Foi em 1974. Divergências incontornáveis puseram fim ao fenômeno Secos & Molhados. O pesadelo recorrente de Ney Matogrosso parecia que estava por se materializar: “A boca enorme me engolindo”, que ele tanto temia, dessa vez não falharia. O ex-artesão seria tragado para sempre. E Ney livrou-se das camuflagens para viver aventuras ainda mais insurgentes, transbordadas de sons.
Há que ser corajoso para seguir os caminhos e destinos que são reservados a nós, homens e mulheres. Há que ser forte para enfrentar as dores do incerto e o pânico pelo desconhecido. Há que ser destemido para não sucumbir à insegurança que chega com os primeiros sinais de cada aurora. A poucos é concedida essa dádiva. Só aos melhores dentre nós é dada a honra de passar por essa vida vendo-se Ãntegro. Ney Matogrosso é um desses seres humanos escolhidos a dedo para viver essa magia, e o faz plenamente.
E o grande intérprete continuou sua busca por inquietas sonoridades. Como já fizera, ao se aliar musicalmente ao Uakti, ao Aquarela Carioca, a Rafael Rabelo, Ney vislumbrou na percussão de Pedro Luis e A Parede (Plap) uma outra festa que, não podendo parar, segue. Farra da música que busca sempre mais um acorde para fazer de conta que é como a noite: sem fim.
Devassada noite; alongada música; agoniada vida que vai longe ao som de couros e baquetas. Harmoniosa é a união de quem ama o que faz, porque faz bem aquilo que lhe apraz.
 São alegremente desabusados os meninos do Plap com seu som batido pleno de carioquice. Junto a C. A. Ferrari, Celso Alvim e Sidon Silva e suas percussões, mais o contrabaixo de Mário Moura, Pedro Luis compõe e toca violão. Jovens moços que fazem soar seus ruÃdos musicais como se pudessem tirá-los de qualquer “algo oco por dentro”; como se criassem “música do sopro do vento”, como diz o poeta Celso Viáfora em sua “À Benção”. Tudo isto para chegar, enfim, a Vagabundo ao Vivo (mais uma parceria das gravadoras Universal e MP,B), o CD/DVD fruto do registro de um show realizado no Olympia, em São Paulo, em 15 de julho de 2005.
Vagabundo é acima de tudo a escolha muito bem-feita de músicas fortes, belas, percussivas, teatrais. A cara de Ney Matogrosso e do Plap. Para mais impregnarem nelas seu DNA, Ney, Pedro, Sidon, Celsinho e Ferrari se juntaram ao guitarrista Ricardo Silveira (Ney não abre mão de tê-lo a seu lado em shows e discos), Pedro Jóia (violões e alaúde) e Glauco Cerejo (sopros). Os arranjos de Ney e do Plap se fartam de deixar para a cozinha. E ela não nega fogo, corresponde sempre. E o couro come. E a galera delira, enfeitiçada pela pulsação que vem do palco. E a moçada não regateia aplauso nem canto aos que a contagiam, contaminados que são pelo que fazem.
Algumas músicas se sobressaem. “Fazê o quê” (galope movido a tambores, de Pedro Luis): “(…) Pra que apareça/ Agarrada no seu verso/ Idéia prum Universo/ Mais tranqüilo e mais humano”; “Noite Severina” (baião sacudido, de Lula Queiroga e de Pedro Luis): “A inspiração vem de onde?/ Vem da tristeza, alegria/ Do canto da cotovia (…)” e “Transpiração” (Alzira EspÃndola e Itamar Assumpção) esta com um belo diálogo à espanhola das cordas , são três delas.
Há ainda o mega-sucesso dos Secos & Molhados: “Sangue Latino” (Paulinho Mendonça e João Ricardo), “Balada do Louco” (dos Mutantes Rita Lee e Arnaldo Baptista), além da lendária “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos). Todas escolhidas para permitir que Ney Matogrosso e o Plap, animados e luxuosos vagabundos, se divirtam à grande ao som de suas vozes e tambores; e animem a platéia que a eles só falta pedir suas bênçãos, como que inspirada, ainda, pelos versos de Celso Viáfora: “À Benção quem primeiro conseguiu resumir o sentimento/ na frase musical que pôs no ar (…) Ô… benção quem suou/ Suou pro meu som soar”.
Aquiles Rique Reis é vocalista do MPB4 e autor de O Gogó de Aquiles


