Durante os anos 60, no perÃodo mais ferrenho da ditatura militar, o jovem Carlos Alberto Libânio Christo, um jovem frade dominicano, esteve envolvido com as lutas revolucionárias de seu tempo. Militante de esquerda e simpatizante da luta armada, ele se dividia entre os estudos de filosofia e o jornalismo. Nascido em Belo Horizonte, em 1944, e nacionalmente conhecido como Frei Betto, tornou-se frade dominicano e um dos escritores mais consagrados do paÃs. Além de seu amor pelas artes e pelos ideais socialistas cristãos – como um Tolstoi da nossa contemporaneidade -, Frei Betto tem outra grande paixão: o vinho.
Durante a década de 1960, ele morou no Rio Grande do Sul e, nessa região, descobriu o gosto pela bebida. “Não eram marcas famosas, e sim produtos artesanais da colônia italiana, feitos em casa, porém de boa qualidade”, conta o escritor. Em meados dos anos 70, de volta a Minas Gerais, conheceu o historiador TarquÃnio Barbosa de Oliveira que, na Fazenda do Manso, em Ouro Preto, mantinha uma excelente adega. “Ali passei temporadas escrevendo, inclusive meu livro de contos O Aquário Negro e aprendendo as razões das alegrias de Baco”, lembra com satisfação.
Durante o regime militar, o vinho teve um lugar especial na sua vida. A luta de Frei Betto contra a repressão resultou em intervenções dos censores e temporadas na prisão. Não se permitia a entrada de vinho no DOPS de Porto Alegre e no PresÃdio Tiradentes, em São Paulo, onde ele foi mantido como preso polÃtico. Para degustar a bebida, foi obrigado a contrabandeá-la. “Conseguimos que entrasse em vidros de remédio, e fizemos celebrações eucarÃsticas participadas por cristãos, judeus e comunistas”. Uma prova de que o vinho consegue reunir pessoas de diferentes religiões e filosofias de vida. O escritor não tem uma adega particular, pois mora em um convento dominicano, em São Paulo. No entanto, em dias nos quais há festas de aniversário ou comemorações religiosas, o vinho vem sempre em primeiro lugar. “Em geral, presentes de amigos, pois não temos recursos para nos dar ao luxo de comprar vinhos de alta qualidade. Também sempre prefiro o vinho em jantares na casa de amigos”, ressalta.
O religioso tem guardado na memória quatro vinhos inesquecÃveis, provados em ocasiões especiais de sua vida. “Lembro de um “Amarone” clássico da Valpolicella, que há pouco bebi em Lecco, na Itália; o “Douro Reserva Especial 1986″, da Casa Ferreirinha, num jantar em Lisboa; o “Château Mouton Rothschild”, do Médoc, que me foi servido num jantar em Aixen- Provence; e os tintos do Piemonte, na Itália”. O escritor ressalta sua preferência pelos italianos, mais especificamente da região de Piemonte, mas também aprecia vinhos de outros paÃses, inclusive os do Novo Mundo. “Aprecio sempre alguns brasileiros e argentinos, e gosto também do Porto como aperitivo”.
O vinho não é sua única paixão. Ele também gosta de comer bem, adora cozinhar e até já escreveu um livro de gastronomia: Comer Como um Frade – Divinas Receitas para Quem Sabe por que Temos um Céu na Boca (José Olympio, 152 págs., R$ 29). Para o escritor, a relação entre vinho e gastronomia é fundamental. Gosta de preparar um “Camarão à Provençal” que, segundo ele, exige um “Catarina”, de Pinhal Novo Portugal, semelhante a ouro lÃquido. Conforme Frei Betto, o consumo de vinhos no Brasil tende a crescer e fazer parte da cultura gastronômica, enriquecendo ainda mais a diversidade de sabores da nossa culinária. Também observa a importância dos benefÃcios para a saúde do consumo de vinho: “Estamos produzindo excelentes vinhos e as pesquisas comprovam que esta é a bebida que, depois da água e do leite materno, mais proveito traz à saúde, evitando o infarto e outras enfermidades”. A respeito dos vinhos produzidos no Brasil, ele destaca as produtoras do sul do paÃs. “Gosto muito dos tintos da VinÃcola Aurora, dos produtos da Casa Valduga e de outros que só podem ser adquiridos no Rio Grande do Sul, devido à pequena produção”.
A associação entre vinho e Igreja está presente desde os primórdios do cristianismo. A bebida sempre foi utilizada durante as missas católicas. “O vinho é a bebida alcoólica mais antiga que se conhece e está presente da primeira à última página da BÃblia. Jesus utiliza vinho em suas refeições, embora em sua época, na Palestina do século I, já se conhecessem a cerveja e a aguardente de tâmara, como descobri ao pesquisar para a biografia romanceada de Jesus que escrevi”, diz Frei Betto. “Nesse sentido, o vinho é uma bebida sagrada, pois nós católicos acreditamos que ele se torna, na missa, o próprio sangue de Jesus”, conclui o religioso.
É por isso que, de acordo com os preceitos cristãos, o vinho é uma bebida sagrada que surgiu para aproximar as pessoas, independentemente das religiões. E, para Frei Betto, é tão importante beber vinho que nunca se pode beber sozinho. “O vinho é uma bebida litúrgica. Não pode ser tomada a sós, à s 10 da manhã ou à s 3 da tarde. Exige presença amiga, uma boa refeição e paz de espÃrito. É celebração. É comunhão”. Celebremos a vida!!!
Autor do texto: Fernando Roveri
File de Badejo do Frei Betto
Essa receita é do livro do Frei Betto, “Comer como um frade”, e como eles comem bem!!!
Ingredientes
800g de filé de badejo
1 cebola grande
1 colher (café) de alho moÃdo
3 copos de vinho tinto
2 tomates
1 pimentão vermelho
2 gotas de molho de pimenta
1 raminho de alecrim, salsa e cebolinha
Azeite
Modo de fazer
Tempere o peixe com limão e sal.
Numa panela refogue a cebola bem picada com o alho moÃdo. Junte os 3 copos de vinho, adicione os tomates picados sem pele e sem sementes, o pimentão fatiado e 2 gotas de molho de pimenta e o sal. Cozinhe em fogo brando até o molho ficar espesso. Arrume o peixe numa assadeira coloque o alecrim por cima e derrame sobre o peixe o molho, deixe descansar por cerca de 1 hora para impregnar o tempero.
Leve ao forno, em temperatura média por 30 minutos.
Quando tirar do forno salpique salsinha e cebolinha.
Sirva com arroz ou pirão de espinafre.

