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Nossas eleições são feitas de conchavos

28/02/2010 - 14:50 -

Estamos em ano eleitoral, época em que poucos ouvidos ficam aguçados, poucos olhos críticos se abrem para enxergar direito o que acontece a cada dois anos no Brasil. Aliás, eleição brasileira, sobretudo nos Estados pobres do Nordeste, é um processo permanente, eterno, ininterrupto – não por parte do povo, de onde são extraídos os eleitores -, mas dos próprios políticos, que passam o tempo todo só pensando e só falando em voto. Abertas as urnas , e lá estão os eleitos, e também os derrotados, no dia seguinte,  ocupando a mídia, quase toda ela submissa, para tratar já da próxima eleição e dos esquemas que possibilitarão a próxima vitória. Ora,  isso é mais importante do que trabalhar, do que justificar as promessas apregoadas.

Isso ocorre, infelizmente,  porque, embora estejamos numa Democracia,  essas eleições não são decididas  pela população, pelos coitados dos eleitores. Esses, pouco contam. Quem decide a parada, em torno dos quais residem todas as atenções e nos quais são feitos todos os investimentos, são os próprios políticos, os cabos-eleitorais, os vereadores, os ocupantes de cargos públicos,  os deputados federais e estaduais, os senadores, os governadores e robusta parte do  empresariado, não necessariamente nessa ordem. Todo o processo se move nos conchavos, nos acertos de bastidores, à revelia dos eleitores, do interesse público.

Não se tem lembrança, por exemplo, de algum candidato a governador que haja centrado sua campanha no eleitor, no povo. Que tenha feito esforço verdadeiro para convencer a população sobre suas propostas, sobre seus planos. Que tenha tido o desprendimento e ocupado seu tempo em esclarecer o eleitor porque deseja ser governador do Estado e o que a sua eleição vai significar para a vida de cada cidadão. Que tenha estabelecido um vínculo direto com o povo, sem intermediário, sem promessa de emprego, sem dinheiro na jogada.

Tive a alegria de assistir ao documentário “By The People” – Escolhido pelo Povo -, contando a odisséia da recente eleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos da América. Emociona ver como um homem negro, pouco conhecido, sem vínculos nas elites, consegue construir com a população uma aliança arrebatadora, que o levou do quase nada à mais consagradora vitória da recente história da política americana.

É impressionante como essa aliança é formada, de forma espontânea, com base marcante no voluntariado e – dentro dele -, o  papel exponencial de Michelle, a mulher, e suas duas  filhas , misturando-se aos jovens, a jornalistas, às pessoas comuns,  como verdadeiras operárias, falando a mesma linguagem e tendo as mesmas atitudes, na dificil tarefa de tornar conhecido o nome do seu líder.

Vale a pena ver como o começo era desanimador, porque as pessoas do povo  não conheciam Obama e tinham enormes dificuldades em entender seu nome, quando abordados, pelo telefone, pelos  voluntários . Mas ninguém desistia. A ação  formiguinha foi crescendo, até  transformar-se num movimento espantoso, que fez de Barack Obama, de fato, um presidente “escolhido  pelo povo”.

Recomendo àqueles que desejam conquistar o voto dos nossos cidadãos que gastem menos dinheiro com a eleição. Que se afastem daqueles que só esperam receber, em dobro, a ajuda que prometem na eleição. Basta dar uma olhada atenta no documentário sobre a eleição de Obama. Quem sabe, assim, não podemos sonhar com o dia em que os eleitos possam ser realmente fruto da vontade popular.

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(8) Comentários - Você está em Blogs

8 Comentários para “Nossas eleições são feitas de conchavos”

  1. Zé Otávio

    Pura e dura verdade. Poucas pessoas conseguem ver essa realidade e tentam uma discussão que leve ao esclarecimento. Tenho lido a opinião política de Pedro Oliveira e a expressão do Pompe. Vocês estão certos e fazem muito bem com essa linha de conduta em favor do povo.

  2. Laís Záu

    Preocupa-me substancialmente o cidadão brasileiro não ser o sujeito no processo eleitoral. Você tem toda razão na abordagem que faz, pois os candidatos não se ocupam do eleitor, o objeto de atenção é correligionários e acordos políticos. O cidadão brasileiro não é partícipe da eleição, acredito que desse modo o processo democrático fica prejudicado. Ótima reflexão.

  3. Pedro Oliveira

    Meu caro JO
    O seu belo comentário faz-me lembrar a minha última aula na UnB no encerramento da especialização em Ciências Politicas no ano de 1988 quando o nosso coordenador do Curso ( Professor Octaciano Nogueira dizia: “Se a política no Brasil fosse a décima parte do que vocês aprenderam aqui já teríamos um ganho fabuloso. Vocês passaram mais um ano estudando a política como ciência, no Brasil a política é um negócio. E um negócio sujo!” Então amigo é isso ai. Você como eu vivenciou muitos anos de política e de jornalismo e sabe perfeitamente por onde as coisas caminham. Infelizmente. Bem que tentamos, mas muitas circunstâncias nos impedem de mudar. Pelo menos fazemos a nossa parte. E esta é reconhecida por pessoas especiais como o Zé Otávio. Vamos em frente que este ano é quente.

  4. luizpompe

    Infelizmente os acertos de bastidores se sobrepoem às propostas em prol da comunidade (propostas que deveriam ser a própria razão de qualquer campanha a qualquer cargo público). A cruel realidade que você relata precisa mudar para um painel que exige uma série de outras mudanças que culminem não só no esclarecimento da opinião pública, mas também na aplicação do que é legal e legítimo. Como disse o Pedro, o ano, literalmente, é quente.

  5. Luiz Carlos

    Parabéns!!! Ah se algum dia o povo escolhesse o seu candidato sem depender de favores e $$$! O Brasil e Alagoas (principalmente) seria outra… Quem sabe um DIA!!!

  6. Mané da Silva

    De conchavos e muita grana meu caro Blogueiro…

  7. Luciana

    Gente, estou envergonhada de ser alagoana. Esse conluiu que vejo na imprensa, juntando Cícero Almeida, Collor, Benedito, Lessa e companhia, num projeto político, é de dar dó. Isso é que você realmente pode chamar de conchavo.Mais uma vez você tá certo.

  8. Marluce

    Isso é uma vergonha. Nunca seremos uma civilização enquanto as eleições forem decididas assim, na compra de votos e de cargos


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