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Crise na Grécia

segunda-feira, maio 10th, 2010

A dinâmica dos mercados capitalistas não consegue debelar o fantasma dos ciclos econômicos, marcado por fases de grande turbulência, às vezes prolongada, às vezes de curta duração, intercalando fases de prosperidade e estabilidade econômica. A crise sempre surge em um país e a preocupação dos demais é identificar previamente o grau de contaminação, de modo a se imunizar ou minimizar seus efeitos sobre a economia nacional.

A preocupação é que elas se tornem cada vez mais freqüentes, não dando tempo à recuperação das economias mais afetadas. Analisemos, pois, a crise da Grécia. 

Origem do problema: um nível de gasto público acima da receita tributária (arrecadação). 

Consequências: a) uma elevação da dívida pública, com reflexos negativos sobre a credibilidade da Grécia e de outros países da União Européia (EU) aos olhos de investidores internacionais; b) uma elevação da taxa de juros para estimular a venda de títulos da dívida pública, de modo a compensar o risco que o país representa aos investidores internacionais. Isso eleva o custo de produção no mercado interno.  

Espanha e Portugal são vistos como a bola da vez, com o agravante de que a Espanha tem um PIB muito maior e um grau de endividamento de mesma proporção (acima de 13% do PIB). As expectativas em torno de uma possível expansão da crise têm colocado em xeque a solidez da União Européia que sempre prezou pelo cumprimento de metas a serem alcançadas pelos países signatários. Uma delas é manter um grau de endividamento de até 3% do PIB. 

A dívida da Grécia está em torno de Eur 300 bilhões, o que corresponde a quase R$ 700 bilhões (taxa de R$ 2,33 por euro, em 07/05/2010). O valor correspondente a 2010 é de Eur 50,0. O plano de ajuda à Grécia foi estimado em Eur 110 bilhões e conta com a ajuda do FMI e da União Européia, através de seu Banco Central. Enquanto membro do FMI, O Brasil participará dessa ajuda, utilizando parte das reservas internacionais, hoje, em US$ 245 bilhões. A ajuda é de US$ 286 milhões = R$ 523,4 milhões = Eur 185 (cotação de 07/05/2010).  

Esse recurso não  é uma doação, mas um empréstimo. Após a 2ª guerra mundial, foi criado pelo FMI o Direito Especial de Saque (DES), com o objetivo de criar um fundo internacional para conceder ajuda financeira a países em dificuldade, de modo a evitar instabilidades econômicas pontuais que pudessem comprometer a estabilidade econômica mundial. Cada país tem direito a um saque correspondente à sua contribuição ao referido fundo. Se a necessidade de saque for superior a seu direito, esse país paga uma taxa de juros, é o caso da Grécia. No caso do Brasil, está ocorrendo o inverso. Ele está contribuído com a Grécia, à conta do Direito Especial de Saque, sendo remunerado por isso. 

Quando um país usa o DES acima da cota que lhe é de direito, aceita a condição de intervenção do MFI no ajuste de sua economia. No caso da Grécia, o ajuste inclui: alteração nas regras da previdência, com elevação da idade para aposentadoria; congelamento de salários de servidores públicos, elevação da carga tributária, entre outras medidas. O objetivo do pacote é reduzir o déficit público, controlando gastos e elevando a arrecadação tributária. A população, insatisfeita por ser compulsoriamente utilizada para pagar essa fatura, tem reagido com protestos ao referido pacote. 

Certamente, essa crise ainda é reflexo da crise financeira que eclodiu no mercado financeiro americano em agosto/2008, deixando a economia de alguns países muito vulnerável. Mais ainda, isso pode comprometer a solidez da União Européia, maior bloco econômico do mundo, considerando que Portugal e Espanha, também, mantêm uma taxa de endividamento muito alta em relação ao PIB. O problema, porém, não é o tamanho da dívida, mas a capacidade ou não de honrá-la.  

O que todos querem saber é: até que ponto essa crise pode afetar a economia brasileira? Depende da resposta da Grécia à ajuda financeira que está sendo providenciada. Se a crise for sanada nos próximos dias ou semanas, com reflexos sobre as expectativas dos agentes econômicos, respingos sobre a economia brasileira serão evitados. A incógnita é: como o mercado irá reagir? Por enquanto, teremos que aguardar cenas dos próximos capítulos, torcendo por um desfecho tranqüilo.

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