Impertinências – Ainda a tragédia da cana
No último dia 9 expressei, aqui, a minha indignação diante da brutal devastação que a cana-de-açúcar causou à natureza nordestina, com maior fúria sobre o Estado de Alagoas. Comentei, então, matéria veiculada pela “Gazeta de Alagoasâ€, do domingo, 8, baseada em pesquisa realizada pela Universidade Federal de Pernambuco, dando conta dos avanços sobre a destruição da mata atlântica nos últimos anos, e apontando que, dos 10 municÃpios que mais devastaram a vegetação, 8 encontram-se em Alagoas, todos eles produtores de cana.
Citando trechos da monumental, e sempre atual, obra de Josué de Castro, com realce ao seu contundente livro “Geografia da Fomeâ€, referi-me ao fato de que essa trágica realidade de agressão ecológica e das graves consequências de desequilÃbrios irreparáveis aos solos e aos recursos hÃdricos, ocorre desde os tempos da ocupação portuguesa e, desde então,só fez se acelerar.
Volto a citar Josué de Castro, ainda em “Geografia da Fomeâ€, agora já relacionando desnutrição e fome à s questões do uso impróprio da terra :
“A fome no Brasil, que perdura, apesar dos enormes progressos alcançados em vários setores de nossas atividades, é consequência, antes de tudo, de seu passado histórico, com os seus grupos humanos, sempre em luta e quase nunca em harmonia com os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada e por culpa, portanto, da agressividade do meio, que iniciou abertamente as hostilidades, mas, quase sempre, por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil….É sempre o mesmo espÃrito aventureiro se insinuando, impulsionando, mas logo a seguir, corrompendo os processos de riqueza no paÃs. É o “fique ricoâ€, tão agudamente estigmatizado por Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro RaÃzes do Brasil. É a impaciência nacional do lucro turvando a consciência dos empreendedores e levando-os a matar sempre todas as “galinhas dos ovos de ouroâ€. Todas as possibilidades de riqueza que a terra trazia em seu bojoâ€.
Volto a este assunto, e sei que a ele haverei de manter fidelidade canina – embora não me anime a pensar que dê muito resultado-, porque ontem, o www.tudoglobal.com.br, deu manchete de capa sobre um tema secular, mas que continua intenso e renovado: a usina Caeté, em Alagoas, devastou 28 hectares de uma área de Unidade de Conservação Federal de Reserva Extrativista (RESEX) e uso, clandestinamente, as águas da Lagoa do Jequiá (considerada a maior lagoa de água doce do Brasil) para fazer irrigação dos seus plantios de cana. Isso tudo ocorreu, a despeito de o MPF ter feito 6 autuações à usina. Todos os seus diretores estão sendo processados.
O que fazem os donos dessa usina de açúcar, e tantos outros que sustentam seus lucros à s custas do sacrifÃcio da natureza, é o que Josué de Castro e outros, como Octávio Brandão, há décadas e décadas denunciavam.
E não apenas eles. Trago à reflexão o que pensou e escreveu um cidadão muito conhecido e muito querido por todos os brasileiros. Alagoano, de Viçosa, herdeiro do Engenho Boa Sorte (fundado em 1840), fundador da usina Seresta, pai do nosso Governador Teotônio Vilela Filho. Falo de Teotônio Brandão Vilela, “O Menestrel das Alagoasâ€, que se notabilizou por luta incansável em defesa da Democracia, pela libertação de presos polÃticos, e pela retorno das eleições diretas ao Brasil.
É dele essa manifestação, à página 269, do seu livro “A Pregação da Liberdade (andanças de um liberalâ€, publicado em 1977:
“As pressões ecológicas já estão sendo estudadas e até mesmo já se cogita de um Direito Ecológico, como no setor urbano, de um Direito UrbanÃstico. A terra está devastada e, mais do que isso, degradada. No primeiro caso prevalece a ignorância do homem;no segundo, a ambição desmedida de poucos homens. De fato, os desequilÃbrios ecológicos provocados pelo sistema tradicional de trabalho foi e é uma luta predatória, sem dúvida, mas ditada pela necessidade da sobrevivência, onde o mal é mais inconsciente do que consciente. Já agora, com a introdução de fertilizantes não controlados devidamente, de inseticidades e herbicidas, principalmente estes, com desnudamento avassalador da terra, exposta por inteiro ao vento, ao sol e à chuva, com o tratamento mecânico à s vezes indevido que se dá ao solo, tudo propiciando frequência mais acentuada de erosão – a grande calamidade da terra -, com a contaminação das águas, o meio-ambiente cada dia se torna mais parecido com o da cidade condenada. Além de cansada, a terra perde os seus encantos, atacadas inclementemente a flora e a fauna, condenados os rios sinuosos de antigas águas cristalinas, desaparecidas as árvores de sombras carinhosas e de frutos apetitososâ€.
Guardo a convicção de que o relato denunciador, em tom poético e saudoso, do velho Senador Teotônio Vilela carregava as lembranças antigas do rio ParaÃba da sua infância viçosense, pedaços de memória do que era o rio São Miguel, as lagoas Mundaú, Manguaba e tantos outros mananciais agredidos, violentados, destruÃdos.
Mais de 50 anos após Josué escrever Geografia da Fome e 32 após Teotônio cravar esse depoimento, o quadro só fez se agravar. Sonhar com que?
Combate à corrupção
Vi, semana passada, relatório da Controladoria Geral da União apontando que, de janeiro de 2003 a outubro de 2009, 2.315 agentes públicos federais foram atingidos por punição expulsiva, em razão da prática de atos de corrupção. Cumpridos os legais inquéritos administrativos que preservam a defesa plena, foram mandados para o olho da rua, face às condutas repulsivas de avanços contra o patrimônio público.
Os atingidos somam 2.000 servidores efetivos, 177 ocupantes de cargos comissionados e 138 que tiveram suas aposentadorias cassadas.
Trata-se de uma boa notÃcia, embora não seja a mais desejada. Vê-se que o Governo Federal está atento aos desvios do dinheiro público, à proteção do patrimônio da União, ao combate, enfim, à roubalheira e à impunidade.
Esse combate ao desvios, ao roubo, é necessário, imprescindÃvel a qualquer tempo. Mas não basta apenas punir. O essencial é combater a cultura da corrupção que se enraizou na vida brasileira, assumiu proporções alarmantes, e vai do gari ao deputado, do gestor de escola ao senador da República, do vendedor ao governante.
Se é preciso combater essa cultura corrosiva e impedir que o criminoso usufrua do produto do crime, mais importante ainda é preparar gerações humanas para ter comportamentos decentes, adequados a uma vida honesta e cidadã. É preciso que as pessoas, desde crianças, reaprendam a ter vergonha na cara. E isso só é possÃvel na famÃlia e na escola.
Só uma famÃlia estruturada, fundada no respeito, na cooperação e no afeto, só uma escola moldada nos princÃpios da qualidade, da moralidade, da construção da cidadania, serão capazes de formar pessoas avessas à bandalheira, à criminalidade e à corrupção.
Acolho, em plenitude, o raciocÃnio de Cláudio Weber Abramo, diretor da ONG Transparência Brasil, de que a corrupção não é , primordialmente, um problema das pessoas, ou seja, uma questão moral subjetiva, mas um defeito estrutural e das instituições.
É consequência, essencialmente, da precariedade dos mecanismos administrativos de prevenção. Do barramento e da dificultação ao roubo, do empecilho às facilitações tão comuns no serviço público.
Mas é, no primeiro degrau, resultante de um modelo governamental que põe a educação em escala inferior, não priorizando a formação de seres humanos dignos.
Enfim, é uma questão de Estado, que precisa ser encarada com responsabilidade e determinação pelos governantes.
O mundo é dos blogueiros
Se alguém tinha dúvida de que o slogan “o mundo é dos blogueirosâ€, adotado pelo www.tudoglobal.com.br estava correto, agora não tem mais razão para desacreditar. E nem precisa olhar para o nosso incipiente sucesso, alcançado em menos de três semanas no ar. Basta ver o que está acontecendo com a imprensa tradicional, sobretudo nos Estados Unidos, que entrou de cabeça numa derrocada sem volta, motivada exatamente pela força e o prestÃgio financeiro e de público que a Internet e seus blogs conquistaram junto à população.
A revista “Exame†da semana passada, sob o tÃtulo “A dandoca que assusta os jornaisâ€, conta a história da ex-socialite Arianna Huffintonâ€, que comanda um exército de 3.000 blogueiros e, com isso, criou um problema imensurável para a tradicional mÃdia americana.
Por conta disso, sem encontrar remédios que detenham a veloz e constante queda de leitores e, sobretudo, de verbas publicitárias, os jornais tradicionais dos EUA estão se articulando para armar algo contra a ousada Arianna Huffington. Não perdoam o fato de ela estar obtendo tamanho sucesso.
O fato indiscutÃvel é: o que está acontecendo entre os norte-americanos, que a cada dia se apaixonam mais pela Internet e por seus blogs, é realidade na Europa, começa a chegar com força no Brasil e tem, entre nós, um modelo interessante , que é o tudoglobal.
E esse fato ocorre, porque a sociedade está descobrindo que a mÃdia tradicional não a satisfaz como ela desejaria que acontecesse. No contraponto, os Blogs, na Internet, transformam todo mundo em emissor de opinião, de informação, fazendo com que esse meio de comunicação seja um instrumento insubstituÃvel de democratização do direito e do poder de informar.
Por isso, daqui prá frente, não dá para viver sem Blog.
A tragédia da cana
No artigo de estreia deste blog, em 21 de outubro, abordei a violência registrada em Alagoas contra os jovens, creditando a isso, de forma significativa, ao perverso modelo econômico que o Estado adotou há séculos, causador de absurda concentração de renda, do privilegiado uso de todas as terras férteis para plantio da cana-de-açúcar e, no desdobramento desse sistema, o advento de uma tragédia social de grande dimensão, privadora de renda, inibidora de oportunidades em vários sentidos, sobretudo de educação, cultura e cidadania e, finalmente, barreira intransponÃvel da conquista de autonomia e liberdade à maioria da população.
Desprovidos de oportunidades para elevar seus valores e firmar sua dignidade, milhares de jovens, num ciclo que se repete há anos e anos, perdem-se na ausência de identidade, atingidos pela ignorância e pelo desmoronamento dos seus lares, e findam mergulhando na marginalidade e na criminalidade. Essa é uma história de grave incidência, que só encontrará saÃda através de duas vias: a montagem de um novo modelo de desenvolvimento para o Estado e a construção de um plano revolucionário para a Educação.
Conduto, se a prevalência do modelo econômico fundado na cana-de-açúcar tem sido definitiva para gerar uma Alagoas distorcida e injusta, afetando direta e negativamente as pessoas, danos não menos terrÃveis a lavoura canavieira tem causado à natureza e ao meio ambiente alagoanos, uma ação devastadora que se inaugura com a chegada dos colonizadores portugueses e que só se fez acelerar ao longo dos tempos.
O jornal “Gazeta de Alagoasâ€, em sua edição desse domingo, publica uma boa reportagem, reveladora do que estamos afirmando. Baseada em estudo feito pela Universidade Federal de Pernambuco, a matéria traz estatÃsticas bombásticas: “ Alagoas foi o Estado nordestino onde a devastação mais avançou, devido à expansão da fronteira agrÃcola.Da lista de 10 municÃpios com maior Ãndice de perda florestal, oito são alagoanosâ€. Todos esses municÃpios, reforce-se, são plantadores de cana.
A tragédia da cana (2)
Os dados contidos na reportagem da “Gazeta†servem mais uma vez como alerta, mas não representam novidade. Fazem parte de uma velha e triste história, que nunca conseguiu ser interrompida, nem sequer contida.
Vou buscar no grande brasileiro Josué de Castro, admirado e respeitado, mas pouco ouvido e aplicado por governantes, o que ele há décadas proclamava, prenunciando uma catástrofe que ameaçaria cair sobre o Nordeste do Brasil, caso não fosse detida a sanha gananciosa e devastadora dos donos da cana e do açúcar.
No seu contundente, e sempre atual, “Geografia da Fomeâ€, livro editado em 1960, base indispensável à compreensão do problema da escravidão no campo, da desnutrição e fome que ainda afetam milhares e milhares de pessoas no Brasil e muitas outras partes do planeta, Josué de castro denunciava:
“Poucas regiões do mundo se prestam tão bem para o ensaio de natureza ecológica como o Nordeste açucareiro, com sua tÃpica paisagem natural, tão profundamente alterada, em seus traços geográficos fundamentais, pela ação do elemento humano. Com seu revestimento vivo quase que completamente arrasado e substituÃdo por um outro inteiramente diferente: região de floresta tropical, transformada pelo homem em região de campos abertos, teve o Nordeste a vida de seu solo, de suas águas, de suas plantas e do seu próprio clima, tudo mudado pela ação desequilibrante e intempestiva do colonizador, quase cego à s consequências de seus atos, pela paixão desvairada que dele se apoderou, de plantar sempre mais cana e produzir sempre mais açúcarâ€.
E, prossigo, com Josué de Castro: “ Deve-se, sem nenhuma dúvida, ao desenvolvimento da cana-de-açúcar, com todos os seus nocivos exageros de planta individualista, com sua hostilidade mórbida por outras espécies vegetais, grande parte do trabalho de enraizamento e colonização , exigindo uma escravidão tremendamente dura, não só do homem, mas também da terra a seu serviço. Homem e terra que se tiveram de despojar de inúmeras prerrogativas para satisfazer o apetite desadorado da cana. Apetite insaciável de terras bem preparadas e bem drenadas para o crescimento da planta. A cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, consumindo o humo do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual sua cultura tira toda a vidaâ€.
Noutro trecho de “Geografia da Fomeâ€, Josué denuncia : “ A destruição das florestas alcançou tal intensidade se processou em tal extensão que, nesta região chamada da mata do Nordeste, por seu revestimento de árvores quase compacto, restam hoje apenas pequenos retalhos esfarrapados deste primitivo manto florestalâ€.
É triste verificar que, passados 50 anos da publicação de “Geografia da Fomeâ€, o quadro devastador só fez se agravar. Conforme os estudos divulgados nesse domingo pela “Gazeta de Alagoasâ€, de 1970 para cá – ou seja, 10 anos após o livro ser editado -, o Nordeste perdeu 55.12% do que restava de sua cobertura vegetal, graças ao cultivo da cana. O túmulo do grande Josué de Castro deve estremecer a cada revelação dessa magnitude.
As causas da corrupção
Um relatório divulgado no inÃcio do mês pela Controladoria Geral da União (CGU) revela que, num levantamento realizado por seu corpo de auditores, em cerca de 1.600 cidades brasileiras, todas com menos de 500 mil, foi constatado que em 95% dessas localidades foram encontrados problemas na administração dos recursos federais que lhes foram repassados. São, geralmente, fraudes nas licitações públicas, gastos com notas frias e falsas, ou apropriação indevida do dinheiro recebido da União. Somados, os recursos transferidos a esses 30% da totalidade dos municÃpios brasileiros chegam à fabulosa cifra de R$ 11 bilhões.
Os casos detectados pela CGU, e mostrados esta semana pela revista “ISTOÉâ€, são os mais absurdos. Em São Francisco do Conde(BA), a Secretaria de Educação comprou 5 toneladas de elásticos para dinheiro, algo como 4.3 milhões de pedacinhos de borracha, que nunca foram encontrados nas escolas do municÃpio. Em Araguaiana(MT), uma empresa embolsou R$ 7.8 milhões da SUDAM, para produzir novilhos, mas o projeto nunca saiu do papel. Em Itapicuru(BA), dos 10 ônibus comprados com recursos do Fundef, só 8 apareceram e 4 eram sucata.
Esse rosário de exemplos de mau uso e desvio do dinheiro público é uma constante no Brasil, sobretudo porque, conforme atestam técnicos da Controladoria, não há estrutura capaz de acompanhar o que acontece nos 5.6 mil municÃpios brasileiros, ficando fácil, assim, a prática deslavada do roubo contra a sociedade.
Lendo artigo de Stephen Kanitz, publicado na revista “Vejaâ€, encontro uma verdade desalentadora : o Brasil, paÃs com um dos mais elevados Ãndices de corrupção, segundo o World Economic Forum, tem somente 8 auditores por 100 mil habitantes. Enquanto uma das maiores universidades brasileiras possui 62 professores de economia, apenas um de auditoria, para formar os milhares de fiscais, auditores internos, auditores externos, membros de tribunais de contas, fiscais do Banco Central, analistas de controle, e todos os demais profissionais dessa área, que seriam fundamentais na criação de mecanismos que estancassem, na origem, as práticas da corrupção.
Enquanto nos Estados Unidos existem 12 auditores para cada economista, no Brasil há 12 economistas para cada auditor. É por isso que não damos certo. Se lembrarmos, por exemplo, que o papel do auditor não é nem o de fiscalizar depois do fato consumado, mas o de criar os mecanismos de controle que impeçam a corrupção, concluÃmos, entristecidos, que o Brasil está muito longe de se tornar um paÃs limpo e digno, que não envergonhe os homens de mulheres de bem que o habitam.
A escola no banco dos réus
Recebi da amiga Audéa Lima, jornalista e professora – especialista em educação para o trânsito e em jornal na educação -, uma mensagem bastante lúcida sobre a realidade do ensino brasileiro, ao mesmo tempo um grito de alerta sobre o papel dos educadores, a responsabilidade da famÃlia e o dever do Estado no processo educacional.
Na sua reflexão, ela adverte: “somos milhões de professores e a maioria está preocupada com a própria subsistência, sem nenhuma vontade de rebelar-se contra um sistema que oprime profissionalmente, que desvaloriza financeiramente. Onde está nossa capacidade de indignação, de luta?â€.
No rastro dessa advertência, vi, esta semana, uma pesquisa realizada pela Fundação Victor Civita, mostrando que, no Brasil, os diretores de escola pública gastam tempo demais com burocracia e pouco com as gestões de sala de aula.
Segundo a pesquisa, que ouviu 400 diretores de estabelecimentos educacionais públicos, 98% dos entrevistados não se acham responsáveis pelas notas baixas da escola; 90% gastam mais tempo conferindo a merenda do que com a sala de aula; 64% não se julgam suficientemente preparados para o ofÃcio; 36% não sabem sequer a nota de sua escola nos rankings oficiais.
Vê-se, daÃ, que a questão da educação brasileira, dos seus baixos nÃveis, não é somente por conta falta de dinheiro para construção de escola, para a merenda, para o transporte escolar, nem mesmo apenas por causa dos baixos salários que se paga aos professores. Decorre, em grau acentuado, do despreparo e da falta de empenho e de responsabilidade de grande parte do professorado espalhado por esse Brasil afora, sobretudo dos gestores de escolas.
A Importância da Leitura
“Não leias para contradizer ou refutar, nem para crer ou considerar bom, nem para procurar assunto de conversa ou de discurso, e sim para pensar e ponderar sobre o que lêâ€.
Francis Bacon
A propósito da realização da Bienal Internacional do Livro de Alagoas, magnificamente relatada no www.tudoglobal.com.br pelo olhar atendo e profundo do nosso Professor Élcio Verçosa, faço uma reflexão sobre o papel da leitura na vida da gente. Pessoalmente, não canso de reconhecer e bendizer o forçado e iluminado encontro que tive com a leitura, aos 13 anos de idade, ao ter, na troca pelo custeio dos meus estudos, que cuidar da biblioteca do Colégio Pio XII, em Palmeira dos Ãndios. Tornei-me, daà em diante, um leitor habitual de jornais, revistas, livros de quase todos os estilos.
Sinto, por isso, que, além de muito feliz, sou um cara com espÃrito crÃtico, um observador atento dos fatos sociais e, seguramente, muito mais comprometido com princÃpios de justiça, de harmonia e de humanidade. Devo à leitura que fiz , e que faço com bastante frequência, o básico da estrutura moral e intelectual que preservo. Carreguei de meus pais, embora pequenos proprietários rurais, o estÃmulo aos livros. E no ambiente doméstico que eu e minha mulher (LaÃs) formamos, transferimos para nossa filha Carolina esse prazer extraordinário pela leitura.
Mas é muito triste constatar que o Brasil detém baixos nÃveis de leitura, decorrência de inúmeros entraves e da falta de ambientes facilitadores, num paÃs castigado pelo analfabetismo e desprovido de bibliotecas, embora devamos ao governo Lula alguns avanços nessa caminhada, sobretudo após a implantação do Plano Nacional do Livro e Leitura(PNLL), que está espalhando esses instrumentos por centenas de municÃpios brasileiros. Basta lembrar que no ano de 2003 existiam 1.173 cidades no paÃs que não contavam com uma única biblioteca, fosse pública ou particular. Essa carência, no final de 2007, já foi reduzida para 380 municÃpios.
Mesmo assim, o Brasil ainda está muito ruim no aspecto de leitura. Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL), cada brasileiro lê pouco mais de 2 livros por ano, enquanto na Inglaterra estima-se que a média seja de 4,9 e nos Estados Unidos 5.1. Além da falta de bibliotecas públicas, contribui para esse quadro desalentador o fato de que o Brasil conta com um número muito baixo de livrarias. Um diagnóstico do setor livreiro, divulgado em 2007 pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), revela que, naquele ano, existiam no paÃs apenas 2.676 estabelecimentos dedicados à venda de livros, com mais de 50% concentrados na região Sudeste, cabendo ao Nordeste menos de 20% do total nacional.
Diante disso, são relevantes os programas alternativos de de incentivo à leitura, a exemplo das feiras, como essa boa Bienal que Alagoas está acolhendo. Mas é fundamental que não se perder de vista a responsabilidade dos governantes, não apenas na implantação de bibliotecas e da criação de projetos de estÃmulo, mas, sobretudo, na preparação dos professores para a tarefa de transformar em leitores crianças e jovens, contribuindo, desse modo, para a formação de cidadãos crÃticos e saudáveis.
Uma questão de libertação
Sinto que tratar de coisas sérias, com seriedade, dá resultado. A sociedade mostra que deseja discutir o seu presente e arquitetar o seu futuro. Esse é o resultado que colho da minha primeira avaliação sobre a questão da violência contra os jovens, e as consequências danosas de uma não-prioridade à educação, agravada por um modelo condenado de desenvolvimento econômico abraçado por Alagoas, fundado na cana-de-açúcar.
Se formos percorrer a história de Alagoas, dos primórdios da colonização aos tempos atuais, vamos encontrar uma modelo econômico concentrado em 30 famÃlias de usineiros e algumas centenas de plantadores de cana, que ocupou maciçamente toda a extensão de férteis terras e, secularmente, vem causando graves danos ao meio-ambiente. No campo social, isso tem gerado oferta de empregos sazonais sem qualquer qualificação, nem exigência de escolaridade, com baixa remuneração e sem perspectiva de futuro para as famÃlias desses trabalhadores.
DaÃ, sustento, sem temor de engano, que Alagoas precisa construir um novo modelo de desenvolvimento, que se refira – e novamente me aproprio de Amartya Sen – à melhoria de qualidade de vida que precisamos levar, e à s liberdades que precisamos desfrutar. Um modelo que leve em consideração a Educação Integral das pessoas como elemento essencial e inseparável do desenvolvimento econômico e social. Esse é um desafio que cabe a governantes e governados, à sociedade como um todo.
Alagoas precisa de uma revolução pela Educação. Somente desse modo será possÃvel conquistar-se a segunda e definitiva emancipação dos alagoanos.
Violência contra os jovens
É espantosa a violência sobre os humanos, em Alagoas, sobretudo a que envolve crianças e jovens. Os dados são alarmantes e, cada vez mais, surpreendem as formas brutais com que essa violência é cometida. Parece haver no horizonte de nossa infância e mocidade uma nuvem negra de incertezas, que levam ao descaminho e à aniquilação. Li os últimos relatórios do Ministério da Justiça e os números apresentados pela OAB alagoana, estes do mês de julho, e fico estarrecido com a brutalidade a que estamos submetidos.
O governador Teotônio Vilela, um cidadão essencialmente de paz, trouxe para Alagoas quadros da melhor qualidade da PolÃcia Federal para comandar o sistema de segurança pública do Estado, mas isso tem feito pouca diferença e, seguramente, não acabará com a violência, nem vai garantir proteção à s crianças, jovens e seus familiares.
Embora se saiba que muito dessa desordem esteja ligada à invasão das drogas – um câncer que está corroendo a inocência, a pureza, e matando o futuro -, e nisso caiba um rigoroso e vigoroso combates policiais, é impossÃvel não reconhecer que a situação de Alagoas está fundada numa razão mais profunda, numa gravidade pouco avaliada e dimensionada, mas que, de fato, tem construÃdo uma civilização distorcida ou, pior ainda, uma não-civilização.
Trata-se do modelo econômico e social adotado há quatro séculos pelo Estado, montado na cana-de-açúcar, na concentração estúpida de renda nos cofres de poucas famÃlias e, no contra-ponto, na formação de legiões de sub-empregados, desempregados, de homens, mulheres, crianças e jovens submetidos a trabalho pesado, distantes da educação, dos serviços de saúde, com baixas rendas, e quase nenhuma cidadania. Há séculos, portanto, estamos construindo gerações e gerações de deficientes cÃvicos, de frágil elevação humana e baixa dignidade.
Estou seguro de que essa causa alagoana, da reversão dessa impertinência, desse incômodo, desse terrÃvel desconforto, não se resolverá pela simples via da polÃcia. E diria, com a mesma convicção, não encontrará saÃda na construção de dezenas ou centenas de fábricas que ampliem as possibilidades de emprego. Concordando com o Nobel de Economia Amartya Sen, segundo o qual o processo emancipatório de um povo não se resolve apenas pelo acesso à renda, sei que um novo caminho só será edificado mediante robusto e inarredável investimento na formação humana e na elevação das capacidades de nossos jovens e crianças.
A única e concreta solução para que Alagoas comece a desenhar um novo modelo civilizatório, que não nos envergonhe com indicadores econômicos e sociais que nos põem no fundo do poço e nos submetem ao vexame e à desilusão de sermos o último entre os Estados Federativos, é a adoção imediata de um completo e arrojado programa de educação que envolva toda a sociedade, que liberte educadores do corporativismo sindical, que traga as famÃlias para dentro das escolas, fazendo-as partÃcipes da construção humana de seus filhos, que imponha responsabilidades nitidamente claras à classe polÃtica, que mexa com a consciência do empresariado e que, finalmente, seja capaz de moldar um novo pacto de prosperidade e paz. É nisso que creio, porque só isso é libertário.




