Crise na Grécia
A dinâmica dos mercados capitalistas não consegue debelar o fantasma dos ciclos econômicos, marcado por fases de grande turbulência, à s vezes prolongada, à s vezes de curta duração, intercalando fases de prosperidade e estabilidade econômica. A crise sempre surge em um paÃs e a preocupação dos demais é identificar previamente o grau de contaminação, de modo a se imunizar ou minimizar seus efeitos sobre a economia nacional.
A preocupação é que elas se tornem cada vez mais freqüentes, não dando tempo à recuperação das economias mais afetadas. Analisemos, pois, a crise da Grécia.Â
Origem do problema: um nÃvel de gasto público acima da receita tributária (arrecadação).Â
Consequências: a) uma elevação da dÃvida pública, com reflexos negativos sobre a credibilidade da Grécia e de outros paÃses da União Européia (EU) aos olhos de investidores internacionais; b) uma elevação da taxa de juros para estimular a venda de tÃtulos da dÃvida pública, de modo a compensar o risco que o paÃs representa aos investidores internacionais. Isso eleva o custo de produção no mercado interno. Â
Espanha e Portugal são vistos como a bola da vez, com o agravante de que a Espanha tem um PIB muito maior e um grau de endividamento de mesma proporção (acima de 13% do PIB). As expectativas em torno de uma possÃvel expansão da crise têm colocado em xeque a solidez da União Européia que sempre prezou pelo cumprimento de metas a serem alcançadas pelos paÃses signatários. Uma delas é manter um grau de endividamento de até 3% do PIB.Â
A dÃvida da Grécia está em torno de Eur 300 bilhões, o que corresponde a quase R$ 700 bilhões (taxa de R$ 2,33 por euro, em 07/05/2010). O valor correspondente a 2010 é de Eur 50,0. O plano de ajuda à Grécia foi estimado em Eur 110 bilhões e conta com a ajuda do FMI e da União Européia, através de seu Banco Central. Enquanto membro do FMI, O Brasil participará dessa ajuda, utilizando parte das reservas internacionais, hoje, em US$ 245 bilhões. A ajuda é de US$ 286 milhões = R$ 523,4 milhões = Eur 185 (cotação de 07/05/2010). Â
Esse recurso não é uma doação, mas um empréstimo. Após a 2ª guerra mundial, foi criado pelo FMI o Direito Especial de Saque (DES), com o objetivo de criar um fundo internacional para conceder ajuda financeira a paÃses em dificuldade, de modo a evitar instabilidades econômicas pontuais que pudessem comprometer a estabilidade econômica mundial. Cada paÃs tem direito a um saque correspondente à sua contribuição ao referido fundo. Se a necessidade de saque for superior a seu direito, esse paÃs paga uma taxa de juros, é o caso da Grécia. No caso do Brasil, está ocorrendo o inverso. Ele está contribuÃdo com a Grécia, à conta do Direito Especial de Saque, sendo remunerado por isso.Â
Quando um paÃs usa o DES acima da cota que lhe é de direito, aceita a condição de intervenção do MFI no ajuste de sua economia. No caso da Grécia, o ajuste inclui: alteração nas regras da previdência, com elevação da idade para aposentadoria; congelamento de salários de servidores públicos, elevação da carga tributária, entre outras medidas. O objetivo do pacote é reduzir o déficit público, controlando gastos e elevando a arrecadação tributária. A população, insatisfeita por ser compulsoriamente utilizada para pagar essa fatura, tem reagido com protestos ao referido pacote.Â
Certamente, essa crise ainda é reflexo da crise financeira que eclodiu no mercado financeiro americano em agosto/2008, deixando a economia de alguns paÃses muito vulnerável. Mais ainda, isso pode comprometer a solidez da União Européia, maior bloco econômico do mundo, considerando que Portugal e Espanha, também, mantêm uma taxa de endividamento muito alta em relação ao PIB. O problema, porém, não é o tamanho da dÃvida, mas a capacidade ou não de honrá-la. Â
O que todos querem saber é: até que ponto essa crise pode afetar a economia brasileira? Depende da resposta da Grécia à ajuda financeira que está sendo providenciada. Se a crise for sanada nos próximos dias ou semanas, com reflexos sobre as expectativas dos agentes econômicos, respingos sobre a economia brasileira serão evitados. A incógnita é: como o mercado irá reagir? Por enquanto, teremos que aguardar cenas dos próximos capÃtulos, torcendo por um desfecho tranqüilo.
Malthus e a profecia das catástrofes
Thomas R. Malthus (1766-1834), economista inglês, publicou em 1798 sua mais célebre obra – “Ensaio sobre o princÃpio da populaçãoâ€. Nela, profetizava catástrofes como epidemias, fome e guerras, mecanismos naturais de controle populacional, quando chegasse a extremos a desproporção entre a oferta e a demanda por alimentos. Segundo ele, a população crescia em progressão geométrica frente ao crescimento em progressão aritmética da oferta de alimentos, o que gerava desequilÃbrios macroeconômicos.
Em sua concepção, devia-se estimular o controle da taxa de natalidade para se evitar tais desequilÃbrios. Foi contestado, porém, por outros economistas, a exemplo de Marx e Fourier, por ter ignorado a tecnologia utilizada na atividade agrÃcola com vistas à ampliação da oferta de alimentos. Estes estavam certos em relação à oferta de alimentos. Embora as novas tecnologias não resolvessem o problema da fome, sem sombra de dúvida, resolveria o problema da oferta de alimentos. Hoje, as pessoas passam fome em razão do modo como a riqueza é apropriada (concentração de renda) e não por incapacidade de se produzir mais alimentos.
Malthus, no entanto, não estava completamente errado: o crescimento populacional provocaria, sim, um desequilÃbrio de grande monta, decorrente do crescimento do consumo agregado dos mais diversos bens e serviços, muitos dos quais só seriam inventados um ou dois séculos depois. O desequilÃbrio, porém, está na produção extraordinária de lixo, em todos os estados (sólido, lÃquido e gasoso), o que tem provocado o esgotamento da natureza em processá-lo.
O que cresce em progressão geométrica é o impacto ambiental produzido, diariamente, em toda parte de mundo. E quanto mais elevado nosso grau de ignorância em relação à fragilidade da natureza frente às agressões por nós impostas, maior o preço dessa fatura. A natureza está se mostrando intolerante. Sua fragilidade se manifesta de um modo selvagem, como um bicho acuado que avança sobre seu agressor para dele se defender.
As catástrofes (maremotos, enchentes, secas, derretimento de geleiras, aquecimento global etc.) têm ocorrido em intervalos cada vez menores e em vários pontos geográficos. Já não identificamos claramente as estações do ano; a temperatura torna-se mais elevada a cada ano, com ondas de calor insuportáveis; enchentes têm devastado várias cidades com muitas vÃtimas fatais; secas prolongadas têm comprometido a produção de alimentos.
Tudo isso exige de nós uma reflexão sobre nossa postura em relação à natureza: um pouco de bom senso, racionalidade e respeito são muito bem-vindos. É importante ressaltar – o problema não é apenas polÃtico, precisa ser analisado à luz de outras dimensões (cultural, econômica, social, ambiental). A natureza já deu seu recado: ou a respeitamos ou somos engolidos por ela, literalmente. Investimos muito em tecnologia voltada à percepção de fenômenos climáticos, mas a natureza é mais rápida e nos surpreende sempre. Cada um precisa fazer sua parte ou se preparar para pagar o preço da próxima fatura.
Acende-se uma luz amarela
A selic, taxa de juros que remunera os tÃtulos da dÃvida pública se mantém, desde 22/07/2009, no ponto mais baixo nos últimos anos, com meta de 8,75%a.a., reafirmada na última reunião do Comitê de PolÃtica Monetária (COPOM), em 16/03/2010. São oito meses com uma taxa real de juros entre 4,2 e 4,5%a.a., considerando uma inflação que oscila entre 4,2 e 4,5%a.a..
A manutenção dessa taxa de juros, associada a um volume de crédito R$ 1,42 trilhão, utilizado entre fev/09 e fev/10, e a uma redução da carga tributária (mais de R$ 24 bilhões no mesmo perÃodo), estimularam a atividade econômica, com redução da taxa de desemprego, elevação do rendimento médio (1,1%), da massa salarial e do nÃvel de utilização da capacidade instalada na indústria de transformação (83,1%, segundo a FGV, ou 6,1 ponto percentual acima do registrado em fev/09). São visÃveis os sinais de recuperação na geração de vagas de emprego no setor formal, com destaque para a indústria da construção civil, acompanhada pelo setor de serviços.
Tal combinação de fatores foi responsável pelo aumento da demanda doméstica, o que possibilitou ao governo federal dar um drible nos efeitos da crise internacional. Em compensação, com o consumo em ritmo acelerado, a inflação (IPCA/IBGE) vem registrando variações que começam a preocupar: o IPCA de dez/09 foi de 0,37%a.m., em jan/10 – 0,75% e em fevereiro – 0,78%, com uma inflação acumulada de 1,54% no primeiro bimestre do ano. Acende-se uma luz amarela, sendo esperada uma elevação da selic na próxima reunião do COPOM, a menos que inflação recue em março.
O governo se depara, novamente, com o tradeoff entre desemprego e inflação. Fez um enorme esforço para manter o ritmo de atividade da economia, mas o estÃmulo ao consumo, associado a uma elevação de preços de algumas commodities no mercado internacional têm criado uma pressão inflacionária. Se os juros subirem em resposta a uma elevação da inflação, a estimativa de crescimento de 5,2% do PIB para 2010 terá que ser revista, apesar dos investimentos do governo federal previstos para este ano. Vamos torcer para que a economia brasileira, para o bem de todos, mantenha-se em relativo equilÃbrio.
A oscilação do emprego
A taxa de desemprego no Brasil normalmente cai bastante no último bimestre do ano e volta a subir a partir de janeiro, quando se tem o fim do ciclo de empregos temporários nos mais diversos setores, especialmente indústria de transformação, serviços e comércio. Essa tendência deve seguir até março ou abril.
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No último trimestre do ano ocorrem dois importantes fenômenos: de um lado, os empresários começam a contratar pessoas para a expansão da produção, com base na expectativa de elevação das vendas em novembro e dezembro; de outro, os consumidores aproveitam o clima de festa e renovação para fazer confraternizações, renovar guarda-roupa, construir, reformar e redecorar casa, trocar de carro, viajar e uma infinidade de outras coisas que não daria pra listar aqui. O 13º, para alguns, não dá nem pra começar a festa.
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No inÃcio do ano ocorre outro fenômeno: encerram-se os contratos temporários para uns e cresce o volume de despesas para outros tanto pelos parcelamentos feitos no último bimestre do ano anterior quanto pelas inevitáveis despesas extras (IPTU, matrÃcula escolar, material escolar, anuidades de conselhos regionais, anuidades de cartões de crédito, IPVA, seguro do carro etc.). Esse comprometimento da renda com tais despesas força boa parte da população e pisar no freio do consumo, com impactos diretos sobre o comércio e o setor de serviços, chegando, por tabela, à indústria de transformação.
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Tais fenômenos ocorrem em todo o paÃs, embora a taxa de desemprego publicada pelo IBGE contemple apenas as regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.
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Em Alagoas, o CAGED, órgão que registra as demissões e admissões no âmbito do emprego formal, registrou em jan/2010 um saldo lÃquido de 913 demissões (7.131 demissões e 6.218 admissões). Porém, nos últimos 12 meses, registrou um saldo lÃquido de 8.092 admissões. A indústria de transformação foi o setor que registrou tanto no último mês quanto nos últimos 12 meses o maior fluxo de admissão/demissão, com resultado negativo em ambos os casos.
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A indústria da construção civil (ICC), no entanto, é a que tem dado maior contribuição ao saldo positivo de novas contratações, seguida pelo setor de serviços e pelo comércio. Passado o carnaval, tem-se uma fase de desaceleração do consumo até o mercado consumidor livrar-se, pouco a pouco, dos financiamentos de curto prazo e das despesas extras previstas para esse primeiro semestre ou quadrimestre. Para quem não antecipou consumo, conseguiu poupar e está com seu orçamento organizado, é possÃvel até aproveitar essa fase de promoções que deve seguir até março. Mas é bom ficar atento para comprar aquilo que você nunca vai usar. Um pouco de racionalidade e bom senso não faz mal a ninguém.
Desoneração fiscal
O Supervisor Nacional do Imposto de Renda, Joaquim Adir, anunciou hoje, 10/02/2010, mais uma boa nova sobre a declaração de Imposto de Renda de pessoa fÃsica, exercÃcio 2010, ano de declaração 2011: até 2009, estava isento de tributação do referido imposto quem auferisse renda até o limite de R$ 17.215,08. A partir de 2010, estará livre de tributação renda até o limite de R$ 22.487,25, uma diferença de R$ 5.272,17.
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A arrecadação de I.R. em 2009 foi menor que em 2008 R$ 7,85 bilhões. É possÃvel que com a nova medida essa arrecadação caia um pouco mais. A preços de dez/09, a queda da arrecadação dos tributos federais em 2009, comparada a 2008 foi de R$ 21,5 bilhões ou 3,05%. Desses R$ 21,5 bilhões, R$ 7,85 bi correspondem à queda de arrecadação do I.R. e R$ 6,3 bi ao IPI.
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Na prática, o que isto significa?
De toda renda gerada no paÃs, o governo se apropriou de uma fatia menor, desonerando a atividade produtiva e elevando a renda lÃquida disponÃvel para consumo. O resultado pode ser visto no volume de vendas nos mais diversos setores, a exemplo dos setores ligados à construção civil, à indústria automobilÃstica e de eletroeletrônicos, entre outros de bens e serviços.
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Com a contÃnua queda da taxa de juros e a bem-sucedida redução de carga tributária, o governo federal conseguiu promover uma economia mais dinâmica, com impactos diretos sobre os investimentos privados, a geração de emprego e elevação da capacidade de consumo da população, particularmente a de baixa renda.
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Ora, se com tão pouco (R$ 21,5 bilhões) já foi possÃvel fazer tanto, imagine o que aconteceria ao paÃs se conseguÃssemos eliminar de vez o vÃcio da corrupção. Agora imagine esse passo associado a um bem planejado investimento de longo prazo na educação. Certamente nos colocariam na vanguarda entre os paÃses que têm buscado superar a miséria e a desigualdade sociais. AÃ, sim, passarÃamos a conhecer o que é, de fato, DESENVOLVIMENTO.
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Enquanto isso não acontece, comemore as pequenas vitórias e tenham um bom e alegre carnaval, sem esquecer que estamos em um ano de eleição e somos atores reais nesse grande teatro da vida. Um ato errado e lá se vai a possibilidade de um paÃs ou estado melhor.
Um espetáculo de sons, cores e muita alegria
Eu poderia estar falando da taxa de câmbio, da taxa de juros, do retorno das antigas taxas de IPI sobre eletrodomésticos, mas eu quero hoje falar do PINTO DA MADRUGADA que comemora 10 anos em efusivo clima de alegria e descontração, com muitos tons, caras e cores. Uma festa democrática que reúne todas as gerações, de crenças diversas e de todas as classes sociais. Definitivamente, esse PINTO faz milagre. Tem gente que vem de bem perto (é só descer o elevador e atravessar a rua), outros, de bem longe (cidades, estados ou paÃses próximos ou distantes). O fato é que a festa não seria a mesma sem essa composição.
Os números não são precisos, mas é um mercado consumidor expressivo que faz circular um enorme volume de renda tanto na economia formal quanto informal, aquecendo o mercado local e possibilitando a pessoas que estão fora do mercado de trabalho formal a apropriação de parte dessa renda através de seu trabalho. Certamente, os empreendedores de maior porte levam uma fatia maior desse bolo, com o incremento de suas já elevadas margens de lucro, mas o fato é que quando o bolo cresce, pode ser distribuÃdo com um número maior de pessoas.
Aproveito a oportunidade para parabenizar os organizadores de todas as prévias carnavalescas do Estado, inclusive as realizadas no interior do Estado que, a despeito da falta de recursos, têm produzido, a cada ano, festas glamourosas. Ao mesmo tempo, clamar por uma atenção especial de nossos chefes do Poder Executivo, nas duas esferas de governo, para o assunto em tela. Acolham todas as manifestações culturais de nosso Estado. Se já reconhecem o turismo como uma possibilidade real de crescimento econômico, com impactos diretos sobre geração de emprego/renda e arrecadação, não descuidem das manifestações culturais, importante sÃmbolo da identidade de um povo.
Estou chegando
Caros internautas, leitores do “tudo globalâ€, é com imenso prazer que aceitamos o convite de Luiz Pompe para começarmos a escrever neste portal, na perspectiva de trocarmos idéias sobre assuntos relevantes da conjuntura econômica internacional, nacional e local.
Sinto-me acolhida por toda equipe e desejo atender à s expectativas desse público leitor, decerto, exigente e dotado de grande capacidade crÃtica. Espero que nossos diálogos sejam produtivos, na proporção de nossas inquietações e alimentados por uma dinâmica macroeconômica cada dia mais complexa.
Deixe seu recado e sugestões de temas a serem abordados neste blog que serão muito bem recebidos.
Atenciosamente,
Luciana Caetano da Silva
Economista, CORECON-AL nº 714




