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Num ano eleitoral, nada mais pertinente do que a arte de calar

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010

Estamos em ano eleitoral, quando todos somos chamados a eleger nossos representantes, no Parlamento, e nossos governantes, no Executivo. Em muitos momentos históricos, mesmo no Brasil de terríveis contradições e desníveis, o  voto transforma-se em motivo de festa, de alegria cívica, embora  não muito tempo depois de empossados, representantes e governantes deixem de ser nossos para ser apenas, e rigorosamente,  deles, dos seus interesses, das suas particularidades, dos seus negócios e negociatas. E os nossos, que seria a Nação, o Estado, o coletivo, o povo, restringe-se à família e a um pequeno grupo bem ensinado, cujo cabedal cultural é a cartilha do chefe.

Se não bastasse isso para  nos espantar e entristecer, duro, igualmente, é  apreciarmos a falácia, o despudor verbal da robusta maioria dos nossos candidatos, o esforço ilógico e deselegante que realizam na tentativa de conquistar, logo o quê, o nosso voto. Como é estúpido observamos, até mesmo nos horários nobres do rádio e da TV,  os discursos incendiados, vestidos de mentiras, de invencionices, de ataques desenfreados aos adversários, de calúnias, de difamação , de promessas impossíveis de ser cumpridas. E, ao findar de tudo, embora tudo fique impune, por conta de uma justiça do faz-de-conta, nada sai da nossa cabeça, tudo fica impregnado no nosso ouvido e na nossa mente, causando-nos uma dor imensa e uma frustração dilacerante na alma.

Ao pensar sobre essa triste realidade da nossa cultura político-eleitoral, trago um texto do Abade Joseph Antoine  Toussaint Dinouart, sobre a arte do calar. É um bom motivo para reflexão. Quem sabe, algum candidato às próximas eleições não tire disso proveito? Se isso ocorrer, já me darei por satisfeito.

A arte de calar

Abade Joseph Antoine Toussaint Dinouart

O primeiro grau da sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito sem falar mal e sem falar demais.

É preciso saber governar a língua, considerar os momentos convenientes para retê-la ou dar-lhe uma liberdade moderada.

Princípios necessários para calar

1)     Só se deve deixar de calar quando se tem algo a dizer que valha mais do que o silêncio.

2)     Há um tempo de calar, assim como há um tempo de falar.

3)     O tempo de calar deve sempre vir em primeiro lugar; e nunca se pode bem falar quando não se aprendeu antes a calar.

4)     Não há menos fraqueza ou imprudência em calar, quando se é obrigado a falar, do que leviandade e indiscrição em falar, quando se deve calar.

5)     É certo que, considerando as coisas em geral, há menos risco em calar do que em falar.

6)     O homem nunca é tão dono de si mesmo quanto no silêncio: fora dele, parece derramar-se, por assim dizer, para fora de si e dissipar-se pelo discurso; de modo que ele pertence menos a si mesmo do que aos outros.

7)     Quando se tem uma coisa importante para dizer, deve-se prestar a ela uma atenção muito especial: é necessário dizê-la primeiro a si mesmo e, depois de tal precaução, voltar a dizê-la, para evitar que haja arrependimento quando já não se tiver o poder de voltar atrás no que se declarou.

8)     Quando se trata de guardar segredo, calar nunca é demais; o silêncio é então uma das coisas em que, geralmente, não há excesso a temer.

9)     A reserva necessária para guardar o silêncio na conduta geral da vida não é uma virtude menor do que a habilidade e a aplicação em bem falar; e não há mais mérito em explicar o que se sabe do que em se calar o que se ignora. O silêncio do sábio às vezes vale mais que o arrazoado do filósofo; o silêncio do primeiro é uma lição para os impertinentes e uma correção para os culpados.

10) O silêncio muitas vezes passa por sabedoria em um homem limitado e por capacidade em um ignorante.

11) Somos naturalmente levados a acreditar que um homem que fala muito pouco não é um grande gênio e que o outro que fala demais é um transtornado ou um louco. Mais vale passar por não ser um gênio de primeira grandeza, permanecendo frequentemente em silêncio, do que por louco, abandonando-se à comichão de falar demais.

12) A característica própria de um homem corajoso é falar pouco e executar grandes ações. A característica de um homem de bom senso é falar pouco e dizer sempre coisas razoáveis.

13) Mesmo que tenha propensão ao silêncio, sempre se deve desconfiar de si mesmo; e se houver muita paixão em dizer alguma coisa, este será um motivo suficiente para decidir não dizer.

14) O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas é preciso sempre ser sincero; podem-se reter alguns pensamentos, mas não se deve camuflar nenhum. Há maneiras de calar sem fechar o coração; de ser discreto sem ser sombrio e taciturno; de ocultar algumas verdades sem as cobrir de mentiras.

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Insegurança: descaso e despreparo, um triste retrato de Alagoas

quarta-feira, fevereiro 3rd, 2010

Alagoas volta a ser destaque nacional, por conta da violência que se abate sobre as pessoas, em todos os cantos do Estado, sobretudo em Maceió. O fato novo, posto em evidência no “Bom Dia Brasil” da Globo, embora velho e corriqueiro na vida dos cidadãos alagoanos, é a onda de assaltos a bares e restaurantes da capital. Eles acontecem com frequência incomum e não encontram solução policial.

A questão da insegurança em Alagoas é alarmante, crescente, e a cada dia a criminalidade acrescenta novos ingredientes de sofisticação e crueldade. Desde os crimes contra a vida, como homicídios, estupros, espancamentos, sequestros, aos assaltos e outras modalidades de crimes contra o patrimônio, prevalece uma onda de desamparo aos cidadãos e, noutro ponto crucial, um visível descaso do corpo policial.

Embora o Governo do Estado tenha optado por colocar na cúpula da Polícia Civil homens de reconhecida qualidade, experimentados na inteligência da Polícia Federal, a exemplo do secretário de Defesa Social, Paulo Rubim, e de vir realizando grandes investimentos públicos na área da segurança, não vem sendo possível diminuir a criminalidade.

As estatísticas oficiais mostram que Maceió e Arapiraca estão entre as 15 cidades brasileiras em que os jovens estão mais vulneráveis à violência , a nossa capital é campeã nos homicídios que atingem o universo juvenil, os assaltos a bancos são sempre mais frequentes e ousados. Não apenas os alagoanos, mas, também, os turistas – que felizmente voltaram a se encantar com os nossos infindáveis e incomparáveis atrativos – , são afetados de modo assombroso.

Não adianta tentar tapar o sol com peneira: as nossas polícias (militar e civil) são, em sua grande maioria, despreparadas e descomprometidas. A Civil, então, dominada por um sindicalismo arcaico e nocivo, não está nem aí. Seus líderes decidem que toda culpa é do Estado e pronto. Sem contar – e isso conta muito – que existe uma banda podre, nas duas polícias, mergulhada no crime, a serviço da pistolagem.

Mas o problema não é só da Polícia. A Justiça, mais das vezes, quando aplica a lei, quando pune, o faz a passos de tartaruga, findando, com sua lentidão, por beneficiar e estimular o crime.

No mais, há uma ausência flagrante do Governo ( Estado e Município) na proteção aos jovens, especialmente, e às famílias, de modo geral. O que está sendo feito em Maceió e nas principais cidades do Estado, para levar a crianças e adolescentes, notadamente aos mais pobres, programas culturais, esportivos, artísticos, de formação profissional? O que está sendo feito para que a escola seja o centro das atenções e o ambiente de convivência das comunidades? Será que, por não aplicarem seus recursos e suas atenções na formação de cidadãos sadios, os nossos governantes não estão sendo decisivos na construção dessa sociedade distorcida?

Penso que todos temos o dever de refletir sobre isso.

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Crescem gastos com segurança, mas violência não diminui

terça-feira, janeiro 19th, 2010

Deparei-me num desses dias com entrevista do delegado Antonio Carlos Lessa, presidente da Associação de Delegados de Polícia de Alagoas, atribuindo à falta de investimentos em segurança as causas do agravamento da violência no território alagoano, sobretudo em Maceió e Arapiraca. Na visão do líder dos delegados, o aumento da criminalidade é galopante e isso se deve à precariedade dos serviços de segurança, decorrente da ausência de investimentos no setor.

Dados do Ministério da Justiça, apontados no relatório sobre investimentos estaduais, que colhe levantamento referente aos anos de 2005, 2006, 2007 e 2008, contrapõem-se às conclusões do delegado Lessa.

Alagoas, ao contrário do que ele afirma, tem apresentado crescimento progressivo na aplicação de recursos públicos em segurança, com percentuais que chegam a ser superiores ao dobro da média brasileira.

Senão, vejamos:

Em 2005, os investimentos públicos em segurança, em Alagoas, somaram R$ 326.008.111,00, passando para R$ 386.030.251,00, no ano seguinte, pularam para R$ 460.779.717,02, em 2007 e, finalmente, elevaram-se a R$ 588.545.816,07, em 2008. Isso significou um incremento, nos 4 anos levantados, de 74,09%. No aspecto R$ gasto/habitante, nesse mesmo período, o quadro é esse: em 2005, Alagoas aplicava R$ 108,10 por habitante no ítem segurança, passando para R$ 126,54 em 2006, R$ 149,36 em 2007 e R$ 188,18 em 2008. Chama atenção o fato de que, em 2008, enquanto a relação de custo/habitante em segurança, no Brasil, era de R$ 35,57, Alagoas, com seus R$ 188,18, aplicou mais de cinco vezes o valor nacional.

Um contraponto significativo da relação investimentos públicos X violência,para Alagoas, é a posição do Estado de Santa Catarina. Enquanto, no caso alagoano, os investimentos públicos cresceram 74,09%, em Santa Catarina ocorreu um decréscimo da ordem de -84,40% no período avaliado. Em 2008, a relação gasto por habitante ficou em R$ 188,18. Em Santa Catarina, apenas R$ 28,07.

Nesse mesmo ano, em todo o território catarinense foram registrados 156 homicídios. Esse número é inferior a um só mês de assassinatos verificados no território alagoano.

Vê-se, daí, que algo anda muito errado. Uma das causas não seria o despreparo e a falta de compromisso da grande maioria da nossa polícia?

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A Violência e a Justiça Injusta

quarta-feira, janeiro 6th, 2010

Temos falado da tremenda violência que atinge Alagoas, geradora de milhares de mortes, sobretudo as que, prematuramente, têm atingido os mais jovens. O território alagoano figura, de maneira incômoda, como a unidade da Federação campeã de mortes violentas, com uma média de 62.5 homicídios por cada grupo de 100 mil habitantes, conforme levantamento feito pelo site “Século Diário”, resultado pouco diferente das estatísticas liberadas há pouco pelo Ministério da Justiça.

Está claro que nas raízes dessa assombrosa criminalidade estão questões de natureza econômica e social, fundadas nos alarmantes indicadores de analfabetismo, da falta de emprego, da ausência de renda, e de todo um conjunto de bens e serviços que têm faltado às famílias pobres, a exemplo de moradia digna, amparo à saúde, e de oportunidades para desenvolvimento do esporte, da cultura, das artes, do lazer e do entretenimento. Na ausência de instrumentos institucionais capazes de construir uma família sadia, pais de família, desorientados, se perdem no alcoolismo e jovens -e até crianças – longe da escola, enveredam pelo caminho tortuoso das drogas, do tráfico, da marginalidade destrutiva.

Não é sem razão que pessoas sondadas por enquete do www.tudoglobal.com, na semana passada, apontaram que o item “segurança pública” é o problema que mais afeta a vida dos cidadãos e, nesta linha, o que mais exige providências urgentes. Quase metade das opiniões, mais precisamente 47%, foi nessa direção, enquanto 38% responderam que a questão mais angustiante é a Educação. Nota-se, daí, que o povo é sábio e conhece com exatidão os caminhos para solucionar seus problemas.
Mas, será que autoridades – de todos os níveis –, responsáveis pela adoção de medidas que tornem melhor a vida das pessoas, estão sabendo fazer a leitura certa das pesquisas, das estatísticas, das sondagens de opinião pública que têm aparecido em profusão na mídia?

Tenho a convicção de que não. E essa falta de sintonia não fica restrita apenas às estruturas de poder do Executivo, incapazes de adotar e aplicar programas eficazes de elevação social, econômica e humana de legiões imensas de pobres que apodrecem nos grotões e favelas de nossas cidades.

O Judiciário tem um peso formidável nesses descaminhos, nesse fosso infinito que se alarga a cada dia, contribuindo para arraigar no seio da sociedade um acúmulo irreparável de injustiças. Isso, somado à conhecida lerdeza dos processos, à procrastinação dos julgamentos, e a incontáveis casos de flagrante impunidade, causa à sociedade um prejuízo sem limites e impõe um sentimento público de descrença na instituição.

Não se pretende, nesta argumentação, condenar a Justiça no seu conjunto. É certo que temos juízes probos, honrados, alguns deles comprometidos de fato com a proteção dos cidadãos e, assim, com a realização plena do seu mister. Mas não são muitos os que mereçam essa avaliação. Ao contrário, muitos são os que enveredam pelas causas próprias, cometem desvios imperdoáveis, mas levam vida confortável, sem ter quem os incomode, sem serem obrigados a reparar erros cometidos.

Muitas são as denúncias acumuladas no CNJ contra magistrados, catalogadas por entidades civis, que não têm qualquer andamento ou conseqüência nos Tribunais de Justiça. No caso de Alagoas, com exceção do juiz Rivoldo, de Porto Calvo, e agora, do juiz José Carlos Remígio, punidos pelo TJ, não se tem notícia de outras atitudes do Tribunal contra outros juízes apontados por seus desvios.

Não se pode fugir de uma realidade dura: há um forte sentimento e prática de corporativismo na classe encarregada de fazer Justiça, numa tendência quase natural de formar um ciclo de defesa, como se juízes não fossem passíveis de erros, de descaminhos, e até de crimes.

Agora mesmo chega uma notícia escandalosa, vinda do Rio Grande do Norte. Lá, um ex-juiz condenado como mandante do assassinato do promotor da região de Pau dos Ferros, em 1997, acaba de ser indenizado em R$ 1 milhão, por decisão do Tribunal de Justiça do Estado. O promotor foi assassinado porque estava reunindo provas e iria depor contra o juiz Francisco Pereira de Lacerda, numa investigação na Corregedoria de Justiça. O curioso é que o mesmo tribunal que favoreceu o ex-juiz infrator negou indenização por danos morais e materiais à família do promotor morto, Manoel Alves Pessoa Neto, mesmo em face da argumentação de que o promotor cumpriu o seu dever e defendeu os interesses do Estado ao fiscalizar o ex-juiz.

É o típico caso em que o crime compensa. E isso arbitrado por quem tem o dever constitucional de praticar justiça.

Que exemplos desse nível tragam luzes aos nossos magistrados. É o mínimo que se espera.

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Está chegando a hora da reparação

quinta-feira, dezembro 17th, 2009

Tomo conhecimento de que o Instituto do Meio Ambiente (IMA), o Ministério Público Estadual, e o Sindicato das Usinas de Açúcar do Estado de Alagoas celebram, dia 18 de Dezembro, um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), cujo objetivo é recuperar as Matas Ciliares das terras de propriedade das indústrias, que, servindo ao cultivo da cana, foram, ao longo da história, sendo dizimadas de modo cruel.

Trata-se, no meu modo de enxergar as coisas, da mais expressiva e esperançosa notícia deste ano de 2009. Recuperar o que essa planta devoradora sugou da terra, significa devolver equilíbrio ecológico a enormes faixas de terras, possibilitando, no futuro, a revitalização dos corpos d’agua e impedindo que a cultura da cana continue secando rios e lagoas, uma catástrofe bem à vista em nosso Estado.

A Termo de Ajuste será o instrumento legal que regulará a conduta dos usineiros a partir de agora, sob o acompanhamento do Ministério Público e do IMA, de modo a devolver à natureza, nos próximos 10 anos, 32 milhões de mudas de plantas nativas, destruídas pela substituição da cana. A medida cria critérios punitivos, penalizando as usinas que não se enquadrarem aos termos do TAC.

Se essa louvável iniciativa estivesse em vigor há pelo menos dois anos, certamente a usina Caeté não teria devastado 28 hectares de uma área de Unidade de Conservação Federal de Reserva Extrativa, fazendo uso, de forma clandestina, das águas da Lagoa de Jequiá para irrigar as suas plantações de cana. A atitude criminosa da usina ocorreu mesmo depois de 6 autuações emitidas por órgãos ambientais, o que revela o espírito ganancioso e irresponsável da empresa.

Seguramente, a usina Caeté não está só nessa empreitada destrutiva, que mudou a paisagem natural de Alagoas, comprometeu os recursos hídricos, afetou drasticamente a fauna e ofereceu uma contribuição significativa ao panorama social do Estado, mantendo gerações seguidas de seres humanos aprisionados a baixos salários e a condições humilhantes de trabalho.

Mas, o exemplo que a Caeté nos ofereceu é gritante. Além de devastar a vegetação das terras a ela pertencentes, destruiu, como se vê no caso flagrado pelo Ministério Público Federal, 28 hectares de uma RESEX, o que enfatiza o menosprezo a qualquer valor que não sejam os valores do lucro pessoal.

Nutro-me de esperança diante da boa notícia desse Termo de Ajuste de Conduta. E louvo, por isso, a ação do IMA, do Ministério Público Estadual, do governador Teotônio Vilela Filho e do próprio Sindicato do Açúcar.
Chega, assim espero, a tão sonhada e imprescindível hora da reparação. Por enquanto no campo ecológico. Sonho que, algum dia, ela chegue também ao campo social.

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Mais um indicador negativo para Alagoas

sexta-feira, dezembro 11th, 2009

O Estado de Alagoas verga-se diante de mais um indicador negativo. Campeão em analfabetismo, em repetência escolar, em violência juvenil, dentre tantas mazelas que infernizam a vida das pessoas, é agora apontado como a unidade da Federação que detém o mais baixo percentual de utilização da Internet. Embora tenha registrado crescimento entre 2005 e 2008, passando de 7,6% para 17,8% da população com mais de 10 anos de idade que faz uso da Internet – na verdade mais do dobro de evolução -, continua na rabeira nesse setor. Os dados, liberados hoje pelo IBGE, fazem parte da análise da PNAD ( Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio).

Enquanto o Brasil avançou, entre 2005/2008, de 20.9% para 34.8%, o Distrito Federal pulou de 41.1% para 56.1% de usuários. E, Estados como o Rio Grande do Norte, com 29.9%, e Sergipe, com 29.1%, têm desempenho muito melhor do que Alagoas, quase duas vezes o tamanho da nossa performance.

Esses números amargos, num segmento que espelha modernidade, evolução de tecnologia e democratização da comunicação, não surgem por acaso. Eles retratam a condição de atraso de Alagoas no campo da educação e no tocante ao nível de renda de sua população. Somos um sociedade brutalmente injusta, disforme, com uma concentração absurda de renda nas mãos de uns poucos, e uma massa enorme de pobres e desprotegidos, de baixa elevação humana e de elevada privação de liberdades.

Daí, eu insistir na tese de que só haverá saídas para nossa sociedade melhorar o seu padrão de vida e de dignidade humana, caso o processo educacional, pleno e de qualidade, for adotado como compromisso prioritário e emergencial.

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Dois nomes que orgulham Alagoas

quinta-feira, dezembro 10th, 2009

A revista “Época”, das empresas de comunicação de Roberto Marinho (Globo), trouxe esta semana a lista dos “100 brasileiros mais influentes de 2009”. Todos mereceram texto ressaltando as qualidades que os fizeram merecedores da escolha. No rol dos contemplados, dois nomes me chamaram a atenção: Marta, a espetacular craque do futebol feminino, três vezes eleita pela FIFA como a melhor jogadora do mundo. O outro, o tenente brigadeiro do ar Clenilson Nicácio, ex-presidente da INFRAERO e atual diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, estratégico setor da Aeronáutica brasileira.

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Ambos são alagoanos. Marta, nascida em Dois Riachos, no sertão do Estado. O tenente brigadeiro Cleonilson, pouco conhecido do grande público, nasceu em Maceió, há 61 anos.

Na revista, quem traça o perfil da nossa consagrada atleta, é outro símbolo das nossas conquistas e das nossas alegrias, a estrela do basquete, campeã mundial, Hortência de Fátima Marcari.

Eis o texto: “ Marta é uma guerreira, um talento inato. Começou a praticar um esporte onde existia e ainda existe muito preconceito contra as mulheres, um esporte que sempre foi totalmente voltado para os homens, e hoje é, há três anos consecutivos, a melhor jogadora do mundo. Ela se destacou por sua capacidade, seu talento e seu poder de superação. Foi para fora do Brasil, aprendeu muito e agora voltou. Jogando em um clube que até então só era conhecido pelo time masculino – o Santos -,conseguiu ser campeã da primeira Copa Libertadores feminina e agora caminha para ser campeã mundial. Marta sabe o que quer: porta-se muito bem dentro de campo e fora dele, nas entrevistas, na forma de se expressar e de vestir. Com apenas 23 anos, ela tem um papel fundamental para alavancar o futebol feminino no Brasil”.
Coube ao ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, realçar as virtudes do outro alagoano, o brigadeiro Nicácio:
“ Alagoano de 61 anos, o tenente brigadeiro do ar Cleonilson Nicácio é econômico em emoções. Sua sobriedade, apego ao trabalho duro, preparo técnico e aversão aos holofotes levaram-me a conduzi-lo, em agosto de 2007, à diretoria de Operações da Infraero. Formado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), ele percebeu a necessidade de reestruturar a empresa. Nicácio reformou seu estatuto – e, a fim de levar a profissionalização ao limite, substituiu mais de uma centena de servidores externos aos quadros da estatal. A medida gerou reação nos meios políticos, mas ele recebeu nosso apoio. De volta à Aeronátutica, Nicácio assumiu a direção do estratégico Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial. Ali certamente atingirá resultados tão valiosos quanto os da Infraero”.
Os feitos memoráveis de Marta todos conhecem, pois sua atividade- embora em dimensão menor do que ocorre com o futebol masculino -, é razoavelmente focada pela televisão, pelo rádio, pela internet, pelos jornais, e ela já conquistou fama internacional.
Quando ao tenente brigadeiro Cleonilson Nicácio, saber que existem alagoanos com esse perfil de seriedade, de honestidade, de firmeza, de qualificação técnica, ocupando importantes postos nacionais, é sempre um motivo de alegria e de esperança.
Para quem não sabia que Nicácio era um dos nossos, vai aí essa anotação para a agenda do Orgulho Alagoano.

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Algumas ideias para proteger os jovens

terça-feira, dezembro 8th, 2009

Ao postar comentário em artigo que escrevi sobre a vulnerabilidade de Maceió à violência contra os jovens, que torna a capital alagoana campeã nacional de risco juvenil, o professor Élcio Verçosa – maior expressão da educação em Alagoas -, assim se manifesta:” Que políticas públicas temos para a nossa meninada, além de shows que assassinam o bom gosto e tocar fogo em quem transgride a norma? Seria tão fácil tirar de imediato um bom número de menores da rua: bastaria umas duas escolas em tempo integral, atendendo o que preconiza a Lei de Diretrizes e Bases da Educação há quase 14 anos”.

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Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro

O que diz o professor Élcio é o que algumas autoridades, em outras cidades brasileiras, já enxergaram há algum tempo e estão pondo em prática: além de adotar a escola como o mecanismo mais eficaz de formar jovens saudáveis, afastados dos riscos que levam à violência, conduzindo-os à vida adulta produtiva, estão aplicando outras políticas públicas necessárias ao bem-estar e ascensão da sua população juvenil. É a intervenção pública imprescindível, até mesmo obrigatória, sem a qual, como acontece em Maceió, os jovens, fora da escola, ou mergulhados na repetência, perdem o rumo e se expõem a toda sorte de tragédias, envolvendo-se nas drogas, na prostituição, até colherem a morte prematuramente.

No sábado passado, vendo um quadro que Luciano Hulk apresenta no seu “Caldeirão”, da TV “Globo”, observei o que se passa no Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Antes considerado um dos pontos de maior violência da antiga Capital, poderoso centro de tráfico de drogas e de armas e reduto de absurda incidência de homicídios, o Dona Marta é, hoje, motivo de orgulho e exemplo para o mundo. Graças à ação vigorosa e responsável do poder público, e ao envolvimento cidadão da comunidade, tudo foi transformado em ambiente de convivência sadia, local de trabalho honrado, de vida escolar modeladora, de alimentação duradoura de sonhos.

No domingo, na “Folha de São Paulo”, o jornalista Gilberto Dimenstein, que há anos põe seu olhar profissional sobre os caminhos e descaminhos da juventude brasileira, revela outra informação animadora: a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, registrou apenas um homicídio nos últimos 8 meses. Para quem não sabe ou não lembra, Cidade de Deus, dominada por traficantes, aonde a vida aos cidadãos decentes era praticamente impossível, foi registrada de forma impactante pelo diretor Fernando Meireles, e notabilizou-se mundialmente como símbolo da violência.

A paz que ali se implantou decorre, novamente, de intervenção pública corajosa, organizada e ininterrupta, também, a exemplo de Dona Marta, com a participação da própria comunidade.

Outro exemplo: há 10 anos, o Jardim Ângela, em São Paulo, foi apontado pela ONU como a região mais violenta do mundo, mais do que qualquer bairro do Rio, inclusive a Cidade de Deus, com estatísticas de violência suplantando Medellin, na Colômbia. Hoje, São Paulo é tida como uma cidade menos violenta do que Curitiba e Florianópolis, e isso de deve exatamente à redução brutal dos crimes em Jardim Ângela. Mais uma vez, graças ao papel do poder público, à colocação da escola como núcleo de convivência e ao envolvimento da comunidade.

Será que esses exemplos, e milhares de outros espalhados por esse Brasil afora, podem servir de modelo para os nossos governantes?

Esta é uma impertinência que me angustia.

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Violência contra os jovens não é só questão policial

quarta-feira, dezembro 2nd, 2009

Duas pesquisas encomendadas pelo Ministério da Justiça, divulgadas na semana passada, põem Arapiraca e Maceió entre as cidades nas quais os jovens são mais vulneráveis à violência, figurando em 11° e 13° lugares no rol das 43 cidades pesquisadas. Contudo, colocada no rol das 27 capitais brasileiras, Maceió é a campeã absoluta de vulnerabilidade. Ou seja, aqui os jovens morrem mais cedo, tragados pela violência.

Esse desconforto – que não é novo, mas que se agrava a cada dia -, colocou segmentos da classe política alagoana em dissimulado alvoroço. O prefeito de Maceió, Cícero Almeida, adversário do Governador Teotônio Vilela, e tido como provável candidato ao Governo em 2010, declarou que é “preciso ter coragem” para combater a violência e realçou saber “como fazer isso”, pois teria longa experiência como apresentador de programas policiais de rádio e televisão. Mas, sendo justamente o prefeito da capital mais vulnerável à violência juvenil, não saiu da esfera meramente policial. O máximo que deixou de sua fala foi uma expectativa a ser provada.

Outro protagonista enfurecido foi o Senador Renan Calheiros. Do alto de sua reconhecida influência na política nacional, que já lhe rendeu importantes posições, dentre as quais – e, nesta questão a mais significativa -, a de Ministro da Justiça, Calheiros foi direto ao assunto: pregou a destituição imediata de toda a cúpula da Secretaria de Defesa Social (Segurança), reforçando o seu entendimento de que todo esse grave ambiente que torna Maceió tão perigosa aos jovens, é pura e simplesmente uma questão policial.

Ouso ter uma visão diferente sobre o problema, embora tenha a compreensão de que o combate à violência, à criminalidade, necessite de polícia forte, inteligente, bem treinada, bem remunerada, bem dirigida, bem equipada. Mas o grave quadro de vulnerabilidade à violência, que expõe o nosso universo juvenil – e afeta todas as idades -, tem raízes mais profundas, mais abrangentes, que não podem ser mascaradas por mera visão policialesca.

É necessário que se atente para as necessidades humanas. Dessa análise da condição juvenil alagoana emerge uma realidade caracterizada por brutal desigualdade social, que resulta em formas diversas de mal-estar: situações de pobreza extrema, analfabetismo, condições habitacionais precárias, baixa qualidade de ensino, alta incidência de falências escolares, trabalho precoce, desestruturação familiar, justiça ineficiente e distante, que propicia a impunidade, violência doméstica, trabalho ilegal, abandono, gravidez precoce, ausência grave de meios para o desenvolvimento esportivo, para a vivência e a prática cultural. E, no caldo dessa precariedade assustadora e crescente das nossas cidades, uma atração fatal às drogas e à prostituição.

Não é possível deixar de enxergar que as principais vítimas dessa violência que ceifa vidas precocemente, são jovens pobres e negros, especialmente os que se encontram na faixa dos 15 aos 24 anos. Exatamente aqueles que, na passagem da infância para a juventude, não estão tendo oportunidades para chegar à vida adulta.

Além de aplicação constante em segurança pública, evidentemente necessária à paz, é fundamental que os governantes – com o apoio indispensável da classe política, independentemente de palanques -, ampliem os programas sociais e executem obras que dêem condições dignas de habitação, de saneamento, de saúde, às famílias; que propiciem a crianças e jovens os meios adequados à cultura, às artes, aos desportos; que os preparem para o trabalho, mas que, como prioridade suprema, transformem a escola num movimento de atratividade.

Querer colocar a questão atrás das grades, é mero estágio de inconsciência.

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Raça Pura

domingo, novembro 22nd, 2009

racapura2Sexta-feira passada, ocorreram em diversos pontos do Brasil, comemorações ao Dia da Consciência Negra, tentativas louváveis de a nação penitenciar-se pelo estúpido preconceito de que o negro foi vítima em nossa sociedade, sobretudo durante o passado vergonhoso da escravidão.

A construção da economia brasileira, feita pelos colonizadores portugueses, foi toda às custas de trabalho escravo, dos negros trazidos da África, feito mercadoria. Mais de 300 anos de escravidão, que nem a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, conseguiu libertar, legando ao futuro uma população mestiça, pobre, sem autonomia, explorada e inferiorizada.

Esse quadro, ao contrário de transformar negros e mestiços em vítimas dos colonizadores e do capitalismo que se implantou no Brasil, de modo a gerar mecanismos de proteção aos seus descendentes, só serviu para criar formas veladas, e até explícitas de preconceitos.

Basta verificar que muita gente importante e influente, no Brasil, vários médicos, psiquiatras, sanitaristas, jornalistas, escritores, alimentaram, por pelo menos três décadas do século XX, ideias absurdas de purificação da raça brasileira, atribuindo-se à miscigenação, a negros e índios, as causas do atraso econômico, da degradação moral e do advento de inúmeras doenças.

No seu livro “Raça Pura”, resultado de profunda pesquisa que desenvolveu sobre a eugenia no Brasil, Pietra Diwan faz um relato desse vergonhoso tema – que ainda constitui, entre nós, um verdadeiro tabu – e traz revelações estarrecedoras sobre alguns ilustres brasileiros.

Um deles é o nosso Monteiro Lobato, escritor consagrado, cultuado entre as crianças, criador do Jeca Tatu, personificador do mestiço brasileiro, figura que tinha “no sangue e nas tripas um jardim zoológico da peor especie. Essa bicharia que te faz papudo, feio, molengo e inerte”.

Embora tenha se popularizado que o grande mentor e propagandista da purificação da raça brasileira tenha sido o médico e farmacêutico Renato Kehl, a verdade é que ele nunca esteve só. De fato, Kehl escreveu vários livros sobre o tema, a exemplo de “A Cura da Fealdade”, de 1923, “Lições de Eugenia”, de 1929, e “Por Que Sou Eugenista”, de 1937, e junto a Arnaldo Vieira de Carvalho, Olegário de Moura, Arthur Neiva, Franco da Rocha, entre outros, criou a Sociedade Eugênica de São Paulo, que recebeu amplo e entusiasmado apoio de Júlio de Mesquita e do seu jornal “O Estado de São Paulo”.

Mas, Monteiro Lobato, no único romance que escreveu, “O choque das raças ou o Presidente Negro”, compõe uma trama futurista, após a vitória da eugenia, implantada no início do século XX. No ano de 2228, os Estados Unidos se depararão com o problema racial mais forte de toda a sua história, a eleição do primeiro presidente negro.

Louvada seja a Democracia norte-americana, que, antecipando-se ao vaticínio de Lobato, elegeu o Presidente Barack Obama, sem que isso tenha sido uma tragédia racial.

O livro do criador do Jeca Tatu foi escrito com o objetivo de tornar-se best-seller nos Estados Unidos, aonde Monteiro Lobato iria morar, na condição de adido cultural no consulado brasileiro de Nova York. Esse sucesso, contudo, não ocorreu. O livro sofreu repúdio, devido ao conteúdo controverso.

Intimamente ligado a Renato Kehl, Monteiro Lobato a ele escreve um carta, na qual, ao fazer aberta e declarada defesa dos ideais eugenistas, afirma:
“ Renato. Tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo (…) Precisamos lançar, vulgarizar essas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato”.

Que coisa horrível. E pensar que as nossas crianças foram nutridas no culto às suas obras…

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