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impertinencias

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Violência contra os jovens não é só questão policial

02/12/2009 - 7:45 -

Duas pesquisas encomendadas pelo Ministério da Justiça, divulgadas na semana passada, põem Arapiraca e Maceió entre as cidades nas quais os jovens são mais vulneráveis à violência, figurando em 11° e 13° lugares no rol das 43 cidades pesquisadas. Contudo, colocada no rol das 27 capitais brasileiras, Maceió é a campeã absoluta de vulnerabilidade. Ou seja, aqui os jovens morrem mais cedo, tragados pela violência.

Esse desconforto – que não é novo, mas que se agrava a cada dia -, colocou segmentos da classe política alagoana em dissimulado alvoroço. O prefeito de Maceió, Cícero Almeida, adversário do Governador Teotônio Vilela, e tido como provável candidato ao Governo em 2010, declarou que é “preciso ter coragem” para combater a violência e realçou saber “como fazer isso”, pois teria longa experiência como apresentador de programas policiais de rádio e televisão. Mas, sendo justamente o prefeito da capital mais vulnerável à violência juvenil, não saiu da esfera meramente policial. O máximo que deixou de sua fala foi uma expectativa a ser provada.

Outro protagonista enfurecido foi o Senador Renan Calheiros. Do alto de sua reconhecida influência na política nacional, que já lhe rendeu importantes posições, dentre as quais – e, nesta questão a mais significativa -, a de Ministro da Justiça, Calheiros foi direto ao assunto: pregou a destituição imediata de toda a cúpula da Secretaria de Defesa Social (Segurança), reforçando o seu entendimento de que todo esse grave ambiente que torna Maceió tão perigosa aos jovens, é pura e simplesmente uma questão policial.

Ouso ter uma visão diferente sobre o problema, embora tenha a compreensão de que o combate à violência, à criminalidade, necessite de polícia forte, inteligente, bem treinada, bem remunerada, bem dirigida, bem equipada. Mas o grave quadro de vulnerabilidade à violência, que expõe o nosso universo juvenil – e afeta todas as idades -, tem raízes mais profundas, mais abrangentes, que não podem ser mascaradas por mera visão policialesca.

É necessário que se atente para as necessidades humanas. Dessa análise da condição juvenil alagoana emerge uma realidade caracterizada por brutal desigualdade social, que resulta em formas diversas de mal-estar: situações de pobreza extrema, analfabetismo, condições habitacionais precárias, baixa qualidade de ensino, alta incidência de falências escolares, trabalho precoce, desestruturação familiar, justiça ineficiente e distante, que propicia a impunidade, violência doméstica, trabalho ilegal, abandono, gravidez precoce, ausência grave de meios para o desenvolvimento esportivo, para a vivência e a prática cultural. E, no caldo dessa precariedade assustadora e crescente das nossas cidades, uma atração fatal às drogas e à prostituição.

Não é possível deixar de enxergar que as principais vítimas dessa violência que ceifa vidas precocemente, são jovens pobres e negros, especialmente os que se encontram na faixa dos 15 aos 24 anos. Exatamente aqueles que, na passagem da infância para a juventude, não estão tendo oportunidades para chegar à vida adulta.

Além de aplicação constante em segurança pública, evidentemente necessária à paz, é fundamental que os governantes – com o apoio indispensável da classe política, independentemente de palanques -, ampliem os programas sociais e executem obras que dêem condições dignas de habitação, de saneamento, de saúde, às famílias; que propiciem a crianças e jovens os meios adequados à cultura, às artes, aos desportos; que os preparem para o trabalho, mas que, como prioridade suprema, transformem a escola num movimento de atratividade.

Querer colocar a questão atrás das grades, é mero estágio de inconsciência.

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(8) Comentários - Você está em Blogs

8 Comentários para “Violência contra os jovens não é só questão policial”

  1. Álvaro Luiz

    É correta a sua avaliação. Não haverá diminuição da violência se as coisas forem tratadas apenas pelo lado policial. É preciso entender que as pessoas precisam de estruturas que as impeçam de entrar na marginalidade. Parabéns

  2. Sílvio Lessa

    O Cícero e o Renan deveriam tomar rumo na vida e trabalhar de verdade, ao invés de ficar o tempo todo no palanque, só pensando em eleição.

  3. Laís Záu

    A violência é fruto da certeza de impunidade e da ausência de políticas públicas. É no vazio do pode público que a bandidagem cresce. Isso aconteceu no Rio de Janeiro, em São Paulo e, infelizmente, hoje atinge todo o Brasil. Fico pensando que futuro terão nossos jovens? Devemos falar muito sobre esse tema, pois é da maior importância.

  4. Meg Oliveira

    Suas impertinências são sempre profundamente pertinentes. Não é o hoje, apenas, resultado de desmandos anteriores, que se necessita combater, é para o futuro que se precisa plantar. Enquanto não existir eficiência dos nossos governantes no sentido de dar base para uma vida digna, jovens vão ser vítimas e também geradores da violência. Parabéns pelo artigo.

  5. Auro Costa

    Parabenizo-lhe pelo brilhante artigo. Poucos sabem colocar o dedo na ferida e você é um desses poucos. É sabido que a violência ocupa os vazios deixados pelo Estado que tem o dever constitucional de proteger o cidadão através de políticas públicas eficazes, combate às desigualdades, inclusão social e, acima de tudo, fomento à cidadania. Debater um tema dessa magnitute é, e será sempre, necessário para que possamos aguardar um despertar das autoridades constituídas e da sociedade civil organizada para a realidade objetiva que nos cerca.

  6. Margareth Sá

    Fico pensando: será que teremos saída, diante de tanto descaso, de tanta falta de inteligência de nossos políticos, de tanto alheiamento dos que receberam o nosso voto? A gente elege um sujeito, embalada pelo discurso progressista do cara, e logo vê que o pilantra, ao assumir o cargo que delegamos, volta as costas à população e só pensa no seu bolso. É de matar. Mas imagino que um dia eles ficarão tão acossados pela onda dos marginalizados, que terão que se mancar.

  7. Elcio Verçosa

    Meu prezado José Osmando, se não comento mais seus posts é por absoluta falta de tempo: concordo com você em tudo, especialmente com a lúcida observação de que nossa juventude está abandonada… Que políticas públicas temos para a nossa meninada, além de shows que assassinam o bom gosto e promessas de meter gasolina e tocar fogo em quem transgride a norma? Seria tão fácil tirar de imediato um bom número de menores da rua: bastaria umas duas escolas de tempo integral, atendendo o que preconiza a Lei de Diretrizes e Bases da Educação há quase 14 anos! O povo espera tão pouco de nós para ouvir apenas frases de efeito, não é mesmo?! Parabéns, amigo, por suas sábias análises.

  8. Éfren Cordão

    Parabéns pela eloquente análise. A desigualdade de oportunidades cria esse abismo que gera violência, ante a falta de opções para o devenir.


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