No último dia 9 expressei, aqui, a minha indignação diante da brutal devastação que a cana-de-açúcar causou à natureza nordestina, com maior fúria sobre o Estado de Alagoas. Comentei, então, matéria veiculada pela “Gazeta de Alagoasâ€, do domingo, 8, baseada em pesquisa realizada pela Universidade Federal de Pernambuco, dando conta dos avanços sobre a destruição da mata atlântica nos últimos anos, e apontando que, dos 10 municÃpios que mais devastaram a vegetação, 8 encontram-se em Alagoas, todos eles produtores de cana.
Citando trechos da monumental, e sempre atual, obra de Josué de Castro, com realce ao seu contundente livro “Geografia da Fomeâ€, referi-me ao fato de que essa trágica realidade de agressão ecológica e das graves consequências de desequilÃbrios irreparáveis aos solos e aos recursos hÃdricos, ocorre desde os tempos da ocupação portuguesa e, desde então,só fez se acelerar.
Volto a citar Josué de Castro, ainda em “Geografia da Fomeâ€, agora já relacionando desnutrição e fome à s questões do uso impróprio da terra :
“A fome no Brasil, que perdura, apesar dos enormes progressos alcançados em vários setores de nossas atividades, é consequência, antes de tudo, de seu passado histórico, com os seus grupos humanos, sempre em luta e quase nunca em harmonia com os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada e por culpa, portanto, da agressividade do meio, que iniciou abertamente as hostilidades, mas, quase sempre, por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil….É sempre o mesmo espÃrito aventureiro se insinuando, impulsionando, mas logo a seguir, corrompendo os processos de riqueza no paÃs. É o “fique ricoâ€, tão agudamente estigmatizado por Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro RaÃzes do Brasil. É a impaciência nacional do lucro turvando a consciência dos empreendedores e levando-os a matar sempre todas as “galinhas dos ovos de ouroâ€. Todas as possibilidades de riqueza que a terra trazia em seu bojoâ€.
Volto a este assunto, e sei que a ele haverei de manter fidelidade canina – embora não me anime a pensar que dê muito resultado-, porque ontem, o www.tudoglobal.com.br, deu manchete de capa sobre um tema secular, mas que continua intenso e renovado: a usina Caeté, em Alagoas, devastou 28 hectares de uma área de Unidade de Conservação Federal de Reserva Extrativista (RESEX) e uso, clandestinamente, as águas da Lagoa do Jequiá (considerada a maior lagoa de água doce do Brasil) para fazer irrigação dos seus plantios de cana. Isso tudo ocorreu, a despeito de o MPF ter feito 6 autuações à usina. Todos os seus diretores estão sendo processados.
O que fazem os donos dessa usina de açúcar, e tantos outros que sustentam seus lucros à s custas do sacrifÃcio da natureza, é o que Josué de Castro e outros, como Octávio Brandão, há décadas e décadas denunciavam.
E não apenas eles. Trago à reflexão o que pensou e escreveu um cidadão muito conhecido e muito querido por todos os brasileiros. Alagoano, de Viçosa, herdeiro do Engenho Boa Sorte (fundado em 1840), fundador da usina Seresta, pai do nosso Governador Teotônio Vilela Filho. Falo de Teotônio Brandão Vilela, “O Menestrel das Alagoasâ€, que se notabilizou por luta incansável em defesa da Democracia, pela libertação de presos polÃticos, e pela retorno das eleições diretas ao Brasil.
É dele essa manifestação, à página 269, do seu livro “A Pregação da Liberdade (andanças de um liberalâ€, publicado em 1977:
“As pressões ecológicas já estão sendo estudadas e até mesmo já se cogita de um Direito Ecológico, como no setor urbano, de um Direito UrbanÃstico. A terra está devastada e, mais do que isso, degradada. No primeiro caso prevalece a ignorância do homem;no segundo, a ambição desmedida de poucos homens. De fato, os desequilÃbrios ecológicos provocados pelo sistema tradicional de trabalho foi e é uma luta predatória, sem dúvida, mas ditada pela necessidade da sobrevivência, onde o mal é mais inconsciente do que consciente. Já agora, com a introdução de fertilizantes não controlados devidamente, de inseticidades e herbicidas, principalmente estes, com desnudamento avassalador da terra, exposta por inteiro ao vento, ao sol e à chuva, com o tratamento mecânico à s vezes indevido que se dá ao solo, tudo propiciando frequência mais acentuada de erosão – a grande calamidade da terra -, com a contaminação das águas, o meio-ambiente cada dia se torna mais parecido com o da cidade condenada. Além de cansada, a terra perde os seus encantos, atacadas inclementemente a flora e a fauna, condenados os rios sinuosos de antigas águas cristalinas, desaparecidas as árvores de sombras carinhosas e de frutos apetitososâ€.
Guardo a convicção de que o relato denunciador, em tom poético e saudoso, do velho Senador Teotônio Vilela carregava as lembranças antigas do rio ParaÃba da sua infância viçosense, pedaços de memória do que era o rio São Miguel, as lagoas Mundaú, Manguaba e tantos outros mananciais agredidos, violentados, destruÃdos.
Mais de 50 anos após Josué escrever Geografia da Fome e 32 após Teotônio cravar esse depoimento, o quadro só fez se agravar. Sonhar com que?