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Majestosos vagabundos

quinta-feira, fevereiro 17th, 2011

Foi em 1974. Divergências incontornáveis puseram fim ao fenômeno Secos & Molhados. O pesadelo recorrente de Ney Matogrosso parecia que estava por se materializar: “A boca enorme me engolindo”, que ele tanto temia, dessa vez não falharia. O ex-artesão seria tragado para sempre. E Ney livrou-se das camuflagens para viver aventuras ainda mais insurgentes, transbordadas de sons.

Há que ser corajoso para seguir os caminhos e destinos que são reservados a nós, homens e mulheres. Há que ser forte para enfrentar as dores do incerto e o pânico pelo desconhecido. Há que ser destemido para não sucumbir à insegurança que chega com os primeiros sinais de cada aurora. A poucos é concedida essa dádiva. Só aos melhores dentre nós é dada a honra de passar por essa vida vendo-se íntegro. Ney Matogrosso é um desses seres humanos escolhidos a dedo para viver essa magia, e o faz plenamente.

E o grande intérprete continuou sua busca por inquietas sonoridades. Como já fizera, ao se aliar musicalmente ao Uakti, ao Aquarela Carioca, a Rafael Rabelo, Ney vislumbrou na percussão de Pedro Luis e A Parede (Plap) uma outra festa que, não podendo parar, segue. Farra da música que busca sempre mais um acorde para fazer de conta que é como a noite: sem fim.

Devassada noite; alongada música; agoniada vida que vai longe ao som de couros e baquetas. Harmoniosa é a união de quem ama o que faz, porque faz bem aquilo que lhe apraz.

 São alegremente desabusados os meninos do Plap com seu som batido pleno de carioquice. Junto a C. A. Ferrari, Celso Alvim e Sidon Silva e suas percussões, mais o contrabaixo de Mário Moura, Pedro Luis compõe e toca violão. Jovens moços que fazem soar seus ruídos musicais como se pudessem tirá-los de qualquer “algo oco por dentro”; como se criassem “música do sopro do vento”, como diz o poeta Celso Viáfora em sua “À Benção”. Tudo isto para chegar, enfim, a Vagabundo ao Vivo (mais uma parceria das gravadoras Universal e MP,B), o CD/DVD fruto do registro de um show realizado no Olympia, em São Paulo, em 15 de julho de 2005.

Vagabundo é acima de tudo a escolha muito bem-feita de músicas fortes, belas, percussivas, teatrais. A cara de Ney Matogrosso e do Plap. Para mais impregnarem nelas seu DNA, Ney, Pedro, Sidon, Celsinho e Ferrari se juntaram ao guitarrista Ricardo Silveira (Ney não abre mão de tê-lo a seu lado em shows e discos), Pedro Jóia (violões e alaúde) e Glauco Cerejo (sopros). Os arranjos de Ney e do Plap se fartam de deixar para a cozinha. E ela não nega fogo, corresponde sempre. E o couro come. E a galera delira, enfeitiçada pela pulsação que vem do palco. E a moçada não regateia aplauso nem canto aos que a contagiam, contaminados que são pelo que fazem.

Algumas músicas se sobressaem. “Fazê o quê” (galope movido a tambores, de Pedro Luis): “(…) Pra que apareça/ Agarrada no seu verso/ Idéia prum Universo/ Mais tranqüilo e mais humano”; “Noite Severina” (baião sacudido, de Lula Queiroga e de Pedro Luis): “A inspiração vem de onde?/ Vem da tristeza, alegria/ Do canto da cotovia (…)” e “Transpiração” (Alzira Espíndola e Itamar Assumpção) esta com um belo diálogo à espanhola das cordas , são três delas.

Há ainda o mega-sucesso dos Secos & Molhados: “Sangue Latino” (Paulinho Mendonça e João Ricardo), “Balada do Louco” (dos Mutantes Rita Lee e Arnaldo Baptista), além da lendária “Fé Cega, Faca Amolada” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos). Todas escolhidas para permitir que Ney Matogrosso e o Plap, animados e luxuosos vagabundos, se divirtam à grande ao som de suas vozes e tambores; e animem a platéia que a eles só falta pedir suas bênçãos, como que inspirada, ainda, pelos versos de Celso Viáfora: “À Benção quem primeiro conseguiu resumir o sentimento/ na frase musical que pôs no ar (…) Ô… benção quem suou/ Suou pro meu som soar”.

Aquiles Rique Reis é vocalista do MPB4 e autor de O Gogó de Aquiles

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Dino Sete Cordas

terça-feira, agosto 10th, 2010

Sem dúvida, o violão é o instrumento musical mais popular que existe. Em qualquer bairro de cada cidade, alguém conhece alguém que toca violão. Arranhar as cordas mi, lá, ré, sol, si, mi de um violão é passatempo e diversão para pessoas de todas as idades e classes sociais. Fascinam as rodas que se formam para escutar o amigo que tem o dom de dominar o instrumento mais democrático e agregador que conhecemos.

Seja numa serenata em Conservatória, no Rio de Janeiro, ou em São Luís do Paraitinga, em São Paulo, numa mesa de boteco, nas comemorações pelo emprego novo, nas festas de fim de ano, na alegria pela conquista de uma nova namorada, na fossa pela perda de um grande amor, em meio ao alarido de um porre memorável que comemora mais um aniversário, em todos os momentos de confraternização é sempre bom ter um violão por perto.

Ao músico amador é concedida a honra de ser o centro das atenções, de ser o alvo do olhar das moças encantadas pelo dedilhar das seis cordas que amarram emoções e libertam sentimentos. É sempre bom conhecer alguém que, ainda que desengonçado, conheça as canções que amamos e consiga dedilhá-las em seu instrumento, remetendo-nos a um mundo de magia, onde as encrencas do dia a dia se amenizam e tornam-se suportáveis.

Feliz de quem tem um amigo que toca violão. Bem-aventurado aquele que pode ter um profissional do violão em suas relações de amizade. Conviver com quem domina as manhas de um instrumento que tem a forma de um corpo de mulher, que dedilha suas cordas e as faz suas servas atenciosas e meigas, é uma dádiva concedida a poucos privilegiados. Horondino José da Silva, o Dino é de uma generosidade grandiosa. Concede sua amizade a uma legião de pessoas. Empresta seu convívio a um grupo imenso de pessoas que se delicia ao ouvi-lo tocar e se encanta com seu humor cativante. Ele é o rei da frase de duplo sentido criado por cacófatos divertidíssimos.

O mestre toca magistralmente desde os catorze anos. Integrante do Regional de Benedito Lacerda, mais tarde Regional do Canhoto, formou ali, junto com Jaime Florense, o Meira, outro mestre do violão, uma dupla insuperável de violonistas. Mas o Mestre Dino não se contentou com as seis cordas do violão. Nos anos 1950, espelhando-se em Tute, outro exímio instrumentista, encomendou um violão de sete cordas e passou a tocá-lo. Um violão com uma sétima corda grave afinada em dó permitiu-lhe desenvolver fraseados melódicos geniais, dedilhados no ritmo apressado de chorinhos e sambas compostos pelos bambas de ontem e hoje. O bordão da corda dó brilhou em discos e shows de diversos astros da música brasileira, sempre cumprindo as ordens vindas dos dedos das mãos de Dino Sete Cordas. Virtuoso, ele pode orgulhar-se de ser a história viva do violão brasileiro. Professor brilhante, até hoje pode se gabar de ter ensinado seu ofício a diversos violonistas, dentre eles o exuberante e saudoso Rafael Rabelo.

Sou daqueles privilegiados que conviveram com Dino. Nos bastidores do Teatro Opinião ou nos estúdios de gravação, aprendi a gostar de um instrumento que nas suas mãos ganha uma dimensão misteriosa e deslumbrante. Esse pajé da música brasileira, num dialogo com outro músico num estúdio de gravação, mandava os cacófatos característicos do seu humor. Leia com segundas intenções, por favor: “Você, que chegou a pouco de fora e está louco de raiva, fique sabendo que o meu negócio está de pé, agora só fica faltando uma posição sua. Lembranças a quem for da famíliaâ€.

PS. Este texto foi publicado originalmente no meu livro O Gogó de Aquiles, lançado pela A Girafa Editora em 2004. Dino nos deixou algum tempo depois. Saudades…

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