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Pois é… Por quê?

quarta-feira, maio 18th, 2011

Por que tinha que ser como foi? Podia ter sido mais suave… Como suas músicas. Aquela timidez colossal punha-o contra a parede. Tentar entrar em sua intimidade antes do primeiro gole era acrobacia para trapezista. Sem rede embaixo. Algumas cervejas depois e suas palavras começavam a surgir. Lúcidas. Poéticas… Como suas canções. Um senso de humor despontava luminoso. Um riso brotava da alma. Vinha com um toque de melancolia mal disfarçada. Uma desesperança precoce e dolorida. O que era para ser doce e fluente parecia adquirir peso desproporcionalmente grande à medida que os dias nasciam ou chegava a noite. O momento da criação era sufocado pela angústia contraída num breve espaço de tempo, como uma febre intermitente. Que faz suar frio. Que traz um delírio de nervos à flor da pele.

Sidnei Miller viveu trinta e cinco anos. Tentou passar pela vida como se as dores do mundo não tivessem como atingi-lo. Levantou uma cortina de fumaça protetora e acreditou ser o suficiente. Achou que podia viver apenas para o momento sublime da criação. Intuiu que seria o bastante fazer nascerem canções magistrais. Elas trariam a paz que tanto almejava. Nunca poderia imaginar que teria de lutar de forma tão inglória pelo sucesso. Que teria o descaso da mídia. Que não teria o reconhecimento dos críticos à época. Que viveria buscando se sentir querido. Ser aceito, apenas.

E ele buscou o reconhecimento como qualquer outro, mesmo sendo diferente de outros quaisquer. As opções de mercado? Tentou-as todas. Participou de festivais. Em 1968, fez com Eneida e Paulo Afonso Grisoli, no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, um show antológico: Carnavália. No mesmo Casa Grande fez ainda Yes, nós temos Braguinha. Gravou dois LPs na Elenco: o primeiro trazia apenas seu nome, Sidnei Miller. Simplesmente, como ele. O segundo foi Do Guarani ao Guaraná. Em 1974, na Som Livre, gravou Línguas de Fogo. Antes, já havia feito pelo menos duas trilhas sonoras para cinema e musicado outras duas peças de teatro. Fez show com a amiga e grande compositora Sueli Costa. Em 1978, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, gravou um belíssimo especial para a TV Educativa do Rio de Janeiro. Contudo, o que ele mais buscou e não encontrou foi o carinho do reconhecimento do seu talento invulgar.

Mas será que tinha de ser como foi? Será que, de tanto fazer de conta que tudo o fazia contente e que por nada mais precisaria chorar, o fim teria de ser o que foi? A bebida, eterna companheira como seu violão, destruía-lhe a resistência. Mais que a ditadura e seus censores. Mais que a perda de um emprego qualquer na Funarte. Só não mais que o inconformismo por não ser amado e querido por todas as canções compostas nos únicos momentos de sentir-se pleno. O poder da criação, ensina-nos o poeta, é a possibilidade de ver-nos vivos.

O jornalista Luís Nassif aponta sua sensibilidade de músico bandolinista para além das questões econômicas, para uma realidade antiga: “Tem gente com ‘estrela’, tem gente sem (…) Chico [Buarque] tinha ‘estrela’, Sidnei não.” As estrelas do Sidnei eram as suas músicas, insuficientes, no entanto, para guiar-lhe os passos rumo à vida.

E o autor de “Estrada e o Violeiro”; “O Circo”; “Meu Violão”; “Pois É, Pra Quê?”; “Menina da Agulha”; “Maria Joana”; “Pede Passagem” e tantas outras desistiu. No dia 16 de julho de 1980 Sidnei Miller se matou. Restamos nós, seus admiradores. Cabe-nos chorar sua ausência e apontar aos nossos filhos, netos e amigos quem foi esse que acreditou que ser genial seria suficiente para emocionar um povo.

PS. Este texto foi publicado originalmente em meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004.

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E não é que ele topou, o Chico!”

terça-feira, setembro 14th, 2010

Ultimamente não ando com a memória muito afiada, mal consigo lembrar das últimas doze horas. Mas, engraçado, consigo lembrar com clareza límpida fatos remotos de vinte, trinta anos atrás.

Lembro-me bem. Quando ele nasceu na noite de 24 de Outubro de 1968, Chico, camisa do Fluminense na mão, pulou o portão trancado da maternidade. Passava das onze da noite. O pai, marinheiro de primeira viagem, acabara o estoque de cerveja da lanchonete do primeiro andar daquela clínica no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, e dormia feliz depois de ver seu menino ser amamentado pela primeira vez. Fazia planos para ele, rubro-negro doente seria, sem dúvida. Seria um músico? Talvez, e por que não?

Embriagado de felicidade, despertou com as vozes na porta do quarto: “Mas meu senhor, o horário de visitas já acabou, o senhor não pode entrar aqui desse jeito. A mãe da criança fez cesariana e está sob efeito da anestesia…” Mas quem disse que alguém poderia conter o ímpeto quase juvenil daquele “senhor” de 25 anos? Chico entrou quarto adentro, colocou a camisa tricolor nas mãos rubro-negras do pai atônito e foi-se como entrou, sorrindo, quase correndo.

No dia seguinte a honra flamenguista foi resgatada com a entrega solene, desta vez diretamente nas mãos do recém-nascido, do manto sagrado do Mengão pelo saudoso Ciro Monteiro. Meu menino, juro, sorriu.

E a vida seguiu. Seguir é com ela mesmo, a vida.

Início de 1996. Lembro-me bem. Atendi ao telefone e do outro lado da linha meu menino, já aquela altura com 28 anos, músico profissional (guitarrista, violonista e bandolinista) e rubro-negro doente estava eufórico, mas preocupado. Ele disse: “Fui convidado para participar de um projeto superimportante aqui no Rio. Um show no teatro Dulcina, na Cinelândia, onde cada semana um jovem e iniciante talento se apresenta ao lado de um artista consagrado”. As palavras saiam atropeladas. “Maravilha, parabéns… E quando será o show?”, indaguei. “Será daqui a três semanas, mas… Quem é que eu posso convidar, pai? É… Quem será o artista consagrado que eu posso convidar?” “Liga pro Chico!”, falei. Silêncio ensurdecedor. Do Leblon, no Rio de Janeiro até a Vila Mariana, em São Paulo, creio que todos puderam ouvir o som daquele silêncio retumbante. Finalmente, Pedro fala: “Mas você acha que ele topa?” “Liga e tenta”, sugeri.

E não é que ele topou, o Chico!

11 de Março de 1996. A porta do Dulcina fervilha de gente, muita gente. Na fachada do teatro está lá, para quem quiser ver: “Chico Buarque apresenta Pedro Reis, Thata e Mombaça”, esses dois últimos companheiros do meu filho naquela noite mágica de responsabilidade e reverência ao ídolo que musicalmente os abençoou. Aqueles jovens sentiam isso. Eles tocaram isso aquela noite.

Saí do teatro direto para a última ponte aérea para São Paulo. Embriagado de felicidade telefono: “Chico, mais uma vez você acertou. Pedro merece tudo o que você lhe proporcionou essa noite. Muito mais do que um grande talento musical, você premiou um grande homem.” Eu não vi, mas Chico Buarque sorriu, olhou para o chão e desligou quase correndo. Isso é generosidade!

PS. Este texto foi publicado, originalmente, em meu livro “O Gogó de Aquiles”, lançado pela A Girafa Editora, em 2004.

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