Texto de Maria Salésia publicado no Jornal Extra
Antônio Saturnino de Mendonça Neto, conhecido como “A voz que não se cala†lutou por 10 meses contra um câncer renal, mas na madrugada da quarta-feira (10) morreu aos 65 anos em seu apartamento em Maceió. Jornalista, escritor, advogado e ex-deputado, atualmente Mendonça escrevia no Jornal Extra de Alagoas. Dono de um discurso sagaz e de um texto incomparável, dedicou boa parte de sua vida à luta contra a corrupção e em defesa da moralidade pública. Por seu persistente combate aos ladrões do colarinho branco passou a ser conhecido como “A voz que não se calaâ€. Sua coluna no Extra era a mais lida no Estado. Atualmente, no campo polÃtico, lutava pela punição dos deputados Taturanas que roubaram mais de R$ 300 milhões da Assembleia Legislativa.
A morte silenciou Mendonça, mas não calou sua voz. Como esquecer da carta aberta ao senador Renan Calheiros- “Vida de gado. Povo marcado. Povo felizâ€- que ganhou o mundo e até virou corrente na internet. E de Uma elite burra?- Não, os burros somos nós, 180 milhões de brasileiros; Alagoas: terra de taturanas, gabirus e um punhado de homens de bem; Vamos banir esta escória que tomou conta de Alagoas. Mas ele também falou do amor, da vida, da famÃlia. E textos memoráveis ficarão em nossas memórias como: As doces mulheres da minha vida; Para não dizer que não falei de flores onde escreveu “é isto que desejo a todos que me lêem: paz e compreensão, e sobretudo amor, valores que nunca devem ser subestimados. Que Deus lhe dê força, para descobrir os milagres da vida; As doces mulheres da minha vida e um Deus que dormiu ao meu lado.
Mendonça foi um revolucionário de seu tempo. Suas palavras ecoaram nos quatro cantos do mundo. Destemido, não tinha medo de dizer o que sentia e defender os interesses da coletividade. E como tão bem retratou um admirador e leitor de sua coluna no Extra, ele era um exagerado inflexÃvel em tudo o que disse e quase sempre no que fez. “Exagerado na inteligência, na cultura, na oratória, no perfeccionismo, na amizade e na inimizade, enfim, um exagerado por excelência.†E assim era Mendonça: um guerreiro imbatÃvel e até ao anteciparem sua morte, teimou em viver um pouco mais.
Mineiro de nascimento e alagoano de coração, Mendonça Neto viveu a infância em Maceió onde aprendeu a amar essa terra e sua gente. Naquela época muda-se com a famÃlia para o Rio de Janeiro. Lá se formou em direito pela Faculdade Brasileira de Ciência JurÃdica e trabalhou como jornalista no Diário de NotÃcia. Mendonça trabalhou, ainda, nas revistas O Cruzeiro e Manchete e foi professor da PUC – PontifÃcia Universidade Católica, no curso de comunicação.
Polêmico e combatÃvel, no inÃcio dos anos 70 Mendonça volta para Alagoas e funda o semanário “O Estado de Alagoasâ€. Em 1974 se elege pelo MDB o deputado estadual mais votado com 15.171 votos. Desafiou o crime organizado e denunciou os marajás da Assembleia Legislativa. Em 1978, com 32 anos, foi eleito deputado federal, sendo escolhido o maior orador da Câmara dos Deputados entre seus 513 parlamentares. Em 1982 e eleito mais uma vez deputado, obtendo 25.000 votos. Este ano, apesar de debilitado, tentou uma vaga na Assembleia Legislativa pelo PSOL, mas não foi eleito.
Casado com a bióloga Karyna Wanderley de Mendonça, teve com ela João Guilherme Wanderley de Mendonça, 6 anos. Do seu primeiro casamento, com a medica Ângela Canuto teve 2 filhos: Carlos Eduardo Canuto Mendonça que é Juiz de Direito e Clarissa Canuto Mendonça, estudante de Direito.
E com a morte de Mendonça Alagoas fica órfã de um filho do coração que tão bem retratou esta terra e lutou contra a corrupção, a imoralidade e os desmandos do que ele chamava de bandidos do colarinho branco. Os leitores e a redação do Extra, em especial, ficam órfãos da leitura obrigatória de todas as sextas-feiras logo cedo onde poderia se deliciar nas páginas do jornal com o texto eloquente, rebuscado e preciso de Antônio Saturnino de Mendonça Neto.
O jornal Extra não perde apenas um colaborador, mas um grande amigo e companheiro que certa vez em resposta a um internauta escreveu: “Não sou dono do EXTRA e nem se quer sou candidato a nada neste momento. O EXTRA concedeu-me liberdade de expressão que os outros nunca fizeram, censurando minha opinião. Esta liberdade é que permite a você ver publicado sua opinião crÃtica, o que jamais aconteceria nos outros jornais. Agradeça,sempre, haver um jornal que acolhe o que você escreve e o que escrevem centenas de alagoanos, que tem no EXTRA o seu canal mais democrático e legÃtimo de expressão polÃtica e desabafo moral. Pense em uma Alagoas sem um jornal independente como o EXTRA e veja como temos sorte -você, eu e tantos alagoanos, em existir um pequeno jornal que luta para manter-se livre e independente.â€

