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Sua benção, Vinícius!

sexta-feira, setembro 23rd, 2011

No dia nove de Julho de 1980, um edema pulmonar matou o poeta. Décadas depois, continuamos a chorar sua morte. Odeio a morte. Tenho medo da morte. A morte é fria. A morte leva, impiedosa, os melhores de nós. Nos priva, secamente, dos mais queridos que temos, a morte. Insaciável e ameaçadora, paira agourenta sobre aqueles que nunca deveriam nos deixar, a morte.

Vinícius de Moraes, poeta da música brasileira. Parceiro de Tom Jobim, Baden Powell, Toquinho, Chico Buarque, Pixinguinha e tantos outros, sua benção. Vinícius de Moraes autor do hino da UNE (União Nacional dos Estudantes), feito com Carlinhos Lyra, sua benção.

Desde menino, ainda estudante em Niterói, Vinícius era para mim o maior. Como eu o admirava. Eram dele as canções de que eu mais gostava. Àquela época, 64/65, nós, do MPB4, éramos “macacos de auditório†dos nossos mestres vocais: Os Cariocas. Onde Severino Filho, Luís Roberto, Badeco e Quartera cantassem, lá estaríamos nós, babando. Fosse numa gravação no estúdio da Philips (hoje, Universal) no centro do Rio de Janeiro ou num show no Teatro Santa Rosa, Ipanema-RJ, pegaríamos a velha Cantareira e lá íamos, ávidos por ouvir nossos ídolos. Aliás, foi depois de um show do Baden, no mesmo Teatro Santa Rosa (não existe mais o Teatro Santa Rosa, que pena!) que fomos aos camarins e lá estavam, além dele, Os Cariocas e Vinícius de Moraes. Nós, que tínhamos um vastíssimo repertório de… três músicas, atendendo a pedido do maestro Severino Filho – após termos sido apresentados por ele ao poeta –, cantamos tudo o que sabíamos. Vinícius adorou. Elogiou e aplaudiu nossas qualidades vocais, o bom-gosto do repertório e nos incentivou para que não esmorecêssemos. Não… Vem cá, digam a verdade, é mole? Quantos jovens sonham com estímulo como esse? E não encontram… Sermos aplaudidos, literalmente, por Baden Powell, Os Cariocas e Vinícius de Moraes naquele camarim foi uma benção.

Ano de 1966, estávamos na casa do Aloísio de Oliveira, dono da gravadora Elenco (essa gravadora é um capítulo à parte na história da Música Popular Brasileira), na Avenida Epitácio Pessoa, Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro. Aloísio nos convidara para gravar nosso primeiro disco na sua Elenco e então fomos à sua casa acertar alguns detalhes do contrato que seria assinado. De repente, a campainha toca e, glorioso, adentra o gramado: Vinícius de Moraes. Como diria o nosso grande baterista Wilson das Neves: “Ô sorte!†Se o Aloísio já gostava do nosso trabalho, que dirá então agora quando o poetinha der sua opinião sobre a gente, pensamos num uníssono silencioso. Parecia coisa combinada, coisa de filme.

Vinícius sentou-se numa poltrona à nossa frente, uisquinho na mão. Ouvindo praticamente as mesmas músicas que já havíamos cantado para ele no camarim do Teatro Santa Rosa, meses atrás. Não sorria, estava diferente, o Vinícius. Não aplaudiu entusiasmado quando acabamos de cantar “A Fábricaâ€, de Sérgio Ricardo. É… Estava bem diferente naquele dia, o Vinícius. Vimos quando ele foi pegar outra dose. Na volta, de pé, bem à nossa frente, trovejou: “Vocês são uns merdas… Sérgio Ricardo é uma merda… Esse tal de Chico Buarque, outra merda… Essas músicas são umas merdas… Vocês todos são uns merdas…†Mesmo não sendo gênios, concluímos: deu merda! Das grandes!

Aloísio, que tinha ido levar o poeta até um taxi, voltou com umas pizzas e, gentilmente, não tocou no assunto. Apenas comemos as pizzas. Meses depois gravamos nosso primeiro long-play na Elenco.

Anos após, reencontramos Vinícius de Moraes na casa dele, em Itapuã, Salvador, Bahia. E rimos, como rimos. Cantamos juntos músicas de Sérgio Ricardo, de Chico Buarque e nos divertimos. Muito. Era assim o poeta. Imprevisível e genial.

PS. Este texto foi publicado, originalmente, em meu livro “O Gogó de Aquiles”, lançado em 2004 pela A Girafa Editora.

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Quem quebrou o violão de Sérgio Ricardo

sexta-feira, julho 8th, 2011

Sérgio Ricardo nasceu João Mansur Lutfi em Marília, interior de São Paulo. Péssimo aluno nas matérias convencionais, João Lutfi destacava-se, no entanto, nas aulas do Conservatório de Música Santa Cecília. Tornou-se músico.

Fez-se ator. Foi galã das primeiras telenovelas da extinta TV Rio. Na TV Tupi de São Paulo, participou da novela O Corsário. O diretor implicou com o João Lutfi. Nasceu então Sérgio Ricardo.

Compositor, gravou seu primeiro 78 rpm na RGE, em 1958, cantando “Vai Jangadaâ€, de Geraldo Serafim e Nazareno de Brito. Ainda nos anos 1950, Maysa gravou “Buquê de Isabelâ€. Essa gravação fez com que Sérgio fosse descoberto como compositor pelo público. Cantor, gravou seu primeiro sucesso, “Zelãoâ€, tornando-se conhecido nacionalmente.

Cineasta, filmou pelo menos cinco curtas-metragens. O Menino da Calça Branca tirou o segundo lugar no Festival de San Francisco, Califórnia. Pássaro de Aldeia, feito para o governo da Síria e que não chegou a ser exibido no Brasil, foi filmado nos anos 1960, na aldeia de Sidnaya, onde nasceu Abdala Lutfi, pai de Sérgio. Esse filme representou a Síria em diversas mostras internacionais de curtas-metragens. Filmou três longas: A Noite do Espantalho, protagonizado por Alceu Valença; Esse Mundo é Meu, laureado no Líbano e exibido oficialmente na Mostra Retrospectiva do Cinema Brasileiro em Gênova, na Itália e Juliana do Amor Perdido. Ainda no cinema, Sérgio Ricardo fez música para vários filmes de Glauber Rocha, como Barravento, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e compôs sua obra-prima para o genial Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Pintor, em 1991, expôs vinte telas no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, num projeto que incluía a projeção de alguns de seus filmes e um show onde cantava vinte músicas de sua autoria.

Escritor, lançou os livros de poemas Elo : Ela e Elefante Adormecido. Em janeiro de 1992 lançou, no Rio de Janeiro, seu livro de análise e memória Quem Quebrou Meu Violão.

Este é Sérgio Ricardo. Ele é tudo isso e, no entanto, só é lembrado pelo grande público – quando o é – pelo fato de ter quebrado o violão e jogado na platéia. Isso foi em 1967. Tentando cantar “Beto Bom de Bolaâ€, no festival da TV Record, Sérgio é vaiado impiedosamente. Tenta o dialogo. A vaia aumenta. Furioso grita: “… Vocês ganharam! Este é um país subdesenvolvido! Vocês são uns animais!†Quebra e atira o violão contra o público. Momentos de tensão nos bastidores. Chegamos a temer pela possível interferência do tristemente “famoso†delegado Sérgio Paranhos Fleury, àquela época chefe da segurança do Teatro da Record. Felizmente ele não foi acionado. “Violada na Platéiaâ€, essa foi a manchete do jornal Última Hora, de São Paulo, na manhã seguinte.

Esse é Sérgio Ricardo, múltiplo e polêmico. Contramão do business. Avesso às concessões. Arredio aos apelos da mídia pasteurizada. Talentoso e solitário. Auto-exilado no alto do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Lá, num estúdio simples como ele, preparou as músicas para o poema sinfônico João, Joana, um cordel de Carlos Drummond de Andrade para comemorar seus cinquenta anos de carreira. Acompanhado da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e pelos amigos Chico Buarque, Alceu Valença e Francis Hime, Sérgio vai mostrar que está vivo.

Se morasse nos Estados Unidos, Sérgio Ricardo estaria milionário. Seria ídolo popular. Já aqui… Seria muito bom para nós (re)descobri-lo. Só nos enriqueceria.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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