveu: “Cada um é sem dúvida presente com sua vontade e seu desejo, mas, no íntimo, as decisões e pensamentos advêm de outra parte. E é nessa interferência muito estranha que está sua originalidade, seu destino – ao qual tentamos continuamente escapar”.
O pensamento, descrito acima, deu origem a um livro que, coincidentemente, foi intitulado “A troca impossível”.
O que tem a audição haver com tudo isso?
Somos exatamente um reflexo de como vivemos. A agilidade do Prof. Baudrillard não era por acaso. Mas um resultado da maneira saudável como ele viveu, da sua alimentação, dos exercícios que praticava e da calmaria, sobretudo do silêncio, da pacata cidade francesa, nos arredores de Paris, onde morava. Assim como a saúde geral, a audição também é fortemente influenciada pelo ambiente acústico onde vivemos. Não falo apenas das perdas ocupacionais categóricas. Vou muito mais além. Será que a presbiacusia (a perda da audição secundária ao envelhecimento do sistema auditivo) existiria em uma sociedade com paisagens sonoras de alta fidelidade (baixo ruído)? Como será esta presbiacusia daqui a 10 anos, com o ruído aumentando, de uma maneira geral, pelo menos, 1 dB por ano?
Estudos sugerem que presbiacusia é um problema do ruído da civilização
Alguns estudos, desde longa data, sugerem que a presbiacusia só existe porque vivemos em cidades muito ruidosas. Um otologista de Nova Iorque, Samuel Rosen, por exemplo, realizou um amplo estudo com africanos idosos (com 60 anos de idade), e percebeu que estes tinham uma audição tão boa, ou melhor, que a média dos americanos com idade de 25 anos. Atribuiu, então, esta capacidade superior dos africanos ao seu ambiente isento de ruídos. Os sons mais intensos aos quais estavam expostos na tribo eram os de suas próprias vozes, quando estavam cantando ou gritando. Alguns autores, no entanto, insistem que a presbiacusia está, possivelmente associada, a partir, aproximadamente, dos 65 anos, ao envelhecimento.
Visita recomendada:
1. Wikipédia: Jean Baudrillard
Bibliografia recomendada:
1. Schafer, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora Unesp, 1997.
2. ROSEN, S.; BERGMAN, M.; PLESTER, D.; EL MOFTY, A.; SATFI, M.H.: Presbiacusis study of a relatively noise-free population in the Sudan. Ann. Otol., 71: 727-729, 1962.
3. Baudrillard, J. A troca impossível. Editora Nova Fronteira: São Paulo, 1999.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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A perda auditiva que não pode ser evitada
Ressonância II
Hoje introduzirei um novo personagem com quem convivi durante muitos anos. Reservar-me-ei o direito de preservar sua identidade. Por tanto, vou me referir a ele, simplesmente, pelo codinome “Léo”. Uma figura peculiar, que tem o dom de atrair problemas, dos mais variados e inacreditáveis. Certa vez, numa noite de sexta-feira, estava Léo no aconchego de seu lar, repousando em sua cama macia e cheirosa. Sentia aquela fragrância de lençol novo, que sua querida mãe tinha acabado de trocar, misturando com um cheiro de cachaça que o infeliz exalava, por ter passado a tarde inteirinha bebendo com a namorada. Mas essa é outra história. Pois bem, seu sono foi repentinamente interrompido por uma frenética campainha que não parava de tocar. Ele, então, levantou e se dirigiu à porta, ainda meio sonolento. No caminho olhou para o quarto da sua mãe, que estava trancado e pensou alto: – Minha mãezinha já está, merecidamente, descansando –. Olhou para o quarto do irmão e refletiu: – Esse inútil! A casa cai e ele não acorda –. Quando abriu a porta, teve um susto. Eram policiais. Eles estavam tensos e procuravam por dois assaltantes de ônibus. “Espere um momento! Eles disseram assaltantes de ônibus? Vamos retroceder um pouco esta história para entendermos o que está acontecendo.”
Recife, sexta-feira. No inicio da noite, duas “almas sebosas” estavam bebendo a “saideira” em frente a um terminal de ônibus, na Av. Caxangá. O lugar estava deserto e o motorista, como de costume, tinha deixado o ônibus ligado, enquanto tomava um cafezinho e esperava à hora da partida. Foi então que eles tiveram a idéia:
– E ai, já dirigisse um ônibus?
– Deve ser muito legal. Dá para sentir a vibração do motor só em pegar na direção.
– Vamos nessa! Mas eu dirijo. Quero provar a potencia do bichano.
Seguiram os dois pela av. Caxangá. Um dirigindo e outro na cadeira do cobrador. Chegaram até a pegar três passageiros, mas estes desceram na parada seguinte, quando perceberam a baderna. Em um dado momento, os dois amigos presepeiros fizeram a seguinte reflexão:
– Bicho, se a gente não levar esse ônibus para algum amigo testemunhar, ninguém vai acreditar em nós!
Assim, resumindo a história, resolveram levar o ônibus para a casa de Léo. O irmão dele viu os amigos pela janela, e os escondeu em seu quarto. Quando os policiais questionaram a possibilidade de procurar os bandidos na casa, Léo, prontamente, mandou-os entrar, fazendo uma única ressalva para estes não acordarem sua mãe, que estava muito cansada. No final da história, foram todos para a delegacia, inclusive a mãe de Léo, e ficaram detidos até que toda a confusão fosse esclarecida.
Além da Perda Auditiva
Como já foi discutido na postagem anterior, o ruído pode causar sérios danos à saúde, além da perda auditiva. A exposição à altas intensidades de ruídos com baixa frequência pode causar vibrações da massa corporal. Assim, vibrações ósseas podem chegar aos limites da tolerância humana, sendo associada não apenas à problemas fisiológicos mas à algumas patologias também.
Vibrações de mãos e braços
O corpo humano pode ser vibrado como um todo, a exemplo das vibrações transmitidas quando este encontra-se em um ônibus, como visto na história acima, tratores, britareiras ou até mesmo em veículos de passeio. Deste modo, foram criados limites máximos de exposição à ruídos para as diferentes frequências, que são utilizados na indústria automobilística, na tentativa de se diminuir os riscos para a saúde das pessoas.
Trabalhadores fadados à perder a audição
Mesmo com todas as medidas preventivas adotadas para a manutenção da saúde dos trabalhadores, em algumas situações, a perda auditiva não pode ser evitada. Isso porque a intensidade supera os limites de atenuação da grande maioria dos equipamentos de proteção individuais (os protetores auriculares) que é de, no máximo, 30 dB (ou um pouco mais, apenas para altas frequências). Assim, para um trabalhador que utiliza uma britadeira, que pode atingir 125 dB (A) a um metro de distância do medidor, o protetor auricular irá atenuar a intensidade para, aproximadamente, 95 dB (A). O que limitaria a jornada de trabalho deste para 2 horas ou menos. A diminuição desta jornada, no entanto, como se sabe, nunca é respeitada. Tudo isso, sem contar com a energia mecânica que é transmitida diretamente pelas mãos e pelos braços.
Emprego para deficientes auditivos
A partir do relatado, então, defendo que postos de trabalho que possuam exposição à ruídos muito intensos, e que normalmente não podem ser atenuados por protetores, devem ser, preferencialmente, ocupados por deficientes auditivos. A exemplo do que já acontece na contratação de deficientes visuais para revelação de filmes, em câmara escura.
Veja um vídeo sobre poluição sonora nos terminais rodoviários (Aqui)
Visita recomendada:
1. Limites de atenuação dos protetores auriculares
2. Efeitos da colocação dos protetores para a conservação auditiva
Bibliografia recomendada:
MENEZES, Pedro de Lemos (Org.), CALDAS NETO, Silvio (Org.), MOTTA, Mauricy (Org.). Biofísica da Audição. São Paulo: Lovise, 2005. 192 p.
GERGES, S.N.Y. Ruído: Fundamentos e controle. 2. ed. Florianópolis: NR Editora. 2000. 676p.
BECKMAN, K.A.F. Ruído: um risco ocupacional. Terapia ocupacional. 2002.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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Ruído: muito além da perda auditiva

(Ressonância I)
Meu avô não dirigia mal. Pelo contrário, era ótimo motorista. O problema dele eram os desvios, os retornos e os acessos. Os “balões” então, como também são conhecidas as rotatórias, figuravam um desastre total. Ele entrava num e não conseguia mais sair. Acho até que vem daí toda a desatenção de Edvaldo, seu filho, que também foi herdada por Fila, seu neto.
Certa feita, estávamos indo para Tamandaré, uma das praias mais bonitas do litoral sul de Pernambuco. Os homens de sunga e as mulheres só de biquíni. Fila, eu e mais três amigas (escute a música, e entre no clima da viagem). Conversa vai, conversa vem e nada. Não chegava nunca. A essas alturas, chegávamos a Maceió, 150 km depois, mas não chegávamos a Tamandaré. O papo estava muito bom, é verdade, Fila sempre foi um conversador de primeira linha, basta dizer que ele conseguiu que dois “cabras” feios como nós saíssemos para a praia com três meninas lindas, e de biquínis minúsculos. Uma tinha sido miss acácia, que era o condomínio onde ele morava. A outra, segundo lugar num concurso para a rainha do IPSEP, um bairro de Recife. Já a terceira, era a Xuxa do nordeste. Mas o problema é que estávamos na estrada há, praticamente, duas horas.
Por acaso, eu estava olhando para a cinturinha de uma de nossas amigas (um espetáculo!) e percebi que estava toda arrepiada, e tremendo sem parar. Longe de desenvolver uma teoria presunçosa a respeito dos interesses da moça, eu, como um bom preposto a estudante de física, pensei: – O nosso carro não está lá essas coisas. Já deve alguns anos de revisão à oficina. Toda vez que tinha uma subidinha, se tremia todo. Assim, com toda a certeza, a desregulagem notória, aumentava o ruído de baixa frequência que, consequentemente, transmitia sua energia para o abdômen, sarado, da menina, e o mesmo entrava em ressonância com esta frequência e tremia maravilhosamente bem.

Quem dera! Não demorou muito para percebemos que o primo, como um autêntico neto de seu Carlos, Caito como era carinhosamente chamado, tinha errado um dos retornos, antes de chegar à BR 101. Na realidade, as moças estavam tremendo de frio, devido à altitude que começava a aumentar a partir da serra das Russas, caminho para Caruaru, agreste pernambucano.
Aproveitamos o desatino para tomar um caldo de cana com pão doce, na feira de Caruaru. Posteriormente, com nossas energias renovadas, voltamos rumo à Recife, pois, a essas alturas, o nosso programa (de índio) já havia furado, completamente.
O que é ressonância?
Em uma análise elementar, podemos dizer que todos os sistemas vibram em uma determinada frequência. Assim, as partículas que compõem um copo, ou as partículas que compõem partes do nosso corpo, de uma parede, de uma cadeira ou de qualquer outro objeto, vibram, porém, normalmente, nos casos citados, não conseguimos perceber. Cada sistema possui uma frequência de vibração específica, que depende da sua composição. A ressonância acontece quando uma força externa possui a mesma frequência do sistema, o que resulta na transmissão de energia e consequente aumento da amplitude de vibração das partículas, ou de partes, do referido sistema. Um exemplo clássico é o do aumento da amplitude de vibração de um balanço com uma criança, resultado do impulso dado pelo pai, toda vez que este se aproxima dele.
A ressonância pode destruir objetos
Pontes podem desabar, copos podem quebrar e o nosso corpo pode sofrer alterações por causa da ressonância. Em 1940, por exemplo, a ponte de Tacoma, em Washington – EUA, ruiu, pois entrou em ressonância com o vento. Outro exemplo é a ressonância entre as ondas sonoras e os objetos de cristal. Uma taça de cristal pode ser quebrada quando a voz humana, com forte intensidade, possuir frequência fundamental próxima a 700 Hz, a depender das características específicas de cada tipo taça. Isso porque a amplitude do movimento das partículas aumenta tanto que as ligações entre elas são rompidas.
O ruído prejudica muito mais do que a audição
Testes com freqüências sonoras entre 5 e 250 Hz sugerem que o corpo humano entra em ressonância com diferentes bandas de freqüências como pode ser visto abaixo.

A exposição ao ruído intenso pode provocar perda auditiva. Além disso, por causa da ressonância com órgãos internos, o ruído ainda pode produzir uma série de distúrbios, como pode ser visto a seguir.
| Sintomas | Freqüência (Hz) |
| Desconforto geral | 04-09 |
| Ação na cabeça | 13-20 |
| Sintomas mandibulares | 06-08 |
| Influência na fala | 13-20 |
| Sensação de “Algo na garganta” | 12-16 |
| Dores torácicas | 05-07 |
| Dores abdominais | 04-10 |
| Vontade de urinar | 10-18 |
| Diminuição do tônus muscular | 13-20 |
| Influência nos movimentos respiratórios | 04-08 |
| Contrações musculares | 04-09 |
Por fim, a exposição a ruídos pode causar sérios danos à saúde. Gerges (2000) ressalta, ainda, que essas alterações podem resultar em mudanças de comportamento, entre elas encontra-se o nervosismo, a fadiga mental, a frustração e os prejuízos no desempenho do trabalho, além do mau-ajustamento em situações diferentes e do aumento dos conflitos sociais. O quadro abaixo resume os efeitos secundários da exposição prolongada e intensa ao ruído.
| Afeta a qualidade do sono |
| Modifica a freqüência cardíaca, acompanhada de sudorese |
| Afeta o desempenho de tarefas psicomotoras |
| Causa reação muscular |
| Contração do abdômen e do estômago |
| Exposições muito prolongadas podem levar a alterações da função intestinal, lesões teciduais dos rins e do fígado |
| Aumento da Produção de hormônios da tireóide |
| Aumento da produção de adrenalina e corticotrofina |
| Queda da resistência a doenças infecciosas e disfunções no sistema reprodutor |
| Contração dos vasos sangüíneos |
| Dilatação da pupila |
| Irritabilidade, ansiedade e insônia |
1. A ressonância pode destruir pontes de concreto.
2. Um copo de cristal destruído pelo som…
Visita recomendada:
Ressonância: tintim por tintim
Bibliografia recomendada:
1. MENEZES, Pedro de Lemos (Org.), CALDAS NETO, Silvio (Org.), MOTTA, Mauricy (Org.). Biofísica da Audição. São Paulo: Lovise, 2005. 192 p.
2. Ressonância: para além dos cursos de Física
3. GERGES, S.N.Y. Ruído: Fundamentos e controle. 2. ed. Florianópolis: NR Editora. 2000. 676p.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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Não foi Graham Bell quem inventou o telefone!
– Pronto senhora. Basta assinar aqui.
Com aquela assinatura, dona Ofélia celebrava a instalação, na sua casa, do primeiro aparelho telefônico do bairro onde morava. A novidade estava na boca da vizinhança. A todo instante chegava alguém para ver o aparelho. A cumade Iracilda, uma especialista na arte de repassar informações para o próximo, frequentou a semana inteirinha a casa da dona Ofélia, só para ver se o “bicho” funcionava mesmo.
– É grande, né Ofélia? Pesado! Pena que a cor não combina muito com a sua sala… O dia todo esperando e só uma ligação! De que adianta ter um, se ninguém liga para você?
– Tive uma idéia cumade Irá. Por que você não pede ao seu marido para instalar um na sua casa também. Como você mora no final da rua, podíamos resolver muita coisa por telefone mesmo – rebateu dona Ofélia, disfarçando um elevado grau de aborrecimento, que a essas alturas já estava matutando um jeito de dar o troco na amiga.
Algum tempo depois, instalaram a segunda linha telefônica do bairro, justamente na casa da dona Iracilda, que fez até festa para comemorar o evento. Seu marido, um velho político conhecido da região, que nunca ganhou uma eleição sequer, vale ressaltar, contratou buffet e fez convites pomposos para distribuir até com os moradores locais mais distantes. Dava gosto de ver aquela gente humilde se fartando de comer e beber. Só faltou uma coisa: o telefone não tocava. O tempo foi passando e nada. Os convidados já estavam até comentando. Dona Ofélia, então, saiu discretamente para casa e ligou para a amiga:
– Alô! É da casa da dona Iracilda? Aqui quem fala é uma funcionária da companhia telefonia. Parabéns pela aquisição da linha! A senhora pode realizar alguns testes de desempenho comigo?
– Alô, é a dona Iracilda sim, minha filha. Claro que podemos testar. O que devo fazer? – respondeu, enquanto pedia para os convidados fazerem silêncio.
– O telefone está na sua mão direita ou esquerda?
– Direita, minha filha.
– Então a senhora segura bem no aparelho e dá duas voltas para a esquerda… Tá me ouvindo bem?
– Tô sim. Pode continuar.
– Muito bem. Agora segure o aparelho com sua mão esquerda e pule apenas com a perna direita. Mas cuidado com o fio, dona Iracilda.
– Pron-to. Tô pu-lan-do.
– Continue pulando dona Iracilda. Pegue no fio do aparelho e vá seguindo ele. Tá vendo uma tomada?
– Tô sim mi-nha fi-lha.
– Pronto. Então, pegue a tomada, e agora enfie na sua buzanfa gorda!
– OFÉLIA!!!! ISSO SÓ PODE SER COISA SUA!!! TÔ INDO NA SUA CASA AGORA, SUA DANADA!!!!
Quem inventou o telefone?
O congresso dos Estados Unidos, desde 11 de junho de 2002, declarou, em sua resolução 269, que o telefone foi inventado por um ítalo-americano chamado Antonio Santi Giuseppe Meucci. Assim, esqueçam Alexander Graham Bell. O documento refere, ainda, que a patente do telefone depositada por Bell “foi baseada em fraude e declarações falsas”.
Resumo biográfico de Meucci
Antonio Santi Giuseppe Meucci (13/04/1808-18/10/1896) nasceu em Florença (Itália). Estudou engenharia química e industrial. Foi compatriota de Giuseppe Garibaldi e ficou preso por um ano, acusado de participar do movimento de libertação italiano. Em 1835, casado com Ester Mochi, emigrou para Havana, Cuba. Posteriormente foi para os EUA, em Clifton, perto de Nova Iorque, onde viveu com sua esposa o resto de seus dias.
Os bastidores da invenção do telefone
Meucci inventou o telefone em 1849 e registrou seu primeiro pedido de patente provisória em 1871, dando início a uma série de eventos misteriosos, porém, amplamente documentados.
Em Havana, realizando testes experimentais com terapia a base de eletro-choque em um amigo, que estava em um quarto próximo, Meucci ouviu a voz dele através de uma peça de fio de cobre que os conectava. Passou os 20 anos subseqüentes aperfeiçoando a descoberta. Em 1955, quando sua esposa se tornou paralítica, o inventor montou um sistema telefônico que conectava os quartos da casa com a sua oficina de trabalho. Surgiu, assim, a primeira instalação telefônica do mundo. Em 1871 registrou a patente provisória, que foi renovada em 1872, mas não em 1873. Meucci montou seu sistema para ser apresentado ao vice-presidente da Western Union Telegraph Company, porém a reunião nunca aconteceu. Dois anos depois, em 1874, a empresa informou que os equipamentos haviam sido perdidos.
Alexander Graham Bell, em 1876, depositou o pedido de patente do telefone, porém sem descrevê-lo, de fato. Misteriosamente, todos os originais do pedido de patente provisória do “telegrafo falante”, de Meucci, foram perdidos pelo escritório de patentes dos EUA. Uma investigação posterior evidenciou relacionamentos ilegais entre empregados do referido escritório e os das empresas Bell. Mais tarde, foi descoberto que a Bell Company (hoje incorporada pela AT&T) pagou, estranhamente, 20% dos lucros obtidos na comercialização da “invenção”, por 17 anos a Western Union.
O caso foi ao Tribunal em 1886. Apesar dos indícios de fraude das empresas de Bell e da declaração pública da Secretária de Estado afirmando existir prova suficiente para dar a propriedade a Meucci, o caso foi postergado, ano após ano, até a morte do invertor, quando o mesmo foi arquivado.
Veja o filme:
Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4
Bibliografia recomendada:
Artigo: Alexander Graham Bell não inventou o telefone
Resolução 269 do Congresso dos EUA
Visite o site:
Biografia de Antonio Meucci (Wikipédia)
Bibliografia complementar:
Biografia de Antonio Meucci II
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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Moozak: a esterilização da música ou o perfume acústico?
Quatro mexicanos num fusca, armados até os dentes, de bigode e sombreiro, tocam em direção a Pau Amarelo, extremo norte de Olinda. No carro, balbuciávamos um “mexicano nojento” ao som de “Clandestino”, de Manu Chao, que dava um clima todo especial a empreitada. Estávamos indo para uma festa a fantasia, quando alguém lembrou: – Amigos, tenemos que levar un uísque. Parei o carro num botequim, no bairro de Peixinhos, para comprar a bebida. Esvaziamos os nossos bolsos e juntamos R$ 12 reais. Chegando ao estabelecimento, um “pega bebo” mal cheiroso onde uma vitrola velha tocava “Garçom”, instrumental, de Reginaldo Rossi, os uísques estavam elencados na prateleira, por ordem de valor. Iniciava por um Teacher, o mais caro, e terminava com um Old Eight. Porém, o nosso dinheiro não dava nem para o Old Eight. Olhando com mais cuidado, percebemos que além dele ainda havia mais uma garrafa escondida: um Black Jack, envelhecido doze anos ali mesmo no bar, de R$ 11,99. Pronto. De volta à estrada.
O lugar era longe, muito longe mesmo, mas valeu a pena o sacrifício. Uma festa inesquecível, com muita gente interessante, comida em fartura e regada à Johnnie Walker Black. Enquanto éramos recebidos pelo anfitrião e o seu pai, podíamos ouvir um repertório de extremo bom gosto que vinha de dentro da casa. Os dois nos encontram no portão com um copo de uísque, cada um:
– Buenas noches, cabrones!
– É um prazer recebê-los aqui, amigos!
– Trazemos un Black Jack 12 años para ustedes.
– Putz!!! Black Jack!!! Nem Acredito!!! Onde vocês conseguiram esta raridade? – Falaram empolgados pai e filho, enquanto jogavam fora o uísque 12 anos de verdade que estavam bebendo, para encher os copos, sem gelo, com o presente que tinham acabado de receber. A festa, só acabou de manhã. Muito boa e sem ressaca, ao menos para nós, que só bebemos o que já estava sendo servido na casa.
O que significa a expressão Moozak?
O termo, descrito por Schafer no seu livro “afinação do mundo”, significa a redução da música a ruído de fundo, som ambiental. É a música para não ser ouvida. Um apêndice obrigatório em todos os edifícios modernos, consultórios, prédios públicos, etc. Designa a baboseira musical, geralmente composta por músicas que não são favoritas de ninguém, submetidas a uma orquestração inócua, estéril.
O que determina essa classificação não é o fato da música ser instrumental, a exemplo de “garçom”, citada no texto introdutório, mas a escassez de solistas vocais ou instrumentais para entreter os ouvintes. Os mesmos programas podem ser tocados tanto para pessoas como para tranqüilizar o gado, ou para fazê-lo produzir mais leite. É o abuso da música mobília, peça de decoração, uma concessão deliberada à audição de baixa fidelidade.
Perfume francês
O termo Moozak é uma alusão a Muzak, a indústria que produz o “paraíso musical”, com o objetivo de vender produtos. Criaturas utópicas que estão sempre sorrindo e configuram a parede sonora do paraíso. Seus criadores vendem a idéia de um “perfume acústico”, que contam histórias ou mascaram ruídos, mas, por trás de tudo isso, escondem as características das paisagens sonoras por baixo de ficções.
Assim, o conceito de perfume, talvez, só poderá ser utilizado no sentido dado por alguns franceses, para esconder uma baixa freqüência de banhos, expressa em um odor mascarado, o que explicaria, em parte, o objetivo da massificação das vendas e da exibição de algo que, de fato, é ilusório.
Veja um trecho da Moozak urbana
Curta metragem “Música Ambiente”
Bibliografia recomendada:
Bibliografia complementar:
Schafer, R Murray. A afinação do mundo. Editora Unesp:1997.
Foto 1: Créditos
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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Esquizofonia
Hoje era dia de visita. Seu Camelo já estava com tudo pronto. Tia Toinha não tinha tempo nem para sentar. Rasgava no ar um barulho ensurdecedor de uma serra elétrica. Mas podia ser uma frenética furadeira que não parava um minuto sequer. Não era possível que existissem tantos buracos para furar – pensava a visitante. Outras vezes, eram marteladas num banheiro que vivia em reforma, e ficava ao lado do terraço. Também, pudera, seu Camelo só trabalhava nele quando tia Toinha estava de passagem por lá. Veja bem, tudo isso não era implicância. O problema é que ela só tinha dois assuntos: ou fofocava sobre a vida dos outros, ou contava vantagens da parte rica da família, a qual pertencia. Era um ato desesperado. Primeiro que mascarava a conversa. Por outro lado, apressava a saída da visita. O barulho era tanto que desconfio ser ele um dos fatores que causou a diminuição auditiva do seu Camelo, nos anos que se passaram.
– Boa tarde cumade Déda – acenou tia Toinha para a esposa do seu Camelo, ao passo que sentava para uma prosa.
– Knock! Knock! toc! toc!
– Click! Clic!
– Rat-rat-rat! rá-tá-tá! ratataaá-tá
– Ai meu Deus! O que é isso cumade? Uma metralhadora? – gritou Toinha, enquanto entrava debaixo da mesa.
– Se avexe não tia. Foi o seu sobrinho que comprou uma máquina de fixar pregos.
A origem do termo e seu conceito
O termo esquizofonia, cunhado por Murray Schafer no seu livro “ouvido pensante”, deriva do grego schizo, separado, e phono, som. Assim, a palavra significa um rompimento entre o som e sua transmissão ou reprodução eletroacústica. O autor pretendia remeter a idéia de uma palavra nervosa, relacionado-a com a esquizofrenia, no sentido de aberração e drama. Por fim, destaca-se a destruição do ambiente sonoro de alta fidelidade, por uma paisagem sonora artificial, de baixa fidelidade, onde os sons naturais perdem espaço para os sons produzidos por máquinas.
Sua voz gravada, para você, é diferente. Por quê?
As gravações, por mais fidedignas que pareçam, sempre incorporam distorções harmônicas e ruídos. Além do mais, contribuem para um ambiente sonoro de baixa fidelidade. Sem falar na invasão do “desgosto musical”, dos outros, que muitas vezes somos obrigados a suportar (este tema será abordado em breve neste blog).
A nossa voz gravada, que nos soa diferente, no entanto, mais do que distorções inseridas pelo dispositivo eletrônico, é o resultado da audição da mesma exclusivamente pelo ar. Isso porque, quando ouvimos nossa voz enquanto falamos, estamos, na verdade, ouvindo uma combinação da mesma propagando-se pelo ar, e entrado nos nossos ouvidos, e da mesma vibrando nossas estruturas de tecidos, pele, ossos etc, e chegando, também, aos nossos ouvidos. O que apenas nós mesmos escutamos, é uma soma dos componentes sonoros que seguem dois caminhos diferentes. Mas não desanime! Aquele som “feio”, na realidade, é, basicamente, o que todas as outras pessoas ouvem.
Veja um trecho de um vídeo esquizofônico
Bibliografia recomendada:
Schafer, Murray. O ouvido pensante. Editora Unesp: 1992.
Visite os sites:
http://www.sfu.ca/sonic-studio/handbook/Schizophonia.html
http://www.pucsp.br/pos/cos/clm/forum/heloisa.htm
Bibliografia complementar:
Schafer, Murray. A afinação do mundo. Editora Unesp:1997.
Confira uma lista de Onomatopéias
Autor: Pedro de Lemos Menezes
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Escutar, escutar, escuta muito pouco
Depois do almoço, antes de recomeçar a aula de Física para uma turma de especialização em Audiologia, estava com um pequeno grupo e uma aluna, grávida, perguntou:
— Professor, pelo que tenho estudado, o meu bebê começou a escutar com aproximadamente 24 semanas. Uma vez, eu estava na cozinha distraída, caiu um prato no chão e quebrou. Resultado: ele deu o maior chute. Tô achando até que o danado vai ser jogador de futebol. “Que seja, meu filho! Bem rico e famoso para cuidar da mamãe quando ela ficar velhinha” — falou a moça, com uma mão nos “quartos” e a outra com um dedo apontando para a barriga. Já o pai, vive me bajulando, conversando e contando estorinhas para ele, enquanto faz carinho em mim. É uma maravilha! Nunca me senti tão amada e tão protegida. Só assim aquele safado do meu marido pára em casa. Ô homem para dar trabalho. Outro dia eu liguei, a procura dele, para dois de seus melhores amigos, que moram em casas diferentes. Um deles disse que ele tinha bebido um pouco e estava dando um cochilo antes de voltar para casa. O engraçado é que o outro amigo deu a mesma reposta. Até então, para mim, só “nosso senhor” era onipresente.
Mas voltando ao assunto. Agora que está tudo muito bom e que, pela primeira vez, tenho a vida que pedi a Deus, chega o senhor e me diz que o meu bebê ouve muito pouco os barulhos externos. Por favor, não fale isso para mais ninguém. Esta informação pode ser um desastre para as mães, se os maridos souberem.
— De fato, os sons externos são fortemente atenuados. Este caso, porém, envolve muito mais do que as propriedades sonoras referentes à mudança do meio material de propagação, que inicialmente era o ar e, posteriormente, passa a ser a barriga — Respondi.
Por que os pais devem conversar com os bebês mesmo na barriga da mãe?
O carinho e a proteção, descritos anteriormente pela mãe, por si só já justificam o estímulo, precoce, à comunicação entre os pais e os bebês, independente da possibilidade, ou não, destes últimos escutarem. Um ambiente familiar amoroso, mesmo antes do nascimento, favorece, inclusive, o desenvolvimento da linguagem da criança em momento apropriado. Os sentimentos da mãe, expressos no aumento ou diminuição dos seus batimentos cardíacos, na produção de hormônios específicos para cada situação etc, além da sua própria expressão corporal e acústica, irão refletir, em última análise, no bebê e no seu desenvolvimento.
Desenvolvimento e audição
Segundo Northen e Downs (1989) os fetos normais demonstram reações a estímulos sonoros a partir, aproximadamente, da vigésima semana de idade gestacional, constatadas pelas mudanças nas frequências de seus batimentos cardíacos e de suas movimentações corporais. Alguns estudos indicam, ainda, que os fetos, além de ouvir, possuem memórias dos sons intra-uterinos.
Após o nascimento, os pais devem tomar alguns cuidados em relação à saúde auditiva do bebê. Entre eles, realizar o teste da orelhinha, para detectar alterações auditivas precoces, observar suas reações a estímulos sonoros e, por fim, manter a criança em uma posição adequada para a amamentação. Para evitar infecções no ouvido do bebê por refluxo de leite, devido ao canal de comunicação entre a boca e a orelha ser mais horizontal em crianças com esta idade, este bebê não deve amamentar deitado. Além disso, o próprio leite materno estimula o sistema imunológico da criança, o que diminui as chances deste tipo de infecção ocorrer.
Acústica intra-uterina
A refração ocorre quando a onda sonora muda de um meio material para outro, com densidade diferente. Por exemplo, do ar (menos denso) para a água (mais denso). Neste caso, a energia sonora enfraquece muito (é atenuada), cerca de 99,9%. Algo parecido ocorre na transmissão dessas ondas do ar para a placenta e líquido amniótico. Segundo as pesquisas do Comitê de Audição, Bioacústica e Biomecânica, a diminuição varia com a frequência, como pode ser visto a seguir:
| Frequência | Atenuação | Diminuição |
| 200 Hz | 20-25 dB | Entre 13 e 13,9 vezes |
| 500 Hz | 25-30 dB | Entre 13,9 e 14,7 vezes |
| 1000 Hz | 40 dB | 16 vezes |
| 2000 Hz | 50 dB | 16,9 vezes |
| Acima de 4000 Hz | 70 dB | 18,7 vezes |
A atenuação para sons externos, como a voz do pai, conforme observado, é muito forte, sobretudo, para frequências agudas. Já os sons internos, como batimento cardíaco e a voz da mãe, são transmitidos de maneira muito mais eficiente. Segundo o mesmo Comitê, estes ruídos internos podem chegar a incríveis 95 dB. Estudos com microfones inseridos no ouvido de fetos de animais, entretanto, sugerem que esta atenuação é um pouco menor.
Um feto pode ter perda auditiva devido à exposição constante da mãe a ruídos?
Esta é um pergunta polêmica. Para a Academia Americana de Pediatria, existem poucos estudos com seres humanos que nos permitam fazer esta afirmação. Contudo, alguns trabalhos mostram que o ruído muito intenso poderia determinar perdas auditivas nos fetos, prematuridade e baixo peso ao nascer. Estudos com animais, entretanto, afirmam categoricamente que este tipo de perda é possível e recomendam que se evitem exposições constantes a ruídos intensos na gravidez.
A canção de ninar
Após o nascimento, o mundo externo representa um influxo de estímulos perturbadores para o bebê. A tentativa de manter o mínimo desses estímulos – sejam eles internos (fome, sede) ou externos (mudanças de temperatura, estímulos mecânicos), culmina no silêncio como, aparentemente, o ambiente ideal. Entretanto, a canção de ninar – com sua linha melódica, harmoniosa e doce – traz para a criança a segurança que ela gozava no calor no ventre da mãe, aliada ao relaxamento das defesas e do amplexo materno. Induzido uma calma e serenidade que não se encontra em qualquer outro ambiente. Isto leva a um progressivo embotamento da vigília que é seguido por um sono profundo e reparador. O regaço materno e a canção de ninar são, talvez, uma amostra do céu como o concebemos. (Menezes, Caldas Neto e Mota, 2005).
O bebê não escuta! O que deve ser feito?
Uma vez detectados sinais de dificuldade auditiva da criança pelos pais, um medico otorrinolaringologista deverá ser consultado. Caso a deficiência seja confirmada, a estimulação precoce, realizada por um fonoaudiólogo, é essencial para o desenvolvimento da linguagem desta criança.
Bibliografia recomendada:
Monografia de especialização em audiologia
Visite o site:
Academia Americana de Pediatria
Bibliografia complementar:
Northen, JL; Downs, MP. Audição em Crianças. São Paulo, Ed Manole, 1989.
Menezes, P; Caldas Neto, S; Motta, M. Biofísica da audição. São Paulo: Editora lovise, 2005.
Autor: Pedro de Lemos Menezes
Email: pedrodelemosmenezes@gmail.com
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