Posts para a tag ‘samba não morreu’

Quando o samba acabou

quinta-feira, julho 15th, 2010

Domingo à tarde. O rádio está ligado numa rádio qualquer. Acabou de tocar uma dessas músicas chatas que o programador jura que os ouvintes adoram ouvir. Entra o locutor: “Faleceu hoje, no Rio de Janeiro, o compositor e cantor José Flores de Jesus. Zé Keti, como era conhecido nacionalmente, estava internado havia quase um mês e teve falência múltipla dos órgãos. Aos setenta e oito anos, o compositor… O enterro será logo mais às dezesseis horas no cemitério…”

A voz do locutor se misturou com o som da buzina de um carro na rua. Um cachorro latiu. Uma freada se ouviu. Imóvel, senti mais frio. O dia de chuva fina me fez ainda mais triste. Pensei: “Acender as velas já é profissão/ Quando não tem samba, tem desilusão/ É mais um coração, que deixa de bater (…)” Ele, que era o samba, deixou de ser. Um mero e formal anúncio decretou seu fim. Desliguei o rádio, fechei as janelas, as cortinas, bati a porta e saí. O samba acabou.

Fui para o Emenda, bar perto da minha casa, em São Paulo. Afogar mágoas, sentir saudades, cantar e contar histórias desse compositor genial, sambista de linhagem pura, homem inteligente, um dos poucos remanescentes da velha geração que fez da malandragem fonte da mais rica inspiração. Apesar de achar difícil, temi que a turma não estivesse lá. Tremia ao me imaginar sozinho naquela tarde. Ainda na porta pude perceber com alívio que estavam quase todos lá. Vi Silvinha, a doidinha, com os cabelos soltos e olhar vago, linda. Vi o Jorginho D’@lencastro, com os cotovelos apoiados na mesa, triste. Vi Carlos Marques Jr. conversando com Seu Manuel, inconsoláveis os dois.

As garrafas vazias de Brahma denunciavam o propósito da turma de tomar um porre naquele domingo chuvoso. Era tudo o que eu precisava. Entrei. Ao lado do tradicional cartaz pintado com caneta hidrocor vermelha: EMENDA, TEMOS ORGULHO DE SER PIOR QUE O SONETO, lia-se outro, certamente também pintado pela Silvinha, só que com hidrocor azul claro: “SE ALGUÉM PERGUNTAR POR MIM, DIZ QUE FUI POR AÍ, LEVANDO UM VIOLÃO DEBAIXO DO BRAÇO”.

Do outro lado da calçada estava o Soneto, boteco igual ao Emenda, só que próspero. Lá, tudo era indiferença. Isto reforçava ainda mais o orgulho da turma da mesa 4. Eram bares diferentes. Gente diferente.

Jorginho D’@lencastro, o mais experiente e vivido de todos os que estavam no Emenda, assumiu a palavra: “Não acho que o momento seja de chorar. Zé Keti cantou a vida em seus sambas. Lembro dele nos filmes do Nelson Pereira dos Santos: Rio 40 graus e Rio Zona Norte. Lembro dele cantando “A Voz do Morro”, “Opinião”, “Acender as Velas”, “Máscara Negra” e “Diz Que Fui Por Aí”. Lembro dele no show Opinião, ao lado de João do Vale e Nara Leão. Lembro dele no Bip-Bip, do Alfredinho, lá em Copacabana. Lembro tanto da alegria dele ao receber o Prêmio Shell 98, ele, que costumava dizer que nunca havia pedido para entrar no salões bacanas da Zona Sul, muito menos pedido pra sair. Lembro dele lançando, lá no Zicartola, os novatos Elton Medeiros e Paulinho da Viola. Não, hoje, definitivamente, não devemos chorar.”

D’@lencastro prosseguiu com lágrimas nos olhos: “Vamos levantar um brinde ao brasileiro Zé Keti, homem simples e trabalhador, como de resto o são aqueles que sobrevivem com dignidade nessa terra tão injusta e desigual. Vamos cantar os sambas geniais de mais um bamba que nos deixa. Fiquemos com sua memória e canto. O samba não morreu. Seu Manuel, manda mais uma Brahma”.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Zé Keti se foi no dia 14 de novembro de 1999, um domingo. Saudades…

PDF    Enviar artigo em PDF