Estamos vivenciando uma catástrofe que escancara em rede nacional a agudização de nossa fragilidade crônica. Passado o susto em forma de tsuname, frente a exposição das feridas dos muitos sobreviventes, resta a reconstrução de nossas vidas e de nossos lares. É importante lembrar que estamos diante do próximo desafio que é sobreviver a segunda onda que poderá ceifar mais vidas como efeitos secundários tão ou mais devastadores da primeira grande onda que percorreu o leito dos rios.
As condições inóspitas que as populações vitimadas se encontram, como as péssimas condições de higiene e habitação, expõem aos frágeis corpos situações que favorecem varias afecções em especial as doenças de veiculação hídrica e infecto-contagiosa como a Febre Tifóide, Hepatite A e Leptospirose, entre outras. Aliado ao risco de condições bastante favoráveis à proliferação do cólera, caso tivéssemos a presença do agente etiológico (vibrião colérico). A aglomeração dos sobreviventes nas casas ainda que parcialmente destruídas favorece também a proliferação de doenças respiratórias como infecções virais, pneumonias e tuberculose, a semelhança de épocas remotas como da idade média, onde populações inteiras eram vitimadas pelas sucessivas pestes. É importante lembrar dos riscos ainda das doenças emergentes como a dengue e da endêmica Esquitossomose.
A ainda dificuldade de acesso às ações e serviços de saúde é um grande complicador já muito anterior à atual catástrofe em nosso pobre Estado rico. Com perfil de histórica iniqüidade e lógica do cuidado inverso, (pois quem mais precisa é quem menos possui cobertura às políticas públicas). Nosso Estado que apresenta uma população com 92% dependente única e exclusivamente dos serviços públicos de saúde, revelam na histórica desassistência e em especial das populações mais carentes nossos índices de mortalidade infantil, índice de desenvolvimento humano ou tantos mais indicadores existentes, revelando em alto e bom tom o quanto ainda temos o que avançar.
Faço um recorte especial para nossas crianças, estas que revelam em seu sofrimento e desamparo a face mais trágica e devastadora desta iniqüidade. Convivi de perto com esta realidade ao prestar atendimento médico a estas crianças em Santana do Mundaú, que é uma das cidades mais castigadas. Observamos as doenças respiratórias como pneumonia e infecções de vias aéreas superiores. Doenças entéricas como as parasitárias, diarréia com desidratação, além de várias infecções de pele e outros problemas como maior risco de acidentes nos abrigos improvisados e nas ruas. Órfãos até do passado de registros de saúde, muitos perderam todos os pertences. Crianças carentes das ações de promoção, dependentes até de adequada cobertura vacinal e de acompanhando da garantia do pleno desenvolvimento sadio e harmonioso, conforme estabelece no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Crianças muitas delas tristes e doentes e mais expostas e dependentes do cuidar dos adultos. Pequenos demais para tamanho sofrimento que passam e mais do que nunca susceptíveis a serem tragados pela segunda grande onda que se aproxima. Esta população de crianças descalças, mal nutridas e subjugadas à toda sorte de negligência que vai do risco de contaminação dos alimentos como de todo ambiente de estresse e da violência da desassistência.
A esperança pela solidária compaixão é ainda o ânimo de quem encontra forças para superar as próprias fraquezas. A resiliência, palavra emprestada da física que identifica a capacidade que alguns materiais possuem de retornar ao estado original após ser submetido ao estresse, talvez ajude a explicar a capacidade que muitos terão ao reconstruir sua história de superação e emergir das ondas que virão.
Cláudio Soriano
Pediatra