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Parecenças

segunda-feira, julho 19th, 2010

 Carlos Chagas/Tribuna da Imprensa 

A quem José Serra pretendeu atingir ao declarar  que o Lula e Fernando Henrique “são mais parecidos do que parece”? Não que a comparação surja absurda ou despropositada. Pelo contrário, o ex-governador de São Paulo  tem toda razão. As diferenças entre eles  são apenas  periféricas, como a de que um é sociólogo, outro torneiro-mecânico. Este oriundo do movimento sindical, aquele com carreira universitária. O primeiro falando inglês, francês e espanhol, o segundo mal arranhando o português. 

Tudo isso desfaz-se como fumaça quando se atenta que ambos, na presidência da República, privilegiaram as elites e multiplicaram o assistencialismo para as massas. Aceitaram a cartilha neoliberal e convocaram equipes econômicas subordinadas ao “Consenso de Washington”.  Aumentaram a carga tributária do cidadão comum  e não  interromperam a farra da especulação financeira. Prometeram mas não realizaram a reforma política. Trataram comercialmente o Congresso e humilharam os respectivos partidos, minimizando suas lideranças.   Reelegeram-se às custas da máquina pública. 

Que José Serra tenha tentado atingir o Lula, comparando o atual governo ao de Fernando Henrique, ainda se explica, mas o raciocínio inverso espanta e choca. Pelo jeito,  o candidato procurou muito mais livrar-se da sombra do emplumado companheiro  tucano, prevenindo-se contra a hipótese de vencer as eleições e ter Fernando Henrique  nos calcanhares, do que propriamente enfraquecer o atual presidente. 

O fracasso dos palanques 

Muitas  razões podem ser apresentadas para justificar o fracasso  dos dois primeiros comícios da campanha de Dilma Rousseff. No caso da inauguração de seu comitê central, em Brasília, terça-feira, o local péssimamente escolhido, uma engarrafada rua do centro da capital,  e a súbita ausência do presidente Lula.  No Rio, a chuva que não deu tréguas, da Candelária  à Cinelândia, mais o fato de que a organização  a cargo  do governador Sérgio Cabral não propriamente empolgou os cariocas. 

No fundo de tudo, porém,  estão os novos tempos da mídia  eletrônica, claro que reunida ao desgaste cada vez maior da classe política.  Nas décadas de cinqüenta e sessenta, quando não havia televisão, ou quando ela engatinhava, o eleitor precisava comparecer à  praça pública, se queria ver e ouvir seus candidatos. É verdade que nos anos oitenta,  milhões se reuniam nas principais capitais, mas era para protestar e demonstrar indignação diante da ditadura militar já nos estertores. 

Mesmo assim, há que registrar: continuando as coisas como vão, encerra-se a milenar temporada dos comícios. A comodidade e  o desencanto do eleitor servem de coveiros daquelas monumentais manifestações populares. Acrescente-se, porém, a titulo de compensação: em 1945 os comícios do brigadeiro Eduardo Gomes empolgavam o país. Grandes oradores, dezenas de milhares de lenços brancos abanando ao final de cada noite, ao tempo em que os comícios  do  general Eurico Dutra eram os mais lamentáveis. Pouquíssima gente e uma oratória abominável por parte do candidato. Abertas as urnas, um banho.  De quem? De Dutra… 

Excessos 

Mais uma vez, excessos de parte a parte. Não tinha o presidente Lula o direito de ridicularizar a vice-procuradora eleitoral que o advertiu sobre propaganda eleitoral ilegítima e abuso de poder político,  à sombra das facilidades de governo. Ao referir-se  a ela como a “uma procuradora qualquer”, o primeiro-companheiro perdeu excelente oportunidade de ficar calado. Ofendeu uma categoria inteira. 

No reverso da  medalha, porém, a procuradora Sandra Cureau exagerou ao ameaçar governantes em geral, do presidente Lula  ao  governador Alberto  Goldman, de São Paulo, porque manifestam suas opções eleitorais.  Ora, são cidadãos na posse de seus direitos políticos, dispõem da prerrogativa constitucional da liberdade de expressão. Situá-los entre a castração  e a cassação, só porque  o  Lula declarou que vai votar em Dilma, e Goldman elogiou o governo do antecessor, será que também não representa  abuso de poder?

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O novo Celso Daniel

terça-feira, junho 8th, 2010

SEBASTIÃO NERY

Rio – Jair Calixto, gauchão forte, vermelho e desabusado, primo de Leonel Brizola, era prefeito de Nonoai, no Rio Grande do Sul, fronteira de Santa Catarina. Em 1961, fundou o primeiro Movimento dos Sem-Terra.

Quando os ministros militares, na renúncia de Jânio Quadros, tentaram impedir a posse do vice João Goulart, Calixto reuniu várias centenas de homens e marchou para Porto Alegre. Na primeira fazenda, a tropa, com fome, mandou chamar o dono:

– Preciso de carne para meus homens.

– Pois não, prefeito, dou umas três vacas.

– O senhor está pensando que eu estou pedindo carne para arroz de carreteiro? Estou querendo é carne de elite. Manda matar 10 bois.

CALIXTO

Na entrada de Passo Fundo, Calixto reuniu todo mundo:
– Vou dar uma chance de vocês roubarem um pouco. Quem quiser roubar, dê um passo à frente. Uma centena pulou para a frente.

– Já vi. Eu só queria saber quem eram os ladrões. Quem deu um passo à frente fica fora da tropa. Ladrão não luta pela pátria.

E seguiu para Porto Alegre com os não-ladrões.

MERCADANTE

O atual escândalo dos dossiês da campanha de Dilma, que mal começou, vergonhoso repeteco dos dossiês da campanha de Aluisio Mercadante em 2006, não é novidade nenhuma.
Cada vez mais audaciosos. Nenhuma surpresa. Só um passo à frente, como o que o valente e saudoso Calixto exigiu de seus comandados.

Há muito tempo advirto aqui: o PT não é um partido, é um vasto escritório de negócios. Nas campanhas eleitorais, enlouquecem. Eles acham que quem não consegue armar seus esquemas de faturamento durante a campanha não terá mais chance de estruturar depois da eleição.

Por isso as crises e escândalos surgem sempre antes das eleições, quando aparentemente deveria ser um período de calma e entendimento.

PIMENTEL

Não sou segurança ou conselheiro do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, que mal conheço de jornais e TVs, mas me sinto no dever de lhe dar um conselho: arranje um colete à prova de balas. Estou sentindo cheiro de Celso Daniel nessa guerrilha pela disputa do comando da campanha de Dilma. Santo André também é aqui.

Em 2002, Lula convocou o jovem, culto e respeitado professor Celso Daniel, prefeito de Santo André, para coordenador do programa de sua campanha. O chefão era José Dirceu, presidente do partido e superpoderoso porque era o homem que sabia onde estava o dinheiro.

Segundo o Ministério Público apurou depois, a prefeitura de Celso Daniel liberava, todo mês, um milhão de cruzeiros de uma caixinha de empresários de ônibus, que o assessor Sombra encaminhava diretamente para a direção nacional do PT em São Paulo, quer dizer, para José Dirceu.

DANIEL

Quando foi convocado para assumir a formulação do programa do futuro governo de Lula, Celso Daniel percebeu que era impossível manter aquela dúbia situação: formulador da ética e fornecedor da corrupção. Convocou a equipe mais próxima e mandou encerrar de vez a caixinha. Dias depois, o corpo de Celso Daniel aparecia assassinado numa estrada perto de São Paulo. Parentes e secretarias que sabiam da história contaram tudo aos procuradores. Mas Lula já era o presidente eleito e empossado e jogaram uma pedra monumental em cima do assunto. Dois irmãos dele, que sabiam de tudo, preferiram esconder-se no exterior. Semana passada, o Superior Tribunal de Justiça marcou o julgamento do Sombra. Os outros escaparam.

PALOCCI

Morto Celso Daniel, apareceu para substituí-lo, na coordenação da campanha de Lula, o misterioso prefeito de Ribeirão Preto Antonio Polocci, que se meteu em mil histórias lixentas na Prefeitura de Ribeirão Preto e violou a conta do caseiro Francenildo. O processo da conta só agora chegou ao fim e o único denunciado foi o presidente Matoso, da Caixa, que fez o que seu chefe mandou.

Partido monótono, o PT repete em 2010 o faroeste de 2002. Mais uma vez o mesmo Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto, aparece disputando o comando da coordenação da campanha de Dilma com o mineiro ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, que vamos rezar para não ter o destino de Celso Daniel.

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