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Cem anos sem solidão

07/02/2010 - 10:56 -
Oscar Niemeyer: 103 anos em plena atividade profissional (foto: divulgação)

Oscar Niemeyer: 103 anos em plena atividade profissional (foto: divulgação)

GISELLE ARAÚJO

Enquanto a ciência busca os caminhos para a longevidade, mais de 11 mil idosos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, desafiaram o tempo e alcançaram a indelével marca dos 100 anos de vida no Brasil. Entre os heróis da saúde e resistência, grandes personalidades são fonte inspiradora de força e sabedoria para muitos jovens que esperam chegar à velhice com saúde e disposição elevadas à décima potência.

Em atividade, Oscar Niemeyer completou 102 anos há dois meses. “Este assunto sobre idade não é com Oscar. Ele não gosta de falar sobre isso”, informou a mulher do arquiteto, Vera Niemeyer.

Em setembro do ano passado, a Bahia entrou em festa, celebrando os 102 anos de Dona Canô, que até hoje tem autoridade, amor e lucidez para, mesmo publicamente, “puxar a orelha” dos filhos, entre eles Caetano Veloso e Maria Bethânia.

No último dia 25, outra matriarca ilustre completou dez décadas: Maria Amélia Alvim Buarque de Holanda. Mãe de sete filhos, entre eles o cantor e compositor Chico Buarque, dona Maria Amélia sempre está na companhia de um deles. Ganhou de um sobrinho um quadro que retrata sua imagem e decora a parede da sala de seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. Uma homenagem em que se lê: “Memélia faz 100″.

Em Belo Horizonte, 2009 foi um ano especial para a família Mares Guia. A matriarca Judith Pinto Coelho dos Mares Guia completou 100 anos em dezembro. Decorado com bonequinhos representando seus oito filhos, 26 netos e 30 bisnetos, o bolo de aniversário ficou rodeado de familiares e amigos que foram cantar “parabéns pra você” em homenagem ao centenário de dona Judith.

“Só pedi para mudar a letra da música. Em vez de ‘muitos anos de vida’ que cantassem ‘muitas alegrias, muita saúde’ qualquer coisa, mas que ninguém viesse desejar ‘que essa data se repita por muitos e muitos anos’”, brinca dona Judith, que presenteou os convidados da festa com um livro de boas lembranças.

Forte e saudável, ela acorda “cantando com o passarinho” que enfeita sua sala, estuda música, toca piano e lê muito. Aos 96 anos decidiu aprender espanhol para ler a obra do escritor chileno Pablo Neruda (1904-1973) “no original”. Fala sobre o passado revelando a memória poderosa. “Deus me livre envelhecer sem lembranças”, afirma ela, que acha difícil expressar os desígnios de uma vida centenária. “Você não tem ideia do que é viver 100 anos. É impossível explicar”.

Rainha
Outra personalidade centenária da capital é dona Maria Elizabete Mendes. Aos 106 anos, dona Bela perpetua a tradição do congado no Estado como a Rainha Conga de Minas Gerais.

Independente e saudável, dona Bela tem muita história para contar e quase nada do que reclamar. “Só sinto uma dor nas pernas quando ando muito. Por isso, recusei um convite para participar da festa de São Sebastião em Ouro Preto”.

Reconhecida e querida na região Noroeste, onde mora “há tanto tempo” que perdeu a conta, dona Bela desce a ladeira de casa até o trabalho sozinha. Para abrir as portas do seu bazar na rua Mariana, no bairro Santo André, conta com a ajuda dos freqüentadores e amigos do bar que fica ao lado, verdadeiros protetores da vizinha centenária, que também gosta de uma cerveja gelada. “Às vezes, tomo uma cervejinha. Já tomei muito Velho Barreiro (cachaça), deixava uma garrafa debaixo da pia. Agora é só cerveja”.

Mãe de 16 filhos, sendo 15 de criação, dona Bela diz que não tem nenhum segredo para a longevidade. “Vou vivendo, é a vontade de Deus”, conclui. Para os interessados em conhecer sua história, ela manda um recado: “Quem quiser saber alguma coisa de mim pode assistir ao documentário que a Andréia fez. Não quero mais dar entrevista, já estou cansada”.

No documentário “Rainha Bela”, a diretora Andreia Duarte revela a vida da benzedeira, rezadeira, congadeira e fundadora da Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e São João Batista, criada em 1954 na capital.

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