Duas pesquisas encomendadas pelo Ministério da Justiça, divulgadas na semana passada, põem Arapiraca e Maceió entre as cidades nas quais os jovens são mais vulneráveis à violência, figurando em 11° e 13° lugares no rol das 43 cidades pesquisadas. Contudo, colocada no rol das 27 capitais brasileiras, Maceió é a campeã absoluta de vulnerabilidade. Ou seja, aqui os jovens morrem mais cedo, tragados pela violência.
Esse desconforto – que não é novo, mas que se agrava a cada dia -, colocou segmentos da classe política alagoana em dissimulado alvoroço. O prefeito de Maceió, Cícero Almeida, adversário do Governador Teotônio Vilela, e tido como provável candidato ao Governo em 2010, declarou que é “preciso ter coragem” para combater a violência e realçou saber “como fazer isso”, pois teria longa experiência como apresentador de programas policiais de rádio e televisão. Mas, sendo justamente o prefeito da capital mais vulnerável à violência juvenil, não saiu da esfera meramente policial. O máximo que deixou de sua fala foi uma expectativa a ser provada.
Outro protagonista enfurecido foi o Senador Renan Calheiros. Do alto de sua reconhecida influência na política nacional, que já lhe rendeu importantes posições, dentre as quais – e, nesta questão a mais significativa -, a de Ministro da Justiça, Calheiros foi direto ao assunto: pregou a destituição imediata de toda a cúpula da Secretaria de Defesa Social (Segurança), reforçando o seu entendimento de que todo esse grave ambiente que torna Maceió tão perigosa aos jovens, é pura e simplesmente uma questão policial.
Ouso ter uma visão diferente sobre o problema, embora tenha a compreensão de que o combate à violência, à criminalidade, necessite de polícia forte, inteligente, bem treinada, bem remunerada, bem dirigida, bem equipada. Mas o grave quadro de vulnerabilidade à violência, que expõe o nosso universo juvenil – e afeta todas as idades -, tem raízes mais profundas, mais abrangentes, que não podem ser mascaradas por mera visão policialesca.
É necessário que se atente para as necessidades humanas. Dessa análise da condição juvenil alagoana emerge uma realidade caracterizada por brutal desigualdade social, que resulta em formas diversas de mal-estar: situações de pobreza extrema, analfabetismo, condições habitacionais precárias, baixa qualidade de ensino, alta incidência de falências escolares, trabalho precoce, desestruturação familiar, justiça ineficiente e distante, que propicia a impunidade, violência doméstica, trabalho ilegal, abandono, gravidez precoce, ausência grave de meios para o desenvolvimento esportivo, para a vivência e a prática cultural. E, no caldo dessa precariedade assustadora e crescente das nossas cidades, uma atração fatal às drogas e à prostituição.
Não é possível deixar de enxergar que as principais vítimas dessa violência que ceifa vidas precocemente, são jovens pobres e negros, especialmente os que se encontram na faixa dos 15 aos 24 anos. Exatamente aqueles que, na passagem da infância para a juventude, não estão tendo oportunidades para chegar à vida adulta.
Além de aplicação constante em segurança pública, evidentemente necessária à paz, é fundamental que os governantes – com o apoio indispensável da classe política, independentemente de palanques -, ampliem os programas sociais e executem obras que dêem condições dignas de habitação, de saneamento, de saúde, às famílias; que propiciem a crianças e jovens os meios adequados à cultura, às artes, aos desportos; que os preparem para o trabalho, mas que, como prioridade suprema, transformem a escola num movimento de atratividade.
Querer colocar a questão atrás das grades, é mero estágio de inconsciência.

