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Vou estar defendendo o uso do gerúndio


22/02/2010 - 22:21 -

Corre o mito de que o chamado gerundismo, mania de quem vai estar falando dessa maneira , originou-se da influência do inglês sobre nossa língua. Será? Bem, o professor John Robert Schmitz, da Unicamp , esclarece o assunto com propriedade em seu artigo do qual tomei emprestado o nome para este post. Abraços.

Sérgio Moura  (Doutorando em Lingüística pela UFAL)

VOU ESTAR DEFENDENDO O USO DO GERÚNDIO

por John Robert Schmitz*

“A gerência vai estar transferindo 3 mil reais de sua conta.” Quem falar ou escrever uma frase assim atualmente corre o risco de ser ridicularizado. Culpa do gerúndio (e de sua junção com os verbos ir e estar), tachado de “assassino” do idioma por alguns gramáticos e formadores de opinião da mídia. Esse gerúndio é vítima da irritação dos usuários com seus maiores divulgadores, os operadores de telemarketing, que nos obrigam a sofrer para ter acesso telefônico a serviços de empresas. Mas será que o equívoco nesse processo é justamente o uso do gerúndio? Seria o gerúndio um erro gramatical da mesma ordem de falhas como “eu dispor” em vez de “se eu dispuser” ou “interviu” em vez de “interveio”. E afinal de contas, o que é que o gerúndio está “assassinando”?

Para desprestigiá-lo, um observador afirmou que o gerúndio é uma firula desnecessária, um drible a mais na comunicação. Dizem, por exemplo, que “estar cuidando” tem o mesmo sentido que “cuidar”. Mas todos nós temos o direito de usar ou não usar certa palavra, expressão ou locução. Qualquer idioma serve às intenções comunicativas dos seus falantes. Um determinado usuário pode dizer “vamos estar cuidando do seu caso” quando tem interesse em expressar continuidade, cordialidade ou polidez ao passo que outro falante pode desejar ir direto ao ponto, recorrendo à forma simples: “Vamos cuidar do seu caso” – que caracteriza um tratamento mais descomprometido ou “seco”.

Outros falantes alegam que “vai estar transferindo” significa que repetidas transferências de dinheiro serão feitas pela agência bancária. É uma interpretação pessoal, que nada tem a ver com as regras da gramática. Além disso, qualquer cliente sabe que os bancos cuidam bem de suas contas e nunca vão esbanjar dinheiro fazendo transferências à toa. Ainda mais levando-se em conta a voracidade da CPMF.

A campanha contra o gerúndio, creio, é fruto de preconceito lingüistico sem embasamento numa pesquisa de campo entre os diferentes tipos de usuários de português em diferentes contextos. Pergunto por que os desafetos do gerúndio condenam a frase “Ele vai estar chegando na parte da tarde” quando os mesmos aceitam tranqüilamente a presença dos verbos modais: “Ele pode estar chegando, ele deve estar chegando, ele tem de estar chegando na parte da tarde”?

Subjacente à polêmica em torno da campanha de “cassação” do gerúndio, existe uma vontade geral de colocar o idioma numa redoma e não reconhecer que ele muda ao longo do tempo. O português da época de José de Alencar é diferente do português contemporâneo. Todas as línguas vivas inovam graças à criatividade dos seus usuários. Alguns críticos, com o intuito de proteger e manter o idioma estável, implicam com novos verbos, como “disponibilizar”, novos substantivos como “descatracalização”, novos adjetivos como “imexível” e “descuecado” ou até com estrangeirismos (sem equivalentes em português) como “dumping” e “ombudsman”.

Para tentar banir o gerúndio do idioma, alguns observadores questionam as credenciais do mesmo e sugerem que ir+estar+verbo no gerúndio é resultado da invasão sintática do inglês. Essa crença não procede porque, em primeiro lugar, os falantes em questão nem sempre dominam o inglês o suficiente para o idioma estrangeiro interferir no português. Em segundo lugar, o português brasileiro apresenta uma variedade de gerúndios – e o inglês não. Alguns exemplos: “Olha, está querendo chover!”, “Não estou podendo tirar férias agora”. Cabe observar também que os idiomas francês e alemão não têm gerúndios. É a presença no idioma de uma sentença como: “O plantonista está atendendo amanhã na parte da tarde” que serve como “ponte” para a realização de: “O plantonista vai estar atendendo amanhã na parte da tarde”. Na verdade, ao lado de formações como o infinitivo conjugado (“para comprarmos”), a mesóclise (“dir-se-á”) e o futuro do subjuntivo (“se ele der”), a presença de gerúndios contribui para diferenciar o português de todas as outras línguas. É como Zeca Pagodinho e caipirinha; só o Brasil tem.

*Nasceu nos Estados Unidos e tem 69 anos – 35 deles vividos no Brasil. É integrante, e ex-chefe, do Departamento de lingüística Aplicada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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Saudades do carnaval: e a quarta-feira de cinzas chegou


17/02/2010 - 21:26 -

O carnaval partiu, deixando saudades em quem aproveitou os dias de férias remuneradas e rendeu-se à folia geral ou preferiu descansar em casa, na praia ou onde for.
E por falar em saudades, até hoje corre o mito de que “saudade” é uma palavra que só existe em português. Será? Nas outras línguas não existe uma palavra ou uma expressão para designar essa sensação de nostalgia, esse tal de sentir falta do que passou com um certa lembrança e desespero de quem quer voltar no tempo, se pudesse?
Sim. Existe. Em inglês não se expressa saudades exatamente com um substantivo como em português, mas com uma expressão cujo verbo to miss designa o sentimento de perda e nostalgia próprio à palavra em português: I miss you, que significa “sinto sua falta”. E em outras línguas? Bem, pelo que sei, no polonês, por exemplo, há a palavra tęsknota, com a mesma definição do substantivo em português; no romeno, a palavra dor, com o mesmo significado; e em catalão, encontramos a palavra enyorança, substantivo abstrato de significado análogo.
Bom? Sim. Isso quer dizer que outras pessoas, em outras línguas, mesmo que a palavra porte pequenas variações e nuances quanto ao significado ou uso, podem expressar esse sentimento de falta, tristeza e lembrança que às vezes nos é tão caro.
Saudade em português deriva do latim solitas, solitatis (solidão) e é um sentimento ou palavra muito presente na lírica de poetas e compositores portugueses e brasileiros, ou de língua portuguesa como um todo. Tão cantada e celebrada por nossos poetas e compositores, talvez venha daí a impressão de que essa palavra é única na língua.

Sergio Moura

sergio@reborn.com

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Quando o que é seu causa confusão


13/02/2010 - 21:22 -

Os pronomes possessivos seu, sua, seus e suas podem causar ambigüidade, uma vez que podem ser usados como segunda pessoa (quando indicam teu, tua, teus, tuas) ou terceira pessoa (dele, dela, deles, delas).

Para ilustrar um pouco dessa ambigüidade, reproduzo aqui uma historinha que li dia desses envolvendo o uso desses pronomes:

O diretor de uma empresa contrata um detetive particular para investigar o sócio.

- Siga o Pereira durante uma semana para saber o que anda fazendo.

Uma semana depois, retorna o detetive com o dever cumprido. E conta:

- O Pereira sai da sua empresa ao meio-dia, pega o seu carro, vai à sua casa almoçar, namora a sua mulher, fuma um dos seus charutos e regressa para o trabalho.

O outro comenta satisfeito:

- Ah, bom. Tudo bem, então.

Percebendo que o diretor não tinha entendido muito bem o que ele falara, o detetive pergunta:

- Posso tratá-lo por tu?

- Claro

- Então, vou contar a história de novo. O Pereira sai ao meio-dia, pega o teu carro, vai à tua casa almoçar, namora a tua mulher, fuma um dos teus charutos e volta ao trabalho.

Perceberam como o uso de seu, sua, seus,  ou suas na primeira parte da história causou ambigüidade? O detetive usou o possessivo seu como segunda pessoa, se referindo ao diretor; mas o diretor entendeu o uso de seu como terceira pessoa, causando confusão quanto ao entendimento da mensagem. Finalmente, para desfazer a ambigüidade, o detetive usa o pronome teu, que não deixa dúvidas de que o diretor estava sendo traído. Portanto, se o uso de seu & cia deixa o enunciado ambíguo, substitua por teu ou dele, conforme 0 caso:

Marcos não me disse se o seu nome constava na lista (A qual nome se refere? o nome dele ou o teu?).

Se for o nome de Marcos, a desambigüidade da sentença é desfeita usando-se dele:

Marcos não disse se o nome dele constava na lista.

Por outro lado, se o nome não for o de Marcos, mas da segunda pessoa do discurso, o teu ajuda a esclarecer a questão:

Marcos não disse se o teu nome constava na lista.

Portanto, recomenda-se um pouco de atenção no uso desses pronomes.

Até breve

Sérgio Moura

(sergio@reborn.com)

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Pedir ajuda a alguém nem sempre é preciso


07/02/2010 - 22:26 -

Pedir ajuda a alguém ou pedir a ajuda de alguém?

Na norma culta, todo cuidado é pouco. Se o ambiente de linguagem é formal, seja quanto à fala ou à escrita, então devemos usar: pedir ajuda a alguém. Entretanto, não causa maiores constrangimentos se, na linguagem do cotidiano, pedirmos a ajuda de alguém. A não ser que você seja um policial da língua dos outros, a norma culta tem sua hora e seu lugar. Até porque, um exemplo: quantos aqui falam o pronome vós previsto pela gramática normativa? Ou seja, pela norma gramatical deveríamos falar: vós necessitais de aúxílio? vós comereis peixe ou camarão? Assim, no caso anterior e nesse, um pouco de bom senso não faz mal a ninguém. Deve-se evitar, porém, desvios que agridam o bom senso, mas isso é assunto para outro post.

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Gabarito do post anterior:

Vamos testar seu conhecimento? Preencha o espaço em branco de cada sentença, escolhendo descrição ou discrição:

(a) Faça uma descrição do acontecimento tal como você viu.

Nesse caso, o acontecimento precisa ser descrito, relatado.

(b) Aquela senhora se veste com bastante discrição.

O vocábulo indica que se trata de uma senhora discreta quanto às suas vestes.

(c) O delegado pediu ao depoente que fizesse uma descrição baseada nos fatos de ontem.

Pediu-se assim que o depoente fizesse um relato dos fatos.

(d) Era preciso discrição para não fazer uma descrição constrangedora como aquela.

Ou seja, era preciso ser discreto quanto ao relato.

Havendo dúvidas, comentem ou entrem em contato.

Um abraço.

Sérgio Moura

Professor de inglês, português, redação e interpretação de textos. Doutorando em lingüística pela UFAL.

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Quase gêmeas


06/02/2010 - 0:47 -

A língua tem suas especificidades. Uma delas são pares lexicais quase idênticos (inflação/infração, tráfego/tráfico, infligir/infrigir) chamados de parônimos que por causa da semelhança costumam causar confusão quanto ao uso. Mais especificamente, parônimos são palavras ou expressões semelhantes na grafia e na pronúncia, mas diferentes no sentido. Longe de esgotar o assunto, uma vez que costuma haver uma infinidade dessas palavras no idioma, hoje quero tratar de um par delas, definindo o uso adequado de cada uma. São os vocábulos descrição e discrição.

Fez uma descrição detalhada de tudo quanto viu na viagem.

Era necessário que ele agisse com discrição.

Através dos exemplos dados, é fácil perceber a diferença entre os dois. Ainda não conseguiu distinguir um do outro? Vou então listar o significado de um.

1. Descrição – ato de descrever, relatar ou contar minuciosamente.

2. Discrição – Agir discretamente, com reserva, modéstia, sensatez.

Vamos testar seu conhecimento? Preencha o espaço em branco de cada sentença, escolhendo descrição ou discrição:

(a) Faça uma ___________ do acontecimento tal como você viu.

(b) Aquela senhora se veste com bastante __________.

(c) O delegado pediu ao depoente que fizesse uma __________ baseada nos fatos de ontem.

(d) Era preciso __________ para não fazer uma __________ constrangedora como aquela.

Confiram as respostas no próximo post. Um abraço.

Sérgio Moura

(Professor de inglês, português, redaçao e interpretação de textos. Doutorando em lingüística pela UFAL)

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Quando menos é mais


03/02/2010 - 1:36 -

Olá pessoal

Dou início ao meu primeiro post. Peço desculpas pela demora, mas o importante é começar. Atendendo ao convite de um amigo pessoal, tenho certeza absoluta de que gostarão do panorama geral sobre a língua pátria, onde a veremos em seus pequenos detalhes.

Ops! Será que comecei errado? Vocês conseguem perceber o que falta – ou o que sobra em meu enunciado acima?

Vamos refazer o enunciado novamente?

Olá pessoal

Dou início ao meu primeiro post. Peço desculpas pela demora, mas o importante é começar. Atendendo ao convite de um amigo, tenho certeza de que gostarão do panorama sobre a língua pátria, onde a veremos em seus detalhes.

Perceberam a diferença? Eu disse o mesmo, com mais brevidade. O que faltou no primeiro enunciado? Um pouco de concisão. Ou o que sobrou? Um pouco de blá, blá, blá, o nome popular da redundância – que consiste em certas informações desnecessárias. Enfim, é quando em vez de dizer mais com menos, não o fazemos. Mas vamos rever no enunciado o que nos interessa.

(1) “Atendendo ao convite de um amigo pessoal…”

Todo amigo é pessoal. Vocês já viram algum amigo impessoal?

(2) “… tenho certeza absoluta de que vocês irão gostar do panorama geral da língua pátria.”

Falando seriamente, não existe certeza que não seja absoluta. Ou se está certo ou não. Assim como não existe panorama geral. O vocábulo panorama já indicia a generalidade que se quer enunciar. Panorama é o todo do que se quer ver, já que não existe panorama por partes.

(3) “Aqui a veremos em seus pequenos detalhes.”

Mas será que já viram algo em grandes detalhes? Se alguém já viu, pode estar equivocado. Detalhes indicam coisas mínimas, as pequenas partes de um todo. Logo, o adjetivo pequenos é redundante.

Excedemos nas palavras por falta de atenção ao que escrevemos. Ou ainda temos alguns vícios que tendem à não concisão porque parece que duvidamos da capacidade do leitor de entender o texto. Bem, nem sempre é fácil evitar a redundância. Exige atenção e prática. A última pegadinha? Quando perguntei: “Vamos refazer o enunciado novamente?” O que há de redundante na pergunta? Prestando atenção, a resposta é fácil, por isso a deixo para vocês. Um abraço.

Sérgio Moura

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