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impertinencias

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Num ano eleitoral, nada mais pertinente do que a arte de calar

08/02/2010 - 13:31 -

Estamos em ano eleitoral, quando todos somos chamados a eleger nossos representantes, no Parlamento, e nossos governantes, no Executivo. Em muitos momentos históricos, mesmo no Brasil de terríveis contradições e desníveis, o  voto transforma-se em motivo de festa, de alegria cívica, embora  não muito tempo depois de empossados, representantes e governantes deixem de ser nossos para ser apenas, e rigorosamente,  deles, dos seus interesses, das suas particularidades, dos seus negócios e negociatas. E os nossos, que seria a Nação, o Estado, o coletivo, o povo, restringe-se à família e a um pequeno grupo bem ensinado, cujo cabedal cultural é a cartilha do chefe.

Se não bastasse isso para  nos espantar e entristecer, duro, igualmente, é  apreciarmos a falácia, o despudor verbal da robusta maioria dos nossos candidatos, o esforço ilógico e deselegante que realizam na tentativa de conquistar, logo o quê, o nosso voto. Como é estúpido observamos, até mesmo nos horários nobres do rádio e da TV,  os discursos incendiados, vestidos de mentiras, de invencionices, de ataques desenfreados aos adversários, de calúnias, de difamação , de promessas impossíveis de ser cumpridas. E, ao findar de tudo, embora tudo fique impune, por conta de uma justiça do faz-de-conta, nada sai da nossa cabeça, tudo fica impregnado no nosso ouvido e na nossa mente, causando-nos uma dor imensa e uma frustração dilacerante na alma.

Ao pensar sobre essa triste realidade da nossa cultura político-eleitoral, trago um texto do Abade Joseph Antoine  Toussaint Dinouart, sobre a arte do calar. É um bom motivo para reflexão. Quem sabe, algum candidato às próximas eleições não tire disso proveito? Se isso ocorrer, já me darei por satisfeito.

A arte de calar

Abade Joseph Antoine Toussaint Dinouart

O primeiro grau da sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito sem falar mal e sem falar demais.

É preciso saber governar a língua, considerar os momentos convenientes para retê-la ou dar-lhe uma liberdade moderada.

Princípios necessários para calar

1)     Só se deve deixar de calar quando se tem algo a dizer que valha mais do que o silêncio.

2)     Há um tempo de calar, assim como há um tempo de falar.

3)     O tempo de calar deve sempre vir em primeiro lugar; e nunca se pode bem falar quando não se aprendeu antes a calar.

4)     Não há menos fraqueza ou imprudência em calar, quando se é obrigado a falar, do que leviandade e indiscrição em falar, quando se deve calar.

5)     É certo que, considerando as coisas em geral, há menos risco em calar do que em falar.

6)     O homem nunca é tão dono de si mesmo quanto no silêncio: fora dele, parece derramar-se, por assim dizer, para fora de si e dissipar-se pelo discurso; de modo que ele pertence menos a si mesmo do que aos outros.

7)     Quando se tem uma coisa importante para dizer, deve-se prestar a ela uma atenção muito especial: é necessário dizê-la primeiro a si mesmo e, depois de tal precaução, voltar a dizê-la, para evitar que haja arrependimento quando já não se tiver o poder de voltar atrás no que se declarou.

8)     Quando se trata de guardar segredo, calar nunca é demais; o silêncio é então uma das coisas em que, geralmente, não há excesso a temer.

9)     A reserva necessária para guardar o silêncio na conduta geral da vida não é uma virtude menor do que a habilidade e a aplicação em bem falar; e não há mais mérito em explicar o que se sabe do que em se calar o que se ignora. O silêncio do sábio às vezes vale mais que o arrazoado do filósofo; o silêncio do primeiro é uma lição para os impertinentes e uma correção para os culpados.

10) O silêncio muitas vezes passa por sabedoria em um homem limitado e por capacidade em um ignorante.

11) Somos naturalmente levados a acreditar que um homem que fala muito pouco não é um grande gênio e que o outro que fala demais é um transtornado ou um louco. Mais vale passar por não ser um gênio de primeira grandeza, permanecendo frequentemente em silêncio, do que por louco, abandonando-se à comichão de falar demais.

12) A característica própria de um homem corajoso é falar pouco e executar grandes ações. A característica de um homem de bom senso é falar pouco e dizer sempre coisas razoáveis.

13) Mesmo que tenha propensão ao silêncio, sempre se deve desconfiar de si mesmo; e se houver muita paixão em dizer alguma coisa, este será um motivo suficiente para decidir não dizer.

14) O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas é preciso sempre ser sincero; podem-se reter alguns pensamentos, mas não se deve camuflar nenhum. Há maneiras de calar sem fechar o coração; de ser discreto sem ser sombrio e taciturno; de ocultar algumas verdades sem as cobrir de mentiras.

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(8) Comentários - Você está em Blogs

8 Comentários para “Num ano eleitoral, nada mais pertinente do que a arte de calar”

  1. luizpompe

    Diante de tantos falastrões não só na política, mas nas ruas, nos bares e até nos próprios lares, são pertinentes os conselhos do Abade Joseph Antoine sobre a Arte de Calar. Concordo com você, JOsmando, quando destaca que os melhores homens, especialmente homens públicos, são aqueles que falam pouco e executam grandes ações!

  2. Laís Záu

    Além dos ensinamentos do abade Joseph Dinouart, também devemos aprender com Immanuel Kant que não aceitava a mentira em nenhuma situação, aprender com o Aristóteles que a virtude está no meio-termo e lembrarmos que “o exercício do poder revela o homem”, palavras de Bias.

  3. Luciana Azevedo

    Muito legal o portal, e adorei o artigo sobre a arte de calar no ano eleitoral. Serei leitora assídua, uma vez que já sou fã do diretor presidente, meu mestre José Osmando. Boa sorte e tenho certeza que esse desafio já é um sucesso, pela sua competência e profissionalismo.
    Beijos
    LU

  4. JACIRENE

    Li sua coluna, gostgei muito do texto, serei sua leitora assídua.
    Quanhdo estava lendo, lembre da frase de Martin Luther King, proferida em outro contexto, mas atualíssima.
    “O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”.

  5. Jacirene

    Li sua oluna, gostei muito do texto, serei sua leitora assídua.
    Quando estava lendo, lembrei da frase de Martin Luther King, proferida noutro contexto, mas atualíssima.
    “O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética.
    O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”

  6. Siqueira

    Obrigado pela dica de conhecimento e a oportunidade de conhecer o seu blog. De fato, as lições do abade são extremamente pertinentes e deveriam ser assimiladas por muita gente que anda se perdendo em falácias de botequim. De uma coisa fique certo, amigo: tê-lo como interlocutor , companheiro de profissão e acima de tudo parceiro de copo e de bar,é muito bacana.

  7. CLAUDIO

    Já disse Charles Chaplin: “O som aniquila a grande beleza do silêncio.”

  8. Ofendido

    Muito legal esse ensinamento do abade Dinouart


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