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A Barbárie na Saúde Pública

sábado, abril 16th, 2011

*HELOÃSA HELENA

 

Qualquer pessoa de bom senso, independentemente de filiação partidária ou convicção ideológica, fica definitivamente estarrecida e indignada com a situação de completa irresponsabilidade, incompetência e insensibilidade na prestação dos Serviços Públicos de Saúde.

 

A angústia é intensa para quem conhece o Arcabouço Jurídico do Sistema Único de Saúde, o Perfil Epidemiológico, a Rede instalada, o conjunto de Normas Técnicas e Operacionais, os Convênios, os Programas de Saúde, os Manuais, os Parâmetros para Programação das Ações de Saúde – da Atenção Básica à Média e Alta Complexidade e etc, etc… e torna-se mais dolorosa para quem trabalha diretamente com o desespero de milhares de pobres implorando por Assistência e ainda tendo que ouvir a desprezível cantilena cínica e mentirosa dos Governantes para justificar a ausência de eficácia e resolutividade no Setor Saúde, seja nas cidades do interior ou na capital.

 

Nada mais doloroso há do que a certeza de que nenhuma proposta precisa ser criada, nenhum projeto novo inventado, nenhuma lei a ser aprovada… necessitamos apenas do cumprimento da Legislação em vigor;  do respeito à tão discursada Legalidade; do Financiamento conforme manda os Princípios Doutrinários do SUS e os Princípios Administrativos que deles derivam; da Execução de Reformas e Construções de Projetos já prontos; e portanto da preservação de Dignidade no atendimento ao ser humano, no momento mais fragilizado da sua existência, conforme é esperado em qualquer sociedade que se proclame civilizada.

 

Para melhor analisar a prestação desses Serviços – sem a hipocrisia fria de alguns políticos ladrões e “calminhos†– tentemos o delicado e precioso exercício imaginário da verdadeira Solidariedade… Imagine um corredor hospitalar com um amontoado de macas, cadeiras, gemidos, gritos, odores, feridas apodrecidas… e no meio dessa infinita indigência humana visualize a sua Mãe, idosa, doente, jogada num colchonete no chão, suja de fezes e urina, num calor insuportável, semi-nua sem um trapo de pano sequer para cobrir e preservar sua intimidade… O que você faria??

 

Vejamos mais… visualize a sua Esposa amada, mãe dos seus filhos pequenos, que detectando um tumor na mama, perambula mais de um ano tentando consultas e exames, e mesmo depois de identificar – em intensa tristeza e desespero – que tem uma neoplasia maligna e existe a necessidade de uma cirurgia mutiladora como a mastectomia,  ela não consegue nenhum leito público para ao menos arrancar um tumor cancerígeno a cada dia invadindo mais o seu corpo… O que você faria??

 

Imagine mais… a sua Filha – que você acalentou nos braços pequenina – grávida, gemendo de contrações, humilhada nas portas das maternidades, precisando ao menos de um lugar seguro para realização de um parto e não conseguindo o atendimento, começa a sangrar e perde seu pequeno bebezinho… O que você faria??

 

Ah! Se fosse com seus entes queridos e amados você dava escândalo, gritava, exigia dignidade, faria o impossível para garantir a realização dos procedimentos necessários… Porque o mesmo não pode ser feito pelos nossos irmãos, filhos (as) do mesmo Deus Pai que nas Igrejas louvamos e no cotidiano muitos negam pela omissão da oferta de Amor e Caridade tão discursada nas Religiões e tão distanciada por tantos que se intitulam “ungidos e fiéis 

 

É exatamente pela omissão e cumplicidade de muitos eleitores, que as necessárias mudanças estruturais – a curto, médio e longo prazo – demoram tanto a acontecer… porque para muitos agentes públicos, na política especialmente, o caos na Saúde Pública constitui o melhor dos mundos para eles… por um lado garante a preservação dos seus Reinados de Podres Poderes através das indignas condições dos pobres rastejando nos comitês eleitorais mendigando por consultas, remédios, exames… e por outro lado preservam os intocáveis amigos de certos políticos, verdadeiros Comerciantes de Saúde que a cada dia, pela ausência de Gestão Pública,  são impulsionados a construir Castelos de Riquezas na Mercantilização da Saúde em novas e ao mesmo tempo arcaicas modalidades de Privatização do Setor. Temos que dizer BASTA! BASTA!

 

Ao menos, lembremos o que lindamente dizia Casaldáliga “É preciso saber esperar… sabendo ao mesmo tempo forçar… as horas de extrema urgência… que não nos permite esperar…â€

 

 

HELOÃSA HELENA, é vereadora pelo PSOL em Maceió.

 

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Lourdes, o amor mineiro de Lula

quinta-feira, dezembro 2nd, 2010
Fonte: montesclaros.com
 
Por: PAULO NARCISO
 
“O senhor é o senhor Luiz?â€, perguntou o médico. “Souâ€, respondeu o rapaz. O senhor precisa ser forte para ouvir o que vou lhe dizer. “Seu filho nasceu mortoâ€, continuou o doutor. “É preciso ser mais forte ainda, porque sua mulher também morreuâ€. Assim Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a notícia da morte de Maria de Lourdes da Silva, sua primeira mulher. Era manhã de segunda-feira, 7 de junho de 1971. Lourdes, nascida na zona rural de Montes Claros, foi, como seu marido, retirante da mesma seca de 1952. Unidos pelo destino, se conheceram em um bairro pobre de São Paulo, onde eram vizinhos. Em reportagem especial dos repórteres Paulo Narciso e Leo Drumond, o HOJE EM DIA refez esta parte da biografia do presidente, percorrendo, ao lado de sua primeira sogra, dona Hermínia, e do cunhado e amigo de juventude, Jacinto Ribeiro, o Lambari, a vila onde nasceu Lourdes, no Norte de Minas. Páginas 7 a 11, Especial. 
 
 
 Unidos pela seca 
Lula, até hoje, está convencido de que as mortes de sua primeira mulher e do filho foram causadas por negligência. Em depoimentos a Denise Paraná, na biografia autorizada “Lula, o Filho do Brasilâ€, ele revela a revolta de sua convicção: 
“A Lourdes tinha ficado grávida e, no sétimo mês da gravidez, ela pegou hepatite. Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência da rede hospitalar do Brasil, por problemas de relaxamento médico. Porque ela estava com anemia profunda e uma hepatite crônica. Ela poderia ter sido melhor tratada. Morreu sem que houvesse nenhuma assistência para ela. Eu fui ao hospital e vi. Ela gritava, ela gritava, ela gritava. Não tinha um médico para atender, não tinha ninguém. Sinceramente, eu tenho muitas restrições a esses médicos que estavam no hospital. Hoje, eu tenho consciência de quanto um desgraçado de um pobre passa nos hospitaisâ€. 
Fugitivos da mesma seca de 1952 nos sertões de Pernambuco e de Montes Claros, a 3 mil quilômetros de distância entre si, Lula com 7 anos, Lourdes com 3, os dois se encontraram em São Paulo já mocinhos, vizinhos de uma casa de parede-meia no bairro operário da Ponte Preta. 
Abandonada pelo marido quando estava grávida de Lula, já nos dias de nascer, dona Lindu recebeu carta do segundo filho mais velho, Jaime, que a chamava para São Paulo, supostamente a pedido do marido. O penúltimo dos filhos e caçula dos homens, Lula, havia escapado de morrer aos 4 anos, quando uma jumenta o ergueu pela boca, numa mordida, e só o largou depois de receber uma punhalada no pescoço. 
Sem recursos para sustentar os filhos, dona Lindu vendeu as terras secas por 13 mil cruzeiros, vendeu o relógio, vendeu o jumento, vendeu os santos e as fotografias de família, e tomou o “pau-de-arara†com 7 filhos, um irmão, cunhada e sobrinho. Deixou apenas o cachorro, que aos cuidados de um tio, parou de comer e morreu de saudade dos meninos. Enquanto esperava o caminhão “pau-de-araraâ€, que atrasou, ela colocou os filhos num quartinho na bodega do Tozinho, e fechou a porta, para que o cachorro “Lobo†não visse os meninos e os meninos não vissem o cachorro.
Dona Lindu estava determinada: “Vamos embora, ou bem ou mal, para morrer de fome, nós morremos em São Pauloâ€. 
A viagem até o marido e o segundo filho, em Santos, durou exatos 13 dias e 13 noites, de l0 a 23 de dezembro de l952. Lula – que nunca havia saído de Vargem Comprida – viajou com uma única camisa, que chegou podre a São Paulo. O percurso foi feito todo na terra; havia poucos ônibus e os raros postos de gasolina não dispunham de banheiros. O motorista do “pau-de-arara†era quem punha ordem na hora das “necessidades†e disciplinava no meio do mato: “homens para um lado, mulheres para o outroâ€. 
Lula descreve o “pau-de-araraâ€: 
- É uma tábua atravessada na carroceria do caminhão. Não tem nem encosto atrás. Não é um banquinho de madeira. É uma tábua grudada na carroceria. Você senta e não tem encosto. A gente pode cair. Tinha umas 30, 40 pessoas dentro do caminhão. A gente dormia na calçada. Se esticava e começava a dormir ali. Ãs vezes, com um cobertorzinho. E, de repente, a gente acordava embaixo da chuva e tinha de correr para debaixo do caminhão. Não cabia todo mundo. Ficava todo mundo amontoado debaixo do caminhão. 
Ainda na saída de Pernambuco, numa noitinha, bateram na lataria da boléia, indicando que alguém estava com “precisãoâ€. O caminhão parou no meio do mato e Lula e o irmão “Frei Chicoâ€, 3 anos mais velho, que vinham sentados no banco de trás com as pernas de fora foram os primeiros a saltar. Mas, estava escuro, acharam o lugar perigoso, e o motorista arrancou com o caminhão. Lula e o irmão, deixados para trás, gritavam, correndo: “pára, pára, páraâ€, enquanto dona Lindu se desesperava na carroceria com os outros 5 filhos.
 
Na viagem 
Quando entraram em Minas, os retirantes desceram pelo leste, em direção a Teófilo Otoni e Governador Valadares, quando poderiam t ter seguido pela rota de Montes Claros, muito usada pelos retirantes nordestinos, especialmente pelos que vinham pelas “gaiolas†do Rio São Francisco até Pirapora. â€Frei Chicoâ€, que se declara ateu apesar do “frei†no apelido, diz que o caminhão viajava com a lona abaixada e que se lembra apenas da cidade de Vassouras, no Rio. Ele tinha 10 anos.Se tivessem passado por Montes Claros, poderiam ter cruzado com uma camioneta que, no mesmo mês do mesmo ano, levava os retirantes Lourdes e sua família para a gare da Central do Brasil, onde tomaram o “trem baiano†para São Paulo. 
 
O pai de Lula era estivador no Porto de Santos e se surpreendeu com a chegada da primeira família, naquela véspera de Natal. Com a prima de dona Lindu, ele já tinha filhos de 6 e 7 anos e a primeira coisa que perguntou, ao ver a família que não esperava, foi pelo cachorro “Loboâ€, que havia ficado no sertão. “Cadê o cachorro?â€. Lula lamenta: “Na verdade, meu pai estava pouco interessado que minha mãe viesse para cá, porque ele queria viver a vidinha dele com a mulher que ele tinha aqui, que era uma prima de minha mãe. Meu pai tinha saído de Pernambuco com essa prima, ela tinha desaparecido, mas ninguém tinha feito a relação entre o desaparecimento dela e a vinda do meu paiâ€.  
E meu irmão, na carta, não conta essa história para minha mãe, só diz que meu pai queria que ela viesse para cá. 
O estivador Aristides, carregador de sacos de café, bem ou mal, acolhe a primeira família, transfere a segunda mulher para outra casa e os aloja na casa principal. Ficava dois dias numa casa, dois dias na outra. Acabou pai de 18 filhos, oito com dona Lindu, fora os 4 que morreram, e 10 com a prima dona “Mocinhaâ€. Os filhos, todos os filhos, não têm boas lembranças dele, e Lula chega a dizer nas suas memórias que o pai “cuidava mais dos cachorros que dos filhosâ€. 
 
Tempos depois, quando ganhou uma “mangueirada†na cabeça, dona Lindu resolve, agora por iniciativa dela, deixar o marido, cansada dos maus tratos contra ela e os filhos. “E aí, para nós foi ótimo. Nós ficamos em liberdade? A gente passou a viver melhor. Era uma pobreza com liberdade. Então, a separação dos meus pais, no fundo, no fundo, foi uma grande liberdade†– comemorou Lula, que quase só podia trabalhar, pois era proibido de estudar pelo pai “analfabeto†que adorava comprar jornais quando andava de barco, “lendo†jornal muitas vezes de cabeça para baixo.
Os três irmãos mais velhos já trabalhavam e Lula e “Frei Chico†vendiam laranja, tapioca e amendoim, pelas ruas de Santos, além de carregarem feixes de lenha. Aos 10 anos, Lula vai com a mãe e os irmãos para São Paulo. Eles mudaram para um barraco, que “era tão barraco, que um dia despencouâ€. Algumas das irmãs já trabalhavam como empregadas domésticas e toda a mudança se resumia “numa tina e uma lata de leite Mococa, para guardar o pão e uma facaâ€. O que se tornaria presidente da República se lembra de que todos gozavam do seu pescoço curto:
“eu era assim de tanto carregar lenhaâ€. Engraxate, tintureiro, telefonista, Lula ia mudando de emprego conforme mudava de endereços, mas servido de uma calça só, que a mãe lavava aos domingos. O sonho era ser motorista de caminhão, mas este dia não chegava. “Foi um período muito ruim. Muita miséria. Mas eu era um moleque feliz. Porque a gente era pobre, mas a gente tinha um mundo à nossa disposiçãoâ€.Na Vila Carioca, em mais de um endereço diferente, ele consegue entrar para o Senai, “no melhor período da minha infânciaâ€, toma o primeiro “fogo†da vida, um porre de vinho e cerveja, e começa a trabalhar na Fábrica de Parafusos Marte e, depois, na Fábrica Independência. Aqui, como torneiro-mecânico trabalhando à noite, o braço da prensa “fechou†e esmagou o dedo menor da sua mão esquerda. Com a indenização de 350 mil cruzeiros, Lula comprou móveis para a mãe e um terreninho. Mais: o dedo esmagado, envolto em curativos, despertaria a dó de Maria de Lourdes, que logo se tornaria vizinha. Era o encontro da moça de Montes Claros com o rapazinho de Vargem Comprida, em São Paulo, uma cidade já com milhões de habitantes. 
 
 
 
Lambari 
 
Era l965. Lula foi com a família morar na Ponte Preta, na Vila São José, divisa de São Caetano e São Paulo. Ele estava com um dedo a menos na mão esquerda, estava desempregado e “tinha muita miséria em casaâ€. Mas, uma miséria significativamente menor. A família já possuía um fogão de duas bocas e muitos catres velhos. â€Eu e o meu irmão colocamos o fogão bem no alto e nós íamos com muito orgulho em cima do caminhão. Afinal de contas, a gente já tinha um fogãoâ€. 


O seu plano de vida estava definido: “tudo o que eu queria era o que todo mundo quer – ter uma vida tranqüila, ganhar meu salário. Queria casar e constituir minha família sem nenhuma ilusãoâ€. Com 20 anos, nada sugeria o futuro líder de massas, bom orador, desinibido, convincente. Ao contrário, era tímido, trancado mesmo, pouco saliente, pouco “saído†– resumia sua mãe. Queria só ter casa, mulher e filhos Para isso, o destino havia feito sua parte. 
Ao lado da casa, do outro lado da parede, morava Maria de Lourdes, com pai, mãe e três irmãos. Os retirantes de Montes Claros haviam dado a volta pelo mundo, no interior de São Paulo, e também acabavam de chegar, ali. Todos se tornaram amigos. Lambari, o melhor de todos – o amigo da juventude.Mas, havia enchentes. A água do ribeirão teimoso vinha pela janela, misturada com água dos vasos sanitários, e acordava Lula quanto atingia o colchão. Resolveram mudar de novo e foram para o Jardim Patente. A família de Lourdes, com o mesmo problema, também se mudou.Lá, os amigos, “amigos mesmosâ€, conhecidos de muitos anos, companheiros de festas, de bailes, de enchentes, de desemprego, de infortúnio, resolveram se namorar. Numa festa, Lula tomou três conhaques, criou coragem e fez a proposta. Lambari ajudou no consentimento, mas não ficou atrás. Passou a namorar a irmã de Lula mais nova, Tiana, ou Ruth, conforme lhe chamavam pelo nome de batismo ou pelo nome do registro civil.Esta irmã tem a memória do clima: “Nossa adolescência foi uma fase gostosa. Ficamos conhecendo dona Hermínia, que virou sogra dele. Nós fizemos amizade, “uma amizade gostosaâ€. Lula nunca foi de namorar. A primeira namorada dele foi Lourdes. Tinha o Jacinto, que hoje a gente chama de Lambari, tinha o Toninho e o Zezinho. Tinha os bailinhos em casa de família, domingo à tarde. Tocava Ray Coniff, Carlos Alberto, Roberto Carlos. A gente bebia refrigeranteâ€.Maria de Lourdes, – “a morena de cabelos compridos, muito bonita, conservadora, sem nenhuma formação política, muito trabalhadoraâ€, segundo Lula – já trabalhava como tecelã. Seus patrões a aconselharam e ela repetiu a Lula que ele não deveria se envolver com sindicatos. Sem maior empenho, ele tomou posse como diretor do sindicato em 24 de abril de l969 e se casou no dia 25 de maio, um mês depois.A festa de casamento foi na casa da irmã Ruth, na Paulicéia, com batatinha, pão, sanduíche, bolo e guaraná. “Foi um casamento que tinha tudo para dar certo. E eles viviam muito bemâ€, recorda-se a irmã. Com as economias dos dois, compraram casa na rua que tinha 4 nomes, à medida que se encurvava. Sogros e cunhados moravam na rua Verão e Lula e Lourdes, na rua Outono. A casa tinha 2 quartos, sala e cozinha, logo reformada para receber o primeiro filho. A gravidez transcorria tranqüila, até que, no 8º mês, Maria de Lourdes apareceu muito pálida, com os olhos amarelos.Nas suas memórias, Lula descreve:“Foi nesta casa que eu fiquei viúvo. Eu lembro que eu fui visitar ela num domingo. Ela estava numa situação deplorável no hospital, com um monte de gente no quarto. Ela gritava, eu fui chamar a enfermeira, a enfermeira não quis atender. Na segunda feira, eu fui levar a roupinha da criança. Cheguei lá e ela estava morta. Meu filho estava morto. Isso marcou muito a minha vida. Como morreu a Lourdes, morrem milhões de pessoas por aí nesse país sem ter o menor tratamento médico. Nós tínhamos planejado um filho, a gente queria ter um filho.â€O velório de mãe e filho foi na rua Outono. O piso de tábua corrida afundou com o peso de tanta gente e a câmara ardente foi transferida para a copa. Lula descreve o estado em que ficou: “Eu fiquei muito tempo meio bobão. Eu ia no cemitério todo domingo, eu levava flores para colocar no túmulo dela. Eu, às vezes, ia sair de noite para qualquer lugar, mas quando eu ouvia música….não agüentava… e voltava para casa. Eu não tinha mais vontade de sair. Eu fiquei 3 anos e meio deprimido. Eu fiquei muito tempo meio borocoxô. Eu perdi o sentido da vida. Não tinha mais vontade de nada. Eu passei 3 anos sem namorarâ€.(Por esta época, Lula conheceu a enfermeira Miriam Cordeiro, com quem teve uma filha. Começou a namorar Marisa, viúva de um metalúrgico, filho único, que nas horas vagas ajudava o pai no táxi e foi assassinado dentro do carro, num assalto. Lula era freguês do “fusquinha†do seu Cândido, que no táxi não parava de elogiar a beleza da nora viúva. Depois, Lula conheceu Marisa no Sindicato dos Metalúrgicos, casou-se com ela, registrou em seu nome o filho dela (Marcos) e tiveram mais 3 (Fábio Luiz, Sandro Luiz e Luiz Cláudio). “Seu†Cândido e a mulher foram padrinhos do primeiro filho do casal, mas ele morreu, também assassinado num assalto, como o filho).
Um amor  
 
Enquanto o caminhão “pau-de-arara†conduzindo Lula descia de Vargem Comprida, hoje Caetés, , uma outra família deixava o Norte de Minas. O lavrador Manoel de Bitu, irmão do padrasto de dona Hermínia, morava em Ibitinga, interior paulista, e queria que eles fossem para lá. O pai de Lourdes, João Evangelista, havia lançado sementes na encosta pedregosa do Morro Agudo, em plena estação das águas, mas a roça de milho e feijão não brotou – era a seca, na época das chuvas, a pior. 


A mãe de dona Hermínia, casada pela segunda vez, havia morrido de parto, junto com a criança. Brasinho, mulato forte muito afeiçoado à menina Lourdes, de 3 anos, então lidera os retirantes em direção ao seu irmão, na cultura de algodão na fazenda paulista. Venderam 2 porcos, 2 cavalos e galinha e seguiram: Brasinho, dona Hermínia, com 22 anos, o marido Evangelista, o irmão dela, Mané Codorna e os 4 filhos do casal – Toninho, de 8 anos, Jacinto (Lambari) de 6, Lourdes, de 3, e Zezinho, de apenas 8 meses.
Os 48 quilômetros de Morro Agudo à gare da Central do Brasil em Montes Claros foram vencidos numa camioneta. Duro foi esperar o trem “maria-fumaçaâ€, arranchados na calçada da Praça da Estação, com centenas de outros retirantes. Depois de dias de espera, quando fazia uma caçarolada de abóbora, o apito estridente convocou os retirantes, a abóbora foi atirada no saco de farinha, e todos se precipitaram no vagão de segunda e última classe.
A rotina nos dez dias seguintes até São Paulo, de baldeação em baldeação, é a epopéia de todo retirante que o “trem do sertão†levou e trouxe de São Paulo, sempre cheio, sempre melancólico, sempre carregado mais de saudades do que de apinhados passageiros.  
Lances dramáticos não faltaram àquela caravana de mineiros. Toninho e Jacinto (Lambari) arrancaram algum dinheiro dos menos infelizes com a voz infantil, de 8 e 6 anos, que cantava, e suavizava, com a música sertaneja, o drama reprisado de outros. (Lambari, até hoje, canta musica sertaneja, toda 6ª feira, no restaurante Chabocão, em São Bernardo).  
Aflição maior viveu dona Hermínia, futura sogra do presidente da República. Exausta, em pânico, ela apertava contra o peito o caçula Zezinho, de 8 meses – hoje afilhado de casamento de Lula. O menino tinha bronquite e a orientação do chefe do trem não admitia exceções: “quem morrer na viagem, vai ser atirado pela janelaâ€. E toda vez que passava o chefe do trem, e olhava para a criança com bronquite, o chefe perguntava – “tá doente?â€. Ela pronta respondia: “não senhor, não senhor, tá sadio, tá bomâ€, e segurava o menino mais forte, contra o peito, e o retinha, com a janela fechada.  
Foi assim, nos mil e tantos quilômetros, 10 dias e 10 noites, dormindo no chão, nas calçadas. Na “imigraçãoâ€, em São Paulo , e nas estações por onde passaram, os quatro meninos incharam o braço de tanto tomar vacina, 4 ou 5 num dia só. É que o pai Evangelista, doente do pulmão, tinha esperança de que as filas que se formavam em cada estação fossem para servir comida – mas eles\serviam vacinas. Manoel de Bitu os esperava em Ibitinga, interior de São Paulo. Foram depois para o plantio de mandioca na fazenda Ronca, onde havia escola, que não freqüentavam, porque dona Hermínia os trancava em casa para sair cedo trabalhar na roça.  
Na fazenda Barreiro, ficaram 9 anos como meeiros, e o fazendeiro sem filhos – Ernesto Saleno – quis adotar Lambari, com a pronta resistência da mãe, que preferia vê-lo caminhar 4 kms, todo dia, para ir a escola – ele e os irmãos. Foi nesta época que os quatro ganharam registro de nascimento, atabalhoadamente providenciado pelo pai com o recurso de memória que dispunha: “este nasceu na sementeira do arroz…, aquele na colheita do milho…, a menina durante a chuvarada…â€. Os registros apontam Miralta, distrito de Montes Claros, como o local de nascimento, e as data são imprecisas.  
Nesta época, por 1 ano e precisos 26 dias, dona Hermínia foi tratar-se do pulmão, também ela, no Hospital Sanatório de Araraquara, e a menina Lourdes, assumiu o comando da casa. Seguiram depois para Bariri, já como arrendatários de terra que produzia amendoim, milho e mamona. Lambari fazia o curso de torneiro-mecânico do Senai em Ibitinga, bancado pelo fazendeiro que o queria adotar, e em Bariri compraram casa na cidade, onde passam a residir. Lambari arrendatário de uma torneraria, Toninho trabalhando na padaria e, Lourdes, na fábrica de óleo, enquanto completava o curso de corte e costura. Os pais eram “bóias-friasâ€na colheita de café e algodão.  
  
  
 
O ENCONTRO 
O primo e servente de pedreiro Santinho, posteriormente levado de Montes Claros e adotado, já estava na capital de São Paulo e os chamou para lá, no vácuo do golpe de 64, começo de 65. Lambari alugou a casa 4 da rua 35, na Ponte Preta, e dias depois de trazer a família, era hora de receber, na casa ao lado, aquela família pernambucana, numerosa, encarapitada no caminhão que vinha da Vila Carioca e que exibia o fogão de duas bocas como precioso troféu.  
Tangidos pela mesma seca, afinal estavam reunidos na parede-meia, que anexaria os dois destinos de retirantes: os de Minas, comandados por dona Hermínia, e os de Pernambuco, chefiados por dona Lindu, aquela mulher paciente e calma, brincalhona e otimista, incapaz de qualquer murmúrio ou queixa.  
Sem móveis, sem nada, 8 pessoas no quarto e cozinha únicos, mas ainda assim mais confortáveis do que os vizinhos de Vargem Comprida, 10 ao todo (8 filhos e o primo Zé Graxa). Os de Minas passavam o dia com o radinho a pilha seguro na mão, no meio da sala, ouvindo Zé Bétio.  
Lula era o rapazinho de bicicleta, que ficava na porta, mão na parede, num vai-e-vem eternos. Lourdes, com 17 anos, foi trabalhar na Tecelagem Damatex, de onde saiu para casar-se com o futuro presidente da República, cedendo a vaga para a prima Heloísa, sobrinha de dona Hermínia, que hoje mora em Montes Claros.  
Lula recebia o seguro do dedo decepado e o ferimento chamou a atenção, e a dó, de Lourdes. Ele e Lambari saiam juntos para procurar o emprego que não havia em lugar nenhum. “Freio Chico†já era soldador e membro do “partidãoâ€, e a simpática “Maria Baixinhaâ€, enfermeira. Inventaram então os “bailinhos†de domingo, durante o dia, as excursões ao pico do Jaraguá, as sessões de cinema, as missas.  
Lourdes, ainda só amiga, podia contar com Lula para toda festa, onde ela sempre queria demorar mais do que ele. Os japonesinhos ali sempre juntos, Olavo e Kiva, o primeiro virou padrinho de casamento e, o segundo, foi o que Lula teve de\superar na preferência de Lourdes.  
Vieram as enchentes, repetidas. Com o dinheiro da casa de Bariri compraram um imóvel na mesma rua 4, enquanto o pessoal de Lula, cortido pelas águas, foi para a Vila São José, a 3 quarteirões, ‘depois do rioâ€. A casa própria não intimidava a enchente e foram para o Jardim Patente, sempre na mesma região do Ipiranga, na fronteira de São Bernardo.  
  
Dois meses depois, a família de Lula chegava à Vila Patente, instalando-se numa quadra acima. De tanto procurar emprego, na crise de 1965, Lula chorava: “eu, as vezes, parava no caminho e chorava muito…porque você perde a perspectivaâ€. A sorte começava a virar. Cansados de receber o mesmo “não†juntos, Lambari propôs, Lula aceitou, e os dois passaram a procurar empregos separados. No primeiro dia, um voltou torneiro-mecânico da Volks e, o outro, torneio-mecânico da Villares. 
Os amigos se aproximavam mais. Lula, empurrado por 3 conhaques, passou a namorar Lourdes. Lambari escolheu Ruth, a última dos irmãos de Lula, mas demorou pouco o namoro. Dona Lindu sabia que ele namorava outras (“eu era sem vergonha, mesmoâ€) e o escorraçou como namorado da filha. Ao chegar em casa às l0 horas da noite, conta Lambari, Lula estava no sofá, namorando a irmã: – “Ô, meu, sua mãe já correu comigo de lá. É bom você também pegar sua linha. “Taturana†respondia: – “Dá um tempo, fica na sua.†E ficava.  
Mais uma vez, as duas famílias mudaram de endereço. Lula foi para a Paulicéia, em São Bernardo do Campo, e dona Hermínia mudou-se para a rua Verão, nº 10, C , na Vila das Mercês, onde está até hoje, na companhia de Lambari, que se descasou.  
Lula namorava lá, lá assistiu Lambari construir sua habitação sobre a laje no terreno de 5 metros por 25 e, de “roupinha branca e namorada a tiracolo, jornal domingueiro na mão, gozava o cunhado, misturando a masseira: “viu o que acontece, Lambari ?…, você não quis estudar…â€. Na rua Verão, foi testemunha da dificuldade dos sogros para pagar a segunda prestação da casa, quando o imóvel próprio da Ponte Preta foi vendido a um motorista de ônibus.  
As enchentes desvalorizaram a casa. Toda pessoa que chegava para comprar, via a marca dágua na parede, media a altura dos filhos, via que ela dava no pescoço deles , e desistia.  
Um motorista de ônibus comprou, pagou a primeira prestação e desistiu da segunda, porque nova enchente levou o paletó e os 800 cruzeiros que havia no bolso do paletó para pagar a prestação restante, deixando em dificuldade a família que também devia a Segunda prestação.  
Da distante Paulicéia, em São Bernardo , Lula vinha namorar todas as noites. Na volta, cansando de esperar ônibus na via Anchieta desistia, retornava a pé e dormia na casa da sogra (“eu não ia pela estrada das Lágrimas, eu ia pela Marginalâ€). Lula achava cedo para casar, mas as circunstâncias amargas, segundo ele, o levaram a precipitar a escolha: – Eu vivia uma vida desgraçada, eu tinha de catar bituca de cigarro no chão para fumar. Eu nunca tinha dinheiro para comprar o cigarro que eu gostava, que era o Continental. Eu comprava Kent. Então, quando eu resolvi casar eu disse: “Olha, já que a gente esta nessa vida desgraçada, sustentando casa, então vamos casar de uma vez e a gente se viraâ€.  
Casaram-se na Igreja Nossa Senhora das Mercês, em 24 de maio de l969. Dois dias antes, haviam se casado no civil, ele de terno muito bem cortado, todo empertigado. Na despedida de solteiro, na Paulicéia, Lula quis reter a noiva para a primeira noite, mas dona Hermínia não permitiu, irredutível, mandando esperar o dia da igreja. Conciliadora, dona Lindu decretou: a noiva dorme aqui, o noivo vai dormir com a sogra, na Vila das Mercês. Lula protestou em vão – “mas, eu já sou casadoâ€.  
O casal foi morar no Moinho Velho, de aluguel. Depois de l ano, estava no novo nas vizinhanças da família mineira, na rua torta que começava como Primavera, evoluía para Verão, descia para Outono e acabava como Inverno. Dona Hermínia morava na rua Verão e Lula, agora na casa própria, se instalou na rua Outono.  
A filha Lourdes ficou grávida e o casal – ele na Villares Equipamentos e ela tecelã da Datamex – construíram um quarto para a criança. A gravidez foi muito bem até o 8º mês. Tanto os médicos do emprego, quanto os particulares, diziam que tudo ia bem. Não ia.  
O tom de gema de ovo no olho de Lourdes denunciava uma doença hepática não descoberta pelos médicos. Foi preciso que os parentes alertassem e Lula insistisse para que ela ficasse internada, numa quinta feira, no Hospital Modelo, em São Paulo. Para os médicos, as dores – queimação no estômago e vômitos prolongados – que faziam Lourdes gritar eram dores normais da gravidez.  
Dona Hermínia conta que foi ao hospital, no sábado, acompanhada de Lula e de duas noras, levando frutas. A filha comeu uma pera, desta vez não vomitou, e todos voltaram para a casa, mais animados. No domingo, na visita coletiva das 14 horas, dona Hermínia estava de volta, com Lula. Os médicos, enfim, diagnosticaram a hepatite e a colocaram no isolamento, gemendo. Desesperada, a mãe perdeu-se no hospital e um médico a tranqüilizou – “está em trabalho de parto, é normalâ€. Lula passa mal e toma uma tranqüilizante, enquanto a sogra vai embora sozinha, desolada.  
Na noite de domingo, Lula e Lambari, com esposa e cunhada, retornam ao hospital Modelo. O médico mandou esperar e depois autorizou que o irmão desse uma olhada na doente, que estava sedada e tinha tomado remédio para induzir a dilatação. Pela porta entreaberta, Lambari viu que Lourdes dormia.  
O médico, enfático, disse aos cunhados: “Luiz, a criança está morta dentro da barriga, mas sua mulher não corre nenhum perigo. Ela está muito bem. Amanhã, traga a roupa da criança para o enterroâ€. Lambari se lembra que Lula aceitou o inevitável e pediu que lhe emprestasse dinheiro para o enterro do menino. Foram juntos comunicar a dona Hermínia que a filha não corria perigo. A mãe relutou, achou que estava sendo enganada, disse que a filha não escaparia e foram dormir.  
Na segunda feira, 7 de junho de 1971, Lula, a mulher de Lambari e a cunhada Luzia foram para o Hospital. Lambari estava trabalhando na Volks, quando foi chamado pelo departamento social, que o mandava seguir para o hospital. Imaginou que era o dinheiro do sepultamento, passou no banco e foi. Encontrou-se com Lula, a cunhada e a esposa, na recepção, mas apenas os dois homens subiram para a porta da sala de parto.  
As enfermeiras os viram chegar, e comentaram – “a família tá aíâ€. Esperaram muito. O médico saiu.  
_ O senhor é o senhor Luiz?  
_ Sou.  
_ O senhor precisa ser forte para ouvir o que vou lhe dizer. Seu filho nasceu morto.  
_ Eu já sabia. O médico me explicou, ontem.  
_ O senhor precisa ser mais forte ainda, porque sua mulher também morreu.  
Lula fez vômitos e encostou a cabeça na parede. Com a cabeça sempre na parede, ele girava o corpo contra a parede, girava… girava… girava…  
(Na noite de domingo, soube-se depois, logo que Lula e Lambari saíram do hospital, Lourdes acordou, chamou pela mãe, chamou por Lula, e vomitou sangue. “A noite toda, ela vomitou pedaços do fígadoâ€. Às 5h15m da manhã, os médicos retiraram a criança a ferros. Ãs 7h15m, Lourdes morreu).  
Lula e Lambari foram receber os corpos na pedra do necrotério. Estavam cobertos por lençóis brancos e identificados. No lençol maior, a etiqueta indicava – Maria de Lourdes Silva. O “meninãoâ€, de quase 4 quilos, tinha uma fita colante escrita “nati-mortoâ€.  
Lula explodiu:  
_ Esses “fdp†colocaram este nome. Não era nem este o nome que eu queria para o meu filho!  
(O nome – soube-se também depois – seria Fábio Luiz, o nome que Lula repetiu no primogênito do segundo casamento).  
De volta  
Dona Hermínia apoia-se numa bengala para caminhar. A intensa simpatia e a simplicidade minimizam este detalhe, mas ela sofreu desgaste na cabeça do fêmur e o ex-genro, já famoso, consegui-lhe uma cadeira de rodas, que ela não mais precisa.  
Morando na mesma e modesta casa da Vila das Mercês, onde um presidente da República noivou e casou, ela ficou viuva em 1990. Mora com o filho Lambari e sai muito, anda por toda parte. Anda principalmente pelos bingos, e a voz da neta na secretária eletrônica do telefone resume: “Você ligou para dona Hermínia. No momento, fui até o bingo. Se demorar, é porque fiquei rica. Se não, voltarei logo. Por favor, ligue mais tarde. Obrigadaâ€.  
O olhar sereno, a voz mansa e doce, o cabelo pintado com discrição, nada sugere o sudário de uma vida de retirante e de mãe que sepultou a filha, a única. Aos 73 anos, está mais conservada que o irmão Mané Codorna, 10 anos mais moço, que foi com ela para São Paulo, e Henrique, de 70, que já a esperava lá, na seca de 1952.  
Depois de 50 anos de ausência, a convite do HOJE EM DIA, ela levou o filho Lambari para conhecer, reconhecer, a casa de onde partiram, ele com apenas 6 anos. Foram com ela dois irmãos, um residente no Furadinho natal, e o outro morador de Montes Claros. Foram também filhos, sobrinhos e netos, rever a casa no meio do mato.  
Já na entrada de Furadinho, o pequeno fazendeiro João Gonçalves de Souza, de 75 anos, reconhece dona Hermínia e recorda:  
_ Eu assisti o seu casamento, em Vista Alegre. A senhora tinha 13 anos, muito bonita. O padre ainda perguntou – você ao menos sabe fazer um almoço?  
Não sabia.  
Mas sabe o fazendeiro, montado com garbo no cavalo, que ela é a primeira sogra de Lula. Aliás, “Lôla, aquele que manda em nósâ€.  
Furadinho é um povoado a exatos 43 quilômetros do centro de Montes Claros. São minifúndios, ocupados por 40 famílias, quase todas evangélicas da Igreja de Deus – Avivamento Bíblico. O acesso é pela estrada de Januária, logo depois de Lavajinha. Ali, todos trabalham e vivem do campo e para o campo, numa região de penhascos, que difere completamente da topografia do Norte de Minas. São os “alcantisâ€, eles sabem, mas lamentam que estejam numa situação de grande ruína, depois que o banco deu de financiar suas atividades, estimulou uma fabriqueta de laticínios e impôs a compra de umas “vacas pretasâ€. As vacas morreram, ninguém deu conta de pagar os juros ao banco e todos estão muito endividados.  
Lavajinha e Furadinho levam ao Morro Agudo, onde nasceu Lourdes, a primeira mulher de Lula. Quando dali saiu a caravana de retirantes, em 1952, o lugar era alegre, com muitas famílias, muitas festas e “domingadasâ€. Os bailes eram animados com uma vitrola manual e o primeiro trator, que destocou o terreno, causou furor e espanto.  
Hoje, o morro agudo – uma alta montanha arredondada, que contrasta com os alcantis e batiza o local – é o única coisa que permanece imponente. O resto é esgotamento e desolação. Todos se mudaram a partir daquela época e as extensas pastagens resultam agora num campo de espinhos- agulha.  
Cinqüenta anos depois, este é o cenário que dona Hermínia e Lambari foram encontrar no retorno à casa velha, onde o pai dela, “seu†Jacinto, deu de criar uma cobra gibóia pela telhado, incumbida de comer as cobras venenosas, bem menores, mesmo a custo de cair dos caibros e assustar crianças, como a pequena Lourdes e o irmão Lambari.  
Ao socavão esconso, que dá para o povoado de Barreiras, só se chega a pé. Nem o cavalo vai lá, porque o terreno é acidentado, tem pedras escorregadias e, depois delas, tem penhas e nas penhas precipícios.  
Mesmo dependente da bengala, a sogra de Lula aceitou ir, guiando o filho Lambari, o maior amigo de juventude do presidente. Aquele que tinha com ele sociedade nos cigarros, partilhados também por “Maria Baixinhaâ€, a irmã de Lula, dois anos mais velha do que o presidente, e dona dessas declarações:  
“Eu e Lula sempre nos demos muito bem. Por exemplo, mais tarde, quando o Lula chegava de fogo em casa, era eu que dava banho nele. Quando ele namorava a Lourdes, ela saía com o irmão dela. Esse cara é o máximo, o Lambari, ele sabe coisa que vai deixar qualquer um impressionado. Eles passaram a mocidade toda juntos. Casaram e continuaram amigos. Nem irmãos eram tão amigos. Era uma amizade assim, a coisa mais bonita que podia existirâ€.  
O encontro de Hermínia com os irmãos, antes de pegar a tosca estrada que permite chegar mais perto do Morro Agudo, é emocionante. Só não permitem lágrimas grossas porque o lugar não tem este costume. Mas, choram sim.  
Por 2,3 kms, em péssima estrada, nos aproximamos de carro do Morro Agudo, onde se pode ir “pelado†a qualquer tempo, avisa Mané Codorna, porque aqui não passa mesmo ninguém.
Fomos.  
Na procissão da saudade, o menino Adilson, de 6 anos, descalço, evoca o Lambari daqueles dias. A pé, entre espinhos, poeira, matas, córregos secos, subidas, descidas, colchetes, cancelas, mata-burros, a distância é de aproximadamente 2 quilômetros , ou l hora. Normal para quem tem costume. Normal também para dona Hermínia, sua bengala e os 73 anos.  
Na mesma hora em que Lula era recebido pelo presidente dos Estados Unidos, o primeiro amigo da juventude, Lambari, e sua mãe, a poucos metros já podiam ver o que sobrou da casa natal de Lourdes, deixada ali.  
Apenas rijos esteios de aroeira, telhas silenciosas e adobes vermelhos pelo chão, que não se renderam à chuva, talvez porque nem chova mais ali, onde existia um riacho que descia da serra, esculpia na pedra, acordava os homens e adormecia as crianças.  
Dona Hermínia chorou por dentro. Viu “um filme passar pela cabeçaâ€, enquanto o menino Lambari ressurgiu dos seus 56 anos perguntando pela plantação de caxi, pela mangueira, pela vaca que o “pegou†onde costumava comer terra. “Parece que foi noutra vidaâ€, resumiu a sogra de Lula, enquanto o irmão Henrique perguntava pelos passarinhos, que ninguém via, e Mané Codorna justificava, com acerto: “até os bichos gostam de movimento. Cantar pra quem?â€Â Â 
Na volta da bocaina, sentindo mais o caminho que a mãe de 73 anos, Lambari tomou a frente e repetiu o amigo Lula nos dias finais da campanha que o elegeu presidente da República:  
_ Eu, que sou mais bonitinho, vou tirando retrato na frente. Você, Lambari, como é mais feio, vai dando autógrafo.  
No miserável povoado de Lavajinha, que recolhe os votos da redondeza, historicamente um reduto governista, a vitória de Lula não foi menos expressiva do que em Montes Claros, onde teve 8 de cada 10 votos. Talvez até por causa do financiamento das “vacas pretasâ€. A história de que ele é genro de dona Hermínia também é sabida, mas não tanto que justifique a vitória de 121 votos contra 42 dados a José Serra, 2 brancos e 8 nulos, num total de 173 apurados.  
Na posse  
Em 1980, aos 64 anos, quando morria de câncer – doença que devasta a família materna de Lula -, dona Lindu soube no hospital que o filho estava preso, notícia que lhe vinha sendo poupada. Ela fez a observação: “Meu Deus, como que ele vai fazer tudo isso? Deve ter um anjo da guarda perto deleâ€. Dias depois, conversando com a nora, esposa de Zé Cuia, dona Lindu pediu um copo dágua, tomou, virou do lado e morreu. 
 
Como ela, dona Hermínia admira profundamente o genro. A convite especial de Lula, dona Hermínia e Lambari, assistiram o presidente receber a faixa no parlatório, em Brasília. Os dois estavam dentro do Palácio do Planalto, ao lado dos irmãos de Lula, no núcleo mais íntimo da família, de pernambucanos e mineiros. E viram, e aplaudiram, o gesto solene em que o amigo retirante assumia o mais alto posto da República.  
_ Dona Hermínia, naquele momento, a senhora pensou que sua filha poderia estar alí, como primeira dama do país?  
_ Pensei, sim. E ela estava. Estava representada na honestidade de Lula e na lealdade de Marisa a Lula.  
  
  
 
Pedidos  
A casa de Mané Codorna, o tio da primeira mulher do presidente, e seus poucos móveis, quase nenhum, apesar de respirar mansuetude e quietação, bem pode servir a Lula quando desejar rever os momentos de pobreza material mais intensa que teve em São Paulo , de casa em casa, de bairro em bairro.  
Se quiser, se algum dia for lá, onde nunca foi nenhum prefeito de Montes Claros nos 171 anos do município, o presidente pode também ouvir das crianças histórias muito parecidas com a que ele viveu na meninice.  

 

   

 

 

 

  

A pedido do HOJE EM DIA, as crianças de 6 a 14 anos escreveram cartas ao presidente fazendo referências à conterrânea que foi sua primeira esposa. E nelas, o lamento é constante. Todos se queixam, e esperam ajuda, para que as escolas as recebam melhor, e não assistam aulas sentadas no chão. Também, pedem merenda melhor e ônibus decentes, que não as obrigue a andar, às vezes 4, 5 horas, toda madrugada para chegarem ao local das aulas.  
E se ouvir os adultos conterrâneos de sua Maria de Lourdes da Silva, o presidente pode até determinar que a região ganhe uma grande maternidade, que impeça que as mulheres dali, como a sua Lourdes, morram na hora de ter filhos. Ali, morrer no parto é uma constante, até hoje. Em Montes Claros , pessoas morrem na porta dos hospitais, com freqüência.  
Como morreu Lourdes, em São Paulo , em l971, morreu a avó de Lourdes, mãe de Hermínia. Morreu a primeira mulher de Mané Codorna e morreu a mãe de Maria Nazaré de Freitas, que na igreja do Avivamento Bíblico narrou para todos a história do 5º parto de sua mãe, Maria Ribeiro da Silva, outra Silva, que morreu no parto triplo em que apenas ela sobreviveu.  
E todos pedirão, por fim, em comovido silêncio, que o presidente dê a esta maternidade regional um nome que o acompanha e vela por ele – Maria de Lourdes da Silva, retirante de 22 anos, morta em 7 de junho de 1971.  
* O jornalista Paulo Narciso, 52 anos, começou aos 15, no “O Jornalâ€, de Montes Claros. Aos 20, era repórter de Polícia do “Estado de Minasâ€, onde atuaria como editor e repórter especial. Aos 21, obteve menção honrosa no Prêmio Esso. Em 1975, ganhou o Prêmio Esso, com a reportagem “A Esperança Muito Passageira do Trem do Sertãoâ€.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 
 

 

 

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O país quer respostas

sábado, fevereiro 27th, 2010

Carlos Chagas

Dirão lulistas, petistas e governistas ter  sido por conta do desenvolvimento político, social e administrativo dos últimos oito anos,  no país. Já os que se alinham na oposição responderão  pelo lado oposto: foi apesar do  Lula, do PT e do  sistema formado pelo governo.

Ironicamente, a conclusão é a mesma: concordam todos em que o Brasil avançou, a população mostra-se mais consciente e agora que a sucessão presidencial precipitou-se, queremos respostas concretas. Passou o tempo  em que os candidatos se apresentavam por conta da  simpatia, das  características pessoais  ou demagógicas, das  idiossincrasias e até dos  defeitos.

Hoje, não basta  que se mostrem ao eleitorado procurando sensibiliza-lo pela emoção, como  fazem os clubes de futebol ou as escolas de samba. É preciso que tenham time ou enredo.

Assim, estão os pretendentes ao palácio do Planalto devendo respostas à população. Dilma Rousseff, por exemplo, precisa avançar bem mais do que nas promessas de dar continuidade às realizações do presidente Lula. José Serra necessita quebrar  a casca e demonstrar dispor de um programa situado acima e além do neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso. Marina Silva obriga-se a ser mais do que uma guarda florestal. Ciro Gomes,  não apenas um concorrente de perfil novo. Dos nomes colocados na disputa, apenas Roberto Requião começou a  detalhar aspectos concretos do que pretende desenvolver, mas, mesmo assim, deve pormenorizar mais os seus  planos.

Vale colocar diante deles certas  questões objetivas, pinçadas em meio a um cipoal de dúvidas que apenas depois de respondidas levarão o cidadão comum a definir-se na hora de digitar sua preferência.

Com relação à reforma agrária, o que pretendem? Apenas conviver, estimulando ou restringindo invasões?  Como estender as propriedades rurais a um  número infinitamente maior de camponeses sem-terra entregues por enquanto a protestos sem maiores resultados?  Incentivar a atividade familiar ou ampliar o agro-negócio?

Frente à crise energética que assusta o planeta, fazer o quê? Definir metas para a implantação de quantas e quais hidrelétricas? Levar a Petrobrás a dividir as esperanças futuras do pré-sal com um planejamento efetivo da multiplicação do etanol?   Como conciliar os interesses dos usineiros com a importância de preços estáveis para a cana?

O que pensam da sempre anunciada e jamais concretizada reforma tributária? Apenas condenar a carga fiscal avolumada a cada década ou propor mudanças fundamentais, diminuindo o volume dos impostos diretos e indiretos? Levar  a Receita Federal a reduzir os encargos sobre a classe média e aumenta-los para as elites?

Como realizar a ansiada reforma política, mantendo ou suprimindo a reeleição, ampliando os mandatos executivos, estabelecendo em que limites o financiamento público das campanhas, impedindo ou não condenados pela justiça de se candidatarem a postos eletivos? Extirpar de vez a farra das medidas provisórias, limitando os poderes do estado legislador e exigir do Congresso o cumprimento de seus mínimos deveres legiferantes? Que tal enfrentar a proliferação de partidos de aluguel?

Pretendem reduzir as privatizações,devolvendo ao poder público a gestão de atividades ligadas à soberania nacional,  como a exploração do subsolo e das telecomunicações?

Permitirão o aumento dos  monopólios nos meios de comunicação ou optarão por restrições à  propriedade por um  mesmo grupo de veículos da mídia impressa e eletrônica? Buscarão, afinal, regulamentar o artigo 220 da Constituição, criando mecanismos para a defesa do cidadão   e da família  dos  excessos da programação do rádio e da televisão? Se jamais através da censura, seria então através de penas capazes de passar da simples advertência à suspensão e até a cassação de concessões?

Reduzir o número de ministérios, hoje 39, enxugando a máquina pública e diminuindo o número de cargos em comissão na administração  federal, atualmente fonte de corrupção e incompetência?  Descentralizar a ação oficial, cedendo às prefeituras parte dos  encargos acumulados em Brasília?

São centenas as respostas pelas quais o  eleitor está ansiando, passando pelos  gargalos da educação, da saúde, do saneamento, da infra-estrutura e outros. Pouco adianta ficar nas generalidades, é preciso que os candidatos apresentem propostas concretas, até  geográficas, em vez de rótulos balofos e ineficazes. O que, quando, onde e como.

Passou o tempo em que o cidadão votaria em Dilma por ser mulher e ter sido indicada pelo presidente Lula. Ou que daria preferência a Serra porque governa São Paulo e é correligionário de Fernando Henrique. E assim com relação aos demais candidatos. Vale repetir, o país quer respostas.

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Zé do Galo, Analista Político

quarta-feira, fevereiro 3rd, 2010

*Frei Betto

FREI BETTOO Brasil está coalhado de analistas que fazem fantásticos prognósticos em anos de eleições. Cada um que se fie naquele de sua preferência. Eu, cá comigo, mineiro que sou, fico com meu compadre Zé do Galo, carroceiro do colo da Mantiqueira. Nunca entro em período eleitoral sem consultá-lo.

Semana passada dividimos um feijão tropeiro no rancho em que ele vive pros lados de Aiuruoca. “E aí, compadre, como vai ser este ano eleitoral?â€, indaguei.

Zé do Galo coçou a barbicha rala que escorrega por seu rosto magro, largou a colher (ele nunca usa garfo, diz que espeta a língua), e soltou voz amansada:

“Tá difícil imaginar, compadre. A coisa tá mais enrolada que linguiça de venda.†“Então desenrola, Zéâ€. “Como diria Jack, o Estripador, (Zé adora quadrinhos de terror) vamos por partes: dona Dilma vai ter quem de vice? Michel Temer, apoiado por Sarney; Henrique Meirelles, que pulou do PSDB para o PMDB de olho no futuro; Hélio Costa, que trocaria a disputa ao governo de Minas por chapa puro-sangue, mineira com mineiro?â€

“E o Serra?â€, perguntei. “Ainda num sei se será candidato a presidente ou à reeleição em São Paulo? Se a presidente, Aécio aceita ser vice na chapa café com leite? Ou, para enfrentar dona Dilma, tentará convencer dona Marina a apear do cavalo da candidatura presidencial para repetir, Brasil afora, a proposta carioca de Gabeira, do PV, apoiado no Rio pelo PSDB, pra disputar a governança?â€

“Tá tudo muito confundidoâ€, suspirou meu compadre. “Dona Marina vai ter empresário de vice pra angariar votos de quem guarda dinheiro em banco ou vai de liderança popular?â€

“E Ciro Gomes, Zé?†“É o que me pergunto. Vai de vice da dona Dilma, deixando o PMDB como palito em boca de desdentado, aceita ser candidato ao governo paulista com apoio do PT, ou se apresenta mais uma vez como presidenciável pra se cacifar no próximo governo?â€

“Zé, como vê a situação de São Paulo?†“Ali, que é berço do PT, a coisa tá mais feia que indigestão de torresmo. Quem do partido de Lula será candidato a governador? Todos os caciques se queimaram na fogueira de mensalão e mensalinhos: Zé Dirceu, Genoíno, Palocci. Sobrou o Suplicy, mas este a direção do PT não aprova, é mais independente que dente de siso em boca de banguela.â€

Zé do Galo passou os dedos no cabelo ralo e enrugou a testa: “Será que dona Marta disputa de novo com o doutor Alkmin, após ter perdido nas últimas eleições municipais? Mercadante abre mão de concorrer ao Senado pra tentar o governo do estado? Ou o PT virá com o desconhecido prefeito de Osasco?â€

“E aqui em Minas, compadre, o que vai dar?†“Em Minas a coisa tá mais fedorenta que arroto de urubu. Lula tem três candidatos: Hélio Costa, Patrus Ananias e Fernando Pimentel. Pressinto que o Planalto gostaria, pra favorecer a aliança nacional, que houvesse só a chapa PMDB-PT ou vice-versa. Difícil. Só o PT tem dois candidatos: Patrus e Pimentel. Vai ser briga feia na prévia de escolha. Até porque os dois sabem que as duas vagas mineiras ao Senado estão praticamente eleitas: José Alencar e Aécio Neves (se não aceitar ser vice do Serra).â€

“Lula será o grande cabo eleitoral no pleito presidencial. Mas vai ter que vestir saia justa em certos palanques: no Rio, sobe no de Sérgio Cabral ou no de Lindberg Farias, caso este se candidate a governador pelo PT? E se Lindberg aceitar dar apoio a Cabral em troca do Senado, como fica a Benedita da Silva, que insiste ser a candidata do PT a casa presidida por Sarney? E na Bahia, Lula sobe no palanque da reeleição de Jaques Wagner ou no de Geddel Vieira Lima, seu ministro?â€

“ O triste – observou Zé do Galo – é que as alianças partidárias já não são feitas em cima de programas, propostas, objetivos. Vale o olho no tempo de propaganda eleitoral gratuita na tevê. Quanto maior o partido, maior o tempo. “Como o PMDB é um dinossauro, agarrado no costume de “hay gobierno, soy a favorâ€, quase todos o namoram na esperança de ver ampliada a visibilidade na telinha.â€

O compadre considera que a eleição presidencial só não terá caráter plebiscitário – de quem aplaude ou vaia os oito anos de governo Lula – porque Marina Silva entrou no páreo e, assim, os presidenciáveis deverão discutir o futuro sustentável do desenvolvimento brasileiro.

“E digo mais, compadre†– falou – “me fio que, desta vez, não vai ter arranca-rabo nem dedo na cara nos debates: todos farão promessa de dar prosseguimento às políticas sociais de Lula, ninguém ameaçará os militares de abrir os podres da ditadura, todos se apresentarão como intransigentes defensores do meio ambiente desde criancinha, e ninguém ousará criticar a atual política econômica, mesmo cientes de que os juros haverão de subir este ano, ainda que isso faça abaixar a cotação eleitoral da candidata do governo.â€

Zé do Galo encerrou o papo: “Visto de hoje, compadre, a coisa tá mais sofrida que joelho de freira na Semana Santa. Mas logo desenrosca, pra agrado de uns e choro de outros. Importante é melhorar o Brasil dos pobres e não trazer os corruptos de volta.â€

*Frade Dominicano, Teólogo, Antropólogo, Filósofo, Jornalista e Escritor.

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Respostas duras, mas de maneira amigável…

sábado, janeiro 9th, 2010

carlos chagas 002Carlos Chagas

Vale começar com a diretriz que o então chefe da Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos, no Pacífico, enviou aos navios sob seu comando: “A GUERRA COM O JAPÃO TERMINA ÀS 12 HORAS DO DIA 15 DE AGOSTO DE 1945. É POSSÃVEL QUE DEPOIS DISSO OS KAMIKASES ATAQUEM A FROTA, NUMA ARREMETIDA FINAL. QUALQUER AVIÃO INIMIGO QUE ATAQUE A ESQUADRA DEVE SER DERRUBADO DE MANEIRA AMIGÃVEL.â€

Aplica-se a lição para o confronto verificado entre o PT e o PSDB, quer dizer, entre os partidários de José Serra e de Dilma Rousseff. Derrota, propriamente, não houve de nenhum dos lados, a batalha final só será travada em outubro. Mas assessores de lá e de cá, aproveitando as Festas de Natal e Ano Novo, celebraram uma espécie de cessar fogo nas baixarias. Nem o governador aproveitará para desancar o governo Lula, nem a chefe da Casa Civil centralizará sua campanha nas omissões do governo Fernando Henrique. Ambos, ao menos no plano das intenções, deverão voltar-se para o futuro, ou seja, pedir votos relacionando programas a desenvolver e objetivos a alcançar. Tudo muito bonitinho, a ver se acontece mesmo.

O problema é que importante cacique do PT, preocupado, procurou o ainda presidente do partido, Ricardo Berzoini, para saber como reagir se algum tucano atabalhoado, á maneira dos kamikases, investir com virulência sobre o presidente Lula e seus ministros. A resposta foi muito semelhante à do comandante da Quinta Frota: “amigavelmente, pau nele!â€

A gente fica pensando até quando o espírito natalino presidirá as preliminares da campanha eleitoral, mas, ao menos até agora, tanto Serra quanto Dilma dão a impressão de respeitar o armistício.

Um novo governo Lula?
Não dá para entender o tal decreto do Plano Nacional dos Direitos Humanos, que o presidente Lula assinou sem ler. Porque a leitura detalhada do texto revela a divulgação de um novo e monumental plano de governo. Se quiserem, até mesmo de um anteprojeto de revisão da Constituição, tantas e tamanhas as propostas enunciadas, aliás, jamais sugeridas ou implementadas nos últimos sete anos. Uma revolução do tipo Hugo Chavez.

O decreto transcende olimpicamente a questão dos direitos humanos. Vai além da necessidade de revisão da Lei de Anistia e da punição para torturadores, inclusive dos tempos do regime militar.

Prega a criação de empecilhos à outorga e renovação das concessões para empresas de rádio e televisão, subordinando-as a “critérios de acompanhamento editorialâ€, isto é, aos interesses políticos de quem estiver detendo o poder. Ressuscita a taxação de grandes fortunas, estabelecendo um novo imposto a ser lançado conforme visão específica do governo federal. Diferencia os regimes de fiscalização de empresas brasileiras e de empresas multinacionais. Agride a competência do Congresso, que até hoje não quis aprovar o financiamento público das campanhas eleitorais. Pretende vulgarizar a realização de plebiscitos, referendos, leis de iniciativa popular e vetos populares, novamente atropelando as prerrogativas parlamentares. Reconhece o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Altera o papel das Polícias Militares, atingindo a autonomia dos governos estaduais.

Em suma, o governo define inovações daquelas possíveis apenas por ação do poder constituinte originário, das Assembléias Nacionais Constituintes, ou derivado, dos Congressos. Seria esse decreto um programa para Dilma Rousseff? Ou um plano que o presidente Lula não poderia executar apenas nos meses que lhe restam de mandato, abrindo as portas, assim, para… (cala-te, boca).

Pode também não ser nada disso. Só fantasias de algum aloprado.

Tribuna da Imprensa Online

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