Difícil transitar por eventos literários e não cruzar com ela. Maria Luiza Russo (foto), diretora da Biblioteca Pública do Estado de Alagoas, é uma carioca elétrica, desses tipos que fazem as coisas acontecer por onde passam. A novidade mais recente é o projeto de um livro que o novelista e teatrólogo Flávio Cavalcante está escrevendo sobre o trabalho dela. Detalhe: Ele no Rio de Janeiro, ela em Maceió, os dois se conheceram na rede e o livro, ainda em fase de produção, é escrito via MSN. Livros escritos pela internet, projetos de incentivo à leitura, literatura alagoana e os caminhos do livro como patrimônio cultural, seja de modo impresso ou virtual, foram temas dessa entrevista, onde Maria Luiza falou sobre suas produções, autores e descobertas garimpadas na web.
*Você transita em dois universos literários: na Biblioteca, entre milhares de títulos e na internet, sempre conectada ao novo, descobrindo e navegando por comunidades virtuais da rede. O que há de comum, contraditório e fascinante nestes dois mundos?
Maria Luiza: Tudo é muito fascinante, até o contraditório e o comum. Bem, esse mundo não para, é preciso estar “antenado” 24horas, quase tudo já gira conectado com muitas inovações. É uma ferramenta interativa. O que percebo são muitos jovens antenados e produzindo, comandando ações. É um espaço aberto pra se aprofundar em diversos assuntos. Socializa as pessoas e a informação de maneira geral. É um ambiente de total aprendizagem.
*Livro impresso e internet, mundos que se completam ou em cada um a literatura pode revelar possibilidades criativas diversas?
Maria Luiza: Acredito nessas duas possibilidades. Uma nunca vai anular a outra. Como diz Denis de Moraes: “Impossível abandonar o contato suave com a superfície lisa do livro, a capa fosca ou brilhante, as folhas brancas encadernadas, a lombada, os marcadores” Assim, acredito que a Internet é mais um meio. Não podemos negar os leitores de “telinha”.
*Existem boas produções na literatura virtual? Tem gente nova que te causa impacto?
Maria Luiza: Sim existem. O livro impresso, pronto, não é mais o único elo do mundo das letras. Os materiais literários se proliferam pela internet, e cada vez mais cresce o usuário, o leitor desse meio tão veloz e voraz.
*Em Alagoas, quem você destacaria?
Maria Luiza: Todos que se aventuram e se integram ao meio virtual, usando esse mundo das letras como estratégia para ser seu próprio editor e distribuidor.
*E por falar em Alagoas, como veio parar por aqui?
Maria Luiza: Por opção. Escolhi Alagoas pra viver numa nova fase de minha vida. Não foi difícil me adaptar, pois tenho dois irmãos que já moram aqui. Tenho grandes oportunidades profissionais nessa Linda Sereia, Maceió. Sou apaixonada pela orla, pela arte e cultura alagoana que me possibilitam amar e viver com a certeza de dias promissores.
*Você participa do grupo Contadores de Histórias da Carochinha. Também escreve? Já publicou ou sonha publicar livros?
Maria Luiza: Sim. Estou iniciando na carreira literária. Tenho poemas publicados no Recanto das Letras, um espaço idealizado para a publicação online de conteúdos de natureza poética, artística, informativa e educacional de nossa comunidade e de outros autores participantes. Quanto ao livro, estou em fase de produção de um livro escrito todo online, pelo MSN, com o Flávio Cavalcante, escritor alagoano, autor teatral, de minisséries e novelas. Pretendemos publicar ainda esse ano.
*Você já conhecia o trabalho do Flávio? Como surgiu essa parceria?
Maria Luiza: Não. Conheci Flávio no meu caminho, navegando na net, no Orkut de Pedro Onofre. Estava com a intenção de descobrir talentos alagoanos em Orkut de amigos aqui de Alagoas. Assim, pedi que ele me adicionasse. Aos poucos fomos nos conhecendo e ele me apresentando a seus trabalhos e eu me encantando com esse talento alagoano tão longe da Terra. Existem muitas conquistas nesse meio virtual e a nossa aconteceu profissionalmente e logo passamos para um ambiente mais rápido e com respostas imediatas que foi o MSN. Ele começou a entender a minha atuação como profissional e de repente toda nossa conversa já virava livro. Estamos há meses nessa produção, com encontros marcados a noite ou madrugada, depende da disponibilidade de cada um. Flavio é escritor, novelista, teatrólogo, ator, poeta, roteirista e acima de tudo um alagoano que aprendi a amar e respeitar. Imagina quando nosso livro terminar? Não saberei viver mais sem ele na net. Aí inventarei outro. Conexão perfeita!! “Que seja infinito enquanto dure…”
*Fala um pouco desse livro que vocês estão construído juntos!
Maria Luiza: O livro mostra à juventude que o meio virtual pode ser benevolente e um canal de construção. E esse é o meu discurso pra muita gente. Até em sala de aula mesmo. Digo sempre que o meio virtual, como exemplo do MSN, não é só uma sala de bate papo. Não é para este fim somente. Podemos utilizar para ações criadoras e úteis, tornando nossa vida mais fácil. Também tenho certeza que este livro da forma que está sendo produzido através do MSN dá até uma tese de mestrado. O “Poder da era digital”. A disseminação da informação no meio virtual. A Literatura virtual, e por aí vai…
*Que tal ser a musa da literatura virtual?
Maria Luiza: Aprovado. Quero ser a musa da descoberta do prazer em escrever virtualmente. Musa como disponibilizadora, como facilitadora do prazer de ler e escrever…
*E o que representa esse ambiente virtual de Bate-papo?
Maria Luiza: Sem fronteiras, divã, conquista de amigos, relacionamento, troca de idéias e de opiniões, aprendizado, aconselhamento, trabalho, ponto de encontro e desencontros. Lugar de fazer amigos, colegas, inimigos e profissionais. Espaço para se ter alguns amigos ou muitos amigos. Uns de querer bem; outros de desejo; de querer ver; de não viver sem eles; mas, muitas vezes na hora do vamos ver… Fica por isso mesmo. Continua-se virtual. Foi bom enquanto durou… É um ato de querer, de ter possibilidades de estar ausente sem ter possibilidades de se anular. Literalmente ser transparente!
*Quais sites e comunidades virtuais você recomenda?
Maria Luiza: Os sites da cultura de Alagoas, o recantodasletras, o igds, politicis, nupef, arede, ondajovem, artponto, bairrosdemaceio, macleim, o blog do tchellobarros, o penedo.arteblog, lucianopires, o blog da Isolda, o plataforma para a poesia.nom, o blog do edvaldorosa, o indiosonline, o fbes.org, rogeriodias, os blogs tapadehumor, cacosinconexos, paraintenderainternet, paulinovergetti e literaturaconto, além de outros com plataformas abertas como: Flickr, youTube e Wikipédia.
*Maria Luiza num breve perfil!
Maria Luiza Russo: carioca, do signo de câncer, especialista pela Universidade Santa Úrsula do Rio de Janeiro, bibliotecária, diretora da Biblioteca Pública do Estado de Alagoas, professora do Curso de Biblioteconomia na Universidade Federal de Alagoas, contadora de estórias e poeta.
*Que autores não podem ficar de fora da sua estante?
Maria Luiza: Jorge Amado, André Luiz, Fernando Pessoa e outros. Agora, no momento, estou montando minha estante particular, de escritores alagoanos. Assim NENHUM escritor alagoano pode ficar de fora.
*Quais livros estão na sua cabeceira?
Maria Luiza: Meus Deus!! Uma lista de: Mulheres, de Julio Dantas; A infância do Centauro, de José Inácio Vieira de Melo; A leitura: teoria, avaliação e desenvolviment, de Felipe Alliende; Vivências com aprendizagem na internet, de Luís Paulo Leopoldo Mercado; Para entender a internet: noções práticas e desafios da comunicação em rede, de Juliano Spyer; Além das Redes de Colaboração, de Sérgio Amadeu; O guardião de memórias, de Kim Edwards; O livreiro de Cabul, de Asne Seierstad, e O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.
*Como você vê as produções literárias em Alagoas e o que falta para o livro acontecer como produto cultural?
Maria Luiza: Falta o alagoano acreditar em seu potencial e a sociedade alagoana conhecer e apreciar as riquezas culturais existentes na terra, principalmente seus escritores, atores e músicos. Falta o corpo pedagógico das escolas conhecerem os escritores alagoanos e as escolas apresentarem a seus alunos esses escritores. Mas também falta o escritor alagoano doar sua obra para a Biblioteca Pública Estadual. O livro é um bem cultural, é um produto, então faltam políticas públicas mais vigentes, falta envolvimento maior do mercado editorial e livreiros.
Acredito que para o sucesso de tudo há de haver: informação, acesso, disponibilidades e cobranças. A biblioteca é também um acesso a todo bem cultural alagoano, nela existe um setor de escritores alagoanos, temos projetos voltados para o contato do publico e seus escritores, artistas e músicos. As produções literárias em Alagoas são intensas, não estou aqui pra julgar a qualidade e sim como uma profissional que facilita o acesso, o ser bom ou não, deixo para o próprio leitor fazer sua escolha e dissertar sobre sua opinião.

